Notas iniciais
Laura se manifesta.

Acordei no dia seguinte e logo lembrei que eu devia ter ido me juntar ao André durante o jantar ontem, mas acabei dormindo antes. Me irritei comigo mesmo. O dia já começou mal.

Fui tomar meu café-da-manhã e o vi com seus irmãos na minha mesa. Me irritei mais ainda.

Caminhei na direção deles. A garota, Laura, olhou na minha direção e quando nossos olhares se encontraram ela virou o rosto rapidamente e cutucou Lucas, que logo começou a me encarar. André estava distraído lendo um jornal e nem notou a minha aproximação:

- Bom dia. – eu disse ao grupo.

André levantou o olhar e, quando me viu, sorriu.

- Bom dia! – ele parecia estar sempre animado, assim como Dona Linda parecia estar sempre calma. – Roubamos seu lugar hoje. Por que não se senta com a gente? Ontem te procurei no jantar, mas acho que nos desencontramos... – suas palavras foram morrendo, ele olhou para mim e sorriu.

Eu não entendia o motivo dele sempre estar animado e sorrindo para mim.

Resolvi me sentar na cadeira vazia, ao lado de Laura. A garota deu um pulo e saiu correndo.

- De novo não. – lamentou Lucas.

Ele tinha uma voz grossa que chegava a assustar. Ele deu o mesmo pulo que ela, e saiu correndo praguejando. André pareceu envergonhado e logo perguntou:

- Dormiu bem?

- Sim – respondi sem pensar. Por que ele queria saber se dormi bem? Que diferença ia fazer? Credo, que menino estranho.

Dona Linda se aproximou com minha bandeja. Ela sorriu para mim enquanto me entregava meu café-da-manhã e se afastou.

Comecei a comer e André voltou a ler seu jornal. Permanecemos em silêncio até que ele se levantou e disse:

- Preciso ver como minha irmã está. Te vejo depois.

Sábado. Eu odeio os sábados. Dia de visitas. Das 10 da manhã até as 4 da tarde todos os jovens ficam animados indo e vindo com seus presentes para lá e para cá. Pessoas estranhas entram no abrigo e todos parecem muito felizes com isso. Menos eu. Nunca recebi visitas de ninguém, nem mesmo quando eu era mais novo. E por que eles recebiam? Se eles estavam em um abrigo era para estarem abandonados! Malditos.

Fiquei no meu quarto ouvindo músicas com o rádio velho que Dona Linda me deu. Tentei ler, mas não consegui e acabei por ficar desenhando quase a tarde toda. Quando percebi que o movimento lá fora estava diminuindo e que o horário de visitas estava acabando, resolvi sair e ir ao quintal.

O quintal do abrigo era grande, tinha uma churrasqueira e uma mesa na parte coberta, lá no fundo tinha um playground e na parte da frente tinha um jardim, com alguns bancos onde ninguém se sentava. Somente eu.

Me sentei lá, como de costume. E fiquei escondido atrás de uma touceira — de uma planta qualquer que eu não sei o nome, só sei que dá uma flor pequena e muito cheirosa – e fiquei observando o que se passava ao meu redor. Parecia que ninguém notava que eu estava ali, pois passavam calmamente conversando sobre suas vidas ao invés de ficarem em silêncio, como sempre ficavam quando me viam.

Umas garotas passaram falando sobre alguns garotos do abrigo e ficaram dando risinhos histéricos. Um garoto passou resmungando algo sobre um livro fedorento e sapos. Até Laura passou, cantarolando uma música que não reconheci enquanto saltitava alegremente segurando uns livros velhos.

Fiquei um bom tempo ali, parado, só vendo as pessoas em suas vidas. Era engraçado ver como todos eram diferentes quando não me notavam.

Já estava escurecendo quando resolvi entrar. Levantei-me no momento que Dona Linda passava com uma caixa. Ela se assustou comigo e quase deixou a caixa cair:

- Olha só garoto! Se escondendo no meio das plantas. Está espiando quem, hein? – ela soltou uma gargalhada, mas não entendi o motivo.

Entrei pela porta dos fundos, que dava numa sala cheia de livros e sofás. Tinha uma garota chorando, escondida atrás das estantes, mas eu não via onde. Comecei a andar em meio as prateleiras para procurá-la, mas não a encontrei. Ela parecia ter notado minha presença e estar mudando de lugar para eu não achá-la. Resolvi correr para qualquer lado e fiquei numa brincadeira cega de pega-pega até que, de repente, Dona Linda surge, sem a caixa, e começa a me encarar:

- Está correndo que nem doido no meio das prateleiras por quê? Tem algum bicho aí?

O choro parou.

- Não. Tem uma garota chorando aqui. – eu estava ofegante.

- E onde ela está?

- Não se. Eu ouvi o choro e comecei a procurá-la. Mas ela está se escondendo de mim, eu acho.

- Venha comigo Zé, talvez ela queira ficar sozinha agora. Depois eu converso com ela e te conto por que ela estava chorando, pode ser?

Acenei consentindo com a cabeça e fui para meu quarto. Olhei para trás e vi Dona Linda abaixada, como se falasse com uma criança pequena. Fiquei observando ela e andando ao mesmo tempo até que trombei em alguém. Era André.

- Desculpa. Eu estava olhando Dona Linda e a menina chorando, me distrai, desculpa. – fiquei constrangido, mais uma vez eu não sabia o que falar.

- Tudo bem. Diga-me, viu minha irmã por aí? – ele parecia preocupado.

- Vi ela a tarde, carregando livros pelo quintal.

- Obrigado.

E saiu andando rápido, sem nem ao menos olhar para mim.

Finalmente o jantar estava servido. Sentei em minha mesa, aproveitando que ninguém tinha sentado nela antes, e fiquei esperando que André e seus irmãos aparecessem.

Comecei a observar os presentes dos jovens. Uma menina loira, que tinha o cabelo bem cacheado e olhos muito escuros, estava exibindo para suas amigas o estojo de maquiagem novinho. Suas amigas, por sua vez, mostravam as roupas que ganharam. Todas pareciam felizes com suas coisas novas, por mais que eu não visse utilidade nenhuma para aquilo já que não podíamos sair do abrigo.

Pedro entrou na cozinha. Assim como acontecia comigo, todos se calavam ao notar que ele estava perto. Pedro era um garoto alto, com cabelos loiros largados em uma franja desalinhada e parecia hipnotizar as pessoas. Raramente ele falava com alguém que não fosse Dona Linda – por mais que todas as garotas suspirassem por ele -, mas dessa vez ele tinha em sua companhia o irmão de André, Lucas. Percebi que Lucas, assim como André, estava sempre sorridente e parecia muito animado com a conversa deles.

Terminei meu jantar e fui para meu quarto.

Deitei em minha cama e fiquei formulando hipóteses sobre o motivo de André não ter ido jantar. Talvez fosse algo relacionado com o sumiço de Laura.

Caí da cama. Tive um pesadelo. Ou teria sido somente um sonho estranho? Não sei.

Eu e André estávamos caminhando. Mas não era o meu corpo, nem o de André. Só que eu, de alguma forma, sabia que éramos nós.

Estávamos conversando. Era um lugar diferente, como se estivéssemos em outro planeta. As ruas estavam lotadas, e por mais que parecesse estarmos no centro da cidade, não havia nenhuma loja.

Havia um parque muito limpo e bem-cuidado do outro lado da rua. Fomos para lá.

Não vi mendigo. Não vi sujeira. Não vi poluição. A única coisa que vi foram pessoas isoladas, pessoas que pareciam não querer conversar com você. Tive vontade de me calar na presença delas já que algo me dizia que era melhor assim.

Um homem passou falando sozinho sobre relacionamentos sem-sentido e de repente me vi perguntando ao André por que é que pessoas namoram se a única coisa que elas compartilham é tesão. Logo em seguida, uma garotinha passou conversando com a mãe sobre alienígenas e me vi perguntando ao André se ele acreditava na existência de vida em outros planetas. Fiquei assustado.

Aquele lugar era estranho. Aquelas pessoas eram estranhas. Tentei correr, mas parecia não ter lugar para se esconder ou fugir.

Tive sorte por tentar sair daquilo e conseguir. Parecia que as pessoas passavam os pensamentos delas para mim e aquilo me assustou muito.

Voltei para minha cama e torci para não sonhar. Mas o que me despertou não foram sonhos.

- José? Você está acordado? – uma voz feminina, e até um tanto infantil, me chamava no meio da madrugada. Deveria responder?

- Quem é?

- Sou eu, Laura.

Levantei e abri a porta. Laura estava parada ali, com as mãos cobrindo o rosto.

- Entre.

Ela continuou parada. Fiquei esperando até que me irritei e a puxei para dentro. Quando encostei no braço dela, ela estremeceu inteira.

- O que você tem? Por que me acordou? – eu já estava acordado, mas ela não sabia disso.

Esperei. Ela continuava do mesmo jeito. Me irritei.

- Se você veio aqui para não falar nada saiba que não é bem vinda e eu agradeceria muito se saísse. Agora.

Ela levantou o rosto e me olhava com os olhos arregalados. Empurrei-a para fora e fechei a porta na cara dela. Voltei a dormir.