Depois da Guerra.
7 Um bom perdedor, sempre admite a derrota.
Notas iniciais
Ela estava pálida, a pele estava sem brilho como há muito tempo atrás já estava. Sua respiração entrecortada. Seus olhos estavam escuros, mostrando que já estava na hora de partir. Ela ergueu a mão com dificuldade, apontou o dedo para mim em seguida o contorceu, me chamando. Tossiu várias vezes, até se engasgar na própria saliva. Segurei seu tronco, dando auxilio para que ela inclinasse o corpo para cima.
Ela estava mais magra, cansada. Senti seus ossos arquearem de encontro ao meu corpo quando ela se sentou na cama. Segurei em sua mão. Meus olhos trilharam caminhos da ponta de seus dedos finos, até o seu ombro ossudo. Olhei para seu rosto, que mostrava o quanto à mulher está cansada. Fixei meus olhos em seus lábios que formavam um fino sorriso, mas o mais bonito que ela podia dar. Seu frágil corpo estava queimando de febre, ela não tinha mais forças.
Ela ergueu a mão e acariciou meu rosto, passou os finos dedos pela minha barba e meus cabelos que estavam compridos. Uzuri começou a vomitar e ter febre praticamente todas as noites. Sua imunidade ficou baixa, ela pegou pneumonia, e diversos fatores fizeram ela ficar enferma. Há três meses ela luta contra essa doença que ninguém sabe o que é. Um dos curandeiros da aldeia, disse que nunca lidou com algo parecido, e me preveniu, disse que devia ser forte, por que Uzuri não resistiria tanto tempo.
Fito seus olhos escuros e sem luz. O sorriso continua delineando seus lábios.
– Você tem que me prometer Pedro. – sorriu fraco e em seguida começou a tossir. – Prometer... – pigarreou. – Que vai dar um jeito de sair daqui, e voltar para sua casa, voltar para Karina. Prometa Pedro. – sua voz era fraca e ao mesmo tempo ameaçadora.
– Eu prometo. – murmuro.
– Nós nunca sabemos quando vamos morrer. Eu pensei que ia conseguir sair daqui, nunca perdi minha fé. E agora, eu estou morrendo. Meu corpo está fraco, meu coração bate cada vez mais lento... – pigarreia. – Nunca perca a fé Pedro, ela vai ser sua maior arma. – vejo seus olhos cor de mel perdendo a vida. Uma única lágrima escorre do seu olho esquerdo, eles se fecham vagarosamente, seu sorriso se desfaz aos poucos.
– Não! – chacoalho o corpo dela nos meus braços. – Não, por favor! – encosto sua cabeça no meu peito. Sinto as lágrimas rolarem dos meus olhos e encharcarem minha camisa surrada.
Aperto meus olhos, para evitar as lagrimas de continuarem caindo compulsivamente. Uzuri é uma pessoa tão boa, não entendo o porquê de Deus levar ela. Ela sempre teve fé nele.
Por que você fez isso?! Por que a levou! Ela sempre ajudou os outros, ela salvou minha vida, e eu não pude salvar a dela, ela se foi. Isso não é justo. Não se tira as pessoas boas da terra. As pessoas más que deviam morrer. Eles fizeram isso com ela, eles deviam morrer e não ela. Do que adianta ter fé, se não somos salvos?
Ela morreu!
[...]
Eu estou quase completando cinco anos longe de casa. Os dias não passam, tornaram-se mais compridos. Depois da morte de Uzuri, há seis meses, eu desisti. Desisti de lutar, de achar um caminho para voltar para a minha casa. Desistir de tudo.
A minha fé tinha morrido junto com Uzuri, eu não tenho mais fé, nunca mais vou sair dessa maldita aldeia. Vou acabar morrendo como Uzuri, a mulher que salvou minha vida.
A morte dela me machucou tanto, que eu não tenho palavras para distinguir o tamanho da dor que senti e ainda sinto. Ela nunca desistiu, nunca perdeu a fé, sempre lutou para achar uma maneira de a gente sair desse inferno. E eu sou fraco, não tenho mais forças. Já perdi, e um bom perdedor, sempre admite a derrota.
Todos os dias eram iguais a mesma rotina, sou acordado cedo e obrigado a trabalhar. E todos os dias, quando a escuridão toma conta da aldeia, somos todos trancados em uma cela qualquer.
–---
Acordei com alguém chutando a minha perna. Abri os olhos e um feixe de luz atingiu-os em cheio. Sentei-me no colchão e firmei minhas costas na parede gelada. Identifiquei o objeto que transmitia luz como uma lanterna. A luz se apagou e a pessoa a minha frente se agachou.
A pouca luz que invadia a cela, não era o suficiente para me fazer enxergar o rosto da pessoa parada na minha frente, sua respiração era pesada e acelerada, parecia ter acabado de fazer grande esforço. Ele falou algumas palavras na língua afegã, que eu entendi como – “como você se chama?”.
– Pedro...Meu nome é Pedro. – a luz da lanterna foi ligada novamente e percorreu por todo o meu rosto.
– Ó meu Deus! – exclamou a pessoa na minha frente. Suas mãos seguraram meus ombros e ele me ergueu. – Você está vivo? – antes que eu respondesse, ele me arrastou para fora daquela cela. Guiou-me para fora do local. Senti a terra entre meus dedos. Olhei ao redor e vi vários soldados, com armas. O fogo tomava conta da aldeia, corpos de pessoas mortas se espalhavam pelo chão. Alguns soldados limpavam ferimentos de inocentes e os dava água. O cenário era de guerra, como eu estava acostumado já. Olhei para o soldado que me arrastou para fora da cela e ali pude ver bem as linhas do seu rosto, uma cicatriz de queimadura marcava sua bochecha.
– André. – minha voz saiu como um sussurro.
– Hey amigão! Como você está? – ele me abraça. – Desculpa não vir antes. Não sabíamos que você estava vivo, isso não passou pela minha cabeça. Recebemos informação do exercito dos Estados Unidos de que aqui se encontrava uma fabrica de bombas. O pelotão recebeu a ordem direta da ONU ontem mesmo. Viemos imediatamente. – diz.
– Tudo bem. – a expressão dele se suaviza.
– Como sobreviveu ao incêndio? – indaga. Ele analisa todo meu corpo a procura de ferimentos.
– Eu pulei. Arrastei-me até uma janela e pulei. Com a queda acabei desmaiado, acordei em uma aldeia próxima do local onde ficava o galpão, sem memória. – ele fechou os olhos e maneou a cabeça.
– Não acredito que passou por tudo isso. – diz.
– E você como saiu de lá? – pergunto. Andre era um dos soldados que estava dentro do galpão comigo, ele estava no andar de baixo.
– Fiz como uma cobra. – diz de forma engraçada. – Tive metade da minha perna e de um braço queimado. Estava perto dos produtos químicos quando o fogo iniciou, respingos atingiram meu rosto, resultado dessa cicatriz aqui. – passa o indicador na borda da cicatriz na bochecha. – Depois me arrastei até a porta e outros soldados me tiraram do galpão. Cinco soldados morreram naquele dia, incluindo você. – vejo como Andre ainda se sente triste.
– Você viu minha família, Karina... João? – vejo em seus olhos que a resposta é não.
– Sinto muito, Cara. Eu estou com o exercito há três anos, sem tempo para folgas. Fiquei quase um ano internado, tinha muita fumaça no meu pulmão, entrei em coma induzido. Depois de acordar minha família me levou para a cidade deles, então eu resolvi voltar a servir ao exercito. Queria honrar o seu nome e o nome dos outros quatro soldados que morreram aquele dia. – seus olhos enchem-se de lágrimas.
– Soldado Alencar? – uma mulher para na frente de Andre, ele vira-se e faz continência.
– Comandante. – diz.
– Divida as tropas. De auxilio a essas pessoas. Partiremos em outra missão na quinta feira de manhã. – ordena.
– Sim, senhora. – a mulher faz continência e sai.
– Cadê o nosso comandante? – questiono.
– Pediu dispensa. – responde. – Patrícia é uma boa comandante, durona e profissional. Ela esteve à frente dessa missão. Nenhum inocente foi morto, alguns se feriram, mais sem mortes de inocentes. Ela é ótima. – vejo a forma carinhosa que ele fala da mulher.
– Parece que alguém está apaixonado. – provoco.
– Cara, você está horrível. Parece o papai Noel com essa barba. – retruca.
– Foram quase cinco anos, sem ficar perto de uma Gillette. Não queira passar pelo que passei. – falo de forma engraçada.
– Vou arrumar um lugar para você se limpar e também uma Gillette, para você se livrar dessa barba. – assinto.
[...]
A quinta-feira chegou rápido. Patrícia a comandante me propôs uma ultima missão. Eles iam para a Líbia, lutar contra os terroristas de lá. Pediu que eu pensasse direito. Eu disse que ia pensar.
O exercito ia invadir outro local, onde pessoas inocentes eram feitas de reféns e escravos. Tudo que eu queria era vingar o nome de Uzuri e tirar pessoas inocentes das mãos de terroristas, mas tinha Karina e minha família, e tudo que eu queria era vê-los.
[...]
KARINA...
Sophi esta me deixando louca. Ninguém mais segura essa menina. Agora não quer ir para escola, está aninhada no berço coberta até a cabeça e fazendo bico. Pedi o que estava acontecendo, mas ela não quis dizer o que era.
Entro no quarto dela, que ela me fez mudar toda a decoração e colocar as princesas Elza e Anna em uma parede, Olaf em outra. Sua cama agora é coberta com ursinhos de pelúcia do filme frozen, estou cansada de assistir o filme toda a noite com ela, e depois cantar “Você quer brincara na neve, um boneco quer fazer”. Mas, quando a vejo dormir como um anjo, todo o cansaço some. Ela é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, minha pequena princesa.
Seu aniversário de cinco anos está próximo. A festa está sendo organizada por Delma e Tomtom. Era para ser uma festa surpresa, porem Sophi escutou os avos falar sobre a decoração e o bolo. Resumindo ela estragou a surpresa, e ficou me perguntando a semana inteira se ia ter um boneco de neve na festa.
– Meu anjo o que está acontecendo? – puxo a coberta que cobre todo o seu corpo. Ela pega a rena de pelúcia e cobre o rosto. Vejo que seus olhos estão vermelhos e suas bochechas também, isso quer dizer que ela estava chorando. Sento na cama e a puxo para o meu colo. – Você estava chorando? – ela afunda o rostinho na volta do meu pescoço.
– Sim. – murmura.
– E por que você estava chorando? – questiono.
– Puque a professola falo que o dia do pai está chegando... – sua voz fica fraquinha. – E vai te uma apesentação pala eles no anfiteato, mas meu papai não vai pode i. – ela começa a chorar. A abraço em seguida beijo todo seu rosto marcado por lagrimas. – Ai eu falei que meu pai não ia pude i, puque ele é um anjo, as outas quianças falaram que ele me abandonou. – limpo as lagrimas que rolam dos seus olhos.
– Papai não abandonou você, ele amava você, mais do que tudo. – beijo sua pequena testa.
– Vucê é meu papai agola, né? – olha dentro dos meus olhos.
– Sua mamãe e seu papai. – ela sorri e me abraça forte, beija minhas bochechas e minha testa.
– então vucê vai i nessa apesentação? – assinto. – Vai ser o papai mais lindo de todos. – dou uma leve mordida em seu queixinho e começo a fazer cócegas em sua barriga, Sophi começa a gargalhar e por um momento ela esquece a tristeza que sente.
Os dias passaram rápidos, na verdade todos os dias passam rápidos, quando Sophi é quem o comanda. A apresentação na escola foi incrível, ela dançou e cantou, estava linda como sempre. Meu pai também foi na apresentação depois dela insistir. Ele tinha um torneio de luta para ir, teria que acompanhar a escola, mas deixou Duca no comendo e foi à apresentação de Sophi. No final chorou compulsivamente e a aplaudiu de pé. Assim como todos que estavam no anfiteatro. Minha filha me encheu de orgulho, foi impecável mesmo estando triste por seu pai não estar na platéia.
A ultima encrenca foi com a roupa que ela ia usar na sua festa. Foi meu pai que levou ela para escolher a roupa, e eu pensando que ela ia escolher um vestido todo azul, como o da Elza do filme frozen. Mas não, ela escolheu a fantasia da pequena miss sunshine. E como meu pai faz tudo que ela quer, mesmo eu achando isso errado, ele percorreu diversas lojas até achar a roupa que Sophi queria.
Fui acordada cedo por ele no dia do seu aniversário. Seus pequenos pezinhos pulavam no chão de euforia. Levantei e a dei café da manhã. Dei um banho nela e depois a vesti com a roupa que ela escolheu. Deixei-a sentada na frente da televisão assistindo Scooby Doo. Tomei um banho e me vesti rapidamente.
Tinha deixado a caixa do seu presente sobre a minha cama, quando sai do banheiro ela tinha aberto a caixa e já estava vestindo a roupinha, toda verde.
– Olha mamãe, agola eu sou do execito. – começa a pular de um lado para o outro. Ela tinha me pedido aquela roupa depois que viu a foto de Pedro ao lado dos seus companheiros em uma missão antes da sua morte.
– Sim amor. Mas do exercito da amizade. Olha o que está escrito aqui. – aponto para as letras no casaco. – Comandante da amizade. – ela sorri e me abraça.
– Eu amei o pesente. – diz, depois de babar em meu rosto.
– Agora troque de roupa que temos que sair já. – olho para o relógio que marca quase duas horas da tarde.
– Já estou pronta. – sua voz é firme.
– Então vamos. – pego minha bolsa e depois Sophi.
Estaciono o carro na frente da casa de Delma. Abro a porta e Sophi sai como um furacão. Entra na casa e vai direto para o jardim. Entro na casa e guardo minha bolsa em cima do balcão. A festa vai começar as três, então ninguém chegou.
– Sophi! – chamo. Entro na cozinha e abro a porta que dá acesso ao jardim. Vejo Sophi parada como uma estátua, olhando para frente. Olho na direção que ela olha, sinto meu coração explodir dentro do peito. Naturalmente as lagrimas descem pelo meu rosto, minhas pernas ficam bambas.
– Isso só pode ser um sonho. – seus olhos se cruzam com os meus. Seus lábios se alargam pelo rosto, formando um sorriso orelha a orelha. Sinto meu coração falhar. – Pedro. – sussurro.
Não é um sonho é real, ele está parado a alguns centímetros de mim. Com nossa filha em seus braços. Limpo minhas lágrimas e consigo dar um passo a frente. Tudo que eu quero é, abraçá-lo e beijá-lo, sentir minhas mãos tocando seu rosto e ver que tudo é real e não apenas um sonho.
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