Depois Das Chamas
1 Capítulo único
Notas iniciais
Correr, correr, correr.
É isso que devo fazer agora, mas minhas pernas não obedecem meu cérebro — elas parecem pesadas demais, paralisadas e a cada tentativa frustrada meu desespero aumenta. Eu sei que ele já está perto, posso senti-lo avançando suavemente, sem nenhuma pressa, mas com os olhos tão astutos quanto os de um leão prestes a dar o bote na presa. E ele sabe que eu não tenho por onde fugir.
Um espasmo de medo percorre meu corpo, um grito abafado escapa dos meus lábios. Enquanto procuro um lugar para me esconder, lembro de como fugi dele pela primeira vez. Não foi tão difícil quanto está sendo desta vez, quando era criança a sorte me ajudara a escapar e eu era mais ágil. E agora, no meio dessa floresta cinzenta, nenhum lugar parece seguro o suficiente, sinto como se o perseguidor estivesse em todos os lugares.
E essa ideia nem é tão absurda assim, tenho ideia do que ele pode fazer com as pessoas. E com a mente delas. Ele quer vingança, quer me torturar lentamente até a morte. Uma dor no fundo da minha alma se agrava toda vez que penso nisso, e faz com que eu me arrependa amargamente de tê-lo conhecido, de ter me aproximado dele. Eu fui uma criança burra, muito burra. Desde que o conheci, nunca mais confiei nas pessoas. Nunca se sabe o que elas pensam realmente.
Minhas pernas se movem a passadas lentas e tremulas. Sei que estou perdendo tempo, agarrando-me a uma ínfima esperança de escapar. Encosto-me em uma árvore, com a respiração pesada, como se não houvesse oxigênio suficiente no ar. Minha mente gira, a escuridão se torna mais intensa, e não consigo pensar claramente sobre aonde ir.
Algo frio aperta meus braços, e em seguida as pernas. Levo alguns segundos para perceber que são algo como raízes que me apertam contra o tronco da árvore. Uso todas as minhas forças para tentar me libertar daquilo, tinha esquecido que ali quem comanda tudo é ele. Debato-me inutilmente, e sinto as raízes se apertando conta meu corpo.
Então tudo está perdido, este é o meu fim. Minhas esperanças de adiar aquele encontro viram cinzas. Cinzas, queimado. Então o fogo se alastra ao meu redor. Então vai ser assim, como um churrasco. Eu poderia rir se não fossem meus últimos momentos sobre a face da terra. E o perseguidor pode chegar a qualquer momento com um sorriso triunfante.
O suor me deixou molhada em poucos segundos, o calor é insuportável e não consigo manter meus olhos abertos por muito tempo. Por que o fogo não avançava logo sobre mim? A sensação de impotência é angustiante, e o calor está me cozinhando. Então percebi que é o começo da tortura, ele vai me deixar morrer desidratada, o fogo se mantem ao meu redor num circulo perfeito.
Fumaça, cinzas, fogo, vermelho, morte. Não consigo pensar muito além disso e tossir. Tossir. Isso está sendo pior do que eu imaginei. E então ele se materializou depois das chamas. Meu perseguidor, aquele que um dia pensei que era meu amigo. Ele estava completamente igual como me lembrava dele, como o vi há alguns anos atrás. Como se o tempo tivesse parado para ele.
Ele me olhou triunfante, com os lábios vagamente curvados num sorriso. Seu rosto claro parece reluzir na claridade do fogo, contrastando com suas roupas pretas: um sobretudo, calças e botas de couro. E continua lindo e assustador. Vê-lo tão bem foi como um tapa na cara. Pensar que já considerei aquele monstro como o pai que nunca tive… Meu estomago se revirou em náusea.
– Estava com saudades de você, minha querida. – ele diz com a voz macia e controlada.
– Vá para o inferno! – cuspi entredentes com toda a raiva que corre no meu sangue.
Ele sorri amistosamente, como se estivesse conversando com um amigo querido. Mas é tudo falso, um jogo. E as chamas aumentam, ficando quase da minha altura, mas ainda consigo ver seu rosto. Um sorriso se expande.
Minha agonia aumenta, não consigo mais respirar. A tosse, o calor, as chamas estão me matando lentamente. O que me mantém de pé são as raízes presas na árvore, meus ossos parecem esponja, minha garganta queima de sede, e as lágrimas rolam do meu rosto sem a minha permissão. Não consigo pensar em mais nada, minha mente gira novamente e a inconsciência me domina. Quero a morte mais que tudo.
Abro os olhos, mas não vejo nada. Meu corpo está paralisado, mas sinto que estou num chão frio e duro. Estou morta? Onde está a floresta e o perseguidor?
Fale com o autor