Depois De Tanto Tempo
17 Capítulo 17
Notas iniciais
“Você fez o quê?!” Eu quase berrei enquanto empurrava Claude contra a parede da sala, fazendo com que alguns quadros caíssem no chão devido à força do impacto.
Era a segunda vez em menos de 24 horas que eu o pressionava contra uma superfície. Mas dessa vez estava com mais raiva. Muita raiva. Espero que meu olho visível não esteja brilhando.
“Argh... Nossa, espera. Deixe-me explicar. É que-”
“Cale a boca! Seu maldito! Como teve coragem?! Eu não acredito que você fez isso!”
Sebastian estava atrás de mim, assistindo-me atentamente. Provavelmente para se certificar que eu não faça nenhuma bobagem e fazer com que nós tenhamos de mudar de país mais cedo do que planejado.
Porque, pelo ódio que eu estou sentindo por ele, eu posso arrancar um de seus membros a qualquer instante.
15 minutos atrás
“Ouviu isso?” Eu perguntei a Sebastian, separando meus lábios dos dele enquanto a água quente do chuveiro caia sobre nós.
Eram exatamente 02h59min da manhã e, como demônios não precisam dormir – mas mesmo assim eu durmo uma vez por semana, apenas pelo conforto -, eu e Sebastian sempre fazíamos coisas construtivas durante esse tempo.
Como, vulgarmente dito, ‘dar uns amassos’ no chuveiro.
No entanto, apesar da hora, eu podia ouvir o telefone na sala tocando.
“Ouviu o quê?” Sebastian murmurou, abaixando sua cabeça para roçar os lábios na curva do meu pescoço. Que surpresa ele se fazer de bobo. Idiota pervertido.
“Para, Sebastian. Você ouviu e eu sei. Largue-me e vamos ver quem está ligando. Anda, desligue o chuveiro.”
“Mas, Jovem Mestre, deve ser só a companhia de cartão de crédito.” Ele disse, gentilmente me empurrando contra a parede do box.
“... Companhia de cartão de crédito? Você nem tem cartão de crédito, Sebastian!” Eu exclamei, ficando levemente irritado.
“Por isso. Devem estar querendo oferecer um.”
“Deixe de ser idiota e vamos logo atender o maldito telefone.”
-
Eu havia colocado uma toalha em volta da minha cintura e outra em volta de meus ombros e rapidamente peguei o telefone. Engraçado, nunca vi ninguém tão insistente.
“Alô?” Eu falei, vendo pelo canto de meus olhos Sebastian encostar-se a uma parede, completamente seco para não molhar a casa, com uma toalha em volta de seus quadris.
“Alô? Ciel? Graças a Deus!” Acho que não exatamente graças a Ele.
“Claude? O que foi?” Eu perguntei, reconhecendo a voz que acabara de falar. Tomará que seja algo muito bom. Ligar a essa hora... E me interromper em uma atividade tão importante quanto a que eu estava fazendo!
“Ciel, é urgente. Preciso do seu endereço. Agora!”
Eu arqueei minhas sobrancelhas, mas lhe disse mesmo assim. Nada de ruim pode acontecer a mim — ou à Sebastian – mesmo.
-
Em poucos minutos, estávamos vestidos e Claude estava batendo na porta.
Quando ele entrou, fiquei surpreso. Ele tinha olheiras, cabelo desarrumado, parecia exausto e surtado.
“Ciel! Precisamos conversar! É-é sobre o Alois!” Ele exclamou assim que me viu, e eu assenti, fazendo com que Sebastian fechasse a porta e me olhasse com desentendimento sobre o que o Claude poderia querer dizer sobre meu amigo.
“Pode falar.” Eu disse, reclinando-me contra uma parede da sala.
Claude engoliu um seco e começou a falar.
Flashback, ponto de vista do Claude.
“Meu Deus...!” Eu exclamei mais alto do que planejava, mas ainda assim saiu baixo. Acho que minha voz deve ter sumido devido à cena.
Por dentro eu pude ver uma sala de estar, com um sofá vermelho de couro que parecia muito velho e sujo, com duas mesinhas de cada lado com retratos que não dei muita atenção, um tapete redondo e uma televisão antiga.
E um chão repleto de garrafas vazias. Algumas quebradas, algumas derramando o pouco restante de seu conteúdo sobre o tapete, manchando-o. Eu não tive dúvida que eram de álcool.
E no sofá. No sofá foi o pior.
Alois. Meu doce, inocente, delicado Alois. Sentado, encarando o chão, com uma camiseta verde rasgada e uma bermuda.
Os braços e as pernas dele estavam repletos de feridas que tinham aquele contorno amarelo que, muitas vezes, indicava infecção, manchas de sangue velhas e novas, hematomas roxos.
Eu não podia ver os olhos dele, mas pelas bochechas, dava-se para notar que ele esteve chorando.
Na frente dele, um homem loiro, alto por volta de seus 30 e tantos anos andava de um lado para o outro, falando sem parar. E parecia muito mais embriagado do que qualquer pessoa que eu já havia visto na minha vida.
Eu não podia ouvir o que ele dizia, mas devia estar gritando. Pois a cada vez que sua boca movia-se, Alois recuava e aninhava-se mais ao sofá, sua mão esquerda apertando o assento com tanta força que seus punhos estavam brancos.
O... O que eu faço?
Minha nossa, o que eu faço?!
Agora, de volta ao ponto de vista do Ciel
Após que Claude me contou sobre o estado do Alois, imagens de quando eu fui torturado voltaram a minha mente. Algo que não acontecia há muito tempo. E ódio me encheu completamente.
Ainda mais quando ele disse que saiu correndo de lá sem fazer nada ou sem avisar ninguém.
“Seu maldito covarde! Por que não entrou lá? Por que você não fez nada?!” Eu gritei, pressionando-o com mais força na parede, ouvindo sons de rachaduras começando a se formar.
Senti uma mão em meu ombro, e pouco depois Sebastian sussurrou no meu ouvido.
“Ciel, acalme-se. Vamos, solte-o. Será melhor.”
Eu grunhi meus dentes, mas eu sabia que ele estava certo. Pouco a pouco, larguei Claude e dei um passo para trás.
“Sebastian pegue algumas bolsas de viagem vazias, vamos precisar.”
“Como quiser, Ciel.” Ele fez uma breve e pequena reverência antes de ir para o andar de cima.
Não dando Claude mais um segundo se quer para se recompor, eu me virei novamente para ele.
“Leve-nos até lá.” Eu disse autoritariamente, com um olhar fixo e raivoso para ele.
“Agora?”
“Exatamente. Devia saber que você não presta para nada. Eu vou fazer isso com minhas próprias mãos.”
E são em situações como essa que lembro-me porque há muito tempo parei de acreditar em Deus.
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