Depois Da Meia-noite
3 Solidão
Notas iniciais
–Nefilim?- Indaguei — O que é isso?-
–Nada não, eu... Ah, esquece vem logo Lux- Será que eu estou ficando louca?Não, realmente minha mãe também viu o que eu vi, e quase angustiada ela andou mais rapidamente
–Ei, espera por mim- Falei, e corri atrás dela, mas parte de mim queria falar com o garoto, rapidamente chegamos à recepção, onde estava a recepcionista, uma mulher bonita de pele branca, cabelo longo e preto, olhos azuis, gordinha, ela usava um terno feminino verde-escuro e estava entretida com seu notebook branco da Sony
–Olá... Kelly, você poderia me ajudar?- Por um momento eu me perguntei como minha mãe sabia o nome dela, depois eu percebi que ela tinha um crachá que dizia Recepção: Kelly Dalton
–Seria um prazer- A mulher parou de olhar para o notebook e sorriu para minha mãe, por que ela estava feliz?
–Bom, é o primeiro dia da minha filha aqui e eu queria saber em que quarto ela ficará-
–Qual é o nome da paciente?-
–Lux Elena Martine- Eu comecei a fazer várias batidas na mesa da recepção com minhas unhas, tédio! Kelly digitou alguma coisa no notebook, aposto que era meu nome
–Ah sim, ela ficará no quarto 357- A mulher olhou para mim e ficou triste por um momento, ela ficou com pena de mim por que eu estou “doente”?
–Kelly, você pode me dizer se o Dr. Zacharie está aqui?- Perguntou minha mãe
–Sim, pode ir falar com ele agora se quiser... Vou pedir a enfermeira para levar sua filha ao quarto-
–Não precisa!- Gritei, eu não sou demente, não estou louca, nem entupida de remédios, eu sei andar e procurar o quarto
–Lux não grite... Isso é falta de educação- Reclamou minha mãe
–Tudo bem, não se esqueça, é o quarto 357 no terceiro andar- Falou Kelly
Eu assenti com a cabeça, peguei minha mala e fui para o elevador, não demorei muito para chegar ao terceiro andar, naquele corredor todo branco e limpo havia muitas pessoas, algumas pareciam normais, talvez aqui não seja tão ruim assim, olhei vagarosamente em cada porta até encontrar a minha, respirei fundo antes de abrir, tomei coragem e entrei no quarto, que era enorme e pintado de lilás, tinha três camas, três criados-mudos, cinco abajures, uma TV de plasma, um computador, uma penteadeira, um aparelho de som, uma porta que provavelmente seria o banheiro e três guarda-roupas, tirando as decorações como cortina, coleção de bonecas Barbie, bichinhos de pelúcia, porta-retratos, pinturas, pôsteres e objetos pessoais na penteadeira
–Oi colega de quarto- Alguém falou, então eu vi uma menina deitada em umas das três camas de solteiro do quarto enquanto lia uma revista, ela era extremamente bela tinha olhos verdes, pele morena, cabelo liso e castanho-escuro e usava um casaco trench coat preto, uma calça comprida jeans skinny e um sapato scarpin feito com um material que imita o jeans
–O que?- Indaguei, eu pensei que iria morar sozinha
–Você está bem?- Perguntou a garota — Parece pálida-
–Estou- Falei, eu me aproximei da minha cama que era no lado oposto a dela, assim eu joguei a mala no chão e deitei, eu não acredito que vou ficar junto com uma louca nesse quarto
–Qual é o seu nome?- Ela perguntou — O meu é Sienna-
–Lux- Fechei meus olhos
–Que nome lindo, Sabia que Lux quer dizer Luz? — Eu não perguntei
–Não, eu não sabia- Respondi
–Quantos anos você tem?- Ah que saco!
– Eu tenho 16-
–Ah eu tenho 15 anos... E então, você também tentou se matar?- Ela perguntou
–Também?- Indaguei, ela subiu as mangas do casaco e me mostrou cortes nos braços e duas cicatrizes nos dois pulsos
–Todos que ficam no terceiro andar tentaram se matar ou pensam em fazer isso-
–Oh... Até você?- Ela era linda e parecia muito animada, por que ela pensaria em se matar?
–É... Eu tenho a mania de me cortar quando tenho crises existenciais-
–Ah... Entendi-
–Você me entendeu?- Ela perguntou — Eu te digo que me corto e você aceita isso?-
–Sim... Eu me pergunto ás vezes se vale mesmo à pena viver nesse mundo, não vou te julgar-
Sienna sorriu
–Então você e a Thereza são as únicas que me entendem-
–Quem é Thereza?- Ah não acredito que perguntei isso, eu nem me importo
–Thereza é a nossa colega de quarto, ela está aqui a mais tempo do que eu-
–Não acredito que vou morar com duas loucas-
–Você tem medo de nós?-
–Eu não diria que é medo, é só que, vocês não são... Normais-
–Você também não é, porque se fosse não estaria aqui- Ela disse, nesse momento eu voltei à realidade, estou em um hospício, eu realmente sou louca. Sienna continuou a ler a revista, reparei que no criado-mudo perto de sua cama tinha uma bolinha de cristal com a miniatura de Paris dentro, era linda e perfeitamente fiel a Paris real
–Qual é o seu signo?-
–Desculpe... O que você disse?- Perguntei, eu estava tão distraída que não tinha ouvido nenhuma palavra
–Eu quero saber o seu signo do zodíaco- Signos? Ela realmente acredita nisso?
–Humm... Não sei, eu não me lembro- Minha mãe tinha me dito quando eu era criança, mas agora não me lembro
–Então eu quero saber o dia e o mês do seu nascimento-
–Não me diga que você consegue descobrir o signo de uma pessoa pela data de nascimento-
–Ou você é muito engraçada ou é muito burra- Comecei a rir
–17 de abril-
–Áries- Ela disse
–Nossa você é mesmo rápida-
–Eu sou louca por horóscopo- É, deu para perceber
Ouvi a porta se abrindo e me virei, vi que era minha mãe
–Filha, o Dr. Zacharie quer falar com você- Ela disse, ah não, de novo não!
–Tem que ser agora?- Mamãe fez uma expressão de desgosto
–Sim, tem que ser agora- Eu me levantei da cama
–A senhora é a mãe da Lux?- Perguntou Sienna
–E você é?-
–Sienna Billard, colega de quarto dela-
–Você já arrumou uma amiga filha?- Amiga?
–Não exagere mãe, vamos logo- Pedi, fui com ela até o elevador e não nos falamos, não tive coragem de perguntar sobre o que eles conversavam, bati na porta duas vezes
–Pode entrar- Ouvi uma voz grava falar, então abri a porta. A sala do Dr. Zacharie era bem moderna e tudo era nas cores preto e branco, percebi que minha mãe não entrou, estava apenas me observando da porta
–Você não vai entrar?- Perguntei, ela apenas balançou a cabeça negativamente
–Não posso- Ela falou e fechou a porta, sem entender eu andei até o Dr. Zacharie que estava sentado em sua “cadeira de presidente” preta
–Olá Lux, eu queria falar com você em particular, por isso pedi para sua mãe te esperar lá fora, sente-se, por favor- Ele apontou para a cadeira na frente dele, eu me sentei
–Seja bem-vinda a minha clinica de reabilitação-
–Hospício- Eu falei, ele riu
–Tanto faz, eu espero que goste da sua estadia aqui-
–Ninguém me avisou que eu teria que dividir o quarto com uma estranha que se corta, ela é esquisita-
–Não fale assim da Sienna, ela é uma menina doce, apenas é uma adolescente problemática, como você, além do mais o objetivo dessa clínica é a socialização entre os moradores, isso ajuda sua psique a se renovar e voltar ao normal-
–Então eu sou como ela?-
–Não, o problema dela é bem mais grave... Você é o que as pessoas diriam que é “normal”, apenas sofreu um surto por causa do seu namorado, do seu trabelho, da sua família e dos seus amigos-
Não tenho amigas, tenho invejosas que me seguem e entram no meu privado circulo social por que querem ser uma pessoa ridícula como eu
–Quando vou poder ir embora?- Era impressão minha ou o ar dentro dessa sala estava muito frio?
–Você vai quando eu tiver a certeza de que está melhor, não se preocupe, não vai demorar- Ele disse – Você está com um stress muito grande, precisa se alimentar direito, descansar e fazer amizades-
–Eu não quero ser amiga de loucos-
–Ninguém aqui é louco, eles apenas têm problemas que nos não temos... Você sabe que serão duas colegas de quarto no seu caso não é?- Ah é, tem a outra menina que eu não lembro o nome
–Sim, mas eu só conheci a Sienna-
–Você terá que ter paciência com as duas, principalmente com a Thereza-
–Por quê?- O que ela tem?
–Thereza tem uma doença muito delicada e rara chamada... – Fomos interrompidos por batidas na porta
–Pode entrar- Disse o Dr. Zacharie. Entraram na sala duas mulheres, uma de meia-idade de cabelo e olhos castanhos, ela usava um longo vestido vermelho e um cinto de cor preta (da mesma cor de seu sapato), seu cabelo curto facilitava a vista de seus enormes brincos de argola dourados. A outra mulher era bem mais jovem, muito alta, tinha lindos cachos pretos e chamativos olhos azuis, sua pele era morena e usava uma roupa totalmente branca, era uma enfermeira?
–Zach, eu trouxe a Nicole- Falou a primeira mulher, ela se aproximou da mesa do médico e pegou uma prancheta
–Obrigada querida- Disse Zacharie, querida?
–-Lux, aqui cada paciente tem um acompanhante e está é a sua, Nicole Rivier- Acompanhante?
–Olá Lux- Ela se apresentou, seu sotaque era diferente, eu me lembro disso...
–Oi- Falei, Nicole se aproximou de mim
–Eu vou ter que conviver com você enquanto estiver aqui, então devo contar seu progresso ao Dr. Smith- Claro que esse sotaque me é familiar
–Você é francesa?- Perguntei, ela assentiu com a cabeça e eu sorri
–Bom, foi por isso que a escolhi para ser sua acompanhante, sei que sente saudade da frança- Eu queria chorar
–Obrigada Dr. Zacharie- Eu disse
–Venha comigo Nicole, precisamos conversar com a mãe da Lux- Disse a mulher de meia-idade
–Lux, essa é minha esposa e secretária, Sra. Giselle Smith- Ele tem esposa?
–Bem vinda querida- Disse Giselle, ela sorriu para mim e saiu da sala com Nicole
–Ela vai ser meu vigia para me impedir de fazer loucuras como me suicidar?-Perguntei, Zacharie riu
–Você é esperta, mas não é apenas isso- Ele disse- Todos gostam de se sentirem protegidos, e ela vai te proteger de tudo, até de você mesma se for preciso... E Nicole vai me dizer suas ações e assim eu avalio melhor o dia da sua saída da clínica-
–Entendi... Quando a minha mãe vai poder me ver?-
–Todo final de semana, sábados e domingos das 15:00 horas da tarde ás 19:00 horas da noite- Ela vai mesmo me deixar aqui?, Eu queria ter tido uma infância normal, ela não me deixou continuar no balé, não me deixou brincar de amarelinha ou pula-corda com as outras crianças, eu não tenho uma vida... Eu me sinto presa, sou um passarinho em uma gaiola, sinto a solidão me rondando o tempo todo
–Não chore- Pediu Zacharie, eu estou chorando?Droga!
–Mesmo cercada de pessoas eu me sinto muito sozinha, isso é realmente normal?- Perguntei, Zacharie se levantou, veio até mim e me abraçou
–Todo mundo já se sentiu assim algum dia, fique calma, eu tenho várias pessoas para atender, mas amanhã poderemos conversar melhor, sua terapia só iria começar na próxima semana, mas podemos antecipar um pouquinho não é?- Ele riu, eu não agüentei e comecei a rir também
–Obrigado, Dr. Smith-
–Pode me chamar de Zach- Eu o soltei e me levantei da cadeira, limpei as lágrimas do meu rosto com as costas das minhas mãos
–Então ta, até amanhã, Zach- Falei e acenei para ele, Zach acenou de volta e eu saí da sala, minha mãe me esperava sentada em um banco em frente à porta, ao lado dela estava Nicole
–Filha, eu não posso mais ficar, não é dia de visita, então... Tome cuidado e... Fique linda- Fique linda? Fala sério, mãe
–Mãe, a senhora disse para a vovó Helena que eu estou aqui?- Perguntei, ela se aproximou de mim e me abraçou
–Sim- Eu queria que a vovó estivesse aqui... Ah é mesmo, eu sonhei com ela!
–Mãe, você se lembra da fada?- Ela me soltou rapidamente
–Que fada?- Humm... Será que aquilo era real?
–A fada que a senhora e a vovó Helena me mostraram quando eu tinha quatro anos- Como era mesmo o nome dela? –A fada Morrigu- Minha mãe parecia não se lembrar
–Não me lembro de nenhuma fada querida, fadas não existem, você sabe disso- Ela olhou para Nicole, droga, tenho certeza de que ela vai falar para o Zacharie que eu “vejo fadas”, e deve pensar que eu sou louca
–Eu tenho que ir, vou falar para a imprensa que você está de férias em Amsterdã na Holanda, então aproveite e não faça besteiras, tenho certeza de que você vai ficar bem- Eu sorri, ela me abraçou por dois longos minutos e foi em direção a recepção
–Lux, você deve voltar ao seu quarto agora- Disse Nicole, eu assenti com a cabeça e ela foi comigo até o elevador
–Sua mãe é uma pessoa engraçada, ela realmente se preocupa com você- Nicole falou –Ela está sofrendo muito te deixando aqui- Será? –Talvez você tenha razão- Falei, se ela não quer que eu fique aqui por que ela me deixou nesse lugar? Pra o meu próprio bem?
Só percebi que tínhamos chegamos ao quarto quando Nicole abriu a porta, Sienna estava sentava na cama dela pintando as unhas dos pés de cor rosa pastel com esmalte Prada, na outra cama uma menina de cabelo preto, liso e longo tomava uma injeção, ela era muito pálida e magra, tinha lindos olhos negros e ela usava um simples vestido de cetim de cor preta, seu rosto transmitia tranqüilidade, ela parecia tão serena
–Você voltou- Disse Sienna sorrindo, não, isso é uma ilusão, eu ainda estou lá na verdade, eu ri de meus pensamentos idiotas. Eu fiquei olhando aquela enfermeira aplicar a agulha na pele daquela garota aparentemente frágil
–É a Thereza, nossa colega de quarto- Disse Sienna provavelmente percebendo que eu não parava de olhar para ela – Oi Nicole- Elas se conhecem?
–Oi Sienna, como você está se sentindo hoje?- Nicole perguntou
–Bem, obrigada- Voltei minha atenção para minha outra colega de quarto que se deitou na cama, a enfermeira que aplicou a injeção cobriu uma fraca Thereza com um cobertor roxo, ela era bonita, usava o mesmo uniforme que Nicole, tinha espessos cabelos dourados, olhos castanhos pequenos, pele brozeada, era normal como eu, nem gorda e nem magra demais
–Ah Verônika, a chefa está querendo ajuda para entregar os remédios no primeiro andar- Disse Nicole, Verônika assentiu com a cabeça e colocou sua mão sobre a testa de Thereza, provavelmente para verificar sua temperatura
–Eu tenho que ir agora, te acordo na hora do almoço, descanse- Disse ela
–Lux, na hora do almoço vá para o refeitório, almoçe e me espere lá- Falou Nicole, eu assenti com a cabeça e ela saiu da sala com Veronika
–O que a Thereza tem?- Perguntei para Sienna
–Não sei direito, o Dr. Zacharie pode te explicar melhor, o que eu posso te dizer é que Thereza acha que está morta- O que?
–Como assim ela acha que está morta?- Ah, É claro, no hospício só tem loucos
–É que ela tentou se matar e... Pensa que conseguiu. Thereza realmente acha que é um zumbi- Ai, sinto minha cabeça doer
–Mas, ela não se vê no espelho? Ela não se toca?- Perguntei isso me irritava, eu não sabia que existiam pessoas que pensam que estão mortas
–Ela pode se curar, na verdade Thereza está começando a perceber que isso é psicológico- Bom, melhorar já é um começo
–Você quer que eu pinte suas unhas?- Eu me sinto desgastada emocionalmente, preciso descansar, balancei a cabeça negativamente
–Eu vou dormir um pouco- Falei — Sienna, por que você tentou se matar?- Ela ficou aparentemente triste, olhou para mim e suspirou alto
–Eu tinha crises de convulsão epilética e odiava isso, não ter controle sobre o próprio corpo, então decidi que não viver era a melhor opção-
–Você se curou?- Perguntei
–Mais ou menos, eu controlo com remédios e não tive nenhuma crise nos últimos quatro meses-
–Ah que bom- Arfei, ela rapidamente voltou a prestar atenção nas unhas para fugir desse assunto, então eu me deitei em minha cama, eu não quero ter mais pesadelos, acabei pegando no sono mais rapido do que eu esperava.
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