Depois da Tempestade
1 O Funeral
Notas iniciais
Tudo começou num dia chuvoso de abril, no Funeral. Não era comum chover nessa época, mas o tempo tinha sido imprevisível nos últimos meses e, portanto, ninguém estava preparado para o que aconteceu.
Estava chovendo desde o dia anterior, uma chuva incessante, principalmente torrencial, embora às vezes diminuía e por breves momentos parecia iluminar o sol, mas a chuva não parou, não parou o dia todo.
A casa funerária estava cheia, pois havia velórios em todos os seus salões, e havia tantas pessoas que não se podia saber quem estava velando quem. No segundo andar da casa funerária havia dois salões, em um acontecia o velório de Eliane Dias, e no outro, de Paulo Santos. Ambos perderam suas vidas ontem à noite, da mesma maneira trágica, por causa da chuva intempestiva e inesperada.
Como muitos na cidade, eles passaram por um desolado e escuro desvio que reduzia a distância entre algumas áreas, esperando chegar ao seu destino rapidamente. Não havia neblina quando eles saíram, mas a medida em que a noite progredia e entravam na parte mais escura e mais estreita da estrada, a visibilidade se tornava quase nula. Eliane dirigida um Sedan azul escuro velho que mal se distinguia no escuro, e Paulo estava dirigindo uma picape branca atrás dela, que embora fosse mais fácil de reconhecer, na névoa não fazia muita diferença. Na direção oposta a eles, vinha um caminhão em alta velocidade, cujo o qual os faróis não funcionavam bem e por vezes se apagavam...
A história desse acidente foi totalmente esmagadora e dolorosa para os parentes das vítimas, como Paulo e Eliane, já que, por trás do carro de Paulo, vinha outro carro com uma família. O pai, a mãe e um bebê de meses. Mas a chuva tornou a tragédia maior, porque fez os pneus dos três carros deslizarem e o caminhão não conseguir desacelerar.
Eliane morreu imediatamente, mas Paulo ainda estava vivo quando os bombeiros chegaram, porém morreu antes de ser levado para a ambulância. Da família que estava no terceiro carro, apenas o bebê que estava no banco de trás, na cadeirinha, sobreviveu e no caminhão o motorista ficou ligeiramente ferido. Paulo ainda conseguiu deixar algumas palavras de despedida para o filho, mas este nunca as recebeu.
Naquela mesma noite, o velório de ambos começou, e coincidentemente aconteceu na mesma funerária. Nenhum deles se conheceu em vida, mas talvez se conhecessem ao morrer.
"Amigos são aqueles que nas prosperidades aparecem ao serem chamados e nas adversidades sem serem."
Demétrio de Faleros
Havia uma grande porta de vidro que levava a uma varanda com escadas para sair. Ali estava Bruno Santos, filho de Paulo. Ele tinha vinte e sete anos, o cabelo castanho penteado para trás, usava óculos escuros para que ninguém percebesse o quão irritado estavam seus olhos cor de mar. Ele nunca havia usado um terno completamente formal em toda sua vida, mas naquele dia ele usava um terno de cashmere preto, com uma gravata seda preta e sapatos muito bem polidos. Ele estava reclinado na metade da parede da varanda, observando a chuva cair sobre a rua e em carros estacionados. No corrimão que havia em sua frente, pequenas gotas batiam e respingavam sobre ele, mas ele não se importava. Isso porque ele estava muito triste para se preocupar com ele mesmo. Na frente da funerária, havia um edifício cujo as paredes estavam cobertas de espelhos e ele podia ver vagamente o reflexo da varanda onde estava.
— Uma tarde deprimente!, disse um jovem que saiu nesse momento.
Foi Lucas Dias, que era o filho de Eliane; Ele era extremamente magro e pálido, tinha seus olhos cor de mel extremamente avermelhados pelas lágrimas e círculos escuros profundos sob os olhos. Ele usava uma simples blusa preta, com um suéter de lã maltratado. Seu cabelo era liso e fino, cor castanho claro, no geral, eles pareciam sombrios, mas contrastou com um leve sorriso que esboçava nos lábios rosados.
— Certo. — respondeu Bruno sem olhar para ele, imerso em seus pensamentos.
Impetuosamente, Lucas deu uma pequena risada o que fez Bruno se virar para vê-lo e percebeu que estava sorrindo, mas de seus olhos duas lágrimas grandes escorregaram.
— Ela sempre gostou da chuva, ele disse com uma risada melancólica.
— Ela?
— Minha mãe. Ela sempre disse que a chuva trazia vida para todos nós, mas desta vez trouxe a morte.
Bruno voltou a recostar-se na beirada da varanda enquanto lembrava de seu pai.
— Não é comum ter chuva nessa época, ele disse.
— Você tem razão.
— Meu pai nunca gostou cancelar suas reuniões, mesmo quando estava chovendo. Eu disse a ele que não era bom sair na chuva, mas ele nunca me ouviu.
Lucas olhou para ele, do ângulo em que estava podia ver que os olhos estavam muito avermelhadas e as lágrimas escapavam, mesmo ele tentando esconde-las. Bruno apertava as mãos com força, enquanto pingos de chuva caíam na cabeça e misturados com suas lágrimas que caiam eu suas mãos.
— Se ele tivesse me escutado, isso não teria acontecido!, Ele exclamou com raiva. Lucas ficou em silêncio.
Lucas se apoiou no corrimão da varanda, tomando cuidado para não se molhar, mas o suficiente para poder ver rua. O silêncio governava o lugar, apenas interrompido por alguns carros que circulavam por ali. Apesar disso o lugar estava completamente desolado.
— Ela também morreu no acidente?, Bruno perguntou, ainda vendo o seu reflexo no edifício em frente.
— Também?
— Na noite passada, três carros atingiram um caminhão. Ela estava lá?
— Sim, ela estava em um Sedan azul. E ele?
— Ele estava em uma picape branca. É estranho que ambos estejam na mesma casa funerária.
— Sim, é estranho. Mas como você sabia que minha mãe estava no acidente?
— Pelo que ele disse sobre a chuva.
Mergulhados em sua tristeza, eles ficaram em silêncio por um longo tempo até que conseguiram se acalmar.
— Quando será o enterro?
— Esta tarde. Não vamos demorar muito. E o enterro do seu pai?
— Será também esta tarde.
A conversa foi interrompida por Luana, a melhor amiga de Lucas, que o procurava.
— Finalmente encontrei você, exclamou Luana — O cortejo vai começar, nós temos que ir.
— Está bem. — E dirigindo-se a Bruno — Foi um prazer conhecê-lo.
— Digo o mesmo.
Bruno o esperou sair para voltar aos seus próprios pensamentos.
Minutos depois, a chuva caia com mais força, mas a construção dos espelhos não refletia mais Bruno.
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