Depois da Ruína - O Fim
18 Fragmentos
Notas iniciais
Naomi a chama pelo nome, mas Alex não a escuta. Apenas olha para a mulher que acabara de matar bem a sua frente e como aquilo não a fez se sentir melhor. Ela não consegue abaixar a arma, mas a amiga o faz por ela, segurando em seu punho. Tem sua atenção.
Alex se assusta ao vê-la pálida. O walk talk em mãos.
— O que aconteceu?
— Alex?!— A voz de Júlia sai do outro lado do aparelho. — Graças a Deus, estão bem!
— Júlia, — Naomi chama. — Conte a ela.
— Contar o que?
Júlia hesita apenas um segundo. O barulho da chuva cessara, e o dos gritos do interior do bunker chiam pelo aparelho. Ela estava lá dentro.
— Descobrimos como acabar logo com isso.
A voz de Júlia sai falhada, mas Alex não vê onde aquilo pode ser algo ruim. Espera que a amiga termine, nervosa e ansiosa.
— Diego estava na sala de controle e conseguiu acesso a todos os dados deles. Inclusive, dos planos para caso tudo dê errado. — Ela continua, aparentemente em local seguro. — Não é da minha boca que vai ouvir isso, mas basicamente conseguiremos explodir tudo com todos eles dentro.
Alex não encontra o problema, mas sabe que Júlia o esconde.
— Mas alguém tem que ficar para trás.
Ela respira fundo com a notícia.
— Por quê?
— É o procedimento para não haverem traidores. Os explosivos estão na sala das aeronaves, bem no centro do bunker, abaixo de nossos pés. Se alguém acioná-los, terá que ser intencional. E não há tempo para fugir.
— Eu vou. — As palavras de Alex saem tão rápido que ela mal consegue entender de onde saíram, mas não há tempo para pensar bem. Se alguém tem que ficar, será ela.
Júlia não responde. Nem mesmo Naomi.
Alex começa a estressar-se.
— Me digam o que fazer!
— Alex? — A voz que sai do walk talk não é a de Júlia. É uma voz conhecida, que arrepia todo seu corpo.
Ela entende o que as duas escondem dela.
— Nic?
x
O som dos portões abrindo os acorda para mais uma última batalha. Paulo e Laura preparam-se para amparar Levi, enquanto Felipe e Ava, para ajudar Nic, quando a porta da tenda se escancara. Armado, Paulo aponta o rifle para a porta, mas a figura levanta as mãos, dando um passo para trás.
— Sou eu! — Diego pára, ofegante, e fecha a porta atrás de si. Puxa o ar com força. Correra o mais rápido possível para encontrá-los ali.
— Diego? Quem está na sala de controles? — Levi indaga, sentando-se novamente.
— História para depois. — Ele diz. Não irá contar ao amigo que deixara um deles no comando da sala, mas percebe que pode confiar no homem calvo cujo nome nem ao menos perguntara. Os portões estão abertos, afinal.
— O que faz aqui? — Nic pergunta.
Diego respira fundo. Ainda não conseguira processar a decisão tomada, mas tira a mochila das costas com o mapa de Sara e o estende no chão o mais rápido que pode. Os outros do recinto o ajudam. A vela se reacende para que todos possam ver com clareza.
Após certificar-se de que Júlia também os ouvia pelo aparelho, começou a se explicar.
— Enquanto estive lá, tive tempo de procurar o ponto fraco disso aqui. E encontrei. — Ele aponta para algo no centro do mapa. Uma sala grande, com aviões desenhados. — São aviões de bombardeio. Todos os explosivos estão nessa sala.
Levi esfrega as mãos, excitado com a menção, já imaginando onde aquilo acabaria.
— Como explodimos essa merda? — Pergunta.
— Bom, aí é que está. Há outra sala de comandos aqui em cima, nos setores. Fica aqui, no D. — Ele aponta no mapa. — Dali de dentro conseguimos ativar todos os explosivos.
— E como faremos isso? — Júlia pergunta, mostrando-se presente na discussão.
— Eu vou fazer isso. — Diego está determinado, mas sua voz falha. — Eles o protegeram contra traidores. Se aquilo for acionado, deverá ter sido intencional. Não há tempo de fugir.
A sala mergulha em silêncio por parte deles. O único som vem de fora. O alarme finalmente cessa.
Levi o olha com os olhos espantados.
Diego conclui.
— O plano de ação deles é recuar caso não tenham controle sobre todos. Vão ficar aqui dentro. Vim pedir para tirarem todos os nossos daqui agora. E me despedir.
— Diego, temos que ter outras opções! — A voz de Júlia sai desesperada do outro lado da linha, mas ela não pode vê-los. Diego fará o que for preciso.
Levi estende a mão para o amigo e o puxa para um abraço apertado.
— Diego? Diego!— Júlia grita do outro lado.
Ele deixa uma lágrima escorrer, mas a impede que os outros vejam. Não quer fazer a amiga sofrer mais do que já sofrera. Mas quer os amigos vivos.
Nicolas escuta, quieto. Olha para o mapa, pensativo. Sua vida passa por seus olhos em segundos, principalmente os últimos dias. As palavras que saem de sua boca já foram decididas há muito tempo.
— Eu vou.
Os outros seis com quem divide a tenda o olham. Não há como responder àquelas palavras, mas Diego tenta.
— Eu vou, Nicolas. A ideia foi minha.
— É, a ideia foi sua, mas você não quer morrer.
— E você quer? — A amiga Laura o olha, incrédula.
Não.
Mas ele pensa em como tudo poderia ter sido diferente se apenas o tivessem deixado para morrer naquela cadeira, sozinho. Ainda teriam o abrigo, teriam salvado diversas vidas. Talvez Ivan estivesse vivo. Ele deve isso à eles. À Alex.
— Eu preciso. Eu quero ir. — Ele confirma. Uma lágrima contraditória escorre por seu rosto. Não dá mais explicações. — Só me mostre o caminho e me diga o que fazer.
x
Alex escuta o relato do amigo com os olhos embaçados, as lágrimas ameaçando escorrer. Espera que aquela história termine de algum modo diferente, mas escuta Nic chorar do outro lado do aparelho, em meio à uma risada triste.
— Saiam daí, Alex. Todos já estão recuando.
— Não, Nic. — Sua voz quase não sai. — Não posso! Eu fico com você.
— Não têm motivo, Alex. Estou fazendo isso por você. Pra que vocês vivam. Pra que você cresça e curta o seu sobrinho, a sua família.
Alex não consegue responder. Sente como se seu coração fosse parar. O soluço que solta é inumano.
— Obrigada. - A voz de Júlia agradece. Por causa dele, poderá criar o filho em segurança.
— Saiam daí. — Nic pede, a voz controlada.
— Você prometeu que nos veríamos de novo. — Alex tira forças para falar em meio às lágrimas.
— E nós vamos, princesa. — Ele nunca mais a chamara assim. Alex sente por um instante que preferia ter morrido a perdê-lo também. — Naomi, tire ela daí. Andem logo!
Naomi guarda o walk talk, mas não o desliga. Tira o traje e o deixa no chão, colocando o aparelho na bainha da calça de um modo que Alex sinta que Nic ainda está por perto.
Ela pega o punho da amiga e a puxa dali. Nicolas as guia. Naomi controla a emoção — por dentro da fortaleza de Amélia há uma saída daquele lugar. As portas se abrem para elas com facilidade. Alex corre às cegas. Elas entram em um porão, a escuridão às abraçando.
— Continue em frente, Naomi. — A voz de Nicolas é ouvida, distante.
A garota o obedece, sabendo que ele as vê pelas câmeras. Como mágica, uma porta de correr se abre para cima, deixando a claridade da lua entrar junto com o barulho da chuva. Nicolas liberara a última porta para elas.
Assim que as duas colocam os pés para fora, Alex olha para o lado. Vê os soldados trajados saírem do bunker aberto pela primeira vez em sete anos, perseguindo os fugitivos.
O som ensurdecedor de explosões sequenciais se segue atrás delas.
Alex não para de correr, mas seu coração está despedaçado.
Olha para o campo aberto. Seu povo extermina os últimos que ousaram fugir, a minoria.
Ela olha para o bunker em chamas, fragmentando-se aos poucos.
A chuva que cai sobre ela têm o gosto da vitória, mais amargo do que ela esperava que fosse.
Ajoelha-se no chão e deixa a dor e a gratidão a abraçarem.
Acabou.
Fale com o autor