Eu estava prestes a abrir a porta quando dedos esguios me seguraram gentilmente pelo pulso.

“Ciel, tem certeza que não tem problema? Eu não quero incomodar ninguém. Sério, eu posso ir para cas-”

“Alois, se você perguntar isso mais uma vez, eu vou causar um problema aqui. Você não vai incomodar ninguém, então cale a boca e vamos entrar logo.” Já estava um pouco sem paciência, tudo bem que eu não sou a pessoa... Demônio mais tranquilo do mundo, mas ele está perguntando a mesma coisa desde que nós saímos do colégio.

“... Tá bom.” Ele disse baixo, provavelmente havia notado que eu não estava de bom humor, ou havia percebido que eu não iria desistir.

Eu olhei meu relógio de pulso e notei que eu estava cinco minutos atrasado. Sebastian vai encher a minha paciência. Suspirei e abri a porta, segurando-a aberta para que Alois entrasse também.

“Wow, sua casa é linda!” Ele exclamou assim que pôs seu pé dentro de casa, curiosamente olhando a sua volta.

Eu fechei a porta e pus minha mochila no primeiro degrau da escada, estendendo a mão para que Alois me desse a dele.

“Cheguei.” Falei alto como faço todos os dias — sem razão — depois que arrumei nossas coisas e Alois me olhou com estranhamento.

“Ah, finalmente Jovem Mestre. Realmente, eu fico muito preocupado. Da próxima vez tente não se atrasar.” Sebastian saiu da cozinha balançando a cabeça em reprovação, limpando as mãos em um pano de prato. Ele abriu a boca para começar um sermão, mas a fechou novamente quando notou o rapaz loiro.

“Cale a boca, Sebastian.” Sério, ele é muito constrangedor. Eu sou um demônio, por que ele ainda se preocupa? E o pior é o que eu não posso evitar, mas gostar que ele se preocupe tanto comigo. Tive que me segurar para não sorrir.

“Ah, peço perdão. Não sabia que você trouxe um amigo.” Sebastian sorriu para Alois, que estava sem reação, com os olhos esbugalhados e o rosto meio vermelho. Mas o que...

“Sebastian, esse é o Alois. Alois, Sebastian.” Eu devia aprender a apresentar as pessoas... Nem parece que estou vivo há tanto tempo quando eu percebo que não consigo fazer coisas tão bobas como essa.

“Prazer em conhecê-lo.” Sebastian disse suavemente, com um sorriso no rosto enquanto estendia a mão para Alois, que ainda parecia em um tipo de transe até que a realidade o atingiu alguns segundos depois quando ele balançou a cabeça.

“M-muito prazer!” Alois apertou a mão estendida para ele, ainda com o rosto meio avermelhado.

“Eu o convidei para jantar conosco.” Eu disse para Sebastian antes dele falar alguma coisa depois que eles separaram as mãos.

“Ah. Então é melhor eu acabar logo.” Ele sorriu para mim e voltou para a cozinha... Por que eu sinto que algo está estranho? Não é só o fato de o Alois estar aqui. Tem alguma coisa estranha.

...

Ah.

Hoje ele não me beijou quando eu cheguei... Então é isso. Quer dizer, não que eu me importe dele não ter me beijado, eu apenas estou achando estranho. Quer dizer...

“Nossa.” Eu ouvi Alois dizer baixinho, olhando para onde o Sebastian estava segundos atrás.

“Que foi?” Eu perguntei, virando para olhar para ele. Nossa. Ele está com uma cara...

“Ele deve ser um dos homens mais bonitos que eu já vi.” Ele disse baixo, virando para mim e abrindo um sorriso, com um olhar meio suspeito.

“Ele é seu irmão?”

“Claro que não. Nós nem nos parecemos.”

“Primo?”

“Ele não é parente meu, Alois.” Eu falei de uma vez. Sabe-se quantas relações familiares ele ainda iria tentar. E eu não gosto muito de falar sobre família para falar a verdade.

“Aaahhh... Entendi!” Ele sorriu ainda mais, com uma expressão acusadora, pondo um dedo no meu peito.

“Eu não sabia que você gostava dos mais velhos, Ciel.” Ele cruzou os braços. Parece que ele está esperando uma explicação.

“O-o que? Eu não faço ideia do que você está falando.” Eu cocei a parte de trás da minha cabeça, desviando o olhar quando senti meu rosto esquentando.

“Ah, por favor, Ciel. Não precisa ter vergonha. Eu vi o jeito que ele olhou para você. Se vocês não tem nada, então já era hora de terem.” Ele riu baixo, apertando minha bochecha como se eu fosse uma criança envergonhada. Eu, criança? Não. Envergonhado? Muito.

“Para com isso.” Eu bati na mão dele de leve, mas ele só riu mais.

“Bom... Eu e o Sebastian...” Como eu explico? ‘Ah, ele é um demônio com quem eu fiz um contrato séculos atrás, mas eu me transformei em um demônio também, então nos teríamos que ficar juntos para sempre ai... ’ Sim, claro, muito simples.

“Não se preocupe, Ciel, eu já entendi.” Alois sorriu e passou a mão pelo cabelo, tirando a franja que estava caindo em seus olhos. Ele tem que parar com essa mania.

“Mas, de verdade, ele parece ser muito mais velho, sendo que você parece um neném.”

“Eu realmente vou fingir que você não acabou de me comparar com um neném.” Eu disse, franzindo um pouco minha testa em irritação. Eu odeio quando as pessoas fazem isso. Falam que eu pareço criança, ou um bebê ou neném. Eu sou mais velho que todos!

“Entããão, quantos anos o Sebastian tem?” Alois me perguntou com a voz baixa, provavelmente para que a ‘pessoa’ de que estávamos falando não escutasse — mas ele deve ter escutado do mesmo jeito -.

O que eu digo? Nem eu sei quantos anos ele tem. Vou inventar qualquer coisa. Agora, quantos anos Sebastian aparenta ter?

“Ele tem vinte... E cinco. É, vinte e cinco anos.” Eu respondi alguns segundos depois, esperando que ele acreditasse. Com certeza vai.

Alois sorriu de novo, com o mesmo olhar acusador de antes.

“Eu não conhecia esse seu lado Ciel.”

“... Esse lado?”

“Esse seu lado meio... Como eu digo... Meio safadinho.” Ele riu baixo quando viu meu rosto ficar completamente vermelho.

“Ora, seu-“

“Com licença, o jantar esta na mesa.” Sebastian apareceu da porta da cozinha, sorrindo para nós dois, interrompendo meu momento de fúria.

-

“Hoje, eu preparei salmão grelhado com legumes.” Sebastian colocou um prato na minha frente e outro na frente do Alois, que estava sentado na minha frente.

“Espero que vocês gostem.” Idiota, ele só diz isso porque sabe que a comida dele vai ser aprovada como sempre.

Sebastian se sentou ao meu lado, sorrindo, esperando nós experimentarmos seu prato.

“Você não vai comer, Sebastian?” Alois perguntou enquanto pegava o garfo. Lerdo, eu já havia começado a comer antes mesmo do Sebastian se sentar.

“Não tenho fome nesse horário, mas obrigado por perguntar.” ‘Mas obrigado por perguntar’... Blá, blá, blá... Idiota.

Alois levou a primeira garfada de comida na boca e eu vi seus olhos brilharem. É, a comida do Sebastian tem esse efeito em todo mundo. Bom, nas poucas pessoas que tem a sorte — que eu permito — de provar a comida dele.

“Nossa, foi realmente você que fez Sebastian? Você cozinha muito bem!” Alois exclamou com felicidade.

“Agora eu entendo porque o Ciel não come nada no intervalo. Ele guarda espaço para comer a sua comida quando chegar em casa!”

“O que?! Isso é um absurdo! Não tem nada a ver uma coisa com a outra!” Eu falei quando acabei de ouvir, quase engasgando na comida, meu rosto ficando vermelho – isso está acontecendo mais do que eu gostaria -. Tá, eu não comia no colégio porque eu não tinha fome. Isso é parcialmente verdade. A outra parte é o que o Alois acabou de dizer... Mas não quer dizer que eu quero que as pessoas saibam! Muito menos o Sebastian! Ele apenas vai ficar mais cheio de si!

“Ah, então você não come no colégio? Apenas para comer mais da minha comida? Sinto-me honrado.” Sebastian disse, virando para me encarar com um sorriso de canto de boca.

Eu apenas olhei para baixo, ignorando-o, esperando que meu rosto voltasse ao normal enquanto eu comia em silêncio.

-

“Ah, isso foi incrível. Obrigado por ter me chamado, Ciel. E obrigado pela comida, Sebastian.” Alois disse enquanto esfregava a barriga de leve.

Ele realmente deve passar fome em casa, comeu tanto. Não estou reclamando. Não. Acho que eu estou... Preocupado?

Sebastian riu baixo, retirando os pratos da mesa – e tirando a mão da minha coxa, que em algum ponto do jantar, o pervertido a pôs lá, como se fosse normal-.

“Espero que você venha mais vezes, Ciel nunca trás nenhum amigo para cá e tem vezes que eu acho que ele não tem nenhum amigo sequer.”

“Olha, será que dá para parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui?” Falei irritado. Eles fizeram isso durante o jantar todo! Chamaram-me de fofo, falaram como eu sou inteligente, que eu como muito, mas não engordo e o jeito que meu rosto fica meio avermelhado quando eu estou nervoso.

Os dois riram e eu grunhi, abaixando minha cabeça e a deitando na mesa, tentando ignora-los.

-

“Obrigado de novo aos dois.” Alois disse depois de se despedir de mim e de Sebastian, parado na frente da porta.

“Tem certeza que não quer que eu te acompanhe até em casa? Já está escuro e bem tarde.” Eu insisti de novo. Menino teimoso! E se alguma coisa acontecer com esse imbecil enquanto ele vai para casa? Aí a culpa vai ser minha.

“Não precisa Ciel. Eu vou chegar em casa rápido. Além do mais, eu já estou acostumado. Não se preocupe.” Ele sorriu e me abraçou pela milésima vez.

“Sem falar que você tem... Assuntos mais interessantes para tratar agora.” Ele disse baixo no meu ouvido, me fazendo ficar vermelho – também pela milésima vez-.

“Então, tchau! Foi um prazer te conhecer, Sebastian! Te vejo amanhã, Ciel!” Alois sorriu por uma ultima vez antes de virar e começar a andar para sua casa.

Eu suspirei e fechei a porta. Grande erro. Assim que a fechei, fui empurrado contra ela. Eu arregalei meus olhos, vendo Sebastian me segurando gentilmente – mas o suficiente para eu não escapar – pelos pulsos. Os olhos dele estavam rosa, e as pupilas... Ah, droga.

“Ele tem razão. Temos assuntos muito mais interessantes para tratar...” Ele lambeu os lábios enquanto me encarava.

“Ele te abraçou tanto que o cheiro dele se espalhou por todo o seu corpo. Eu vou ter que fazer algo sobre isso agora mesmo.” Sebastian me beijou, largando meus pulsos para me segurar pela cintura, pressionando seu corpo contra o meu.

Ele pôs as minhas pernas em volta de seus quadris enquanto mordia meu pescoço e mordiscava minha orelha.

E eu? Eu não consegui fazer mais nada além de gemer em aprovação e apertar minhas pernas a sua volta.

Aah, droga.