Depois da Tempestade
14 Capítulo XIV
Notas iniciais
Após aquela conversa, o desejo de Jemma era que eles voltassem para a base, fossem para o quarto e fizessem amor lenta e ternamente. Mas o que eles fizeram só poderia ser definido como uma verdadeira bagunça. Havia peças de roupa espalhadas pelo chão de todo o quarto de Fitz e, se em um momento eles estavam de pé, despindo um ao outro sem nenhum comedimento, logo estavam sobre a cama, rolando um por cima do outro, em uma verdadeira confusão dentre lençóis e travesseiros, totalmente imersos naquele instante, perdidos e envolvidos na ardência dos toques, na volúpia dos beijos e na incoerência das palavras. Apesar de todo o desespero diante da necessidade que sentiam de estarem totalmente em contato – de modo que não restasse nenhum espaço os separando – era inegável sua sintonia. O sincronismo entre eles não poderia ser mais preciso. Era perfeito.
Ofegantes, eles não conseguiram falar por algum tempo depois que terminaram, só ouvindo o som de suas respirações altas e irregulares. Passaram-se alguns poucos minutos antes que ambos começassem a rir. Riram do quanto a situação toda parecia surreal, de seu próprio desespero em consolidarem seu desejo e, também, por estarem simplesmente felizes.
— Eu idealizei esse momento... – Jemma começou a falar depois de algum tempo em silêncio – mas o imaginei mais romântico do que isso.
Um sorriso ardiloso surgiu no rosto de Fitz.
— Podemos fazer isso mais romântico. Se é o que você quer.
— Eu acho uma ótima ideia.
Ele tornou a envolvê-la em seus braços, cobrindo o corpo de Jemma com o seu e pressionando seus lábios nos dela. Assim, eles recomeçaram. De maneira mais terna e romântica dessa vez. Da forma como Jemma havia contornado em sua imaginação antes de eles retornarem à base.
*
Horas haviam se passado até que eles, enfim, cederam à exaustão.
— Acha que alguém sentiu nossa falta?
Fitz refletiu por um segundo e meneou a cabeça negativamente.
— Todos estão tão ocupados e pensando em seus próprios problemas que eu duvido muito que tenham parado pra pensar onde estamos.
Eles estavam deitados de frente um para o outro. Seus rostos a centímetros de distância, suas bocas tão próximas que era simplesmente inevitável trocarem um beijo rápido, ainda que afetuoso, em meio às palavras proferidas ou ao final de cada sentença enquanto conversavam.
— Se estivessem preocupados conosco, já teriam vindo atrás de nós.
— Tem razão.
Ela se aproximou para beijá-lo mais uma vez. Depois de se afastarem, ele notou a expressão reflexiva que, bruscamente, tomara conta do rosto de Simmons.
— O que foi?
— Acha que é certo estarmos fazendo isso...? Quer dizer, com tantos problemas a serem resolvidos, com tanta coisa acontecendo... Nós estarmos aqui? Não acha que estamos sendo permissivos demais?
Fitz suspirou longamente antes de falar.
— Lembra-se do que Coulson disse há um tempo? Que é melhor aproveitarmos momentos como este antes de tudo desmoronar?
Jemma torceu os lábios em sinal de reprovação àquele comentário.
— Eu não gosto de pensar assim... Que pode ser tarde demais. Que este pode ser um dos meus últimos momentos com você.
— Jemma...
— Sei que estamos lidando com algo que vai muito além da nossa compreensão, pior do que qualquer coisa que já enfrentamos. Sei que estamos diante de um perigo incomensurável – ela se referia à criatura cujo cadáver de Ward servia como hospedeiro – mas me recuso a acreditar que não vamos encontrar um jeito de derrotá-lo. Nós precisamos passar por mais essa.
Lá estava seu bom e velho otimismo perante um desafio de proporções inimagináveis. Algo que, de certa forma, acalentou o coração de Fitz naquele momento. A confiança dela sempre havia sido seu porto seguro.
— Estou cansada disso... Não posso deixar que alguma coisa, qualquer coisa, nos separe novamente. Eu não vou permitir – afirmou com convicção.
— Não iremos permitir.
Um sorriso pleno se desenhou na face da bioquímica ao ouvir aquela correção de Fitz.
— Isso nem parece real... – Jemma verbalizou um pensamento que ocorreu a ambos.
— Felizmente, é – Ele assegurou-lhe.
— Eu mal consigo acreditar.
Os dois conversavam aos sussurros, esgotados demais até mesmo para falar em seus tons habituais. Fitz levou uma mecha do cabelo dela para trás da orelha, sorrindo diante da constatação de que eles estavam ali, juntos, e aquilo se tratava da mais pura e irrevogável realidade. Permaneceram durante um longo momento calados, apenas olhando-se fixamente, como se quisessem absorver o máximo um do outro, apreender cada detalhe de suas respectivas expressões, gravando-os para toda a eternidade na memória e, naquele instante, qualquer um poderia dizer que eles poderiam se comunicar telepaticamente.
*
Era mais ou menos seis da manhã quando May rumou determinada ao quarto de Simmons. Já estava desperta há uma hora e cumprido, inclusive, sua rotina matinal de exercícios. Enquanto dirigia-se aos aposentos da bioquímica, pensou consigo que, se ela estava segura em sua decisão de começar seu treinamento físico, tinha de estar preparada desde já.
Ela abriu a porta do quarto de Jemma sem cerimônias, para encontrá-lo completamente vazio. Era óbvio que ela não havia passado a noite lá. Talvez, isso estivesse ocorrendo há algum tempo. Sua cama parecia não ser desfeita há séculos. De fato, não havia muitos sinais de que Jemma tivesse pisado naquele quarto muitas vezes nos últimos dias. Talvez apenas para pegar alguma peça de roupa ou um acessório em seu armário.
May lançou um olhar avaliador ao espaço desocupado, entendendo de imediato a razão da ausência da cientista. Deu meia-volta, cerrando a porta atrás de si com um estampido.
*
Ele abotoava a camisa e afivelava o cinto com parcimônia. Em contrapartida, Jemma procurava desesperadamente por sua blusa branca dentre a confusão de roupas e lençóis no chão. Quando finalmente a encontrou, vestiu rapidamente e a abotoou de qualquer jeito, sem se preocupar em verificar se estava realmente colocando os botões em suas respectivas casas.
Um pequeno sorriso curvou um dos cantos da boca de Fitz.
— Por que tanta pressa, Jemma?
— Daqui a pouco os outros vão começar a acordar... E não podem me ver saindo do seu quarto. Você sabe... As perguntas invasivas e desagradáveis... Isso vai parar no ouvido de Coulson e ele irá exigir explicações...
— Ok, eu já entendi – ele a cortou, mas seu tom não era severo. Era suave. Ele compreendia e, por enquanto, também não queria que os demais soubessem acerca do status de sua relação com Jemma. Nem ele mesmo sabia qual era. Eles permaneciam indefinidos.
Era verdade que Jemma não dormia mais em seu próprio quarto. A cama dela permanecia intocável há dias. Ela tinha passado as últimas três noites no quarto de Fitz, dormindo em seus braços após lânguidos e cálidos momentos de prazer. Agora era diferente de antes de Fitz abandonar a base e ir trabalhar para o Stark. Ele a olhava nos olhos. O sexo deixara de ser um apenas um modo de se curar das feridas emocionais; um simples rompante de desejo ao qual ambos não conseguiam resistir. Agora era mais do que desejo. Era a expressão de um sentimento genuíno, do anseio, da vontade de estarem juntos de corpo, alma e coração. Naquele momento, a intimidade entre eles tornou-se consequente, inevitável. Não apenas uma forma de escape de seus problemas, algo ao qual eles se rendiam para evitar confrontos e conversas necessárias.
— Você viu minha jaqueta? – Indagou, deixando escapar um suspiro derrotado e os braços caírem ao longo do corpo, em total inutilidade.
Fitz quase riu, lembrando-se que uma das frases feitas preferidas de Jemma era exatamente a pressa é inimiga da perfeição.
— Aqui, Jemma – disse ele, pegando-a do chão, onde ela jazia aos pés da cama e entregando a ela.
— Obrigada – assim que vestiu a jaqueta, se ocupou de fechar o zíper e o botão de sua calça jeans. Sem sucesso.
Ela ergueu o rosto na direção de Fitz que agora estava sentado despreocupadamente na beirada da cama, olhando para ela.
— Pode me ajudar com isso?
Ele deu alguns poucos passos em sua direção e fechou o zíper com a mesma facilidade com que o abriu horas atrás. Com um sorriso de canto de boca, ele a fitou, ainda mantendo os dedos no cós da calça dela.
— Acha que alguém sabe? Ou desconfia de algo?
Jemma se perdeu por um momento na infinitude dos olhos azuis dele antes de responder.
— Desconfiar, pode até ser. Mas saber com exatidão... Creio que não – ela desviou o olhar do dele e mordeu ligeiramente os lábios – Bem... Eu contei a Bobbi – disse de uma vez só e tornou a encará-lo. Fitz mantinha uma expressão insondável em seu rosto – eu precisava de alguém para conversar, Daisy estava tão distante... Então achei que Bobbi poderia me entender e estava certa... Ela é uma ótima ouvinte e confidente.
— Ela sabe como guardar um segredo – Fitz complementou.
— Não está bravo comigo por isso, certo?
O engenheiro balançou a cabeça em negativa, o semblante complacente.
— Não. Se eu contasse a alguém, também seria a ela.
— Então ninguém mais sabe?
— Não.
— Quando acha que poderemos contar?
Fitz deu um longo suspiro.
— Não sei... Há tantas coisas acontecendo agora. Duvido que seja o melhor momento para lidar com Coulson, seus sermões e lições de moral.
— Tem razão.
Ele mantinha o indicador e o polegar no cós da calça dela, algo que não passou despercebido por Jemma, que encarou os dedos dele com um sorriso malicioso. Mas tão logo o pensamento de mandar tudo às favas e embrenhar-se nos lençóis com ele novamente perpassou sua cabeça, ele a soltou, afastando-se alguns passos para trás com um olhar sério e ponderado.
— É melhor você ir, os outros já devem estar acordando.
Jemma conteve um suspiro de contrariedade e desapontamento. E, antes de ir, envolveu os braços em seu pescoço novamente para lhe dar um beijo de despedida.
Isto é, a intenção era ser um beijo de despedida. Mas ao sentir as mãos dele em sua cintura e a forma como ele retribuía aquele gesto com tanta paixão, ela aprofundou o beijo, o tornando mais intenso, suas línguas se encontraram e as mãos curiosas de ambos passearam pelo corpo um do outro. Estavam prestes a entregar-se a um novo desatino.
— Jemma – ele fez o que pode para separar seus lábios dos dela, contrariando seus próprios anseios, reunindo todos os poucos resquícios de força que lhe restavam – se continuarmos assim... Em pouco tempo... Ao invés de você sair por aquela porta... Estará de volta à minha cama – disse entre beijos, mantendo os lábios pressionados nos dela.
— Me parece uma boa ideia – ela o provocou em um sussurro.
— Acabamos de nos vestir...
— Eu não terei problema nenhum em te despir novamente... – afirmou antes de capturar os lábios dele nos seus outra vez.
May irrompeu porta adentro, abruptamente, sem se preocupar antes em bater e encarou a cena com um olhar gélido, mantendo sua postura rígida usual.
Fitz e Simmons se afastaram um do outro o mais rápido que puderam, mas não o suficiente. May os havia flagrado no ato.
— Agente Simmons, venha comigo! Precisamos conversar – May disse, resoluta, antes de virar-se e deixar o quarto com seu andar característico; os passos leves de uma ninja letal capaz de matar um homem três vezes maior do que ela sem grandes esforços.
Jemma e Fitz se entreolharam debilmente, não fazendo ideia do que deveriam fazer ou dizer a seguir. Foi Jemma quem tomou a atitude de correr atrás de May, abandonando o quarto para trás, sem olhar uma última vez na direção de Fitz enquanto tentava alcançar May.
Ela se deu conta de que a estava seguindo rumo à sala de treinamento e pensou na melhor forma de explicar a May o que estava acontecendo. Jemma sabia que jamais poderia subestimar a inteligência daquela experiente e mortal agente. Obviamente ela havia visto o beijo e, ainda que não houvesse, o cabelo caótico e as roupas amarrotadas da bioquímica constituíam provas criminais suficientes.
May finalmente parou bem no centro da sala, girando nos calcanhares para encarar Jemma que parecia assustada, como uma presa pega despreparada por um predador. A especialista permaneceu com o rosto impassível, encarando-a por um longo momento, sem dizer uma palavra.
— May, eu posso explicar...
— Sua blusa está abotoada errado.
Jemma baixou o olhar, encarando os botões desordenados.
— Bem... – recomeçou, ao mesmo tempo em que procurava dar um jeito em sua blusa – espero que você entenda...
— Fui ao seu quarto, te buscar para o treinamento matinal e você não estava lá.
Simmons a fitou, confusa. Levando um tempo demasiado para lembrar-se da conversa que havia tido dias atrás com May, sobre aprender a lutar.
— Oh, isso...
— Supus que estava no quarto de Fitz e estava certa.
Jemma tentou organizar seus pensamentos rapidamente, erguendo as mãos e gesticulando como se clamasse por calma.
— Ok... Sobre isso... – ela engoliu em seco, escolhendo as palavras certas, sem se dar conta de que eram desnecessárias – Fitz e eu...
— Eu não poderia estar menos interessada em sua vida sexual com Fitz, agente Simmons.
A cientista ficou sem reação, sentindo o rubor lhe queimar as faces.
— Só quero deixar bem claro que, se está disposta a isso, a treinar, terá que ser disciplinada. Tão disciplinada quanto é no laboratório. Eu não aceito uma conduta menos do que exemplar de sua parte.
Como a outra demorou a responder, ainda perplexa diante dela, May revirou os olhos e prosseguiu:
— Estamos entendidas, agente Simmons?
— S-Sim... Sim! – Jemma sentiu como se houvesse perdido a habilidade de argumentar.
— Bem, vamos começar. Primeiramente, troque de roupa. Depois vou te ensinar as lições básicas e primordiais. Lembre-se que essas primeiras lições podem fazer uma diferença enorme em uma situação de vida ou morte. Pegue, vista isso – disse estendendo um macacão de malha para Jemma – e é melhor prender seu cabelo.
Um pequeno sorriso, quase imperceptível, curvou os lábios de May. Jemma não conseguia ver, mas sabia que seu cabelo estava uma catástrofe. E esse era o motivo de May estar rindo internamente.
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