Depois da Guerra.

21 O nosso herói


Notas iniciais
Musica do cap > https://www.youtube.com/watch?v=q1nQiSfL40Q Titãs, eu amo demais! Bom, não vou falar nada aqui. Quero que leiam o cap e se emocionem muito. Até lá em baixo.

KARINA.

Meu pai disse uma vez que nunca devemos perder as esperanças, não importa se todos vão dizer o contrario. Ele sempre disse que não podemos desistir de acreditar, e que para tudo existe uma saída. E que todos terão um final feliz, por mais que o inicio e o meio seja repleto de buracos pelo caminho, ninguém será feliz sem enfrentar obstáculos, porém, o fim é gratificante.

Aprendi enquanto o mestre Gael me ensinava a andar de bicicleta, depois de diversos tombos e ferimentos nos cotovelos e joelhos, que nunca devemos desistir. E que devemos ter fé. E no final, quando eu conseguia dar uma volta inteira sem cair de bicicleta eu me sentia gratificada, e vento batendo em meu rosto era uma das melhores sensações da minha infância.

Mas, como alguns dizem, a vida não é como andar de bicicleta e quase nunca tem um final feliz do jeito que sonhamos. Muitos acabam desistindo, Mas existem muitos que escolhem seguir em frente e conquistar o tão sonhado final feliz. O fato é, eu sempre tive esperança, até quando eu recebi a noticia da morte de Pedro, uma parte de mim estava ligada a esperança que eu sentia de ele estar vivo.

E não foi diferente de quando Pedro partiu mais uma vez para aquele mundo onde existe apenas a escuridão. Eu continuo tendo esperanças de que ele vai voltar, ele prometeu que voltaria e Pedro costuma cumprir suas promessas. Ele nunca deixaria sua família, as pessoas que ele ama, ele lutaria até o fim, até que suas forças esvaíssem do seu corpo.

— Mamãe, vucê está estanha. Aconteceu aguma cosa? — indagou Sophi, segurando minha mão que ainda tremia, minha filha estava apavorada, eu não podia deixa-la daquele jeito.

— Mamãe está bem. — tentei manter minha voz firme, para que ela ficasse calma. Peguei o telefone que havia caído da minha mão depois da ligação que tinha recebido. Digitei a combinação de números.

‘Oi Ka, aconteceu alguma coisa?’

— Bianca, eu preciso que você venha para cá agora. — falei com a voz tremula. — Não me pergunte nada, apenas venha para cá. — desliguei a ligação para evitar as perguntas de Bianca.

— Mamãe... — Sophi ainda me olhava assustada. Mas, eu sentia um nó formar-se em minha garganta impedindo que o som saísse das minhas cordas vocais. Eu não conseguia raciocinar direito, minhas pernas e mãos tremiam. Apenas me agachei e envolvi o corpo de Sophi, a abracei forte, eu precisava daquele abraço e ela também.

— Nós vamos ficar bem. — passei minha mão sobre minha barriga e outra sobre os cabelos de Sophi. — Mamãe promete. — tentei não desabar na frente de minha filha. Preciso me manter forte para ela e o bebe.

— Vucê está bem memo? — ela pousou suas delicadas e macias mãos em minhas bochechas, começou a secar minhas lágrimas que até então eu pensei que não existia. Sorri para ela.

— Nós vamos ver o papai. — falei e então ela abriu um enorme sorriso. Seus finos lábios começaram a tremer e seus olhos se encheram de lágrimas que logo rolaram pelo seu rostinho delicado.

— Ele já volto? — assenti. — Por que ele não veio para casa?

— Essa parte é um pouco delicada meu amor, mas ele logo vai estar em casa. Ele está machucado e precisa se curar.

— Quem machucou o papai? Ele é um herói.

— Heróis também são feridos. – respondo, colocando seus fios de cabelos para trás das orelhas. — Mas sempre se curam.

— Vamu ver ele agola?

— Sim. Vamos apenas esperar a tia Bianca. — ela sorri e bate palmas.

— Vo pega a rêna. Ela sempe me ajuda a melholar cando estou duente. Vou colaca ela bem do ladinho do papai. — ela saiu dando pulinhos em direção ao seu quarto.

Mantenho o fluxo da minha respiração mesmo com certa dificuldade. Eu sabia que ele voltaria para nós. Que Pedro não desistiria, desistir nunca foi do seu feitio. Mas, o general deixou bem claro que a cirurgia foi delicada e que o estado dele ainda é estável, e eu ainda sinto muito medo de perdê-lo.

— Ponto mamãe, agola a gente já vai? — pergunta animada. Eu sorrio, sei como Sophi se sente, é o pai dela, ela o ama demais. — A rêna vai potegê o papai e fazê ele se cula lapidão.

— Eu sei meu amor, mas mamãe está nervosa demais para dirigir. Por isso que eu pedi que tia Bianca viesse para cá. — explico tudo com paciência, para que ela entenda.

— Está bem, eu julo que vou tê calma. — fala, dando beijinhos nos seus dedinhos gorduchos.

— Você é a melhor filha do mundo. — me aproximo dela e a abraço forte. Sophi me transmite uma sensação boa, ela me faz ficar mais tranquila.

— Tia Bianca está demolando. — sussurra no meu ouvido. — Mas eu sei espelá. — distribuo beijos em suas bochechas gorduchas.

— Já sei o que fazer para passar o tempo. Que tal você fazer um cartão para o papai, enquanto eu arrumo algumas roupas para ele. — ela endireita o pescoço e fita meus olhos.

— Sim! — exclama. — Um caitão bem bunito, cheio de palavas bonitas palá o papai?

— Isso. — ela pula do meu colo e corre até o sofá, onde sua mochila foi deixada.

— Vou fazê um desenho bem bonito. — eu assinto, ela senta-se no sofá e tira caderno e lápis da mochila. Aproveito que ela está concentrada no desenho e vou até o quarto. Arrumo algumas roupas de Pedro em uma pequena maleta.

Não tenho palavras para descrever o que estou sentindo. É algo indescritível, de um tamanho que não se mede. Confesso que quando eu acordei hoje, imaginei que o dia não teria grandes novidades, notícias boas, mas agora, depois da noticia que recebi, posso julga-lo como um dos melhores dias da minha vida.

Volto para a sala já com a mala pronta e Sophi ainda está concentrada em seu desenho. Sento-me ao lado dela e observo seus traços que aos poucos formam um desenho, é um homem – o pai dela, com certeza. – ele está usando uma capa vermelha, e algo parecido com uma mascara ao redor dos olhos.

— Você está desenhando seu pai? — indago, ela olha para mim e seus lábios se alargam.

— Sim. O nosso herói. — diz naturalmente, como se o pai dela fosse o Batman. Dê certa forma ele é. — Vucê está gostando?

— Está ficando lindo. — digo. — Que tal acrescentarmos algumas palavras?

— Coloca em cima “Nosso herói”?

— Vai ficar ainda mais lindo. — ela me entrega o papel e um lápis de colorir vermelho, escrevo o que ela pediu.

— Em baixo, esqueve “Nós te amamos”?

— Uau! Seu pai vai ficar muito feliz.

— Agola coloca o nome nosso, da vovó, dos vovôs da tia Tomtom. Da Tia Bianca, do tio Duca. Da Dandará e do João. Será que cabe?

— Claro.

Terminamos o cartão, sei que Pedro vai amar o desenho e as palavras. A campainha toca. Levanto e ando apressada até a porta, abro-a e Bianca está visivelmente.

— Desculpa minha demora, tive que inventar uma desculpa para a minha chefe e depois enfrentar esse transito dos infernos. — explica. — Mas, aconteceu algo grave? Você estava nervosa no telefone.

— É o Pedro. — digo. Ela imediatamente fica pálida, sei o que ela deve estar pensando, que eu recebi uma noticia ruim. — Recebi uma ligação do general, ele disse que Pedro levou um tiro, que perdeu muito sangue e que passou por uma cirurgia de emergência. Ele está no centro cirúrgico do exercito. Não tenho mais detalhes, preciso que me leve até lá. Estou muito nervosa para dirigir.

— Então ele voltou?! — assinto. Ela corre a me abraça, começa a afagar minhas costas. — Delma e Marcelo já sabem disso?

— A essa altura já, o general disse que ia ligar para eles também.

— Okay. Claro que eu lhe levo até lá. Mas e Sophi?

— Eu vou com vucês, Ué. Quelo muito vê meu papai. — Bianca olha para mim, esperando que eu confirme.

— Claro que ela vai com a gente.

— Já podemos ir? — questiona Bianca.

— Sim. Agora mesmo. — pego a maleta sobre o sofá e seguro a mão de Sophi. Ela segura o cartão e a rena junto ao seu peito para não perdê-los.

[...]

PEDRO...

Eu acordei dentro de um quarto com paredes brancas e pouca iluminação. Não sabia se fora daquele cômodo eu ainda estava naquele inferno. Tudo estava tão tranquilo. Depois de alguns minutos uma enfermeira entrou no quarto, fiquei com receio de falar com ela. Até ela me tranquilizar e dizer que estava tudo bem como meu estado de saúde.

Eu juro que pensei que ia morrer e nunca mais ia poder ver os rostos daqueles que eu amo. Mas, quando a enfermeira falou que logo minha família estaria junto comigo eu senti algo gritar dentro de mim, foi um grito de felicidade com um misto de euforia. Eu estava de volta.

O médico entrou logo depois que a enfermeira saiu do cômodo. Ele me explicou onde eu estava e qual era exatamente eu meu quadro de saúde. Disse que eu fui transportado de avião, e que durante a viajem eu perdi muito sangue, e dados às circunstancias foi preciso uma transfusão, avisou também que eu havia fraturado duas costelas com o impacto da explosão da bomba.

Mas, eu só tenho a agradecer por estar bem, eu logo me recuperarei desses ferimentos e voltarei para a minha casa, para a minha família. Eu não vejo a hora de revê-los, beijar Karina. Abraçar Sophi, meus pais, e minha irmã. Tenho certeza que quando eles estiverem aqui às feridas curaram ainda mais rápido.

— Olá, será que eu posso entrar? — olho para a porta e é André. Ele está vestido com roupas hospitalar e seu rosto está bem melhor.

— Claro. — digo. Ele anda receoso até a cama, fixa os olhos no meu rosto.

— Queria lhe agradecer por ter salvado minha vida. Eu fiquei puto com você, eu sei. Mas, realmente o que fez foi muito ariscado. — ele engole o choro. — Se você não tivesse arriscado sua vida eu ainda estaria naquele inferno... Muito obrigado, amigo.

— Amigos fazem isso, salvam a vida um do outro. — digo. — Sei que você faria isso por mim. Como está o Bruno?

— Ele me ajudou a lhe carregar até o acampamento indicado no seu mapa. Você é pesado cara. — ele sorri. — Ele ficou lá, resolvendo questões burocráticas, ele quer muito adotar aquela criança. Já deu até o nome. Cléber.

— Cléber era um homem bom, não merecia ter morrido. Alguém mais morreu?

— A maioria. Mas, o grupo de rebeldes foi exterminado. — diz. — Você foi forte. Ficamos três dias naquele acampamento, estancando o seu sangue e lhe dando morfina. Você teve febre alta e delirou muito, chamava por Karina, Sophia, Tomtom e seus pais. Prometia a eles que voltaria. Você é casca grossa.

— Precisava voltar, tanto para mim quanto para eles. Não era apenas uma promessa a eles, mas também para mim. — falo, pensando em cada um deles. — Você já falou com sua família.

— Sim. Liguei para minha mãe, ela estava muito emotiva, porém, ficou bem depois de escutar a minha voz.

— Com licença. — diz a enfermeira, parada na porta. — Sua mãe quer lhe ver.

— Mande-a entrar, por favor. — meu coração começa a bater forte. Preciso muito dela, das suas palavras, do seu carinho.

— Vou voltar para o meu quarto. Até mais. — diz André.

— Até mais. — digo. André sai e fecha a porta que logo se abre e minha mãe entra no quarto, ela não sabe se sorri ou chora, cobre o rosto com as mãos e anda até a cama em que estou.

— Meu filho. — dispara com a voz embargada. — Como é bom lhe ver. — abre os braços e me abraça. Sinto uma forte dor nas minhas costelas, mas não reclamo. É bom senti-la tão perto de mim. É a minha mãe, a mulher que mais amo e sinto orgulho no mundo.

— Senti muita falta do seu abraço, mãe. — a aperto contra mim. — Você está bem?

— Acho que quem deve fazer essa pergunta é eu. — ela limpa as lagrimas sobre as bochechas que logo ficam manchadas novamente por novas lágrimas que teimam em cair dos seus olhos.

— Eu estou bem, ainda mais agora. E meu pai e minha irmã, como eles estão?

— Logo depois da ligação que recebi do general, seu pai se enfiou no banheiro e chorou. Ele parecia um bebezão. — ela sorri com o próprio comentário. — Tomtom chorou também, mas deixou bem claro que ainda não lhe perdoou. — eu sorrio. — Mas, ela vai assim que te ver.

— E minha filha e Karina?

— Elas estão vindo meu filho. Logo estarão aqui. — responde. — Vou chamar seu pai e Tomtom, eles querem muito lhe ver.

— Eu também. — ela sai do quarto, mas logo volta acompanhada do meu pai e Tomtom. Ela me olha com cara feia, porém, depois de alguns segundos ela corre e me abraça.

— Já me perdoou? — pergunto, ela faz uma careta, mas volta a me abraçar.

— Sim. — sussurra.

— Como você está, pai? — ele não responde, apenas inclina o corpo e me abraça.

— Bem. Como você se sente? — devolve.

— Feliz. Quase completo.

— Olá... Será que podemos entrar? — agora sim eu me sinto completo. Olho para a porta e Karina segura Sophi em seu colo, ambas têm um sorriso largo no rosto.

— Papai. — grita Sophi. Karina a larga no chão, ela corre, se joga sobre a cama e me abraça. — Vucê está bem?

— Muito, muito bem. — digo a abraçando ainda mais forte, matando a minha saudade do meu anjo.

— Quem machucou vucê papai?

— Foi um monstro gigante. Mas, papai acabou com ele. — respondo.

—E sabia que você vencelia. — comemora jogando os bracinhos para o ar. — Eu truxe duas coisas para vucê. A rena, que é para vucê fica melhó e esse caitão. Fui eu e mamãe que fizemo. — pego o cartão e apenas o desenho me emociona. — Não cholá papai, sorri. Ou vucê não gostou do pesente?

— Papai amou, mais do que qualquer outro. — Sophi sorri grata. — É lindo.

— Vucê sabia que é o nosso herói? — pergunta baixinho no meu ouvido.

— Sabia sim.

— Sophi. — minha mãe chama. — Vamos sair e deixar seu pai e sua mãe a sós?

— Tudo bem. Mas, depois eu posso volta?

— Claro. — responde minha mãe. — Agora vamos, todos para fora. — todos saem acompanhando minha mãe, eu vou agradecê-la muito.

— Você está bem mesmo? — questiona Karina, ela segura minha mão.

— Vou ficar depois de ganhar um beijo. — ela sorri. Inclina o corpo e seus lábios encontram os meus. Como é bom sentir o gosto do seu beijo, como é bom tê-la tão perto, eu senti tanta falta dela. O beijo é longo e cheio de amor, nos separamos quando precisamos do ar. Ela cola a testa na minha.

— Está melhor agora?

— Eu estou ótimo. Não sinto mais nada. — falo e ela sorri. — Meu Deus, com senti falta do seu sorriso.

— Eu senti a sua falta. Senti tanto medo de te perder, ainda mais agora, depois de... — ela se cala, como se as palavras que fosse dizer valessem muito.

— Depois de?

— Nada. A hora certa você vai saber.

— Você devia me contar ago... — me interrompe com um beijo.

— Na hora certa Pedro. — queria continuar insistindo, mas sinto tanta falta dos seus beijos, que no momento é o que eu mais desejo. Na hora certa ela me dirá o que é.

Notas finais
Sim, eu quero comentários, aqueles bem grandes, porque eu mereço né? Sem pressão gente. Mas, e aí, vucês gostalam? (foi Sophi que me mandou fazer essa pergunta.) Espero mesmo que tenham gostado. Bjooos. Amo vcs