Depois De Tanto Tempo
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Faz exatamente 20 minutos que nós saímos de casa com Claude, e eu já estava com os nervos à flor da pele.
Se o que ele tiver me contado for mentira, juro que vou arrancar a alma dele pelos olhos.
Sebastian estava caminhando ao meu lado, com uma bolsa de viagem de tamanho mediano vazia, e Claude estava com outra. Não irei deixar Alois sozinho se ele estiver sendo maltratado.
Agora faz sentido o porquê de ele usar aquela jaqueta grossa. Deve ser para tampar os ferimentos.
Sabe-se lá o que ele passou. Eu deveria ter percebido mais cedo. O cheiro da alma dele era bom, e almas boas normalmente são de pessoas sofridas.
Eu suspirei pesadamente e passei a mão pela minha franja, tentando me conter. Minha vontade era correr até lá, mesmo não sabendo exatamente onde ele morava. Iria descobrir de um jeito ou de outro.
“Vai demorar muito?” Eu perguntei secamente a Claude, fitando um olhar frio para a parte de trás de sua cabeça.
“Eu acho que não.” Ele disse depois de hesitar por alguns segundos.
“Você acha que não?”
“Está escuro, Ciel. Não tenho certeza, mas quando chegarmos lá, vou saber.”
“A que horas exatamente você tinha ido até a casa dele?” Perguntei seriamente, tentando por meus pensamentos em ordem.
“Depois da aula.”
...
Se ele foi até lá após a aula, então não seria impossível pensar que...
“E posso saber o porquê você não me falou mais cedo?!” Eu praticamente gritei, esquecendo-me completamente que eram três e meia da manha e que estávamos no meio da rua. Talvez não me esquecendo, mais não me importando.
Sebastian colocou sua mão livre em meu ombro, acariciando-o em círculos com o dedão, como se tentasse me dizer para me acalmar, e incrivelmente, funcionou. Um pouco.
O toque dele parecia mágico. Era um calmante – e afrodisíaco -.
Nós atravessamos a rua e outro quarteirão apareceu. Ugh, já disse que odeio caminhar? As coisas que eu faço para quem eu me importo.
...
Espera... O que? Eu realmente acabei de pensar isso?
Um cheiro adocicado me tirou de meus devaneios e, pela primeira vez em muitos séculos, senti fome.
Esse cheiro, uma alma com espírito quebrado, desesperada, perdida. O melhor tipo de alma. Quase parecida com a minha.
Lambi meus lábios e pude sentir meus caninos crescerem levemente dentro da minha boca, e, pouco depois, notei um leve aperto no meu ombro. Sebastian deve ter sentindo o cheiro também... Ou então ele deve ter percebido minha reação e está tentando me ajudar a manter o controle... É, muito provavelmente é isso. Ele nunca reagiria assim a odor de alma alguma.
Talvez eu vá atrás dela depois.
“Ali. É ali.” Claude disse, apontando para uma casa a poucos metros de nós. Era uma casa normal, nada de muito surpreendente, mas não era feia. Apenas normal.
Assenti e percebi como o cheiro estava mais forte.
...
Não. Não, não, não. Essa alma não pode ser dele!
Eu me apressei e, sem perceber, já estava em frente a porta, encarando a madeira fixamente. Será que devo botá-la abaixo ou devo bater antes disso?
“O que vamos fazer agora?” Claude perguntou atrás de mim, olhando para Sebastian procurando uma resposta. Bem penado, ele é o mais sensato.
“Bata na porta. Se tentarmos entrar escondidos será pior.” Sebastian explicou e eu senti seus olhos queimando por trás da minha cabeça. É como se ele estivesse dizendo especialmente para mim ‘Não faça muita confusão’.
Balancei a cabeça, demonstrando que havia lhe ouvido e estendi meu punho, gentilmente tocando a madeira. Ouvi o som ecoando pela casa.
...
Talvez foi muito suave.
Bati de novo, com mais força e, dessa vez, ouvi algo se mexer dentro.
Pude escutar passos demorados e lentos, como se quem estivesse se movendo, estivesse arrastando os pés ao em vez de caminhar apropriadamente.
Passou-se poucos segundos e a porta se abriu, e o cheiro da alma encheu minhas narinas. Mas pude sentir o odor de outra alma, uma não tão agradável como a outra.
Uma alma podre, pecadora, de alguém que não fez nada para pagar seus pecados, alguém que não sofreu.
“Sabe quantas horas são, seus merdas? O que querem aqui?” O homem resmungou, sua voz áspera rasgando meus ouvidos. Parece que alguém não toma um copo d’ água há muito tempo.
Ele era mais alto do que eu, mas não tão alto quanto Sebastian ou Claude. Tinha um cabelo curto loiro e sujo, olhos escuros, barba mal feita e fedia. Usava uma calca de moletom encardido cinza e uma regata branca que estava machado de não sei o que.
“Olá. Eu sou amigo do Alois. Ele está?” Disse friamente, encarando o homem com nojo.
“Olha aqui, moleque, ele está sim. Mas ele não vai sair então dê o fora e me deixe dormir!” Ele já ia fechar a porta, mas Sebastian colocou o pé antes que ele pudesse fazê-lo.
“Não vai demorar.” Sebastian disse com um sorriso doce obviamente falso, que fez calafrios passar pelo meu corpo. Posso sentir o calor da ira dele.
Ninguém, ninguém, fala assim comigo e sai em pune.
É errado o quanto me excita quando ele fica irritado assim?
“... Pai, o que foi?” Uma voz meio fraca e manhosa chamou minha atenção e de Claude e olhamos para dentro.
Claude não deve ter visto muita coisa devido o quanto estava escuro dentro da casa, mas eu pude ver Alois no topo de uma escada, esfregando os olhos.
Esse homem é pai dele?!
“Alois!” Claude disse agitado atrás de mim.
Sebastian discretamente pôs sua mão esquerda na porta e abriu-a rapidamente, surpreendendo o... Pai do Alois.
“Ei!”
“P-pai... C-calma, eu conheço eles.”
O homem bufou de raiva e se virou para ele.
“Cale a boca, você. Depois resolveremos isso.”
“Resolveremos isso agora.” Eu o interrompi, não querendo ouvir mais uma palavra de sua boca.
“Sebastian, explique a situação para ele enquanto eu converso com Alois. Lá em cima.” Disse, pegando as bolsas de viagem das mãos dele e de Claude.
Alois me jogou um olhar de desespero, nervosamente balançando a cabeça de um lado para o outro, como se me dissesse ‘Não, dê a volta e vá embora. ’
Eu assenti para Alois e comecei a subir as escadas, ignorando o pai dele que estava proclamando obscenidades para nós.
Mesmo estando há alguns 2 metros de Alois, pude ver marcas no seu corpo. Pude facilmente distinguir os roxos e arranhões. O hematoma amarelado acima de seu joelho esquerdo chamava a atenção, destacando-se contra sua pele pálida.
“Vamos, Alois. Onde fica o seu quarto?” Perguntei quando estava um degrau abaixo dele, com a voz estranhamente gentil.
Ele engoliu um seco e gesticulou com a mão para segui-lo e subiu os poucos degraus que faltavam e foi para o corredor esquerdo.
Enquanto seguia-o, olhei discretamente em volta, vendo os detalhes. É uma casa pequena, o andar de baixo deve ter a sala e uma cozinha. Aqui em cima havia dois pequenos corredores, um para a direita, que se acabava rapidamente e havia uma porta em uma das paredes, e um para a esquerda onde pude notar duas portas, uma em frente à outra.
Acho que seria um lugar aconchegante se não fosse pelo odor inconfundível de álcool – e almas podres – e estivesse em melhores condições.
As paredes estavam lascadas, o chão rangia alto em baixo de nossos pés e, provavelmente, não havia luzes boas na casa. Se houvesse, o pai de Alois ou ele mesmo já teriam ligado uma.
Alois abriu uma das portas, entrando no quarto quietamente e eu fiz o mesmo, colocando as bolsas no chão.
“Ciel, o que vocês estão fazendo aqui?” Ele perguntou, virando para me encarar, com os ombros encolhidos.
“Não é óbvio? Alois, você sabe muito bem que eu não sou estúpido. Faz três dias que eu não lhe vejo. Olha para você. Não vou lhe deixar assim.” Eu falei, correndo meu olho pelo seu corpo novamente.
Antes que eu podia perceber, ele havia me abraçado, com o rosto escondido na curva do meu pescoço. Senti algo úmido contra minha pele, mas não disse nada, simplesmente pus minha mão direita no seu cabelo, afagando-o gentilmente.
...
“Há quanto tempo isso acontece?” Perguntei enquanto ajudava Alois a esvaziar as poucas gavetas de seu guarda-roupa.
“Acho que... Desde que eu tinha 13 anos? Não me lembro direito.”
“Entendo... Além de suas roupas e seu material, o que mais vai querer levar?” Perguntei depois que tirei uma final peça de roupa da terceira e última gaveta.
“Só os meus livros. É só isso que falta mesmo.” Ele disse e moveu-se para uma pequena estante do outro lado do quarto.
“Certo. Agora é só colocar tudo nas malas.” Peguei as bolsas e as coloquei em cima da cama dele, rapidamente pondo as roupas dele para dentro.
“Ciel...”
Virei meu rosto para encarar Alois, que estava olhando o chão, com uma jaqueta nas mãos, apertando-a. Sinal de nervosismo.
“O que foi Alois?”
“Tem certeza de que é uma boa ideia? Eu... Eu já fugi antes, mas... Mas eu sou menor de idade, e ele sempre chama a policia e eles me trazem de volta. Toda vez é assim.”
A policia? Pff... Como se eles tivessem algum poder sobre mim.
Será que devo contá-lo que eu — ainda — sou um bom conhecido da rainha?
“Alois, não se preocupe. Tudo vai dar certo.”
E mesmo se eu não fosse não haveria problema algum. Devoraria todas as almas de Londres se for preciso.
Ele sorriu para mim e assentiu, andando em direção a cama para ajudar-me a terminar de arrumar as coisas.
-
“Espere um momento.” Eu disse a Alois quando estávamos no primeiro degrau da escada.
“O que foi?”
“Tenho que checar algo.”
Fui até a sala, avistando Sebastian em pé encarando o pai de Alois, que estava desmaiado no sofá.
Com alguns... Arranhões pelo corpo.
Sorri para ele e depois avistei Claude, quem estava em pé do outro lado da sala, parecendo um tanto mais calmo e contido.
“Onde ele está?” Ele me perguntou assim que me viu e eu gesticulei para a escada.
“Então nós podemos ir.”
...
Já estávamos a um quarteirão da casa de Alois quando percebi algo.
“Alois e... E sua mãe?” Perguntei meio hesitante, virando-me para ele, que estava ao lado de Claude, com os braços entrelaçados com os dele.
Ele pareceu surpreso com a pergunta por um segundo antes de desviar o olhar para o lado.
“Eu também não sei... Ela foi embora há muito tempo.”
Droga.
“Oh. Eu não... Eu não tive a intenção.” Murmurei, sentindo-me um idiota.
Sebastian apertou minha mão suavemente, me puxando para mais perto. Ele colocou o braço esquerdo em volta dos meus ombros e pressionou os lábios contra minha bochecha.
“Ele vai ficar conosco, certo?” Ele perguntou baixo contra meu ouvido, fazendo pequenos espasmos percorrerem pela minha espinha.
“Exatamente. Por quê?” Perguntei de volta no mesmo tom de voz.
Ele suspirou quietamente e balançou a cabeça.
“Não vamos mais poder nos divertir na cozinha ou na sala.”
Senti meu rosto esquentar e apertei a alça da bolsa que estava na minha mão, fuzilando-o com o olhar.
Estava demorando. Faz mais de trinta minutos que ele não me provoca.
“Demônio idiota.”
-
Chegamos em casa em quinze minutos, se não me engano.
“Alois, você pode ficar no quarto de hóspedes.” Eu disse depois de colocar a bolsa em minhas mãos na beirada da escada, Claude fazendo o mesmo.
“Tome um banho e depois eu posso checar seus ferimentos. Vou fazer algo para vocês três comerem.” Sebastian disse, apesar de eu ter certeza de que a ideia de fazer comida para Claude não o agradasse muito.
“T-tá bom. Obrigado. Muito... Quero dizer muito obrigado.” Alois gaguejou e vi Claude sorrir para ele.
“Eu acho que não vou ficar. Já está tarde e vocês precisam descansar. E eu também.” Claude disse e se aproximou de Alois, dizendo algo em seu ouvido que o fez corar.
Revirei os olhos de leve e caminhei até Sebastian, que colocou um braço em volta da minha cintura.
Quando voltei a fitar os outros dois, dizer que eu fiquei surpreso seria pouco.
Claude tinha beijado Alois, simplesmente encostando seus lábios contra os dele antes de sorrir de novo.
Ele assentiu e acenou para mim e Sebastian e foi-se, deixando um Alois avermelhado encarando o nada no pé da escada.
...
“Vou ter que criar algumas regras.” Murmurei e ouvi Sebastian rir baixo ao meu lado, levemente apertando minha cintura.
“Só espero que essas regras não se apliquem a nós.” Ele sussurrou no meu ouvido antes de beijar o meu pescoço, fazendo-me tremer.
Tsc, idiota.
Mas é claro que não.
Fale com o autor