Depois da Chuva

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá pessoas! :D

Esta one é fruto de um desafio do grupo mais louco de WhatsApp que se pode existir, a minha desafiante ( a fofa da Carolina) que me mandou a imagem da capa e escolheu o tema para a história, particularmente estou feliz com o resultado.

É isso aí negada, desculpa pelos erros, caso venha a ter algum, e boa leitura. :D

Marrom. A quanto tempo eu estava parado encarando aquela porta marrom? Quanto tempo tinha se passado desde o momento em que eu encarava em pé a chuva caindo pela janela logo após chegar do trabalho, chuva essa que era a premissa da terceira maior dor que sentiria em minha vida, até este, encarando a porta marrom?

Por que ela tinha feito aquilo? Tinha passado essa última semana sem atender suas ligações, retornar as mensagens, e até sem ir para a faculdade a afim de evitar isso. Eu não queria e nem iria me despedir. Aos oito anos me despedi de meus pais e ambos morreram no acidente de carro, aos dezessete partir para meu intercâmbio de um ano junto da minha recém formada turma de ensino médio, me despedi do meu irmão, ele estava doente e não me falou nada e alguns meses depois recebi a ligação, eu estava sozinho. Nunca mais falei tchau ou adeus para alguém. Ela sabia disso, já que nas primeiras vezes que saímos eu cortava suas tentativas com um gesto de mãos e saia andando antes que pudesse protestar. Tempos depois finalmente me senti confortável em lhe responder o motivo.

Respirei sentindo um peso dentro de meu estômago, meus lábios estavam abertos da mesma forma que ela tinha deixado depois daquilo que parecia ser o nosso último beijo, mas a dor só parecia aumentar a medida que minha consciência tomava noção real do fato. O que era ridículo de se pensar, já que tive meses para me acostumar com o fato, antes de qualquer um por ter sido o primeiro a saber. Era eu, sentado na sua frente, quando a notificação do e-mail chegou em seu celular, que ouviu atentamente a sua voz nervosa lendo a mensagem e observou sua mão tremendo em expectativa, foi a mim que ela abraçou feliz sem se importar com as pessoas que observavam assustadas enquanto ela dava a volta na pequena mesa se jogando no meu colo, soltando gritinhos por ter entrado no grupo de selecionados, sem notar nossos pratos de filé parmigiano, que por culpa dela, agora estavam nadando em suco em cima da pequena mesa de granito.

Naquele momento estávamos na praça de alimentação do shopping, ela ria das cenas do filme que tínhamos assistido a poucos minutos, o que poderia ser considerado doentio já que tratava de um terror, mas para mim era estritamente normal e admirável. Sempre assistíamos terror, ela sempre ficava concentrada olhando para a tela, não gritava ou escondia o rosto com as mãos, somente fazia caretas ou pulava na cadeira quando se assustava, atitude que poderia ser interpretada como medo num primeiro momento, porém era só sua forma de reagir quando envolvida com a historia, já que no fim de cada filme bastava piscar algumas vezes para a tela preta, como se saísse do transe, olha para mim e começar a rir falando sobre as cenas humanamente impossível, não se importando se estávamos na sala do meu apartamento ou na do cinema. A mesma coisa acontecia com ação, mudando somente o tipo das caretas, de nojo e medo para dor e indignação. Somente uma vez assistimos algo que não se encaixasse em terror, ação ou no nosso gênero salvação, também conhecido como comédia, foi um drama romântico intitulado Um Dia, quando o DVD acabou e ela se levantou indo guardar o disco perguntou se eu havia gostado, e com toda minha habitual sinceridade neguei, ela riu pegando os baldes de pipoca vazios na mesa de centro da sala de sua casa.

- Sabia que drama romântico não fazia seu estilo. — falou indo em direção a cozinha.

Na verdade não era do estilo que eu não tinha gostado, ou do filme, que era claramente diferente do que eu estava acostumado. Era história que me incomodava, a covardia do casal em se revelar perante o que sentiam era o me desagradava, ainda mais ao ver que por este motivo tolo passaram anos separados. Mas só agora entendi que fazíamos o mesmo, éramos dois covardes escondidos na conveniência de nossa relação, ao menos eu era, ela tinha deixado de ser minutos atrás, antes de sair por aquela porta marrom.

Em um impulso abrir a porta do apartamento, e sai em disparada pelo hall em direção a escada sem tempo ou paciência para esperar um elevador, nem ao menos pensei em pegar as chaves do carro, a única coisa que me vinha na cabeça era as palavras que ouvi.

" Eu sei que você está me evitando, mas tenho uma coisa que eu tenho que falar antes de ir embora. "

Quando cheguei na calçada do prédio vi um ônibus que iria para casa dela parado no ponto à uns metros de distância, não tinha sentido ela usar o transporte público se tinha sua própria moto, todavia, me lembrando da falta do capacete vermelho em sua mão quando apareceu na minha porta marrom corri em direção ao veículo, procurando pelo vidro um sinal da sua tão marcante cabeleira entre as pessoas escondidas dentro da lata de metal, protegidas da chuva que não parava de cair, mas não vi nenhum sinal de seus cabelos. Iria entrar no meio daquela aglomeração, sem me importar em já estar completamente molhado e no incômodo que causaria, porém, no meio da pressa havia me esquecido da carteira em casa. Fiquei parando vendo a porta do ônibus se fechar e o motor roncar em partida, junto de um trovão que acabava de soar.

" Eu nunca entendi o que nós temos, ou tínhamos até você sumir, e nem me preocupei com isso, como sei que você também não. Mas isso não quer dizer que eu vejo isso que temos como algo sem importância. "

Olhei para o outro lado da rua, antes coberto da minha visão pelo ônibus. O enorme parque era a única coisa que separava meu apartamento da casa dela, que ficava exatamente do outro lado, sem pensar atravessei a rua, escutei algumas buzinas em protesto contra minha imprudência, entretanto ignorei, e logo estava correndo por entre as árvores naquele caminho de pedras estrategicamente planejado. Nunca estive tão desesperado.

" Quero dizer, não somos namorados, nenhum dos dois fez um pedido, mas ainda assim... Não me envolvi com nenhum outro depois que comecei a ficar com você, mesmo que não tenha exigido fidelidade da minha parte, não precisei porquê a amizade que criamos não só me satisfazia como me completava em muitos pontos, e bom — ela riu baixinho, envergonhada, enquanto mantia as mãos juntas na frente do corpo, mexendo os dedos de maneira nervosa — todos nossos beijos e as noites que passamos juntos completavam o resto."

A chuva continuava piorando, o parque praticamente vazio, já estava quase na metade e tinha visto somente um grupo de adolescentes correndo e gritando em meio a cascata de água que despencavam do céu. Meus tênis estava pesado e afundava na lama, tornando a corrida mais difícil, porém meu ritmo não se alterava, nem a roupa grudada me incomodava.

" Os patrocinadores da pesquisa mandaram um e-mail, no final do curso irão selecionar um dos candidatos e oferecer uma oferta de emprego na equipe de pesquisa contra doença infecto contagiosas, além de ter a uma vaga de transferência garantida na melhor universidade da região, até pagarão todos os custos para estabilizar o escolhido na cidade, como carro, apartamento...essas coisas. Acho meio difícil me escolherem, é realmente uma boa proposta, quero dizer, um super salário e uma vaga em uma das maiores empresas do ramo não é algo que encontramos todo dia, mesmo não sendo na área em que eu pretendia atuar é quase impossível recusar. É só que..."

A única coisa que me vinha à cabeça era que eu devia encontrá-la e dizer tudo aquilo que ignorei esse tempo todo. Imaginar que por minha covardia o curso de seis meses poderia se transformar numa transferência de faculdade e mudança de cidade era demais para mim. Ela desconfiava da própria capacidade, mas eu não, de todos os participantes ela era a mais nova, enquanto todos os outros eram estudantes do penúltimo ou último período de medicina, ela ainda estava no início penúltimo ano, tinha as maiores notas dentre todo grupo selecionado, ela já seria vista previamente como a escolhida pelos supervisores.

" É só que eu não sei como isso começou, quero dizer, desde que começamos a estudar juntos no primeiro ano do ensino médio eu comecei a gostar de você, mesmo com esse jeito ranzinza, você sempre foi inteligente, educado e principalmente bonito demais para que uma menina não se sentisse atraída por você. Aí eu comecei a fazer medicina e você engenharia civil para continuar o antigo negócio do seu pai, começamos a trabalhar e raramente nos víamos, até esqueci que um dia eu tinha tido uma queda por você, até que voltamos a nos encontrar e sermos amigos, e depois mais que isso e... — ela suspirou fundou, fechou os olhos antes de levantar o rosto firme em minha direção mostrando novamente aquelas duas grandes pedras — O que eu quero dizer é que eu te amo, foi algo que cresceu aos poucos e eu não vi motivos para parar, a muito tempo percebi isso, mas sempre estive tão bem com essa nossa situação que nunca dei a devida importância. Só que agora não dá para ignorar algo que tomou proporções tão relevantes. Eu devia estar em casa arrumando as últimas coisas para um vôo que tenho que pegar em algumas horas, mas eu tinha vim aqui te dizer isso. Eu te amo."

Como para carimbar suas palavras em mim, ela me beijou pressionando os seus lábios contra o meus com uma força exagerada, eu estava estático demais para retribuir, mas ela não parecia se importar, já que segurava firmemente meu rosto entre suas mãos puxando minha cabeça contra a sua. Quando me soltou, senti um vento frio passar entre nossos corpos, minha boca as abriu involuntariamente, como se eu fosse falar algo, e ainda que houvesse alguma palavra para sair de mim, o que não tinha, essa teria sido abafada pelo som da porta batendo. A primeira coisa que consegui pensar foi no beijo, não gostei dele, não porque ela beijava mal, muito pelo contrário, era pelo gosto de despedida que possuía. "

Estava quase do outro lado do parque, meu corpo todo dóia com o esforço e meus pulmões queimavam em desespero pelo meu ritmo insano, foi quando à vi, ela andava devagar pela chuva com os próprios braços ao redor do corpo, sua blusa estava colada o contorno de sua fina cintura e a água escorria sobre a saia preta, senti meus corpo tenso, todavia não diminui a velocidade alucinante da corrida.

- SAKURA!

Gritei seu nome com todo fôlego que me restava, mesmo que minha garganta queimasse com o esforço não habitual, seus pararam travando no passo que efetuava, e quando ela virou a cabeça em minha direção senti toda surpresa em seu olhar, sua franja rosa grudava em sua testa enquanto a água chuva caía sobre sua bochecha, não havia nenhum sinal, mas ainda assim eu sabia que lágrimas estavam alí também. No instante que cheguei perto dela, segurei seus rosto entre minhas mãos, como se daquela forma eu fosse capaz de mantê-la ali.

- Sasuke o que você... — ela falou assustada para mim.

- Eu não quero que você vá. — soltei de uma única vez — Se eu pudesse te manteria aqui, mas isso não é direito meu, estaria sendo egoísta demais e eu não consigo ser assim, principalmente quando se trata de você Sakura. Você deve ir, mas volte, por favor volte, e se não quiser voltar me avise para que eu possa ir atrás de você, porque não quero ficar sem te ter. — respirei rápido tentando inutilmente acabar com a agonia dentro do meu peito — Eu nunca tinha percebido que algo me intrigava sobre você até aquele dia que o idiota do Naruto passou mal naquela festa no primeiro ano da faculdade e você falou que iria junto para cuidar dele enquanto eu o levava para casa. Foi por curiosidade que fui falar com você na outra semana e todas as outras vezes que te procurei, e mesmo quando nossa amizade ficou tão sólida eu não soube dizer o que era. Minha curiosidade se juntou com a frustração e eu te chamei para jantarmos, e quando nos beijamos, — aproximei meu rosto lentamente enquanto falava até que nossas bocas se encostassem — ainda não consegui descobrir o que era, mas eu gostava de te beijar e continuei a fazer isso até que em algum ponto eu não me importava mais em saciar a minha curiosidade, você era mais interessante. Te amo Sakura, com o tempo eu fique tão compenetrado em você que não percebi o óbvio. — falei tão baixo contra sua boca como se contasse um segredo — E é porque te amo que não aceito me despedir de você.

Sem tempo para resposta, a beijei sendo prontamente correspondido, em nenhum momento no separamos, colocando todo impacto do que estava acontecendo nos movimentos de nossas bocas e línguas. Quando ela se afastou, com aquele olhar desesperado e apaixonado não pensei antes de pegá-la no meu colo e lhe beijar, ela mantia as pernas ao redor de minha cintura, enquanto eu andava no últimos metros do parque atravessando a rua em direção porta da sua casa. Não nos importamos com o espetáculo que aquilo poderia parecer para as pessoas que passavam dentro dos carros, ela tirou a chave do bolso me entregando para que eu abrisse as portas. Assim que entramos na sala a coloquei no chão, nos beijávamos em necessidade, praticamente arrancando as peças de roupas de nossos corpos.

A ergui novamente em meu colo, sentido nossa pele fria e molhada se aquecer com o contato de nossos corpos nus, andei até o seu quarto sentindo sua mão passeando por minhas costas. Naquela noite fizemos amor com nunca tínhamos feito antes, parecia que nossos corpos já tão conhecidos ainda tinham locais a serem explorados, os toques tinham uma intensidade muito maior do que simplesmente provocar prazer, era cada palavra reprimida sobre nossas emoções, sendo demonstradas como segredos a serem guardados por entre gemidos e suspiros, enquanto chamávamos desesperados de amor e dor pelo outro.

Quase duas horas depois acordei com barulho de um buzina que vinha da rua, a chuva ainda caía sobre a janela como se recusasse a parar de observar o nosso espetáculo, nós éramos a ópera, ela o nosso grandioso e tempestuoso público. Olhado para o lado vi que Sakura ainda dormia, ela sempre teve um sono mais pesado, estava de bruços com o edredom lhe cobrindo até a cintura, olhei cada detalhe do seu corpo o guardando na memória, suas pernas se enrolavam nas minhas enquanto meu braço era feito de travesseiro. Lentamente seus olhos se abriram indo de encontro para os meus, e instantes depois ela se rastejava para cima de mim pousando as mãos em minhas bochechas para logo me beijar.

- Nunca foi tão difícil levantar cama. — ela sussurrou baixinho contra meu pescoço, sua voz era embargada por algo diferente da sua costumeira preguiça.

Tomamos banho juntos aproveitando nosso último momento, mesmo descontente tive de ir em meu apartamento, usei a moto de Sakura que ficaria sobre minha responsabilidade enquanto ela estivesse fora. Meia hora depois estacionei meu carro na garagem da casa de Sakura, ela já tinha arrumado tudo o que faltava. Em silêncio coloquei todas suas malas no carro, em silêncio nos sentamos nos bancos cinzas e observei quando ela deixou a chave da casa dentro do porta-luvas, e em silêncio saímos para as ruas em direção ao aeroporto, ainda era madrugada e as ruas estavam vazias. Ela olhava para fora observando a cidade que sumia como um borrão pelos pingos da grossa chuva, a saudade já estava em seu rosto, sua mão estava no meu ombro, fazendo movimentos suaves sem parar, e angústia dentro de nossos peitos.

Só Deus sabe o quão feliz fiquei ao ouvir Sakura dizer após fazer o check-in que o vôo se atrasaria por conta da chuva. Peguei em sua mão a puxando para nos sentarmos em uma parte mais afastada do aeroporto. Quando nos acomodamos em um dos conjuntos de cadeira não houve pudor em trazê-la para o meu colo, a abraçando com força, sentido como ela apertava meu pescoço com a mesma ânsia que eu sentia, inspirei sua fragrância que eu tanto gostava, beijei lábios, pescoço, mão, bochecha. Tentei lhe acalmar fazendo carinho em suas costas quando ela afundou a cabeça na curva do meu pescoço, respirando como se quisesse tirar todo perfume colocado alí, sussurrando baixinho "São só seis meses." repetidas vezes, para convencer a si, e afetando também a mim. Não me importei com a marca roxa e dolorosa que ela fez em meu pescoço, ainda mais ao ver um sorriso brincalhão surgi em sua boca, tirando o peso do seu olhar, nem ela reclamou quando repeti o gesto na sua delicada pele branca. Comecei a alisar seu cabelo rosa, que escapariam de meus dedos depois da chuva. Observei seus lindos olhos verdes, que não mais me encarariam depois da chuva. Passei minha mão por seu rosto, sentindo a maciez de sua pele, deixando meu polegar viajar pela textura de seus lábios, que eu não beijaria depois da chuva.


Não prestei atenção em quanto tempo ficamos daquela forma, só me sentia aliviado a cada trovão que soava pelas paredes do aeroporto. Simplesmente aproveitei todos aqueles instantes para aplacar toda aquela sensação de vazio que me consumiria depois da chuva.

Notas finais
É isso gente, espero que vocês tenham gostado, essa a primeira vez que posto uma história UA, achei diferente, mas muito legal.

Bom, é isso, Xau! :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!