Depois da Meia-Noite
2 Capítulo II
Notas iniciais
HANSEL AND GRETEL
— Deixe-os na floresta.
A voz da madrasta os assustava. João virou-se para a irmã, os olhos azuis manchados de preocupação, mesmo com tão pouca idade. Ouviam a madrasta conversar com seu pai, um miserável lenhador.
— Seria pecado, — comentou o pai, remexendo-se na cadeira apodrecida feita por ele próprio. Gesticulava loucamente com as mãos, e seu tom era de desespero e absurdo. — Deus mandaria-me direto para o inferno!
A madrasta estava de pé, as pernas finíssimas apoiando o corpo imenso e desproporcional. João abraçou Maria ao ouvir a madrasta soltar um grito.
— Pois que se dane seu Deus, o que importa neste momento é a nossa ínfima vida, deplorável condição! Mal nos alimentamos duas vezes ao dia.. eles morrerão brevemente, por quê não adiar tal destino? — retrucou a mulher, como se estivesse debatendo com um animal irracional. O paupérrimo lenhador mordeu seus lábios ressecados, lançando um olhar ao quarto de seus filhos. João e Maria apertaram a mão um do outro, como se em qualquer oportunidade pudessem evaporar, sumir dali. Se apertaram contra a parede adjacente à sala onde os pais estavam. João acidentalmente projetou sua sombra de modo que a madrasta pôde notar a presença, e os irmãos correram de volta ao seu minúsculo quarto.
— Morreremos — disse João, apenas. — Nós morreremos, Maria.
Ela deitou em um colchão no chão, velho e empoeirado. O irmão se pôs ao seu lado, como sempre fazia.
— Mas morreremos juntos.
E, com as mãos entrelaçadas e corpos colados, os irmãos dormiram.
Maria sonhava com a escuridão onipotente. Não se movia; estava lá apenas por alma. Rebateu-se no breu sem fim, mas não obteve êxito. Um som alto a trouxe à realidade. Seu nome estava sendo chamado.
— Maria! Maria!
Era seu irmão. Ao acordar de supetão e desesperada, Maria remexeu-se, assim como no sonho. O colchão estava irregular, a terra abaixo de si tornava-se ondulada. Mas não havia nenhum colchão ali. Os irmãos estavam sendo carregados por algo.
Ou talvez por alguém.
— Me solte! — João protestava loucamente, como uma sirene ativa. Maria então percebeu que estava sendo carregada pelo pai. Iria ele os levar para a floresta, como a madrasta propôs sem remorso? Ela também elevou a voz, clamando por socorro. O lenhador a segurava com um dos braços, João estava no outro. Andava com os passos arrastados, como se estivesse sendo forçado a cumprir esta tarefa. O cheiro, a pouca luz.. Tudo indiciava que eles já chegavam na densa, misteriosa e temida floresta perto de seu casebre.
— Papai.. — lágrimas rolavam pela face redondinha de João. Suas bochechas queimavam com a raiva e nervosismo. — Papai, nos deixe em casa.. Nós te imploramos, clemência.
O lenhador não respondeu. Acelerou o passo e depois de muito caminhar, os jogou com violência no chão duro.
Por fim, falou com algidez:
— Que Deus me perdoe pelos meus pecados.
Maria ainda tentou se por de pé, mas estava indubitavelmente fraca e permanecia em estado de choque. João exalava adrenalina, pelo contrário. Levantou as perninhas gorduchas e ameaçava dar alguns passos. Mas o lenhador já tinha ido.
Os irmãos não se tocaram, nem trocaram palavras. Ficaram lá, em estado de choque, sem se olhar. Pois a ideia de tentar retornar tinha sido descartada, e eles sabiam muito bem que dali não havia mais volta.
A barriga de João roncava de fome, e Maria lançou um preocupado olhar a ele. Ainda estavam estirados no local onde o lenhador os deixou, e não faziam questão de se levantarem. Afinal, fracos e inúteis como estavam, não adiantaria muito.
Mas, desse modo, morreriam em poucas dias, por inanição. Maria, ao perceber isso, encorajou João.
— João.. — a irmã gaguejou com dificuldade. — Tente.. se pôr de pé..
Ele o fez, mas desabou no segundo passo que deu. Prosseguiu, e pôde se sentar adequadamente. Apenas quando revelou seu corpo foi que Maria percebeu as lesões que tinha. Arranhões, sangramento, cortes.. Onde ele tinha conseguido tudo isso? Mesmo após ser atirada no chão pelo lenhador, Maria estava incólume.
— João, por quê estás todo machucado? — sua voz morreu no final da frase, reduzindo-se gradativamente até tornar-se um silêncio ensurdecedor. O irmão a olhou com certo ânimo e cansaço.
— Você poderia estar adormecida, mas eu estava bem acordado. Tentei me livrar do lenhador, — ele disse. — E ele me bateu diversas vezes.. Foi quando gritei para te acordar, Maria.
— Obrigada. — ela não sabia o por quê de suas apologias, mas sentia que era o certo a fazer naquela hora. Ele não respondeu, apenas acenou com a cabeça quase melancólico. Maria também sentou-se, e pôs-se a ouvir os sons da floresta. Chiar de pássaros amanhecidos — afinal, já era alvorada —, patadas de animais grandes e também uivos altos.
Lobos. Apenas a ideia dos carnívoros se aproximando deles, já assustava os irmãos. João pôde se levantar, agora motivado pelo medo da morte. Pegou na mãozinha gorducha de Maria e a levou consigo. Para onde, ele não sabia. Mas para bem longe dali, ambos esperavam. Tinham que dar um jeito de sobreviver, sozinhos.
O lenhador poderia tê-los abandonado a morrerem sós, mas eles nunca se sentiram tão juntos.
— Você está sangrando, João — observou Maria, cautelosamente. O irmão andava rápido, abrindo ainda mais suas feridas. — É melhor nós pararmos, talvez subir em árvores, e descansar um pouco. E se acharmos frutas lá encima? Estou faminta.
Ele parou subitamente, e concordou.
— Tudo bem. Mas, diga-me, — João parecia desconfiado. — Alguém aqui sabe subir em árvores, Maria?
A verdade nas palavras do irmão abateram-na como tiros de pistola. Eles nunca tiveram muito contato com o exterior, pois a madrasta os obrigava a fazer serviços da casa. O pai nunca a questionava, e por isso a palavra da madrasta era onipotente.
— Sempre há a primeira vez. — replicou Maria. — Pois diga-me também, João, se preferes ficar aqui e morrer de fome, ou tentar subir?
Ele pôs as mãos ao alto e andou até a árvore mais próxima. Ofereceu ajuda a irmã, que se prontificou a tentar primeiro—afinal, era mais leve.
— Miserável! — reclamou a irmã, ao cair de bruços no chão. O galho em que se apoiou era fraco demais para aguentar seu peso. — Acho que não vai dar. Aliás, dá para ver daqui debaixo que não há frutas lá encima. Seria uma viagem inútil e cansativa.
João respondeu àquilo como se estivesse certo desde o início, e que Maria não tinha o ouvido. Ela o ignorou com prontidão, e ambos continuaram a andar sem direção alguma. Seguiram um caminho sinuoso e desconhecido. Até que João teve uma ideia deliberante.
— Vou juntar pedrinhas, e jogá-las pelo caminho. Aí, se estivermos caminhando em círculos ou algo do tipo, poderemos mudar de direção.
Maria franziu o cenho.
— Mas tem pedras demais aqui. Não vamos nos confundir? — perguntou, um tom curioso recém-adquirido surgindo na fina, clara voz infantil.
— Não se as pedras brilharem no escuro, Maria. Veja, esta espécie aqui — pegou uma pedra do chão, após de inspecionar várias outras. — Ela brilha levemente no escuro, de noite. Maria, posso não saber de muita coisa, mas de pedras, eu entendo.
Ela deu de ombros, parecendo satisfeita com a ideia. Era óbvio que João sabia sobre pedras, afinal, ele atirava algumas nos passarinhos sempre que conseguia dar uma fugidinha de seus serviços da casa.
Maria agachou-se no chão, ao lado do irmão, olhando as rochas.
— Tudo bem. Pegue-as, eu ajudo a carregar. Mas não demore muito.
Ele obedeceu, pondo as pedrinhas no bolso. Maria também fez o mesmo, colocando também em seus sapatos velhos e surrados, mas resistentes.
Assim, puseram-se a caminhar, João jogando uma pedrinha bem atrás de si a casa cinco passos. Ela caía em um baque surdo, exatamente no centro do caminho sinuoso.
— Precisamos, agora, achar comida. — comentou a irmã, como se estivesse recitando um poema, ou uma lista. Neste momento, estava se lembrando de quando a madrasta lhes dava comida. Quando não lhe obedeciam ou chegavam atrasados para o jantar, ela dizia, com a voz límpida, mas mentirosa: “Meninos maus, vocês são.” Maria continuou a falar, afastando as lembranças. — Frutas, descartadas; não há quase nenhuma aqui, e juro que já ouvi papai dizer uma vez que as amoras dos arbustos são muito venenosas.
A face de João de repente se iluminou. Ele teve outra ideia mirabolante, e Maria se preparou para ouvi-la de antemão.
— Pois monte uma armadilha! Vamos pegar algumas frutinhas venenosas lá, e esperar. Talvez algum animal coma e seja pego pela armadilha. O que acha? — João não esperou a avaliação da irmã, avançou logo nos arbustos portadores das frutas letais.
— Tenha cuidado, João! — gritou Maria, e o seguiu. Mas ele não estava nos arbustos. Na verdade, não estava em lugar algum. — João? João! Pare já com isso, não é nada engraçado!
Foi então que ela percebeu que era sério, João não tinha respondido, e não havia sinal dele. Pegadas, ou o cheiro.. nada. Mas então, Maria pôde ouvir ele a chamando, em alto e bom som. Correu em direção ao chamado do irmão presunçoso, sem se esquecer de jogar as pedrinhas por detrás de si, por precaução.
— João, João! — ela chamava. Quando finalmente viu a silhueta do irmão, respirou fundo, liberando oxigênio. Aliviada, Maria foi até ele. Estava prestes a censurá-lo, mas então viu uma imensa casa, com uma aura deliciosa emanando dela. O caminho era parecido com biscoitos recheados de baunilha, as janelas de vidro estavam mais para Maria-Mole, e as paredes eram de gergelim. Aquela casa era feita inteiramente de doces, balas e puro, doce açúcar.
— Vamos entrar! — João correu pelo caminho de biscoito de chocolate, e Maria o seguiu. Estava fascinada pela casa, que era tão surreal e bela, apenas luxuriante demais para existir.
— Doce, Maria! É tudo doce! — o irmão debruçou-se no que seira a margem de um lago de chocolate branco, e bebericou da água adocicada. Pela sua reação, o gosto era fantástico. Maria se aproximou.
— Isso só pode ser um sonho, meu Deus do céu — ela provou da água, e adorou o sabor. — Que tal entrarmos? Deve ter muito mais disso lá dentro, João! Vamos logo, venha!
João concordou, mas apenas se levantou após encher as pequeninas mãos com o líquido e beber tudo em um gole só. Seguiu a irmã até a porta da casa, dando pequenos pulinhos.
— Bata na porta, — disse ao chegarem na entrada. — Você é a mais velha e a mais faminta de nós.
— Apenas alguns minutos mais velha, mas tudo bem. A fome venceu.
Maria bateu na porta com fervor, mas ninguém a abriu. João decidiu arrombar, e o fez depois de muito esforço. A porta era de pão de ló, e estava fortemente enterrada.
— Alguém está aqui? — lá dentro, era igual ao lado de fora. O cheiro de doce era intenso, e toda a mobília era feita de açúcar, com a arquitetura simples e rústica, como um casebre parecido com a casa dos irmãos.
Uma voz rouca e idosa ecoou pela casa, assustando-os. Era estranhamente familiar.. mas incapaz de ser reconhecida, como um quebra-cabeça incompleto. Sem sentido.
— Parece que tenho visitas. — murmurou a voz, materializando-se como uma idosa mulher na frente deles. A questão que pinicava na mente de Maria era simples: de onde ela tinha vindo? Não houve resquício de movimento, ela simplesmente apareceu ali. Como mágica.
— Quem é você? — João tomou a iniciativa, com uma onda de coragem atingindo-o como uma faca de dois gumes: o ajudou, mas também era incrivelmente arriscado usá-la.
— Ora, ora — sorriu a antiquada, expondo dentes amarelos e sujos. Instintivamente, Maria deu um passo para trás, mas João permaneceu no mesmo lugar, o peito inflado. Ela sabia que ele agiria assim. João sempre fora orgulhoso, e metido a corajoso; embora a irmã nunca tivesse duvidado de sua bravura.
— Eu disse, quem é você? — a voz do irmão se intensificou, até Maria assustou-se com o tom. A velha não pareceu se incomodar; permaneceu inerte, olhando os dois de um modo repugnante, como se já estivesse acostumada com isso. Isso fez a curiosidade de Maria florescer.
— Bruxa, feiticeira, — listou a mulher. — Existem apenas adjetivos para me identificar. Até mesmo, madrasta. Mas não tenho filhos. Não mais.
João a olhou, perguntando-se mil coisas ao mesmo tempo. Mas descartou as inúteis. Nenhuma restou. Ele se remexeu ao lado de Maria e agarrou a mão da irmã.
— Vamos embora daqui — sussurrou a menina no ouvido dele. — João, vamos embora. Tenho um mal pressentimento quanto à este lugar.
— Engraçado, você não sentia isso há uns cinco minutos, Maria.
Os irmãos falavam baixo, mas isso não empatou a audição da velha. Ela ergueu as sobrancelhas ralas e andou até eles, sem que notassem. Parecia flutuar, e seu andar era silencioso como um rastejo de cobra.
— Vocês são parecidos. — observou a mulher, melancolicamente. — Devem ser irmãos, não é mesmo?
Sem saber o que fazer, eles acenaram com a cabeça, afirmando.
— Como eu disse. — ela sorriu, se sentindo triunfante por alguns segundos. Pelo menos, foi o que Maria pensou, já que a senhora era monótona, fria, não exibia emoção alguma. — Bem, espero que gostem de doces. Eu tenho muitos doces.
João, inocente, sorriu animadamente.
— Adoramos seus doces!
A senhora flutuou mais para perto, piscando os olhos escuros. Ela tocou na face do irmão de Maria com os dedos esqueléticos, causando vários arrepios na pele do jovem garoto. Ele deu um passo para trás, assustado.
— Não tenha medo, meu menino; a não ser que queira ir para a panela de caldo com sua irmãzinha.. Vocês fariam um bom ensopado — ela gargalhou, cuspindo neles. Maria abriu a poca em um O perfeito, pegou a mão do irmão e pôs-se a correr para a porta principal. Mas, antes que pudessem completar a fuga, a senhora fechou a porta com magia. Simplesmente estendeu os braços e fechou-a. Era uma bruxa mesmo! Os irmãos caíram no chão com tamanho desespero, e a idosa se deslocou até eles, maligna. Puxou-os pelas camisas, arrastando-os com violência até outro cômodo. João lutava, Maria debatia-se, mas a velha usava magia para mantê-los agarrados a ela. Quando chegaram na outra sala, viram que era um tipo de cozinha, com um cheiro saboroso de pasta de amendoim e creme.
Não tiveram muito tempo para aproveitar o aroma, a idosa logo os puxou mais para cima, e enquanto preparava algo com magia, fechava os olhos dos irmãos, que já estavam fracos demais para lutar contra. A mulher então os soltou. Maria pensou em liberdade, vôo, céu; mas seus pensamentos foram esvaídos após ela desabar em um lago quente, uma piscina vulcânica. Uma panela de pressão. O lago, a água, era sopa. Eles estavam em um ensopado.
Antes de adormecer naquele calor encharcado, Maria pôde segurar na mão de seu irmão já desmaiado e abatido pela temperatura, e ouvir a antiquada murmurar do lado de fora:
— Meninos maus, vocês são..
Fale com o autor