Denver & Rover

4 Capítulo 3 - Era das Trevas


Notas iniciais
Denver terá uma ligeira conversa com Ali, seu antigo amor e ao caminho do supermercado se esbarrará em alguém.

Não tinha como não dançar com Dance, Dance, Dance da Lykke Li. A música era tão maravilhosa que qualquer um começaria a dançar com ela, juro. Botei para repetir, coloquei no volume máximo no som do meu quarto e comecei a dançar e guardar minhas coisas nos lugares que eu achava que deveria guardar.

Se fosse em outro tempo, mamãe estaria me ajudando e dançando junto comigo. Ela amava essa música, mas agora, ela quase não falava comigo e nem olhava direito para mim, uma droga essa vida.

Lembrei que não tinha falado com o pessoal de Riddley que já havia chegado, então mandei uma mensagem no grupo.

Eu: Cheguei ontem, aqui em Grouse, a cidade parece ser legal, morrendo de saudade de vocês. L

Gabriel: Droga! Minha macumba não deu certo. Como foi a viagem?

Gui: Algum boy magia?

Eu: Não sei, eu dormi a viagem toda. E não, Gui. Nenhum.

Meu deus! Tinha que parar de mentir. A viagem foi uma bosta, a despedida do Ali, foi odiosa e vergonhosa e aquele Brandon seria exatamente o que Gui chamaria de boy magia.

Michel: Duvido que não tenha nenhum. Eu te conheço faz três anos, Denver, você sempre tem mais de um crush no mesmo dia, conta logo.

Michel, eu esqueci completamente dele. Bom... Era uma verdade. Talvez seja o meu signo, ou talvez a carência, mas eu sempre fico com uma quedinha por duas pessoas, ou mais. Michel era o meu arquivista de crushes. Vencido, contei sobre o Brandon.

Michel: SABIA! Você não me engana, Denver! Já pegou o número dele?

Gabriel: Uh! Amo! Se encontra logo com esse Brandon.

Ali: Quem é Brandon, Denver?

Todos pararam de escrever.

Droga. Eu não sabia exatamente o que estava sentindo no momento em que li a mensagem do Ali. Eu tinha raiva, por ele ter me deixado na mira dos olhos do meu pai, sem ao menos tentar me defender, mas também tinha um pouco de raiva de mim, por não ter consciência de que tinha “terminado um namoro” de quase um ano e estava transmitindo a ideia de querer curtir com outros caras.

Mas esse era eu, sem muitos escrúpulos e se falar do Brandon fosse uma maneira de afastar o Ali de mim, do meu coração, para não termos mais algo além da amizade, eu faria.

Eu: Ah! É um homem que mora na casa da frente [mentira], muito gato, vou vê-lo hoje a tarde de novo [meia-mentira], talvez pegue o número dele [meia-verdade], ele parece legal [verdade]. Haha.

Ali: ...

O grupo ficou em silêncio e eu me senti mal por isso, os garotos devem ter percebido o meu esforço para mandar aquela mensagem. Mas agora que estava lendo de novo. Acho que só fiz colocar ciúmes no Ali. Eu era mesmo um idiota e babaca. O Ali não merecia.

Guardei o celular e voltei a arrumar minhas coisas.

No fim da arrumação, mamãe abriu a porta e disse:

– Preciso que vá ao mercado para mim, comprar algumas coisas.

– Agora? – fiz uma cara de cansaço – Estou cansado... Vou acabar de arrumar as coisas aqui...

Antigamente, quando dizia isso, mamãe sorria e dizia: “tudo bem, querido”. Mas eu me surpreendi, quando ela colocou o dinheiro, com um papel de caderno rasgado, na escrivaninha e disse:

– Sim, agora. E vê se não demora, tenho coisas para fazer.

Eu fiquei quieto e sorri sem graça. Grouse veio juntamente com um pedaço do inferno para mim, já estava percebendo como seriam as coisas por aqui. Adeus mordomia de filho único. Tudo graças a mim e ao meu coração, por amar alguém.

Peguei meu celular, coloquei o fone e quando estava prestes a sair de casa, me lembrei que eu não sabia onde ficava o mercado, eu não sabia nada, na verdade.

– Onde que fica o mercado, mesmo? – perguntei da porta.

– Procure! – Sônia respondeu de volta.

A era das trevas havia começado.

Suspirei, coloquei meus fones, dei play e começou a tocar Float – The Neighbourhood. Meu deus. Por que logo essa música? Essa música me acabava de um jeito terrível e devastador, mas eu a amava e era a minha favorita do mesmo jeito. Tinha tanto significado aquela letra...

Eu me sentia tão estranho andando pelas ruas, era como se... Eu não pertencesse àquelas estradas, a aqueles postes e calçadas. Como se aquelas casas fossem cair em cima de mim a qualquer momento, como se as pessoas, ao me olhar, ficassem com raiva de mim por algo que não fiz e fossem querer me atacar. Como se... A qualquer momento, eu virasse alvo de alguém, com uma arma na mão e, de repente, eu não existisse mais e virasse apenas uma lembrança que, aos poucos, iria se tornando fragmentos e por fim, alguém que viveu há algum tempo.

Chegando ao fim do quarteirão, me encontrei em uma encruzilhada, eu tinha três caminhos diferentes para escolher: Norte, leste e oeste. Me encostei no poste de luz e xinguei mentalmente, para que lado eu deveria ir? E o pior, não tinha uma única alma andando por perto.

O pior de tudo era que os caminhos eram parecidos, casas e árvores, com algumas pessoas andando no fundo da paisagem. Olhei para um lado, para o outro, para frente... Então tive uma ideia. Segurei no poste com uma das mãos, fechei os olhos e dei três voltas rápidas ao redor, me bati em alguém.

– Ai! – exclamei levando a mão ao ombro machucado – Me desculpa.

Era um garoto de pele bronzeada, cabelo cor de areia. Usava uma camisa vermelha sem manga, mostrando parte de uma tatuagem tribal. Seus braços eram fortes e os olhos, castanho-escuros.

Ele sorriu com seus lábios um pouco grossos e disse:

– Tudo bem.

E voltou a andar. Então uma luz se acendeu na minha cabeça e o chamei novamente:

– Ei! Espera um minuto!

Ele voltou a virar para mim, com uma feição de dúvida.

– Pode-me dizer onde fica um mercado por aqui?

Ele estudou meu corpo e disse olhando para os meus olhos:

– Você é novo por aqui?

– Sim – assenti -, moro a...

Eu iria apontar para onde ficava minha casa, mas eu percebi que estava perdido, os quatro locais eram muito parecidos e a girada que dei no poste, fez com que eu me confundisse completamente.

Como eu voltaria para casa, meu deus?

– O mercado fica naquela direção. – ele apontou para a rua atrás dele, eu estava indo para lá. Me acompanha?

Dei de ombros e me apresentei ao lado dele.

Diferente de Brandon, o garoto ao meu lado não me deixava nervoso, ou desconsertado, a presença dele chegava a acalmar, era legal o ar que ficava sobre ele.

Em poucos minutos, um mercado grande ficou à vista.

– Obrigado. – agradeci.

– Imagina. – ele sorriu para mim e seguiu para uma das seções e eu continuei parado e abri a lista que mamãe havia me dado.

Bati-me com o garoto mais duas vezes entre uma e outra seção e uma última vez na fila. Eu estava na frente e de repente, alguém me cutucou, olhei para trás e era ele sorrindo para mim. Sorri de volta:

– Isto já está virando uma perseguição!

– Pois é, rapaz! – confirmou.

Quando terminei de pagar as compras, ele disse para mim próximo ao ouvido. A voz dele na minha nuca quase me arrepiou:

– Me espere.

Assenti e fiquei esperando na parede do lado de fora do mercado. Ele apareceu uns três minutos depois, quando estava no meio da música Never Wanna Know – Mø.

– Vamos? – ele perguntou.

Assenti e tirei o fone do lado em que ele estava.

– Enfim, onde você mora?

– Ahn... – eu tinha esquecido por um momento que eu estava perdido – Não sei direito, as ruas são muito parecidas...

Ele sorriu e disse em seguida:

– Aos poucos você acostuma e vai andar pelas ruas de olhos fechados. – eu assenti – Você quer andar por cada uma para ver qual é a sua?

Me assustei na hora que ele disse aquilo. Por que uma pessoa seria tão gentil assim?

– Você não tem que ir para casa?

Ele deu de ombros.

– Se você prefere ficar perdido pelas ruas... Tudo bem.

– Não!

Falei desesperado, eu ainda precisava guardar minhas coisas e minha mãe estava irritada comigo, não queria dar mais motivos a ela.

– Sabe a rua que o Sr. Rover mora? – perguntei.

Ele assentiu.

– É a rua da esquerda. Você mora ali?

– Isso. — eu assenti – Pronto. Não estou mais perdido e não vou mais te atrapalhar.

Então sorrimos um para o outro.

Chegando ao final da rua do mercado. Colocamos as compras no chão e apertamos as nossas mãos. Só então que eu percebi que não sabia o nome dele.

– Qual o seu nome?

– Preciso mesmo responder? – ele fez uma cara de súplica e tristeza, como se não quisesse falar, não questionei e nem expressei nada no meu rosto, mas ele mesmo se venceu – Tudo bem. Sou o Adriel Lince. E você?

– Denver. – respondi, segurando a pergunta: “Lince?”.

– Só Denver? – ele perguntou sarcástico.

– Maxwell – sorri, completando – Denver Maxwell.

Ele assentiu com a cabeça sorrindo. Ele amava sorrir.

– Foi um prazer te conhecer, Denver Maxwell e... Bem-vindo à cidade que lamenta.

– Como assim? – perguntei curioso.

– Um outro dia eu te explico.

E então ele deu as costas e seguiu seu caminho, deixando-me curioso. O pior de tudo é que ele falou de um jeito como se soubesse que nos encontraríamos novamente. A minha única alternativa era ir para casa.

Era esquerda ou direita mesmo?

Cheguei em casa e encontrei mamãe na cozinha, fazendo o almoço e papai sentado na mesa. Coloquei as compras na mesa e saí da cozinha em silêncio.

– Já achou algum garoto para se pegar por aí, foi?

Eu não podia acreditar, eu não queria acreditar que aquelas palavras estavam saindo da boca do meu pai. Aquelas palavras cheias de ódio e rancor.

– Por que está dizendo isso? – perguntei inocentemente.

– Demorou quase uma hora para comprar umas coisinhas dessas! Com quem você estava, hein? – Sônia perguntou – Já conheceu gente do seu tipo pela rua, é?

Aquelas palavras doeram na minha alma, e meu mundo caiu novamente nas minhas costas. Era apenas o início da semana e aquilo já havia acontecido duas vezes. “Gente do seu tipo”, que tipo de mãe fala isso para o seu filho?

Eu estava mal. Tudo que eu queria que não acontecesse, estava acontecendo e eu estava morrendo por conta disso. Eu não sabia o que falar para nenhum dos dois. Agora, eu não podia nem mais me perder na rua, que eles já achavam que eu estava com alguém. O que aconteceu com aqueles pais que me amavam e compreendiam? Onde estava o amor? Agora eu só conseguia enxergar o ódio e zero de apoio para algo que terei de lutar sozinho. Para o resto da minha vida.

Eu não respondi nada. Apenas subi as escadas, entrei no meu quarto e toda a mágica de ouvir música se esgotou naquele momento. Terminei de arrumar as minhas coisas no completo silêncio. “Silêncio”. Porque na minha mente, o barulho que fazia, era insuportável.

Notas finais
O que acharam do Adriel?? Quem vocês preferem como crush: O loiro lindo, Brandon, ou o moreno misterioso, Adriel? Ai ai, Denver sortudo. Próximo capítulo na quarta!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.