Depois daquele Inverno
2 Capítulo II
Notas iniciais
21 de Julho
“ A felicidade derramou sobre nós com tanta calma e serenidade.”
Após um dia de homenagem a Rafael, não poderia deixar para trás aquilo que jurei fazer. Ser extremamente atarefado é algo que ainda tento lidar. Por vezes recebi algumas reclamações dos meus parentes sobre falta de atenção com eles. Bem, agora eu tenho um motivo maior para desviar meu foco.
Na parte da manhã eu vou para o cursinho preparatório para o vestibular, que fica no Centro. Não muito longe, tenho uma variedade de ônibus e isso é um ponto positivo. À tarde eu estudo, porém a qualquer hora eu devo estar bem disposta e livre para ir de encontro com o que jurei fazer e amar. Quando isso acontece, eu tomo um gole rápido de café, coloco minha blusa estampada com uma carinha sorridente, pego minha bolsa e tento descer o mais rápido que puder sem que o tempo se volte contra mim.
No trajeto, ainda sinto os olhares das pessoas da região, e quase todos elas são de pena ou de admiração. Não ter a pessoa que iniciou essa jornada ao meu lado é a parte mais complexa e frustrante. Uma porque ela deixou esse cargo para mim, e eu devo dar andamento a ele, uma espécie de continuação. Outra que sem perceber, me pego relembrando cada momento que me fizera participar dessa “aventura”.E é aí que fica a parte dolorosa, saber que não haverá um outro ser ao seu lado para ajudar na continuação.
3 anos antes — Janeiro
Eu havia começado o ano com um enorme sorriso refletido no rosto, afinal, ser correspondida por um amor que achava que era quase impossível, é motivo suficiente para ficar feliz por uma semana inteira. Fui dormir naquele dia deitada na cama celestial, e acordei achando que tudo não passava de um mero sonho. A cada dia da semana, eu me encontrava com Rafael, e algo parecia mais diferente. Estávamos mais próximos que o normal, e isso poderia ser notado pelas trocas de carinhos frequentes. Era engraçado pensar que o bike boy — que quase atropelou uma garota de vestido azul — estava em um caso amoroso. As pessoas ao redor deveriam pensar o mesmo. Desde que nos viram juntos, não paravam de atiçar olhares curiosos.
Mesmo estando de férias, ainda descia para rua principal. Não para ver Rafael como era o costume, mas sim para fazer compras, pagar contas e afins. Em um dia que eu tinha essa finalidade, percebi a bicicleta de Rafael perto da mercearia. Animada, corri até lá para ver o menino que fazia meu coração palpitar só de pensar nele. Não demorou muito para que ele saísse do local, e logo percebi aquela camisa familiar.
— Até nas férias? — pensei alto.
Andei um pouco rápido para tentar conversar com ele, no entanto, ele foi mais ágil do que eu e me abraçou sem que eu pudesse falar algo. Mostrei que estava de passagem pela rua e apenas cheguei perto dele para poder cumprimentar. Ele parecia com pressa, e tentou se despedir o mais rápido possível. Quando ele subi na bicicleta, fiquei olhando para sua blusa.
— Eu não sabia que você trabalhava. Quer dizer, tinha uma ideia de tanto ver você mas… — limpei minha voz.
— Ah — ele olhou para a blusa. — Eu não chamaria isso de trabalho — deu um sorriso.
— Como assim?
Rafael olhou um pouco para os carros que passavam no asfalto, e de repente deu outro sorriso.
— Você quer ir comigo para descobrir?
Retribui um sorriso e disse que por mim estaria tudo bem. Ele então saiu da bicicleta e pediu para que o dono da mercearia a vigiasse por algum tempo, e que em breve ele voltaria.
Caminhamos o restante da rua, e a cada passo eu me perguntava o porquê daquele mistério. Atravessamos para o outro sentido, andamos mais um pouco até cruzar com uma avenida. Continuamos no sentido e viramos a esquerda. Me deparei com um muro verde de grande extensão, talvez ali fosse o nosso destino. Li o letreiro que dizia “Lar André Luiz”. Não troquei palavras naquele momento, apenas deixei Rafael me guiar. Quando entramos no local, percebi a vasta presença de enfermeiros, freiras, e o mais importante, de crianças.
Quase todos os adultos cumprimentavam Rafael e diziam o quanto era bom ter ele ali mais um dia. Ouvia gritos de mais crianças, uma mistura de choro com alegria. Aquele lugar era uma verdadeira junção de sentimentos.
Subimos algumas escadas e logo chegamos em uma sala. Na porta tinham alguns desenhos e os nomes dos respectivos autores. Não demorou muito para as crianças que ali estavam enchessem o Rafael de beijos.
— Calma, gente — dizia ele entre risos. — Acalmem!
— Rafel, quem é essa moça? — um garotinho de cabelos crespos cor mel perguntou.
— Bom, gostaria de se apresentar a eles?
Olhei para as três crianças presentes e lancei um sorriso.
— Meu nome é Margot — falei um pouco tímida. — Poderiam me falar o nome de vocês?
Os pequenos começaram a soltar risinhos e cochichar entre eles.
— Eu me chamo Joana — disse a menina de olhos claros. — E esses são meus irmãos, Danilo — apontou ela para o garotinho que falou com Rafael. — E esse é o Otávio — o último garotinho que tinha o cabelo mais escuro.
— Vocês que fizeram aquele desenho na porta? — perguntei.
— Sim! — disse Joana bem animada. — O meu ficou o mais bonito e mais colorido.
— Eu percebi o quanto gosta de cor. Os desenhos dos meninos também ficaram lindos. Vocês poderiam me ensinar a desenhar assim! — falei olhando para cada um.
Eles ficaram alegres instantaneamente, foram rápidos ao pegar algumas folhas em branco e lápis de aquarela. Colocaram tudo em cima de uma pequena mesa de madeira. No entanto, logo passou uma enfermeira avisando que eles deviam comer.
— Você vai voltar, Margu? — disse Joana lançando um olhar triste.
Sem pensar muito, a abracei e disse que voltaria para aprender com ela. Esta ficou mais feliz e acompanhou a enfermeira cantarolando.
Rafael me olhou com satisfação. Olhou para o corredor e com sua voz serena ele começou a dizer:
— Eu sou voluntário desse lugar. Aqui é lar para crianças e adolescentes carentes, aquelas que os pais deixaram ou vieram a falecer, que não estava se dando muito bem com a família, enfim, são muitos casos. Eu conheci aqui por intermédio da escola há quase um ano. Desde então, venho aqui fazer companhia, doar e pedir por doações para que os jovens que vivem aqui se sintam pelo menos uma ponta de felicidade. Você viu, as crianças daqui apenas querem atenção. Elas não se preocupam se você dará a elas milhares de brinquedos, apenas brincar com ela, seja de qualquer coisa, é o importante — ele olhou para o quarto ao lado e viu dois garotinhos segurando uma boneca feita de pano. — As três criancinhas que você viu aqui, são trigêmeas, têm 4 anos. Os pais os abandonaram, ficaram dias fora. Um dos vizinhos noticiou isso para o Conselho Tutelar que logo recolheu os garotinhos. Ninguém da família poderia ficar, eles vieram de uma região pobre — Rafael deixou transparecer seus olhos úmidos. — E sabe, eu torço muito para que eles encontrem uma família que vão amar eles assim como eu os amo, são crianças incríveis. Se eu pudesse, adotaria todas que vivem aqui, mas ainda tenho 16 anos e não tenho lá uma condição incrível.
Então, o segredo do garoto da bike azul que virava sempre à esquerda na avenida, era que ele possuía um coração digno de ouro. Ele era realmente um cara excepcional, e não restava dúvidas que todos aqui o amavam na mesma intensidade que ele amava o projeto de vir e ajudar. Ouvir aquilo me fez entrar num estado de empatia e altruísmo. Ter ganhado sorrisos sinceros e simples me fez perceber que há sempre alguém precisando de ajuda, seja ela qual for.
Desde esse dia, conversei bastante com Rafael sobre ser voluntário. Eu estava disposta a fazer aquilo, mesmo que me tomasse algum tempo. Fomos novamente no Lar e realizei um cadastro que confirmava minha participação nas atividades de qualquer setor da casa. Comprei a blusa de carinha feliz e, tirava três dias da semana para ir com Rafael ajudar em várias oficinas. Tinha dias que eu visitava os adolescentes, ajudava a preparar a refeição, ligava pedindo doações, limpava o quarto das crianças, até dava algumas aulas extracurriculares para os que mais tinham dificuldades em aprender.
Meio ano havia se passado e eu continuava no projeto. Às vezes pegava uma carona com Rafael na sua bicicleta para ir até o Lar. Bem, não só lá. Íamos no mercado assim também, Um dia até arriscamos a atravessar um córrego juntos, o que não deu nada certo e nos custou alguns arranhões. As pessoas do bairro já estavam acostumados com nossa rotina corriqueira, e quando um se ausentava do outro, ouviamos cochichos sobre o que teria ocorrido para que a dupla dinâmica não estivesse mais junta. Bem, davamos de ombros.
Antes eu estudava sozinha no início da tarde, mas com esse tempo, eu ganhei um fiel companheiro de estudos. Nossa rotina era pesada, e tempo mesmo só sobrava nos finais de semana. Nos apelidamos de aventureiros.
— Mas por que somos? — perguntei
— Olha o que diz o dicionário — ele olhou para seu celular. — “Que não tem meio certo da vida”.
∞
Depois de anos, eu realmente fui entender o significado que Rafael queria transmitir. Precisou apenas ele sair do meu lado para ter sentido. Ele não tinha um meio certo, às vezes acho que ele está na minha alma, nos meus pensamentos, no jeito que me olhava. Mas, por outro lado, ele realmente tenha ido embora e só restaram lembranças que vagueiam na minha massa cinzenta.
Entrei no Lar tentando ainda mostrar minha animação para as pessoas que ainda estavam por lá. Era verídico que um pouco daquela luz que me ofuscava se dispersou. No entanto, eu me enchia de palavras motivadoras. O motivo mais forte para continuar com aquela aventura tinha um nome: Rafael.
Sem delongas, fui abordada por Kátia, umas das supervisoras do local. Ela usava uma prancheta velhinha e rabiscada, andava para todos os cantos do prédio.
— Hoje você demorou a chegar.
— Desculpe… — olhei para o chão. — Você sabe que nessa época meu humor cai um pouco.
— Não me diga que o inverno deixa as pessoas mal-humoradas agora?!
Olhei para ela tentando imaginar se ela se lembrava ao menos que nesse mês completava mais um ano sem um dos melhores voluntários que aqui tivera. Bem, seu semblante parecia muito ocupado para responder. Só depois de alguns segundos ela pôs suas velhas engrenagens para funcionar. Deu um leve suspiro e ajeitou seus óculos vermelhos.
— Eu sei que ele era demais, e se ele estivesse aqui, estaria te doando um pouco de ânimo — colocou sua mão no meu ombro. — Vamos lá, Margot, tenho uma notícia que vai te deixar feliz — ela abriu um sorriso. — Os trigêmeos foram adotados!
Meu sorriso se fez instantaneamente e logo, a carinha das minhas três crianças me veio a mente.
— Você está brincando, Kátia?!
Lágrimas desabrocharam do meus olhos. Não conti minha felicidade, dei três pulinhos e um abraço apertado na supervisora. Corri o mais rápido possível para ver como eles estavam. Entrei em vários corredores até achar o deles, e quando achei, senti um nó na garganta. Aquele seria uma das últimas vezes que entraria ali e veria os desenhos que fizeram com três aninhos, quando mal sabiam formar frases. Hoje, ambos estão no fundamental I, lendo e escrevendo. Novamente algumas lágrimas intrusas apareceram. Segurei meu choro, limpei de leve meus olhos na manga da blusa, dei uma leve abanada com a mão pelo perto do meu rosto e abri a porta.
— Oi, turminha da arte — falei brincando. — Como estão?
Joana correu e me abraçou, parecia desolada. Chorava em cascatas e parecia não querer aquilo. Danilo e Otávio eram mais tímidos, mas seus olhinhos lacrimejando os entregavam.
— Tia Margot, diz que é mentira! Eu não quero ir embora! — dizia a pequena ainda abraçada a mim.
Segurei sua mão, a coloquei na cama perto dos seus irmãos. Limpei seus lindos olhos claros. Respirei fundo para tentar não deixá-los mais aflitos e nervosos.
— Joana, Otávio e Danilo — olhei para cada um. — Eu sei que mudar é algo que dá um friozinho aqui — apontei para a barriga do Otávio. — Mas, chegou a hora que vocês esperaram tanto. Vocês terão uma mamãe e um papai, ou duas mamãe, ou dois papais, pode ser também só uma mamãe e só um pai. Não importa qual será a altura deles, se pintam o cabelo de roxo — as crianças riram. — Eu sei que eles vão amar vocês como jamais amaram antes. Vocês terão um outro lar, no qual poderão ter um cachorrinho ou gatinho. Vão brincar no quintal, ver desenhos, jogar com seus pais. Isso não parece divertido? — Daniel deu um sorriso que incentivou os irmãos a sorrirem também. — O mais importante que vocês estarão juntos.
— Mas Margot — dizia Otávio. — Você estará lá?
Tomei fôlego e omitindo minhas lágrimas falei:
— Estarei sempre no coraçãozinho de vocês, no jeito que olho para vocês e na forma como pensam em mim.
— Tia, amo você — disse Daniel e todos me abraçaram.
No mesmo dia, um casal buscou os garotos. Haviam feito tudo minuciosamente, contrataram até advogados para fazer da maneira mais certa e breve possível. Conversei um pouco com eles e ambos concordaram que eu poderia ver os trigêmeos quando eu pudesse. Deixei claro também que eles poderiam me ligar para tirar alguma dúvida ou caso algum deles quisessem entrar em contato comigo. No mais, pude ver os três filhos adotivos que criei com Rafael crescerem e sendo acolhidos por outra família.
Antes que fosse embora, Kátia me parou novamente.
— Sei que não é um bom momento, Margot, mas preciso falar que agora você ficará por conta de um quarto do outro setor.
— Certo… Amanhã dou um jeito na minha ficha, conversarei com a assistente social antes de visitar o quarto.
Ela passou a mão levemente no meu braço.
— Você vai ajeitar. Descanse, sei que ainda tem algum choro entalado.
O dia terminou com o sol parecendo uma gigante pérola. Não deixei de olhar o horizonte naquele fim de tarde e me pôr a refletir. Se Rafael estivesse aqui, garanto que ele estaria ao meu lado dividindo um copo de chá e algumas lágrimas com sabor misturado.
∞
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