Departamentos

1 Capítulo 1


-Próximo! – ouvi a voz rouca da mulher de batons vermelhos ofuscantes, cabelos grisalhos, pele receada e olhos fundos e verdes.

Aproximei-me da mesa em que a mulher estava. Olhei para os lados, com os olhos cheios de lágrimas, tentando entender o fundamento daquilo tudo. Havia meninas e meninos de todas as idades em filas em um grande e enorme saguão. Muitos choravam, como eu, e outros tentavam demonstrar indiferença, mesmo seus olhos mostrando o quanto estavam tristes e indignados com a decisão de Bartolomeu Gesses, nosso presidente e agora, presidente do mundo inteiro.

-Nome? – disse a mulher a minha frente, mal olhando para mim. Estava mais interessada em seu papel com linhas em branco, esperando serem preenchidas com as minhas informações.

Engoli em seco e tentei disfarçar minhas lágrimas, limpando-as em minha blusa de manga cumprida.

-Ro... – respirei fundo e engoli o choro. – Romena Hiss. – falei como um cuspe.

A mulher continuou a escrever em seu papel o meu nome com letras desenhadas.

-Idade? – falou ela novamente, sem perceber o quanto eu chorava e soluçava para tentar pronunciar as informações.

-Dezessete. – disse, lembrando-me de meu aniversário há alguns meses atrás e de como eu estava feliz comemorando com meus amigos e pais que, agora eu não fazia idéia de onde estavam.

-Nacionalidade? – falou a mulher, mordiscando seu lábio inferior.

-Inglesa. – falei rapidamente.

Finalmente a mulher olhou para mim e vi seus olhos se arregalarem.

-Como está suja... – disse ela em um sussurro balbuciado.

Senti-me terrivelmente mal com aquelas palavras, mas eu não poderia negar que era a verdade.

-Olhe para a câmera. – disse ela, voltando os olhos para o papel e apontando com a caneta para cima, onde a segui com o olhar e vi uma câmera digital preta me encarando.

Nas minhas fotos de escola, eu sempre as tirava sorrindo, mas não havia motivos para sorrir, então apenas olhei para a câmera e senti meus olhos ofuscarem com o flex.

Olhei para a máquina esquisita que fazia barulho e de lá saiu uma carteirinha, com o meu nome, idade e nacionalidade e logo ao lado a minha foto em três por quatro.

-Aqui está! – disse ela me entregando com grosseria. – Departamento 3! – gritou ela para um homem que estava atrás dela.

Atrás de todo ficheiro havia um entregador, que nos levava até nossos departamentos, com roupas de gala e um sorriso simpático no rosto, como se tudo estivesse na mais santa paz. Iludidos!

Peguei minha carteirinha e a coloquei nos bolsos de minha calça jeans surrada, sem nem olhar para minha fotografia. Seria terrível ter de encarar minha face suja depois de só ter lembranças dela limpa.

-Venha menina! – disse o homem, me pegando pelo braço com passos rápidos, me fazendo quase correr ao seu lado para alcançá-lo.

Segui o homem por todo local, até ver uma menina de olhos castanhos escuros fitando-me, sendo levada na mesma direção que eu.

Ela parecia sorrir para mim, mas era um sorriso estranho. Não era de simpatia e nem de safadeza, mas era um sorriso um pouco amedrontador e confortável. Tinha cabelos longos, loiros com mechas pretas, preso em uma transa espevitada, pele branca e roupas rasgadas de malha.

O homem que estava me guiando entrou em uma fila e logo depois veio essa menina com outro entregador, segurando-a com força.

-Inglesa? – ouvi a voz dela sussurrando em meu ouvido, por trás. Uma voz rouca e lisa.

-Sim... – falei, enxugando as últimas lágrimas que teimavam em ainda dar o ar de suas graças.

-Departamento 3? – perguntou ela.

-Cale a boca garota! – gritou o homem ao lado dela, mas não ousei a olhar. Mas, escutei um grunhido vindo dela, provavelmente ele a apertou para que ficasse quieta.

Balancei a cabeça, com medo que o entregador ao meu lado me machucasse, então ouvi um risinho vindo de trás.

Ouvi o marchar de botas vindas da minha frente, então o entregador ao meu lado começou a marchar, levantando bem os joelhos e os braços.

-Vamos! – sussurrou ele para mim, me encaminhando para frente, junto a ele.

Enquanto andávamos para fora do saguão, pude ver outros entregadores e adolescentes em outras filas, saindo por portões de alumínio diferentes, cada um seguindo o seu caminho, mas estava sem ordem.

Ao meu lado esquerdo ouvi uma menina sussurrar o Departamento 17 e a minha direita o departamento 43.

Fomos andando e saindo do local.

Eu nunca mais havia visto a luz do dia, somente aquela luz artificial, dentro daquela bolha fétida, com pessoas corruptas e que não se importavam com os outros.

-Departamento 3! – gritou o General na porta de um trem super moderno e estiloso.

-Aqui! – gritou um homem que estava na frente da fila onde eu estava.

-Por aqui... – avisou o General, fazendo sinal para que entrássemos no trem.

Um de cada vez entrou e se sentou nas milhares de cadeiras que havia ali.

Entrei em silêncio e me sentei ao lado da menina que estava sussurrando atrás de mim, enquanto nossos entregadores se sentavam nas cadeiras da frente, viradas para nós.

-Sou Alicia. – disse a menina estendendo a mão.

Hesitei por um momento, mas logo a apertei e senti as graxas de nossas mãos.

-Romena... – falei baixinho.

-Quietas! – falou o entregador de Alicia.

Olhei pela janela e vi os outros departamentos entrando em seus respectivos trens, até o meu sangue começar a bombear sangue rapidamente em meu peito, minha respiração acelerar e eu quase ter um troço.

-Yago! – gritei, pondo as mãos no vidro da janela, ao lado da cadeira onde eu estava sentada.

Eu o conhecia! Finalmente havia visto alguém que conhecia!

Meu rosto demonstrou um sorriso e meus lábios me machucaram, por estarem muito tempo em uma só posição e rachados pela falta de umidade.

-Cale a boca! – gritou o meu entregador, colocando a mão no bolso e puxando um porrete, em que depois de segundos foi lançado com toda força em minha perna.

Gemi de dor, mas continuei a olhar para fora, com a esperança de que ele me olhasse e para minha sorte e tranqüilidade, ele olhou e abriu aquele lindo sorriso que estava acostumada a ver.

-Romena! – vi seus lábios se moverem, mas não escutei nada. Os vidros eram aprova de som.

Ele se largou do homem e saiu correndo em direção a minha janela.

O homem rapidamente foi em direção a ele.

Yago, espremeu o rosto contra o vidro e me mandou um beijo que já significou muito para mim, mas logo o sentimento se esvaiu, quando vi o homem atrás dele, levantar um porrete de aço e ir contra seu ombro.

Minha respiração parou quando quase pude ouvir o impacto do porrete com o ombro de Yago, o fazendo colocar as mãos no vidro e escorregar, desacordado para o chão.

Levantei-me para ver, assim como todos os outros.

Yago havia sido meu namorado e eu o amava demais! Ele havia nascido na Holanda, mas foi para Inglaterra estudar e no ginásio eu o conheci.

Ele era o menino mais fofo, doce, inteligente, amável e matreiro que eu já tinha conhecido. No primeiro dia de aula, nós nos esbarramos no corredor e desde então não nos desgrudamos mais. Primeiro, ele se tornou meu amigo e depois melhor amigo e logo depois ele confessou o que sentia por mim, que era exatamente o que eu sentia por ele, mas não falei porque achei que não seria recíproco. Ele me pediu em namoro e começamos a namorar, mas logo depois o Fim Do Mundo começou e eu não o vi novamente depois da inundação em sua casa, passei meses achando que ele havia falecido, até aquele instante maravilhoso e tenebroso.

-Não! – gritei roucamente.

-Cale a boca garota! – gritou o meu entregador, se levantando com o cenho franzido e quase parecia querer me matar com seus olhos ameaçadores, com o porrete esticado para o alto, pronto para dar com ele em meu rosto, mas por sorte ele não o fez, pois se assustou com a voz rouca e grossa que vinha dos auto falantes.

-Senhoritas e senhores... – disse a voz. Vi o meu entregador se sentar irritadíssimo. – Bem-Vindos ao trem do Departamento 3. Lá, encontrarão, casa, comida e empregos. Espero que se comportem bem, ou as conseqüências serão severas... – falou a voz com o tom escuro. – Bem! – a voz se alegrou. – Sempre se lembrem! – avisou ele, e todos no trem falaram junto com a voz, depois de ouvirmos a mesma coisa por meses a fio. – Longe das fortalezas do governo, qualquer um pode virar a caça de um caçador desconhecido. – o clima ficou pesado no local e todos pareciam temer qualquer coisa que viesse de fora. – Obrigado! – disse a voz, agora alegre, seguido de um som ensurdecedor de microfone, que fez com que todos tampassem os ouvidos.

-Então... O Departamento 3 é longe daqui? – perguntou Alicia para os entregadores com os olhos espremidos e um sorriso relaxado.

-Estamos no Centro Governamental. – disse o homem olhando pela janela que não havia vista. Era apenas o túnel escuro.

-Pelos meus cálculos... – falou o entregador de Alicia, olhando em seu relógio de ouro. – Chegaremos ao Departamento em cinco horas.

-Ah... – pronunciou Alicia, relaxando na poltrona acolchoada, enquanto eu permanecia reta e dura.

-Como acha que é o Departamento 3, Mena? – falou ela, já inventando um apelido para mim.

-Mena? – falei, olhando-a com certa indiferença. Mal a conhecia e ela já havia posto um apelido em mim.

-Um apelidinho fofo para Romena. – disse ela com um sorriso nos lábios e desfiando sua transa.

-Ah! – pronunciei. – Bem, espero que seja melhor do que a corrida até aqui. – falei, olhando-a com certa tristeza ao lembrar que todos morreram nesta corrida e que poucos conseguiam realmente chegar vivos. Com as pernas e os braços intactos.

Quando começaram as enchentes nos países, o governo levava naves flutuantes futurísticas até algumas pessoas, as que conseguiam se abrigar, e as levava para o meio do oceano pacífico, depois que tudo já havia passado.

As naves eram gigantescas e muito luxuosas e nos abrigaram por cerca de sete dias, até os tremores e enchentes acabarem por completo e depois, nos lançavam em qualquer lugar com um mapa de como chegar à sede dos Estados Unidos para sobrevivermos.

Felizmente eu, Melissa, minha mãe, Robert, meu pai e Phillip, meu irmão, fomos lançados na Estátua da Liberdade por um erro de cálculos da nave.

Lançaram-nos lá e do nada a nave partiu com mais algumas pessoas para outro lugar.

Disseram-me, quando cheguei a Cede do Governo que fizeram isso para testarem nossas habilidades de sobrevivência e verem quem é forte o bastante para ir para o Departamento, o que me assustou demais.

Eu e minha família conseguimos ir juntos até metade do caminho, só que só não sabíamos que os tremores ainda estavam ativados e minha família foi engolida por uma cratera. Fiquei muito tempo sentada à beira do precipício olhando para a lava flamejante borbulhando no fundo, pensando na minha família e se eu agüentaria viver sem eles, mas eu agüentei e comecei a procurar a Cede.

Depois de dias andando e seguindo as pistas do mapa eu achei a Cede. Vi várias pessoas entrando na Cede, de todos os lugares do mundo.


Notas finais
Espero que tenham gostado...