Depois da Guerra.
20 No seu coração estou em casa
Notas iniciais
PEDRO
Eu não devia me martirizar por ter matado duas pessoas, eram pessoas más. Eles mataram Cleber e uma porção de soldados, foi mais do que justo para eles. Mas, isso não diminui o peso que sinto em minha consciência, é como se uma tonelada de culpa esmagasse meu cérebro. E tudo isso me faz pensar em Sophi, Karina, meus pais e Tomtom, será que eles ficariam felizes em saber o que eu fiz?
Não quero pensar nisso, estar na guerra não é fácil, existem pedras enormes no meio do caminho, temos que elimina-las. Não devo me culpar por algo que foi necessário.
O fuzil que pesa apenas alguns quilos, passou a pesar toneladas. O interior da cripta parece o deserto do Saara, é quente demais. É um lugar enorme e parece um labirinto, os corredores são extensos, mas com poucos cm de largura, o que dificulta muito minha locomoção.
Tento não me perder nos corredores, o treinamento no exercito me preparou para isso. Entro no lado direito e percorro outro corredor extenso, até escutar murmúrios e enxergar um clarão, sigo o som e a luz, paro em frente uma cela. As coisas aqui dentro estão pior que lá fora.
No meio de vários rostos apavorados encontro o rosto de André. Ele tenta acalmar as crianças que choram e tampam os ouvidos. Pego o fuzil e bato na grade de ferro, fazendo um barulho estridente. O som chama a atenção de André e quando ele me vê, seus olhos se arregalam.
Ele levanta-se, os ferimentos em seu rosto são visíveis, seu braço está preso por um pedaço de pano, começa a se aproximar da grade, ele está mancando. Seu estado é deplorável. Está muito parecido comigo no dia que ele me encontrou.
– O que está fazendo aqui, cara? Você é maluco, lhe falta um parafuso na cabeça? – questiona evidentemente irado comigo. – Você largou sua família outra vez? Sua filha, e a mulher que você ama? É muito maluco mesmo, sua sorte que está do outro lado da cela.
– Não larguei minha família. Tenho uma divida com você! – exclamo.
– Não tem porra nenhuma! Você achou que erámos apenas colegas de exercito e que teria que me salvar por que eu lhe salvei? Acima de tudo éramos amigos. Você nunca deveu nada para mim.
– Então aceite isso como uma divida de amigo. – começo a usar todas as chaves que tem no chaveiro que peguei do soldado que matei, até uma delas abrir a porta da cela. – Onde está o Bruno? Preciso salva-lo.
– Em outra cela. – André responde, apontando para o local.
– Tire essas pessoas daqui. E pegue isso. – saco uma Glock do meu coldre e entrego para ele. – Sabe o que fazer. – ele assente e começa a ajudar as outras pessoas presas na cela.
Encaminho-me para a outra cela. Está escuro, e a única coisa que me dá auxilio é os cochichos que escuto. No fundo do corredor enxergo a luz de algo que parece ser um lampião. Ando com passos largos até a luz, e encontro a outra cela. O cenário é igual ao que encontrei na cela em que André estava, crianças e mulheres estão sentados no chão, tampando os ouvidos e com olhos amedrontados.
– Bruno! – minha voz se sobrepõe ao choro e ao barulho de tiros no lado de fora. – Bruno, você está ai? – falo abrindo a porta.
– Estou. – ele levanta-se e corre até a porta, me ajudando a arrasta-la. Olho para seu rosto apavorado, seus olhos trasbordando medo. Seu rosto está coberto de ferimentos, alguns são fundos. Acredito que os ferimentos não doerão tanto, depois que eu falar sobre seu pai, nenhuma dor é maior do que essa. – Pensei que você estava curtindo a família.
– É eu estava. – digo. – Tenho algo para lhe falar. – prossigo e então ele presta atenção em mim. – Não sei como começar...
– Depois você conta, vamos tirar essas pessoas daqui. Tem bombas aqui dentro, prontas para explodir. – assinto. Ajudo Bruno retirar cada pessoas presa no pequeno cubículo, a ultima criança é menor, e está muito fraca, Bruno a pega no colo. – Vamos.
– Espera, tem mais alguma cela?
– Não, apenas duas. – assinto, e então o sigo até a saída. Encontramos André logo na entrada da cripta. – Temos que sair logo daqui, isso pode ir abaixo a qualquer momento.
– Saiam! – exclamo. Eles vão em frente e eu os sigo, cobrindo nossa retaguarda, quando saímos da cripta, somos surpreendidos por um grupo de rebelde, eles ainda não nos enxergaram.
– Vai Bruno, tira essa criança daqui, agora. – ordena André. Bruno sai pela direita da cripta. Meu Deus, ele vai encontrar o corpo do pai. – Pronto?
– Sim. – aponto o fuzil para os inimigos, eles viram-se para nós e começam a atirar, começamos também. Sinto uma fisgada em meu braço esquerdo e outra em meu abdômen, a dor é terrível, mas a adrenalina é como morfina.
– Estão mortos. – estava com meus olhos abertos, mas minha visão estava escura, quando escuto a voz de André eu vejo os corpos caídos a nossa frente. – Você está bem?
– Temos que sair daqui. Bruno precisará de nós.
– Okay. – seguimos nosso caminho e quando viramos a direita, Bruno está ajoelhado ao lado do pai, segurando sua mão. A criança que ele tinha no colo está sentada no chão, ao seu lado.
– Ele veio salvar o filho... – murmura André. – Acabou morrendo. – suas pernas cedem e o levam ao chão. Ele começa a chorar como uma criança. – Estou cansado dessa vida, esse mundo é insano. Tudo que vi nesses últimos dias me fazem pensar no horror que se esconde dos olhos de pessoas comuns, elas não veem como o mundo é de verdade.
– Precisamos sair daqui, é uma zona de perigo. – arfo sentindo a região que levei um tiro latejar.
– Ah caralho, você levou um tiro. Está perdendo muito sangue, sua pele está sem cor. – ele levanta-se, pronto para apoiar meu corpo, mas eu me afasto.
– Estou bem, temos que continuar. – minha visão começa a ficar embaçada e minhas pernas ficam bambas, mas me mantenho em pé. Ando até onde Bruno está e seguro seu ombro. – Temos que continuar cara.
– Tudo bem. – Bruno dá um beijo na testa do pai e murmura um “Eu te amo” no ouvido dele. E depois levanta-se, volta a pegar a criança em seu colo. Os barulhos de tiro começam a diminuir, a batalha está acabando. Entramos na mata fechada e seguimos caminho. Sinto as gotículas de suor descer pela minha pele. Meu corpo está cedendo, e a dor está ficando cada vez mais forte, não tenho mais a adrenalina como morfina, nem isso adianta mais.
– Você precisa de ajuda. – comenta André.
– Não, vocês precisam. – dou alguns passos a frente, mas minhas pernas ficam pesadas e eu não consigo me movimentar. A dor tornou-se insuportável, acabo caindo no cão e meus olhos se fecham.
– Levanta ele. – é a ultima coisa que escuto.
Deus, eu não posso morrer! Eu tenho que voltar vivo para aqueles que amo, fiz uma promessa a eles. Voltar para Karina, ela é o meu lar e eu preciso dela, da minha filha e da minha família.
____________
KARINA.
– Faça isso Karina. – ordenou Bianca, fitando meus olhos como uma irmã mais velha, chata e rabugenta.
– Não estou gravida. – digo, virando-se de costas para ela e me sentando no sofá.
– Sério? Que negação é essa? Pensei que você queria ter um filho novamente. – diz, parando na minha frente.
– Quando eu recebi a noticia da morte de Pedro, eu descobri que estava gravida. Toda vez que o telefone toca eu sinto medo. – respondo, olhando para minhas mãos.
– Está com medo de receber uma noticia parecida? E Descobrir que está gravida? Medo de reviver tudo aquilo de novo?
– Acho que é. – Bianca se ajoelha em minha frente e pega minhas mãos.
– Ka, isso não vai acontecer. Pedro vai voltar inteiro para você. Faz os testes?
– E se eu não estiver? A médica disse que Pedro poderia ser estéril, e se isso for verdade e eu estiver apenas alimentando esperanças?
– Então está na hora de descobrir. Você deve ter ficado gravida depois da consulta com ela. Qual foi a ultima vez que vocês... – ela arregala os olhos e sua expressão me faz ter vontade de rir.
– Na noite que Pedro falou que voltaria para o exercito. Na manhã seguinte também.
– Tenho certeza que você está gravida novamente. – ela começou a bater palmas. – Vou ser titia novamente. Faz os testes? Por favor?
– Tudo bem. – levanto-me, pego as três caixas de testes que ela acabou de comprar e me dirijo para o banheiro. Sei que se for positivo, eu ficarei muito feliz, porém, o medo de Pedro não voltar me corrói por dentro.
[...]
Quando abro a porta do banheiro, Bianca está sentada na minha cama, ela me olha cheia de expectativas, pronta para me abraçar forte por qualquer que seja o resultado que eu lhe falar.
– Então? Conta logo. – dispara impaciente. – Vou ser titia de novo?
– Não sei como lhe dizer, Bi. – respondo visivelmente triste, sua feição não é das mais felizes e sim de consolo. – Você terá que aprender a trocar frauda, para me ajudar! – tampo meus ouvidos, porque sei que o que vem a seguir é um grito ensurdecedor. Bianca corre até mim e me abraça com toda a sua força.
– Eu vou ser titia novamente. Parabéns. – diz. – Estou me sentindo a tia velha agora. Estou tão feliz!
– Calma Bi. Está me sufocando. – falo. – Eu também estou feliz, muito. Mas, não quero que Sophi fique sabendo pelos seus gritos, vou prepara-la.
– Okay. Eu vou me acalmar. Quando vai contar para nosso pai?
– Por enquanto não, fique de bico calado. Okay? Vou fazer o teste de laboratório, ai conto para todos.
– Tudo bem, não vejo a hora de ver essa barriguinha crescendo.
Depois que Bianca e eu discutimos muito sobre a minha gravidez, ela recebeu uma ligação e foi embora. Tentei comer algo, mas qualquer coisa que coloque em minha boca, causa um embrulho em meu estomago. Então, apaguei as luzes da sala e da cozinha, entrei no quarto de Sophi.
Ela dorme tranquilamente, sua respiração está calma, ela está agarrada em sua rena. Sento-me ao lado dela e começo a pentear seus cabelos com meus dedos. Suas bochechas gorduchas estão vermelhas, sua testa está franzida. Pego em sua mãozinha e dou um beijo no dorso.
– Boa noite, meu anjo. – dou um beijo em sua testa, puxo a coberta até suas orelhas. Apago a luz do abajur e saio do seu quarto.
Entro no meu quarto e vou direto para o banheiro, deixo a torneira da banheira ligada para que ela encha. Preciso de um banho relaxante, esse dia foi intenso, preciso mesmo relaxar. Pego meu celular e coloco minhas musicas preferidas tocar. Adiciono essência de rosas na agua, bombas de sais entre outras coisas.
Entro na banheira depois de ela estar com a medida necessária de agua, não é sempre que a uso, mas hoje preciso mesmo relaxar, me livrar de toda a exaustão que sinto. Deixo minha cabeça descansar sobre a borda de porcelana da banheira.
Fecho meu olhos, começo acariciar minha barriga. Ela ainda está lisa, como se não existisse vida dentro do meu ventre, mas eu sei que em poucos meses ela estará maior, só desejo que Pedro esteja presente durante essa evolução, eu sei o quanto isso fará bem para ele.
– Por favor, o traz inteiro para mim. – murmuro. – Pedro merece ver nosso filho nascer e crescer, ao lado de sua família.
Sei que eu devia estar pulando e gritando de alegria, eu estou sim muito feliz, mas o medo de receber uma noticia ruim aperta meu coração, e prece que eu estou ficando sem ar. Se algo ruim acontecer com Pedro, não sei se conseguirei ser tão forte com antes.
Talvez todo esse medo que eu sinto esteja bloqueando toda a minha vontade de sair gritando.
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Acordei cedo com o barulho incessante de batidas na porta. Escorreguei minhas pernas para fora da cama e me sentei nela. Esfreguei meus olhos e contei mentalmente até dez. Para alguém estar batendo na minha porta a essas horas da manhã só pode ser meu pai.
Arrastei-me pelo carpete saindo do meu quarto, atravessei toda a sala da minha casa e parei em frente a porta. Olhei pelo olho mágico, e senti um embrulho em meu estomago. Eu estou com tanto ódio que sou capaz de aplicar alguns golpes de muay thai em meu chefe.
– O que quer? – pergunto depois de abrir a porta, seus olhos percorrem por todo meu corpo e então eu me lembro de que uso apenas uma camisa de Pedro e um short curto. Agora eu quero dar uns socos em minha cara.
– Posso entrar? – assinto e abro passagem para que ele entre.
– O que é? – cruzo meus braços e olho para ele duramente.
– Precisamos conversar. – ele diz. – Sobre ontem.
– Olha, sinceramente eu não quero voltar naquele assunto. Você estava muito enganado...
– Eu sei. – me interrompe. – Eu estava muito errado e é por isso que estou aqui. Quero lhe pedir desculpas pelo tanto de bobagem que falei.
– Tudo bem, desde que não volte a tocar naquele assunto. Nossa conversa acabou, te vejo no escritório daqui a algumas horas.
– Mamãe?! – escuto a voz de Sophi, viro-me para o corredor dos quartos e ela está encostada na parede. – Quem é esse moço? – questiona, se aproximando e olhando como uma ferinha para Diego.
– Sophi, esse é o chefe da mamãe. – digo, pegando em sua mãozinha.
– Ah, então essa é a famosa Sophi. – começa Diego. – É um prazer conhecer você. – se aproxima de Sophi, mas ela se esconde atrás de mim.
– Ele parece o príncipe mal do Frozen. – sussurra, o bastante para que eu e Diego escutemos. Não posso negar o que Sophi disse. – E também o encantado do Shrek.
– Sophi, meu amor. Volta para seu quarto, mamãe já vai lá lhe ajudar a se vestir.
– Tudo bem. – ela se afasta, mas antes de entrar no corredor olha para Diego e mostra a língua para ele.
– Sua filha me odeia. – solto um riso. – Não sabia que eu tinha esse talento com crianças.
– Ela lhe odiaria mais ainda se soubesse o que você falou sobre o pai dela. – Diego fica vermelho, e eu sei que exagerei dessa vez. – Mas, quem sabe um dia você ganhe a confiança dela.
– Quem sabe. – fala. – Bom, vou ir para o escritório, nos vemos novamente mais tarde.
– Sim. – o acompanho até a porta. – Até mais tarde.
– Desculpa mesmo Karina. – faço que sim com a cabeça, e sou surpreendida com um beijo na bochecha. – Nos vemos no escritório. – ele sai e eu fecho a porta. Limpo o lado do meu rosto que ele beijou.
Ando apressada até o quarto de Sophi, ela está sentada na cama com os braços cruzados e quando me vê, esboça a sua pior carranca.
– Não tenho medo de cara feia. – digo, me sentando ao lado dela. – O que foi?
– Não goto do seu chefe. – encaro sua cara, seu biquinho e sua testa franzida, ela é linda brava. – Ele já foi embora?
– Sim. Já foi.
– Pur que ele beijou seu roto? – a pergunta de Sophi me surpreende. – Vucê não vai mais namola meu papai?
– O que? Eu amo seu pai, e ele é o meu único namorado. O beijo que você viu foi apenas um beijo de amizade.
– Ah, então assim sim.
– É, agora chega de perguntas, vamos se arrumar para a escola.
Depois de ajudar Sophi a se arrumar eu comecei a me vestir para mais um dia de trabalho. Ainda tenho nojo de olhar na cara de Diego, mas preciso trabalhar. Quando saio do meu quarto o telefone começa a tocar. Sinto um arrepio percorrer pela minha espinha e um medo enorme de atender a ligação.
– Mamãe, vucê está bem? – questiona Sophi. Olho para ela e forço um riso, assinto e pego o telefone.
– Alô.
‘Karina Duarte?!’ – pergunta uma voz grossa.
– Sim. – por instinto minhas mãos começam a tremer e minhas pernas ficam bambas.
'Aqui é do exercito' ...
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