Depois da Guerra.
8 As coisa ainda são como antes?
Notas iniciais
Passei por tanto coisa nos últimos anos, que se fosse por mim, eu teria desistido de tudo. Alias, eu cheguei a desistir, eu perdi uma pessoa que eu amava, Uzuri era como uma irmã para mim e ela morreu, depois da morte dela eu perdi a ultima gota de fé que restava dentro de mim. Mas sempre a uma luz no fundo do túnel, e quando eu achei que tinha perdido tudo, eu encontrei a tal luz no fundo do túnel que todos falam.
Porem, depois de tudo que eu passei a oferta que a comandante Patrícia me fez tomou grandes proporções, eu sentia tanto ódio, pensava nas pessoas que passaram anos assim como eu, escravizados e sendo feitos de reféns. Eu acabei aceitando a proposta dela e sendo guiado pelo meu instinto de ódio e vingança.
Passaram mais 14 meses longe das pessoas que eu amo, e no final foram 5 anos e cinco meses longe deles, e tudo que eu mais queria era vê-los. Nesses 14 meses eu vi muitas coisas. Coisas que fazem as pessoas perderem a esperança, e a fé na humanidade. Eu vi muitas pessoas inocentes morrem, crianças, jovens, adultos, e idosos mortos a sangue frio. Entretanto nem todos os seres humanos são pessoas ruins, por que eu vi muita bondade também.
Eu não sei como minha família vai reagir quando me ver vivo. Eu não sei como eu vou reagir, eu não sei como estão as coisas, afinal se passaram 5 anos e cinco meses longe deles, sem noticias. As coisas podem estar diferentes, muita coisa pode ter mudado e eu sinto medo de trombar com uma drástica mudança, uma mudança enorme que possa tirar a mulher que eu amo. Tenho medo que ela esteja com outro, e tenha construído uma família. Esse é o meu maior medo.
O taxi estava parado no meio da cidade em um transito infernal, eu não via à hora de chegar em casa e tudo estava sendo um obstáculo no meu caminho, algo que me afastava ainda mais da minha família. Até pensei em ir antes ao apartamento de Karina, mas eu precisava saber as novidades, não queria correr o risco de trombar com ela e a família que ela construiu.
Quando o taxista entrou em uma rua menos movimentada, ele dirigia como uma lesma, eu conseguia ver tudo detalhado do lado de fora. Tenho certeza que se ele saber da minha história dos últimos cinco anos ele vai virar um corredor igual aos desses filmes de corrida.
– Hey, amigão! Será que pode ir mais rápido? Eu fiquei mais de cinco anos longe da minha família. Estou morrendo de saudades. Você podia pisar firme no acelerador? – contei a verdade, só tirei a tragédia do meio.
– Vou tentar filho. – ele olha pelo retrovisor e eu sorrio.
Quando o taxi estacionou na frente da minha casa, meu sorriso se encheu de vida, segurei as lagrimas que queriam cair e respirei fundo. Então paguei a corrido e agradeci ao motorista por ter atendido meu pedido e aumentar um pouquinho a velocidade do carro.
Sai do carro e andei até o portão que estava aberto. Olhei ao redor e vi que o jardim da minha mãe ainda estava cheio de vida, os gnomos estavam no mesmo lugar, a grama estava bem verdinha. A casa havia mudado de cor, antes era amarelo, agora é verde.
Abri o portão e entrei. Por sorte a porta da frente estava aberta, girei a maçaneta e quando a porta se abriu revelando minha casa, eu me senti quase completo novamente, eu tinha quase tudo que tinha antes. Olhei todos os cantos da casa, e ela estava decorada com enfeites de festinha de criança.
– Mãe...Pai...Tontom. – chamei, porem não obtive respostas.
Escutei um barulho vindo do jardim. Passei pela sala e pela cozinha. Quando abri a porta da cozinha que dava no jardim, vi minha mãe prendendo alguns balões em um painel com desenhos. Meu pai estava colocando uma fita escrita parabéns Sophia em uma parede com desenhos animados. Quem é Sophia? Será que estou no lugar certo?
– Pedro! – minha mãe vira-se e seus olhos me encontram. – Ó meu Deus. – diz, antes de correr até mim e me abraçar. Ela me aperta tão forte que escuto os estalos das juntas do meu corpo.
– Hey, Dona Delma, vai com cuidado. – ela se afasta com os olhos cheios de lagrimas.
– Acho que daqui a pouco eu vou acordar para a realidade. – sorrio, ergo minha mão e limpo uma lagrimas que teimou cair dos seus olhos.
– Essa é a realidade. – falo.
– Mas como...Como isso está acontecendo? Nós recebemos a noticia de que você estava morto, que morreu em um incêndio. – meu pai fala rapidamente sem conter a emoção.
– Eu vou explicar tudo, mas antes preciso saber de...
– Vovô olha a roupa que minha mamãe comprou. – viro-me rapidamente e olho para a pequena que está vestida com roupas iguais a minha. Ela estreita os pequenos olhos castanhos e crava-os nos meus. Suas bochechas estão vermelhas. Seus cabelos castanhos estão soltos. – Você parece o meu papai. Aquele que eu vi nas fotos. – imediatamente lembro-me do sonho que tive com uma criança, quando ainda estava na aldeia abandonada com Uzuri.
– Ela é sua filha. – minha mãe murmura. – Karina descobriu logo depois da noticia da sua morte. – completa.
– Sophi! – meu coração bate freneticamente ao escutar a voz dela. Levanto meu olhar da garotinha a minha frente e meus olhos encontram os intensos olhos azuis de Karina. Da mulher que eu amo. Ela parece não acreditar no que está vendo. Naturalmente as lágrimas descem pelo rosto dela.
O que mais quero é abraçá-la, beijá-la, mostrar o quanto a amo e o quanto ela é importante para mim. Seus lábios se mexem e apenas um sussurro sai deles, é o meu nome.
Por um instante eu olho para baixo e vejo a garotinha, ela ainda me olha assustada e surpresa. Agacho-me e a pego em meu colo. Levanto e agora falta à mãe dela estar nos meus braços. Karina dá um passo à frente e eu corro até ela. A abraço forte, se pudesse fundiria nossos corpos para sempre.
Sinto o seu cheiro doce de morangos. Sua pele macia e delicada. Seus cabelos. Instintivamente as lagrimas começam a cair dos meus olhos, ter ela nos meus braços novamente só me prova o quanto a amo e a quero para sempre na minha vida.
Afasto-me para poder olhar nos olhos dela. Acaricio sua bochecha enquanto meus olhos ficam cravados nos dela. Eu a amo tanto que não consigo imaginar uma vida sem ela. Karina toca o meu rosto com as duas mãos, parece que ainda não acredita que sou eu.
– Você...
– Eu estou bem. – beijo sua testa, sua bochecha e em seguida planto um beijo em seus lábios. – Não sabe o quanto senti sua falta. – falo. – Cada dia que eu passava naquele inferno era um dia longe de você, longe da mulher que amo... Eu amo você Karina. – lhe beijo novamente. – O melhor é descobrir que tenho uma filha. – levanto meus olhos para olhar para a garotinha nos meus braços.
– Eu to confusa. – diz, não evito o sorriso que se desenha em meus lábios.
– Acho que eu tenho que explicar para vocês tudo que eu passei nesses últimos anos, dizer o que aconteceu depois que o galpão pegou fogo. – minha mãe segura minha mão.
– Temos tempo, até a festinha da Sophi começar. – comenta dona Delma.
– Quantos anos ela vai fazer? – indago.
– Cinco anos. – Karina responde.
– Meu Deus, eu perdi cinco anos da vida da minha filha. Eu perdi o nascimento dela. – beijo a bochecha rosada de Sophia. – Onde está a minha irmã? – pergunto. Tontom como sinto a falta dela.
– Foi comprar mais balões e outras coisas que estavam faltando para a festa de aniversário da Sophi. – diz meu pai.
[...]
– Não acredito que você passou por tudo isso. Perdeu a memória no meio do nada. – Karina levanta indignada do sofá. – Você foi escravizado, perdeu uma pessoa importante. Isso deve ter sido muito difícil. – está furiosa.
– Eu estou bem agora, Karina. O que importa é que estou de volta. – não tive coragem de dizer para todos sobre os últimos 14 meses, em que estive em missões.
– Mãe eu... – as sacolas de compras deslizam pelas mãos de Tontom até encontrarem o chão. Meu Deus como ela cresceu. – Pedro! – exclama.
Levanto e abro meus braços, ela corre na minha direção e me abraça. Bagunço o cabelo dela, e em seguida beijo o topo da sua cabeça, enquanto ela chora e molha a farda do exercito que eu uso.
– Como você está? – minha voz sai fraquinha, por causa da vontade de chorar. Agora sim, eu me sinto em casa completamente.
– Como você está? Você morreu. – diz. – Como pode estar aqui na minha frente? – questiona.
– Eu passei por muita coisa nesses últimos anos Tontom, e eu prometo te contar tudo. – deposito um beijo em sua testa.
– Tudo bem. O importante é que você está aqui. – me abraça novamente. – Por favor, não vai embora outra vez.
– Eu não vou. – olho para todos ao meu redor. – Estou em casa agora. – completo com um sorriso enorme nos lábios.
Não consigo tirar os olhos de Sophia e minha mão ficou o tempo inteiro encaixada na de Karina. Sophi desce do colo da minha mãe e anda bem de vagar até Karina. Ela ainda está assustada. Fica em pé no sofá e cochicha algo no ouvida da mãe. Karina fala algo para ela que assente.
– Eu posso te abaça?...Papai? – começo a chorar compulsivamente ao escutar ela me chamar de papai.
– Claro que pode. – ela dá um pulo e para nos meus braços, afunda o pequeno rostinho na volta do meu pescoço e uma das suas mãos brinca com o botão da minha farda.
[...]
Acho que minha vida não tem como melhorar, eu passei por muita coisa. Muita mesmo (coisas que quero esquecer para sempre), mas estar em casa novamente, ao lado da minha família, e ao lado da família que eu vou construir recompensa tudo que eu passei.
Quando Sophi me chamou de pai eu me senti o homem mais feliz do mundo. Meu mundo mudou drasticamente e essa mudança é a melhor mudança que poderia ocorrer. Olhar para Karina ao lado de Sophi é a visão do paraíso, as duas mulheres da minha vida. Eu amei Sophia quando meus olhos encontraram os dela. Ela tem um brilho, uma luz que me faz sentir-se ótimo e realizado.
Os primeiros convidados da festinha de Sophi, foram Gael, Dandara, Bianca, Duca, João e uma tal de Vick, namorada do João. Eles ficaram sem reação quando me viram. Gael disse que eu havia abandonado a filha, mas depois que eu expliquei tudo ele se sentiu envergonhado e disse que eu era casca grossa e que tinha muito orgulho de eu ser o homem que a filha dele escolheu.
Alguns conhecidos que chegaram depois na festa, também se assustaram, ai minha mãe explicou para cada um, o que tinha acontecido. Tudo estava correndo as mil maravilhas até Sophi correr atrás de algumas meninas assustando-as com um camaleão que tinha ganhado de João. As garotinhas corriam e gritavam de medo do bicinho.
– Sophia! – Karina parou na frente dela e cruzou os braços. – O que pensa que está fazendo? – Sophi se encolheu toda. Karina é durona. – Você está toda suja, daqui a pouco vamos cortar o bolo. Você vai comer suja desse jeito? – sorrio com a forma que Sophi se olha e encolhe os ombros.
– É só trocar. – sugere.
– Vamos se trocar então. – Karina a pega no colo e segue para o quarto de Tontom. Levanto do sofá e sigo as duas.
– Quer ajuda? – encosto-me ao batente da porta.
– Não. Eu só vou colocar uma muda de roupa limpa nessa bagunceira aqui. – responde.
– Não quelo tirar essa ropa, mamãe. Quelo fica igual o papai. – resmunga.
– Sophi você está suja de terra. – Karina tira a farda que Sophi usa e coloca um vestido com estampa azul. Sophi para na minha frente.
– Como estou papai? – dá uma voltinha.
– Está linda, parece uma princesa. – ela sorri e passa por mim como um furacão.
– Hoje ela vai estar super cansada no fim do dia. – comenta Karina.
– Você está linda. – fecho a porta e me aproximo de Karina. Seguro o queixo dela e a faço olhar nos meus olhos. – Senti sua falta. – completo.
Karina segura minha mão e abaixa junto com e dela. Sua outra mão acaricia minha bochecha. – E eu senti a sua...Foi tão difícil, por nenhum momento eu parei de pensar em você. Sempre pensei em como as coisas seriam diferentes se você voltasse daquela guerra... – Karina olha para o chão.
– Eu sonhei algumas vezes com uma garotinha, com você e eu. Sonhei em como seria se eu não tivesse aceitado aquela ultima missão. Eu pensei em você todos os dias, todos os minutos em que estive fora. – ela ergue o rosto, fito seus olhos que brilham intensamente. – Eu não posso mais ficar longe de você e Sophi. Foram cinco anos, isso é muito tempo.... Tempo demais... – dou uma pausa. – Eu preciso perguntar se as coisas ainda são como eram antes... São? – estou morrendo de medo da resposta.
– Eu perdi você por mais de cinco anos. E nesses cinco anos eu tive a maior Felicidade da minha vida, a Sophi. Mas a vida está me dando outra chance. Você está vivo, o homem que eu amo está vivo. Eu quero continuar de onde eu parei. – ela ergue a mão e só agora percebo que ela usa nosso anel de noivado.
– Você ainda aceita casar comigo? – indago.
– Sim. – enlaço minhas mãos na cintura dela, e a beijo fervorosamente. Como sinto falta do seu gosto. Minha boca desce até o seu pescoço, como senti falta da sua pele. Senti falta de tudo em Karina. – Acho melhor nos voltarmos para a festa. – assinto.
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