Depois da luz

1 A última poltrona


Bianca viu o carro, viu as luzes, viu a chuva, viu os amigos pelo retrovisor.

Aquela noite chuvosa que ela tenta esquecer parece não querer ser esquecida, ela via todos a sua volta encarando-a e imaginando como deixaram uma garota tão irresponsável assumir o volante. Bianca tinha 18 anos há sete meses e já tinha feito quatro vítimas, cinco, contando com ela mesma. A menina se sentia cansada, mesmo cinco meses depois do acidente e as consultas com o psiquiatra e o pseudo apoio dos seus pais ela ainda tinha aquele gosto amargo na garganta, aquela vontade mórbida e dolorosa de rever seus amigos.

Bianca acordou naquela segunda-feira sem ânimo, saiu mais cedo para não ter que encontrar os pais e chegou no exato momento em que o ônibus escolar chegou, correu um pouco e agradeceu a Martim, o motorista, por não ter pisado no acelerador, sentiu aquela coisa estranha no coração e nos olhos assim que entrou: viu-se com Manoela e Cristina, as três rindo alto de alguma coisa que ela havia dito enquanto subiam apressadas o degrau do coletivo e ao fundo Luis e Marcelo jogados nas poltronas, ambos no celular jogando algum jogo que Cristina chamaria de infantil antes de beijar o Luis, que era seu namorado. Por alguns segundos a garota observou os espectros recriarem a cena e sentiu uma vontade enorme de chorar, Martim passou por uma lombada rápido demais a fazendo acordar, ela engoliu o choro e caminhou pelo ônibus.

Era engraçado, as pessoas não a olhavam, era como se Bianca não estivesse ali e ela jurava que se sentia aliviada por isso, mas no fundo aquele isolamento forçado a sufocava aos poucos, havia momentos em que ela falava sozinha e se sentia estranha por esquecer como é o som da sua voz, logo ela, a cantora do grupo, sempre tinha um violão do lado e músicas decoradas para cantar no intervalo.

—Bianca –ela ouviu uma voz doce ao seu lado –Você pode sentar em outra poltrona?

Bianca olhou para o lado, tinha sentado ao lado de Rebeca Bloom, Rebeca era uma menina doce daquelas que todos na sala falam “own” quando ela chega e Bianca pensou que sentando ao lado dela não ouviria aquele pedido, mas ouviu. Olhou para os olhos verdes da menina e abriu um sorrisinho de lado antes de se levantar agarrando a mochila com força e se arrastando para o último assento do ônibus, aquele que fica no canto e que ninguém senta a não ser que queira chorar ou esteja cortando os pulsos –era a fama -. Bianca odiava ter que se sentar ali e parecer depressiva, ela não estava chorando muito menos cortando os pulsos, ela só queria estar lá no meio rindo e jogando bolinhas de papel. A garota suspirou profundamente e fechou os olhos pensando em tudo o que havia destruido, imaginando quem seria ela agora: Bianca, a menina que participou do show de talentos fazendo um show de mágica, a menina que tocava no intervalo e uma vez fez todos cantarem somos tão jovens, a menina caiu e ralou os joelhos inumeras vezes por ser distraida demais, a menina que perdeu o amor dos pais e dos colegas, a menina que fica sozinha no ônibus, a menina que matou todos seus amigos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.