Depois da Meia Noite
1 Nunca é o fim
Notas iniciais
Clay adentrou a primeira sala aberta e se escondeu, ofegante pela corrida. O hospital estava fechado e não devia haver mais ninguém ali, além dele, Clara e o vigia. No entanto, o vigia estava morto, caído sobre uma poça de sangue, com marcas de garras ao redor do pescoço.
O que havia acontecido?
Assustado, passou as mãos pelos cabelos e buscou se concentrar. Sua irmã estava em algum lugar lá fora e ele precisava encontrá-la.
Colocando os pensamentos em ordem, rodou o olhar pelo cômodo onde se encontrava. Estava escuro, mas pela luz do luar que entrava pela pequena janela no canto direito da sala, pôde observar alguns utensílios. Havia duas poltronas brancas de dentista, mesas com rodinhas e objetos de uso odontológico dispostos sobre elas.
Indo até os itens encontrou objetos de tortura muito temidos quando era criança: agulhas de anestesia, canudos para sugar líquidos, máquinas para remover cárie. Uma verdadeira barbárie dentária.
Pelo visto nada daquilo iria servir a não ser que o monstro escondido no hospital tivesse medo de agulhas ou, ao que parecia ser o objeto da direita, uma broca.
Suspirou, retornando até a porta de saída, parando alguns segundos antes de abrir para verificar se ouvia algum barulho. Nada. O hospital estava mergulhado no mais profundo silêncio.
O corredor estava vazio e escuro. Clay precisou de alguns segundos para assimilar os móveis no meio do corredor. Havia cadeiras escoradas às paredes e uma lixeira a poucos centímetros. Desviou dos objetos e se afastou, tomando o cuidado de não fazer barulho.
Clara devia estar na recepção, onde a deixara antes de sair em busca de medicamentos, porém, conhecendo a irmã, deveria imaginar que ela havia partido a sua procura.
Clay se encolheu junto a parede quando ouviu passos. Um barulho se seguiu depois, se assemelhando a um rugido de uma criatura descomunal.
— Corre, toupeira — Clara surgiu no corredor, gritando desesperada enquanto corria. Atrás da garota um vulto preto se materializou. O monstro era muito maior que um cachorro, pode notar. Tinha duas vezes o tamanho de um cavalo e corria rápida e desengonçadamente, colidindo com os objetos no meio do caminho numa íra ensandecida.
— Por acaso você tá querendo morrer? — Clara arrastou Clay pelo braço, fazendo-o começar a acompanhá-la.
— A-aquilo… Aquilo é…
— Não faço ideia. Mas essa coisa não vai comer a gente.
Clay assentiu, não muito confiante nas palavras da irmã. Aquela coisa era enorme e corria mais rápido que um maratonista. Não tinham chance de fugir.
— Está nos alcançando — Alertou.
— Eu sei, eu sei — Clara se aproximou da porta a direita do corredor e tentou abri-la. Sem sucesso.
Porque as pessoas trancavam as portas dos consultórios? Será que ninguém tinha em mente que um monstro gigantesco podia perseguir as pessoas no meio da noite?
— Me ajuda aí — Gritou para o irmão. — Tente abrir as portas.
Clay sabia que não encontrariam nenhuma porta destrancada. Havia tentado todas há minutos atrás. A única porta aberta era a da sala onde estava e que agora se encontrava lá atrás. Teriam que enfrentar a fera para atravessá-la.
Um arrepio passou pelo seu corpo. Nem pensar.
— Clara — Chamou, mas não obteve resposta. Sua irmã estava empenhada na tarefa de girar as maçanetas e soltar um palavrão após não obter sucesso — Clara.
— O que é, Clay? Não sei se sabe, mas estou tentando salvar a nossa pele.
— Hm… então é melhor andar rápido, porque estamos sem saída.
A garota levantou o olhar para o final do corredor. Não havia mais portas, apenas a parede e uma janela, que eles bem sabiam que dava para um desfiladeiro.
Droga, droga, droga. De quem tinha sido a ideia de invadir um hospital deserto no meio da noite? Ah, sim, do seu irmão idiota.
O monstro rugiu e um estrondo se seguiu. Clay arriscou olhar para trás, vendo um buraco em uma das paredes, deixado pela colisão do bicho.
— Ele é cego — constatou, com um pingo de esperança iluminando sua mente — Não pode nos ver.
— Mas pode nos farejar — Clara apontou na direção do monstro. Ele havia ressurgido no corredor e arrastava o enorme focinho no chão, buscando a localização das presas.
Agora os irmãos estavam encurralados. A frente só havia a parede de tijolos e uma janela grande o bastante. Clara se aproximou e analisou o tamanho da queda.
— Essa é uma boa hora para você ter uma de suas ideia malucas — A garota fitou-o por um instante, com os enormes olhos escuros se sobressaltando na luz da noite estrelada — Ou então teremos que pular.
— Você ficou louca? Vamos morrer.
— Clay, iremos morrer de qualquer jeito — Constatou, abrindo um sorriso sarcástico — E não pretendo ser comida por um monstro demoníaco.
O garoto pareceu pensar e, se dando conta da situação, caminhou em direção a janela.
— Então que façamos isso logo.
— Foi bom sobreviver com você, idiota.
Dando um último sorriso irônico, ele se voltou para a irmã.
— Não seja sentimentalista, maninha. Nunca é o fim.
E os dois pularam.
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