Depois da Tempestade
9 Capítulo IX
Notas iniciais
Jemma permanecia com os olhos cerrados, naquele limite entre o sono e o estado de vigília. Tateou o colchão em busca de Fitz, do calor de seu corpo, mas encontrou apenas um espaço vazio. Esforçou-se para abrir os olhos, não querendo realmente despertar naquela gélida manhã. Quando finalmente venceu a luta contra suas pálpebras preguiçosas, notou que Fitz já estava de pé e totalmente vestido. Procurava apenas por um casaco em seu armário. Ela ergueu a cabeça confusa, o encarando com um semblante interrogativo.
— Fitz… Que horas são?
— Deve ser umas cinco, por aí…
— O que já está fazendo de pé?
— Eu… – ele esfregou os olhos – tive insônia… Eu vou estar no laboratório se precisar de mim. E depois vou trocar algumas palavras com Coulson… Isto é, assim que ele acordar.
Em nenhum momento ele direcionou o olhar a ela, e abandonou o recinto com passos firmes, sem hesitar em deixá-la sozinha no quarto, nua sob seus lençóis, e com pura confusão estampada em seu rosto, não entendendo absolutamente nada do comportamento de Fitz.
*
Havia procurado por Fitz em cada canto da base, mas não o encontrou. O pensamento de que ele a estava evitando passou pela sua mente mais de uma vez enquanto ela o procurava. Tentou espantar a paranóia para bem longe, sacudindo a cabeça fortemente. O que não resolveu.
Deteve seus passos quando estava próxima da sala de Coulson, ao ouvir que ele e Mack conversavam sobre Fitz.
— Está quase perfeita. Ainda tenho de pedir para Fitz fazer alguns ajustes e aprimoramentos… Mas não quero cobrar tanto dele — o chefe referia-se à sua mão robótica.
— Bem, se precisa de ajustes, é melhor se apressar se ele estiver falando sério sobre tirar férias.
Jemma estacou, prendendo a respiração, seu coração pareceu falhar uma batida.
— Tem razão. Acho que não seria cobrar demais lhe dar um pouco de trabalho antes de ele sair de férias.
— Incrível ele ter convencido o chefe a lhe dar esse tempo — Mack disse com certa ironia no tom de voz.
Coulson suspirou.
— Pode não parecer, mas eu sou humano, agente Mackenzie. E Fitz merece isso… Ele sofreu demais nos últimos tempos. Vai ser bom para ele espairecer.
— Por quanto tempo ele vai tirar férias?
Jemma engoliu em seco, aguardando a resposta.
— Indeterminado — Coulson disse, resoluto.
Não foi possível para Simmons conter o soluço audível que se desprendeu de sua garganta.
Mack e Coulson olharam para a entrada da sala, encontrando-a parada ali, o rosto vermelho vívido, uma expressão de desamparo – como se o chão houvesse sumido sob seus pés.
— Jemma… — Mack tentou, mas ela virou-se de súbito, pondo-se a caminhar apressadamente pelo corredor.
No caminho, avistou Hunter e Lincoln que conversavam e riam casualmente.
— Algum de vocês viu o Fitz? — o tom austero da bioquímica não passou despercebido por eles.
Ambos se entreolharam, aturdidos, antes de responder.
— Tive a impressão que o vi ainda agorinha… — começou Hunter — acho que ele foi para o quarto dele, não?
Lincoln assentiu.
— É isso mesmo. Algum problema, Dra. Simmons?
— Não. Nada! — ela passou por eles rapidamente, atravessando o corredor a passos largos rumo ao quarto do engenheiro.
Entrou sem bater na porta e o avistou fazendo as malas. A visão que mais temia tornando-se realidade bem diante dela.
— O que está fazendo? — sua voz não passava de um sussurro entrecortado.
Fitz não respondeu, apenas a fitou, sem o característico brilho nos olhos. Parecia tão desesperançoso quanto ela. Enfiou as mãos nos bolsos com uma postura rígida e deu um suspiro fatigado.
— Eu estava indo te contar.
Ela balançou a cabeça, descrente.
— Me contar quando já estivesse prestes a atravessar a saída da base?
— Não, Jemma…
— Por que isso agora? — ela o cortou com severidade no tom de voz.
Ele tornou a se concentrar em suas malas, colocando roupas e objetos pessoais nos compartimentos, o que apenas enfureceu Jemma. Ela cruzou os braços em frente ao corpo e lançou-lhe um olhar incisivo, exigindo explicações.
— Eu não estou te ajudando ficando aqui… Simples assim.
— Não, não é simples assim – ela objetou – isso não faz nenhum sentido, como foi que, repentinamente, chegou a essa conclusão?
— Você precisa de um tempo, Jemma. Tempo e espaço. Precisa superar seus traumas, enfrentar sua culpa. E não escapar dos problemas. Fugir não é a melhor alternativa – Fitz disse, absoluto.
— E você acha que estou fugindo?
— Sim, estamos.
Ficaram em silêncio por longos segundos. Segundos que pareceram se arrastar por uma eternidade.
— E acha que a melhor alternativa é me deixar? – ela disse, finalmente tomando coragem de prosseguir com a discussão.
— Não aja como se fosse isso que eu estivesse fazendo aqui, porque não é. Não está sendo justa.
— Justa? – ela riu, sem humor – O que está fazendo, então? Porque a mim parece exatamente isso: que está indo embora para ficar distante de mim, me deixando para trás.
Ele cerrou os olhos, correndo as mãos pelo cabelo, exasperado.
— Você precisa de um tempo longe de mim, Jemma.
— Já tive muito tempo longe de você, Fitz. Seis meses, se não se lembra... – a voz dela caiu para uma nota frágil, um sussurro doloroso.
— E parece que se virou muito bem sem mim.
A boca de Jemma se entreabriu; ela não podia acreditar nas palavras que ele havia dito. Fitz mordeu a parte interna dos lábios, se arrependendo no exato minuto do que falou.
— Me desculpe, eu não queria ter dito isso...
— Já disse – ela bradou.
Não adiantava voltar atrás, de modo que Fitz prosseguiu.
— Tenho certeza que você vai me dar razão depois.
Ela o fitou com um olhar pungente, o qual Fitz tentou evitar, voltando a se concentrar em suas bagagens. Jemma se aproximou e com certa agressividade agarrou o braço de Fitz, o impedindo de continuar a fazer suas malas.
— Quer parar com isso e falar comigo? Sabe que eu detesto que faça outra coisa enquanto estamos no meio de uma discussão.
— Talvez seja por isso mesmo que eu esteja fazendo... – ambos haviam alteado a voz consideravelmente.
— Então é para me irritar? — ela arqueou as sobrancelhas, com uma expressão mordaz – está fazendo isso para me irritar!
— Para que sinta raiva, sim.
Ela se calou por um segundo, sem compreender aonde ele queria chegar, qual era o propósito daquilo tudo.
— Era isso que você deveria estar sentindo – agora ele abrandara seu tom – bem no fundo, você sabe que o que estamos fazendo é errado...
Jemma engoliu em seco, percebendo a que ele se referia.
— Mas você tem seus motivos... Você está tentando sufocar o que sente, ainda está lidando com seus traumas, dá pra compreender perfeitamente. Já eu... Bem, eu estou sendo egoísta.
Como ela pareceu ligeiramente confusa, ele continuou.
— Eu sei o que você sente – ele desviou o olhar do dela – sei o que passou, o que ainda está passando... Mas estou tentando desesperadamente me agarrar a qualquer que seja o sentimento que tem por mim... Ter alguma coisa... Mesmo que seja pouco. Me conformando com migalhas da sua atenção. Preferindo isso a não ter nada.
— O que quer dizer? – ela indagou com a voz embargada.
Fitz suspirou.
— Jemma, o que aconteceu... Durante todas essas noites... Isso foi um erro.
Ela sacudiu a cabeça, em uma veemente negativa.
— Não foi um erro...
— Foi, e você sabe disso. Essas noites não deveriam ter acontecido – ele disse em um só fôlego – Não podemos mais fazer isso.
Ela cruzou os braços em frente ao corpo em uma postura autodefensiva. O peso da rejeição lhe aturdiu. Com ele, Jemma havia se sentindo completa como nunca antes, como se eles fossem apenas um só. Eles se encaixavam perfeitamente. A sensação das mãos dele sobre si, dos lábios dele em todo o seu corpo. Tudo pareceu tão certo, tão quente, tão... Era inexplicável. Ela só sabia que era o atestado definitivo de que se pertenciam. Por isso não entendia sua atitude, sua repentina... Rejeição. Era doloroso usar esta palavra. Mas era isso o que era. A rejeição de um sentimento genuíno, de algo que não poderia ser mais exato. Dormir nos braços dele, após alcançar o prazer, era a coisa mais certa que havia feito em muito tempo.
— Não posso entrar em uma relação destrutiva e autodestrutiva com você. Seria anular os meus sentimentos e ferir a nós dois.
Por mais que ela tentasse, ainda não havia conseguido assimilar a linha de raciocínio de Fitz. Então ele achava que tudo o que havia acontecido entre eles nas últimas noites tratava-se de um tremendo e incontornável erro. Que Jemma estava apenas fugindo de encarar seus problemas, evitando confrontar seus traumas ao envolver-se fisicamente com ele. E Fitz estava certo de que havia agido de maneira egoísta por compactuar com isso, portanto, queria lhe dar tempo e espaço, ficando distante... Isso só queria dizer uma coisa: que aquilo que ela mais tentara evitar que acontecesse, estava acontecendo... O que apenas foi confirmado pelas palavras que vieram a seguir.
— Então acha que me deixar é a solução.
— Jemma, eu não faço isso só por você. Faço por mim também. Pode não parecer, mas eu ainda tenho um pouco de amor próprio.
Ela prendeu a respiração se dando conta de aonde ele queria chegar.
— Eu não posso ser seu estepe emocional.
E ali estavam as palavras que ela mais temia ouvir. Seu coração pareceu afundar no peito, como se soterradas pelo peso contundente das palavras que ele havia acabado de proferir. Ficou muda de repente.
— Eu posso ser muitas coisas para você. Seu melhor amigo. O ombro em que você costuma chorar. A pessoa que embala seu sono, providenciando para que você durma tranquila. Aquele que está lá para te confortar com um abraço quando você sente que tudo desmoronou... Mas eu não posso ser a sua segunda opção.
— Você não é... – ela praticamente murmurou as palavras.
Ele jogou a cabeça para trás, soando derrotado, exausto por lutar uma batalha que parecia perdida há muito.
— É o que parece... Aquilo que restou depois que você o perdeu.
Jemma balançou a cabeça em protesto.
— Não faça isso! Não diga uma coisa dessas porque isso está longe de ser verdade.
— Você disse que o amava – a voz dele quebrou naquela sentença, seus olhos estavam rasos de lágrimas – e não se esquece ou supera um amor, assim, tão rápido.
Jemma também tinha a visão turva, embaçada pelo pranto. Ela se esforçou para procurar as palavras certas para dizer a ele, mas nem ela sabia o que falar. Ainda estava imersa em uma confusão de sentimentos dúbios.
— Eu não... Não sei bem se... O que eu sentia por ele é diferente do que sinto por você.
— É lógico que é – ele concordou, conformado, interpretando errado o que ela acabara de dizer – por mim, você sente gratidão.
— Não, Fitz! – ela fechou os olhos com força, levando uma mão à testa, sentindo-se péssima – Você não entende... Eu estou tão confusa – ela falou mais para si mesma do que para ele.
Ainda com os olhos cerrados — e agora marejados — ela sentiu o toque dos dedos dele em seu pulso, suave como uma pluma, tirando a mão dela da frente do rosto para que ele pudesse olhá-la nos olhos pelo que pareceu ser a última vez.
— É essa confusão que você precisa resolver.
Agora as lágrimas deslizavam livremente pelo rosto da bioquímica. Fitz deu um sorriso triste, secando sua face com as pontas dos dedos.
— E por isso você precisa de espaço... E só vai conseguir isso comigo longe daqui.
— Você vai voltar? — Mesmo com medo da resposta, ela perguntou. Sua voz fragilizada pela melancolia que se instalou de imediato em seu peito.
— Eventualmente...
Aquilo não a convenceu de todo e Fitz percebeu.
— Eu vou tirar férias, Jemma. Não estou partindo para sempre.
Ainda pareceu incerto, mas ela assentiu, sabendo que não havia mais o que pudesse fazer para dissuadi-lo de partir.
Não estava ao seu alcance, afinal.
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