Depois de Você
2 Oito anos depois
Notas iniciais
Oito anos depois
Faltavam exatamente doze horas para a apresentação de fim de ano da Saori na escola. Ela estava empolgada, tanto que entrou sorridente na rua onde seus tios moravam e distribuiu dançando os folhetos com o endereço e a hora da festa. O brilho em seus olhos azuis claros contagiava a todos, um sorriso cheio de vida enfeitava seu infantil rostinho bronzeado. Ao perceber que não tinha mais folhetos em mãos para entregar, procurou-os nos bolsos da calça comprida preta e nos da camisa rosa de mangas longas que trajava. Realmente não restou mais nenhum.
Apressou-se e correu até a casa que veio visitar. Uma residência simples com a fachada verde escura, sem muros como todas as outras da rua, porta de madeira e uma janela. Após apenas duas batidas, Sora atendeu vestindo um canguru ergonômico — a menina a quem Yue deu luz algumas semanas atrás, filha dos dois, estava nele. Saori não teria rido da cara dele se o canguru não fosse cor de rosa com estampa de flores amarelas. Sora deu uma piscadinha e se gabou:
— Pode rir a vontade, eu fico um gato com essa cor...
— Ah, é! Fica mesmo uma diva! — Saori tirou sarro da cara dele.
Assim como todo mundo, sempre foi curiosa sobre que aparência um filho deles dois teria. Sora era asiático, um óbvio descendente de japoneses, Yue era caucasiana e seus cabelos, apesar de lisos, eram mais cacheados, volumosos e muito mais claros do que os dele, naturalmente cor de mel, embora ela os tivesse tingido de azul turquesa. Do pai, até o momento, a criança só herdou o castanho dos olhos e um pequenininho sinal preto que ele tinha acima da sobrancelha direita.
Yue saiu do banheiro terminando de prender com clips os cabelos do lado esquerdo da cabeça, como costumava fazer. Ela ajustou a camiseta amarela, a curta saia jeans que vestiu para sair e apertou o cinto preto de couro. Quando viu que Saori já estava ali e que ela estava zoando com Sora, andou até o tapete branco do meio da sala para brincar com sua filha e caçoar do pai dela com a sobrinha:
— Caso ele tenha dito que fui eu que escolhi essa cor, é mentira.
— Eu não disse isso, assumi minha escolha como um homem! — Bradou o Raikyuu. Ele, como sempre, sairia com o peito nu para deixar suas amadas tatuagens expostas, com uma calça comprida cinza escura folgada e um par de botas pretas.
— É, é, vamos indo, machão, o Papai Noel vai embora do shopping em duas horas! — Yue puxou o bonde, abriu a porta e lhe deu um tapa na bunda quando ele passou por ela. Na vez de Saori, porém, fez uma pergunta: — E a Kin e a Shiori? Vão pra lá com a gente ou nos encontrarão lá?
— Minha mãe disse que vai encontrar a gente na fila, a minha tia, eu não sei, ainda não falei com ela. — Respondeu a pequena.
O caminho dali até o shopping não era muito longo, o que os atrasou mesmo foi o engarrafamento no trânsito. Era véspera de natal, muitos tinham compras para fazer, parentes para visitar, festas para ir. O tempo todo, Sora pensava no tempo de sua infância. Jamais se imaginou com a vida que tinha hoje. Estava casado, virou pai há poucas semanas e possuía o cargo mais almejado pelos retalhadores do mundo inteiro: Guardião da Terra de Áries. Yue, em contrapartida, tinha tudo o que sempre sonhou. Mesmo assim, se pudessem desejar algo, os dois pediriam que nada em suas vidas mudasse.
Saori acreditava no Papai Noel. Enquanto no carro, a caminho do shopping, ela não parava de se perguntar o que desejaria. O que sabia era que estava cansada de ver sua mãe triste, que era enorme a diferença de semblante entre a Kin nas fotos de dez anos atrás e a Kin de hoje. Ficava até difícil acreditar que as duas eram a mesma pessoa. Seu pai, alguém que nunca teve a chance de conhecer, era uma figura enigmática, um mistério completo para ela. Todo mundo que lhe falava dele só tinha coisas boas a dizer, contava-lhe da incrível pessoa que ele foi, de como ele era forte, perspicaz, talentoso, ressaltava, sobretudo, sua inteligência e seu heroísmo. Mas Saori mesma só o viu através de fotos.
Muitos julgavam injusto o modo como a história de Arashi terminou, outros achavam também cruel, irônico. Ele impressionou a todos por onde passou, sempre chamou atenção por alguma das suas já citadas qualidades, mas não viveu o suficiente sequer para ver a própria filha, aquela com quem mais tinha responsabilidades. A quem mais devia. Saori era muito nova para pensar tão profundamente sobre isso, mas, em algum momento de seus oito anos de vida, internalizou que foi a culpada pelo que houve com Arashi. Claro que nunca disse a ninguém que se sentia assim.
Kin evitava falar do assunto o quanto conseguia. Sem notar, se tornou uma mãe negligente, não dava à filha a atenção que ela pedia e merecia, tanto que a menina passava mais tempo com Yue e Sora do que no próprio lar. Naomi observou uma vez que talvez fosse por isso que a pequenina gostava de cantar e de atuar nas peças e nos musicais da escola, porque quando recebia os aplausos e os elogios de desconhecidos, supria momentaneamente a carência de afeição materna e paterna. Yue tentou conversar sobre isso com Kin várias vezes, mas era tão mal ouvida que de uns tempos pra cá desistiu. Não queria brigar com a loira. A propósito, ela já estava lá dentro do shopping, perto da fila do Papai Noel quando Sora, Yue, Saori e a bebezinha chegaram.
Saori correu de encontro a ela e as duas se abraçaram como se não se vissem há anos, mas haviam se falado ainda naquela mesma manhã. Sora e Yue trocaram olhares, estranharam a cena. O que o casal não sabia era que elas pensaram as mesmas coisas no caminho até ali, que estavam em sintonia. Empatia foi a razão desse gesto. Kin estava aterrorizada com a possibilidade de ter feito sua filha se sentir culpada pela morte de Arashi e por toda a tristeza que notava a seu redor.
— Ficou uma gracinha com esse canguru rosa, Sora. — Comentou, pôs Saori no chão e ajeitou a camiseta branca fluorescente de alcinhas que veio usando.
— Eu sei que fiquei. — Encarou a fala dela como um elogio. Olhou para a fila que Saori teria que encarar antes de poder conversar com o Papai Noel, apontou-a com o polegar e a aconselhou: — Melhor ir pra lá logo, baixinha.
O bom velhinho estava sentado num grande sofá vermelho. À direita dele havia um poste rubro com listras brancas, abaixo de seus pés puseram um tapete verde como grama e, a seu redor, uma fita preta para os transeuntes não entrarem sem querer nas fotos que ele tirava com as crianças. Uma fila curta separava a sonhadora Saori dele, que ainda não tinha a menor ideia do que responderia quando lhe perguntassem o que ela queria de natal. Sua vez ia chegando e nada lhe ocorreu. Estava ficando impaciente.
Quando viu que sua filha seria a próxima, Kin foi para perto da fita com a câmera. Foi então que Saori pensou em algo. As duas moças que acompanhavam o Papai Noel a chamaram, avoada, boquiaberta, ela foi, depois parou ao lado do velho Noel. Dali, olhou para Yue, em seguida para Sora. Por fim, para sua mãe, que empunhava um sorriso para fingir que estava feliz. Havia um espaço vazio ao lado dela, um lugar que deveria estar sendo ocupado por alguém que, sem sombra de dúvidas, estaria ali com elas hoje, se pudesse. O sorriso de Kin se desmanchou, Sora e Yue voltaram a trocar olhares.
— Qual é o seu nome, lindinha? — O Papai Noel lhe indagou.
— Meu nome é Saori Suzume. — Respondeu a baixinha, um tanto insegura.
— E o que você vai querer pro natal? O que você quer que esse velhinho traga pra você? — Ele tornou a questioná-la.
O flash da foto batida por Kin iluminou o rosto de Saori, que logo a seguir foi tomado de uma tristeza notável a quilômetros de distância. Ela sentiu os olhos arderem com as lágrimas, encherem-se de água, e quando elas começaram a rolar, fechou os dois e disse tudo o que ficou trancafiado por anos nas profundezas de seu coração:
— O senhor pode ressuscitar o meu pai? Não precisa ser pra sempre, só pro natal de amanhã! Meu maior sonho é conhecer ele! Ter ele de volta também acabaria com a tristeza da minha mãe, ele morreu porque minha mãe estava grávida de mim e não pôde ajudar ele na luta! A culpa foi minha, traz ele de volta pra gente! Por favor!
O bom velhinho ficou sem reação. Chorando quase tanto quanto a filha, Kin passou por baixo da fita, se agachou e a abraçou.
— Meu amor! Que ideia é essa de que a culpa foi sua? Não, não, você não teve culpa nenhuma! — Kin tentava convencê-la. Enxugou as próprias lágrimas com a mão, as da filha, olhou-a nos olhos e disse: — Você era o sonho do seu pai. E o meu também. E se tivéssemos quinhentas vidas, entregaríamos todas elas por você, porque nenhuma delas teria sentido pra nós se você não nascesse!
O maior pesadelo de Kin se confirmou: sua filha realmente se culpava pela morte do próprio pai. Felizmente descobriu isso cedo, então talvez ainda tivesse chances de retirar essa ideia da cabeça dela, demonstraria que a amava, que sempre a quiseram e que nunca deixou de querer. Esse seria seu grande objetivo daquele dia em diante. Na manhã seguinte, a apresentação da pequena. Estava lá, na primeira fila, junto com Shiori, Haru, Naomi, Yue e Sora, apoiando-a, aplaudindo-a, venerando-a. Como Arashi iria querer.
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