Depois da Tempestade
22 Capítulo XXII
Notas iniciais
E, por algumas semanas, eles foram realmente felizes.
Mesmo com todo o trabalho e a constante ameaça de Hive, eles conseguiram conciliar seu tempo e dedicar-se ao seu relacionamento nas horas livres que lhes restavam.
Tudo parecia correr normalmente. Pelo menos dentro dos padrões de normalidade que a SHIELD ofertava. As missões continuavam, os planos para derrotar os perigos que os aguardavam lá fora eram esquematizados, a equipe se ocupava de tentar administrar toda a sorte de acontecimentos bizarros que surgiam pelo caminho. Todavia, mesmo acostumados a uma rotina repleta de surpresas – quase nunca agradáveis – ninguém conseguiu antever os profundos impactos que abalariam as estruturas da base de maneira trágica e incontornável.
Bobbi e Hunter acabaram vítimas de uma armadilha. Ao investigarem uma unidade de construção de um santuário para inumanos na Sibéria, envolveram-se no assassinato de um general russo, que custou suas posições na agência de espionagem. A despedida dos dois agentes foi dolorosa, mas não foi o único incidente com o qual tiveram de lidar.
Hive conseguiu exercer sua influência sobre Daisy, possuindo a inumana e fazendo com que ela se tornasse responsável por uma série de desastres que colocou seus amigos em situações de perigo alarmantes. Ao livrar-se do domínio do poderoso inimigo, Daisy não conseguiu suportar a culpa e, para completar, Lincoln se sacrificou por um bem maior – derrotar Hive definitivamente.
Falar que não estava sendo fácil lidar com a morte prematura do ainda novato colega de SHIELD, é eufemismo. Todos sofreram muito, mas ninguém sofreu mais do que Daisy. Além do vínculo que havia criado com o inumano, ela se sentia responsável por sua decisão de se sacrificar em prol do bem estar do universo.
E, agora, ela encontrava-se foragida. Não havia notícias de seu paradeiro. Coulson e Mack perseguiam pistas que podiam conduzi-los até ela em uma busca incessante e desenfreada. Mas, ao final do dia, não tinham nem uma singela ideia de aonde ela havia se metido.
*
Fitz não deixou de notar que Jemma permanecia longos momentos calada, e interpretava seus silêncios como pausas constantes para reflexão. Ela pensava na fragilidade da vida e da substância humana. No quão drasticamente as coisas podem mudar em questão de segundos...
Isso havia acontecido com ela há um ano. Em um momento, Fitz a convidava para jantar. No segundo seguinte, era tragada por um monolito e arremessada para outra dimensão da qual não conseguia regressar, a despeito de todos os seus esforços e tentativas que duraram meses.
Ela pensava no quanto o universo é irônico. Parece zombar dos pobres seres que o habitam. Como se todos fossem parte de uma comédia trágica, de uma narrativa recheada de um humor absurdo e cruel.
Fitz deixava que ela tivesse seu momento. Entendia a necessidade que Jemma tinha de pensar em tudo o que havia acontecido; de pesar todas aquelas situações na balança. Ele mesmo sentia a urgência de sentar qualquer dia desses e tentar compreender como tudo chegou àquele ponto. Como as situações aparentemente contornáveis, convergiram para o mais completo caos.
Houve uma noite em que o sono de Simmons foi acometido por um novo pesadelo. Um que envolvia todos os amigos que havia perdido recentemente. Ela acordou sobressaltada e se deparou de imediato com o semblante aflito de Fitz. Ela permitiu que ele a envolvesse em seus braços, encontrando o conforto necessário para acalmar sua mente e espírito.
No dia seguinte, ambos concordaram que precisavam de um tempo.
Um tempo longe da SHIELD, um tempo para viver uma vida e um relacionamento normal. Lembrar-se de quem eram, além das identidades de agentes que portavam.
Eles precisavam ser eles mesmos. Redescobrir a felicidade nos momentos simples como um casal.
*
Alugaram um chalé em Perthshire, cuja aparência se aproximava bastante daquele que Jemma vira na infância quando viajou com seus pais para lá. Aquele no qual ela sempre pensava e costumava idealizar uma vida ao lado de Fitz.
Era como se seu sonho estivesse ganhando formas e contornos na vida real. Ela sabia que era por pouco tempo. Apenas umas férias da SHIELD – algo que conseguiram com muito esforço, mediante a relutância e resistência do então diretor, Phil Coulson.
O brilho nos olhos de Jemma era tudo o que Fitz precisava para acalentar seu coração naquele momento e lhe reafirmar algo que ela já havia expressado com palavras. Ela estava genuinamente feliz. Assim como ele.
*
Sentindo a torrente de água cair sobre seu corpo recém-desperto, Jemma se recriminou. Passou mais tempo do que o usual embaixo do chuveiro, repassando a noite anterior e reprovando a si mesma.
Ela lembrava-se de estar saboreando um momento de intenso prazer, de olhos fechados, de modo a curtir melhor as sensações que dominavam seu corpo, totalmente absorta e centrada em cada toque. Havia se inclinado levemente para trás, apoiando as mãos sobre os próprios calcanhares, fechando os dedos em torno deles, a fim de sustentar melhor seu corpo sobre o dele. Aquela posição era extremamente favorável às mãos de Fitz, que deslizavam suavemente por toda a sua pele, percorrendo todo o curso de seu busto até seus quadris e, depois, fazendo a caminho inverso.
Momentos após ela chegar ao clímax, continuou movendo-se sobre ele até que ele próprio alcançasse o ápice. Foi tão intenso, tão extasiante que Fitz não conseguiu se conter, de forma que seu superego não filtrou as palavras que vieram a seguir.
— Casa comigo? – perguntou, meio sem querer, ainda tentando recobrar o fôlego e mantendo os olhos cerrados.
Jemma estacou em cima dele, a boca entreaberta, a confusão estampada em seu rosto, sua alma, corpo e mente ainda tentando absorver o impacto provocado pela pergunta acidental. Seu cérebro pareceu trabalhar com severa lentidão ao processar aquela informação.
— Você... Disse o que eu acho que...?
Fitz pareceu voltar a si, dando-se conta, enfim, da sentença que acabara de pronunciar.
— Sim... Eu acho que sim...
— Bem...
Ambos estavam reticentes, o que começava a soar ridículo para seus próprios ouvidos.
— Eu... Preciso pensar a respeito – Jemma concluiu, ainda confusa.
— Oh... Okay – ele desviou o olhar, desejando voltar alguns minutos atrás e poupar a ambos daquele momento desconcertante – eu preciso ir ao banheiro. Importa-se de...?
— Oh, me desculpe – ela se esqueceu por um momento que ele permanecia dentro de si. Ambos deixaram escapar um gemido involuntário quando Jemma se adiantou para separar seus corpos, saindo de cima dele.
Fitz caminhou até o banheiro, sem trocar um olhar com Simmons. Ela, por sua vez, virou-se na cama, deitando-se de lado, encolhendo as pernas e encarando a porta do guarda-roupa que apontava, entreaberta, em sua direção. Pensou durante um longo momento no pedido que Fitz havia acabado de fazer até o instante em que ele retornou ao quarto. Quando ela viu a porta do banheiro se abrir novamente, cerrou os olhos com extrema rapidez. Fingindo que estava sonolenta, mas a verdade é que estava mais desperta do que nunca.
Ele voltou para a cama e tocou sem ombro levemente. Jemma sentiu a mão dele gelada contra a sua pele.
— Jemma... Achei que você fosse para o banho.
— Mais tarde – ela replicou em um sussurro.
Ele deu de ombros, mas a verdade é que estava incomodado com a reação dela diante de seu pedido. Fitz sabia que tinha deixado aquilo escapar em um momento que não era dos mais oportunos. Mas Jemma parecera se alarmar. Ele não esperava que ela reagisse de maneira tão extrema, inclusive dando as costas para ele ao dormir. Ela nunca havia feito isso antes. Rejeitando até mesmo uma conversa sobre o assunto... Mas Fitz entendeu que ela queria espaço, ficar sozinha com seus pensamentos por um momento. E, dividindo um quarto e uma cama com ele, esse era o máximo de espaço que ela poderia ter...
Pela primeira vez desde que iniciaram seu relacionamento, eles dormiram em lados opostos da cama. Ambos pesarosos e apreensivos, de forma que não conseguiram dormir bem.
Jemma repassou a cena e todas as poucas palavras trocadas uma dezena de vezes na cabeça, querendo bater a cabeça contra o vidro do box sempre que lembrava de sua reação. A água quente assaltava de modo impiedoso seu corpo. Ela deu um suspiro contundente antes de desligar o chuveiro e outro enquanto se enxugava com a toalha; censurando a si mesma e temendo ter estragado tudo.
Certamente, as coisas não estavam bem depois daquela noite. Ela acordou sozinha. Não havia sinal dele pelo quarto. Fitz devia estar na sala, ou muito irritado, ou muito chateado. E ela decidiu tomar um banho e refletir sobre o que se desenrolara entre eles na noite anterior antes de encará-lo.
Agora era o momento. Ela não se preocupou em vestir uma roupa. Permaneceu em seu roupão de banho e caminhou com passos vacilantes para fora do quarto. O encontrou sentado no chão, em frente à lareira, fitando as chamas e ouvindo o crepitar do fogo.
— Fitz... – ela chamou seu nome com certa hesitação.
Ele tornou a cabeça na direção dela no mesmo instante, dando um sorriso vago, quase oblíquo ao avistá-la. Seus olhos pareciam vazios, como se a luz inerente a eles houvesse se perdido e esquecido o caminho de volta. Mesmo assim, ele estendeu uma mão a ela, indicando que se aproximasse.
Jemma assim o fez, caminhando em sua direção e sentando-se em seu colo, aninhando-se em seus braços e descansando a cabeça no ombro direito de Fitz, como sempre costumava fazer.
— Me desculpe por ontem à noite – ela começou a falar em uma voz frágil.
Fitz se viu confuso por um instante.
— Achei que você estivesse brava comigo. E que eu é que lhe devia desculpas.
— Oh, não... Por que estaria brava?
— Bem... Você não falou mais comigo. Virou-se para o outro lado. Pensei que estivesse decepcionada pela forma como... – ele deteve suas palavras.
Jemma deu um longo suspiro antes de tornar a falar.
— Não fiquei brava... Apenas desorientada. Não sabia o que responder – ela tomou coragem de olhar em seus olhos para perguntar – quis mesmo dizer aquilo?
Ele a fitou com certa descrença no olhar.
— Sim. Eu reconheço que não foi o melhor momento, mas...
— Definitivamente, não! – Simmons o interrompeu abruptamente, alteando seu tom de voz, sobressaltando Fitz – Por isso estou perguntando – ela cerrou os olhos brevemente – se tem certeza desse pedido ou... Perguntou por impulso.
— Impulso? Você acha que foi só isso?
— Vamos recapitular – ela devolveu em uma toada ligeiramente sarcástica – nós estávamos na cama, eu estava em cima de você, você havia acabado de ter algo que pareceu ser um orgasmo incrível, é bem a sua cara ter uma atitude impulsiva destas.
— Você acha que eu realmente não quero isso? – ele indagou, agora soando um tanto rude.
Jemma arqueou as sobrancelhas, não sabendo como responder.
— O timing foi péssimo, eu concordo. Mas eu estava falando sério. Eu ia te pedir de qualquer maneira, mas acabei me adiantando por estar tão... Imerso naquele momento – ele concluiu, sem deixar margens para dúvidas, desviando novamente o olhar do dela, tanto por estar se sentindo ofendido pelas colocações de Jemma quanto receoso de quais seriam suas próximas resposta e reação.
— Oh... Entendi. É só que... Realmente, não foi o pedido ideal... Quer dizer, eu sempre imaginei que fosse fazer esse pedido de maneira especial em um lugar especial. Comigo segurando suas mãos e você ajoelhado diante de mim. Não que eu estaria segurando meus tornozelos, posicionada em cima de você – ela completou enrubescendo. Fitz disfarçou uma risada – para quem se diz o romântico da relação, eu realmente não esperava por isso. O que vou dizer para nossos filhos no futuro quando eles perguntarem como foi que o pai deles me pediu em casamento? – seu coração acelerou ligeiramente e ela esperou ter dado a deixa para que ele compreendesse...
— É isso que você quer? Um novo pedido, dessa vez de uma maneira especial?
— Não. Não precisa. Não muda o fato de que você já o fez – ela pausou por um momento – e, não importa quantas vezes pergunte, a resposta será sempre a mesma.
Eles trocaram um olhar penetrante por um longo minuto.
— Isso quer dizer que você...
— Eu aceito – ela disse com um sorriso que Fitz imediatamente retribuiu. Partilharam um beijo rápido, porém terno, antes que Jemma tornasse a falar – e espero que você exercite melhor seu timing e a capacidade de dar boas novas em momentos especiais.
Fitz revirou os olhos um pouco.
— Como nesse momento. Este é um momento especial. Eu estou no meu lugar favorito no mundo, em frente a uma lareira em um chalé em Perthshire, prestes a te dar uma notícia surpreendente. Você pode questionar meu romantismo o quanto quiser, mas a verdade é que te venci nessa.
Havia um ar de dúvida no semblante Fitz. Ele não sabia aonde exatamente ela queria chegar com aquela ladainha incessante. Mas, logo, sua confusão transformou-se em surpresa quando Jemma, um tanto hesitante, puxou a mão dele para o seu ventre e a apertou levemente contra aquela região.
Os lábios do engenheiro se afastaram um do outro, sua boca se entreabrindo, ao se dar conta do que Jemma queria dizer. À medida que a compreensão o invadia, seus olhos azuis ganhavam um novo fulgor. O sorriso de Jemma se alargou ao perceber que havia devolvido instantaneamente o brilho de seu olhar ao lhe dar aquela notícia.
— Você está...?
— Grávida, sim – ela completou sua sentença, o coração acelerando.
— Há quanto tempo...?
— Nove semanas.
— E desde quando sabe?
— Tem alguns dias – ela ergueu os ombros, ainda agitada demais por finalmente lhe revelar o que havia guardado em segredo por duas semanas.
— Wow! – ele sussurrou e seu olhar tornou a se perder, mas desta vez sustentando o característico brilho.
— Então... O que acha disso? – indagou com algum receio.
— Bem, eu... Creio que ainda preciso de tempo para... Processar tudo isso
— Entendo – ela balançou a cabeça, freneticamente.
— Isso é maravilhoso... Quero dizer, fantástico – sua feição passou por uma transformação imediata. O sorriso delirante cedendo espaço a um semblante aflito – E um pouco assustador também.
— Sim! – Jemma exclamou entusiasticamente – é exatamente como eu me sinto.
Fitz a encarou, preocupado de repente.
— Como você está se sentindo? Você está bem?
— Sim, não se preocupe. Eu estou bem – ela tentou acalmá-lo – mais do que bem. É só como você disse... Eu paro pra pensar e... – Jemma cerrou os olhos, suspirando – tudo vai mudar.
— Para melhor, com certeza. Mas eu entendo o que quer dizer – Fitz afirmou com simplicidade e aproximou seus lábios dos dela, apenas encostando-os suavemente – construímos e criamos tantas coisas juntos. Nunca imaginei que, de fato, criaríamos uma vida. Natural, orgânica, não sintética. Da maneira mais genuína e pura.
O rosto dele, iluminado pelas chamas da lareira, enquanto dizia aquelas palavras com tamanha sinceridade pareceu a Jemma a coisa mais bela que o universo poderia lhe ofertar. Seu coração se aqueceu e ela não conseguiu evitar as lágrimas sorrateiras de felicidade que inundaram seus olhos.
— Eu nem a conheço... Mas já tenho certeza de que é a nossa melhor criação.
Fitz sorriu e a abraçou com tanta intensidade que Jemma teve a impressão de que ele não tinha a menor intenção de soltá-la pelas próximas horas. E, naquele momento, desejou que assim fosse.
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