Dentro De Mim
20 Capítulo 20
Notas iniciais
/História 3/Hoshiro’s POV/
“Malditas sejam essas estações de trem. Estão cheias de pessoas. Odeio pessoas!”
Eu olhava em volta enojado. Odiava lugares como aqueles, mas graças ao meu carro que inventou de quebrar, tive que voltar para a casa de trem.
Estava no banco da estação, esperando o próximo trem chegar, e pensava nos últimos dias. Tem sido um inferno por causa daquele pirralho! Desde que fui obrigado a pedir desculpas para ele, ele tem me perseguido mais do que nunca. Sempre arranjava um motivo para ir falar comigo e não parava de tagarelar.
O problema é que se eu tentasse brigar com ele de novo, a amiga dele provavelmente me ameaçaria novamente, então teria que aguentar aquela criatura falante.
O trem finalmente chegou, me tirando dos meus pensamentos, então entrei logo. Ainda estava um pouco vazio, então me sentei em qualquer lugar. Outras pessoas foram entrando e se sentando.
As portas estavam quase se fechando quando uma pessoa entrou correndo para não perder o trem, provavelmente por estar atrasada. E para minha “sorte”, era justamente a pessoa que eu tenho tentado me livrar. Aquele maldito pirralho: Yukira Yuu.
“Ah não, isso não! O que eu fiz pra merecer isso? Depois de um dia cansativo de aula, e depois de muita perseguição, porque eu tinha que encontrar com justo ele no trem? Finalmente achei que estaria livre dele, mas não, ele tinha que aparecer!”
Até virei a cabeça para o lado, para ver se ele não me percebia lá, mas não deu muito certo.
– Kioshi-sensei! – ele disse sorrindo com aquela voz aguda e irritante.
Desejei morrer naquele momento. Já previ que ele iria me irritar durante a viagem inteira até minha casa ou até a dele. O local estava meio vazio, mas ele veio direto se sentando ao meu lado, dizendo animadamente como sempre:
– Kioshi-san! Não sabia que você pegava esse trem! Desde quando pega trem? Eu pego todo dia e nunca te vi aqui! O que aconteceu? Hein? Hein?
Já comecei a ficar com dor de cabeça e vontade de arrancar as cordas vocais dele, mas resolvi responder logo antes que ele falasse mais alguma coisa:
– Eu não pego esse trem frequentemente, só estou pegando hoje porque meu carro estragou.
– Ah, entendo! – ele disse – O que aconteceu com seu carro? Ele pifou do nada? Ou foi acidente? Espero que não seja acidente, ficaria triste se Kioshi-san se machucasse. Acho que ele deve estar com preguiça de andar, haha!
Respirei fundo, contendo a raiva e perguntei algo que estava me intrigando, ignorando o que ele havia acabado de dizer:
– Seus pais te deixam pegar trem sozinho?
Realmente, eu achava que aquele trem era perigoso para pirralhos. Não que eu estivesse preocupado com ele, claro que não! Mas se eu tivesse um filho (o que jamais vou ter) eu não o deixaria sair pelas ruas sozinho, ainda mais se fosse um pirralho.
– Ah, deixam! Eles disseram que confiam em mim! Eu sei me cuidar. Eu já sou responsável – ele abriu um sorriso orgulhoso – Sei até pegar trem sozinho! Sei que tenho que descer na 5ª parada. Onde você desce, Kioshi-sensei? É um pouco mais longe que a minha casa né?
– Arg! Yukira! – me irritei com aquela falação – Tem vários lugares vagos, por que está sentado ao meu lado?
Ele ficou um tempo pensativo. Eu achei que ele já ia começar a chorar pelo meu tom grosso, mas ele voltou a sorrir e respondeu:
– Porque eu quero ficar perto de você!
– Mas eu não – respondi friamente de novo.
Ele apenas riu, se aconchegando melhor no banco e disse:
– Você é muito mau, sabia? Mas eu gosto disso em você. Ei, Kioshi-san! – ele mudou de assunto antes que eu assimilasse o que ele havia acabado de dizer – Você não acha que a comida da cantina lá da escola é ruim? Até que tem um gosto bom, mas é muito gorduroso...
Ele continuou falando, mas eu não prestei mais atenção. Eu não consegui entender como ele conseguia falar tanto, e como ele continuava sorrindo daquele jeito, mesmo quando eu o dava respostas rudes. Resolvi fingir que ele nem estava lá e me concentrar em outras coisas. Ele continuava falando muito, às vezes me fazendo perguntas que nem me dava a chance de responder.
De repente, a falação dele parou e o espaço ficou bem mais tranquilo. Achei que ele tivesse perdido a voz ou ficado sem saliva, mas nem me dei ao trabalho de conferir. Só quis aproveitar aquele silêncio.
Foi aí que senti um peso sobre meu ombro. Olhei para o lado e vi que aquele pirralho havia adormecido e tinha apoiado a cabeça sobre meu ombro. Fiquei incomodado, mas resolvi deixá-lo lá. Não queria acordá-lo, pois aquele silêncio estava maravilhoso.
Fiquei observando aquela face adormecida, com a boca semiaberta e as bochechas meio amassadas em meu ombro. Ele parecia estar realmente exausto, talvez por causa da aula.
Dormindo, aquele pirralho parecia até bem inocente e delicado. Nem dava para imaginar que ele era um diabinho perseguidor. Confesso que ele ficava até meio... Fofo.
Sem que percebesse, enquanto o observava, acabei dando um leve sorriso sutil. No mesmo segundo, me condenei eternamente. Arregalei os olhos enquanto pensava:
“Eu... Sorri? Como assim? Nem me lembro quantos anos faz desde a última vez que sorri. E agora, por causa de um pirralho, eu sorri??? Não, não foi um sorriso de verdade, foi bem leve e sutil, nem mostrou os dentes, então não conta!”
Fiquei assustado com o que acabara de acontecer, mas me mantive imóvel, para que ele não acordasse.
Ele continuou dormindo e eu me condenando. De repente, o trem parou na 5ª parada. Me lembrava de que ele tinha dito que descia lá. Eu poderia mandar ele se foder e deixa-lo perder a parada, mas aí lembrei que teria que aturá-lo por mais tempo, então decidi acordá-lo.
– Ei, Yukira! – cutuquei seu rosto com o indicador – Acorda.
Ele abriu os olhos bem devagar a desencostou a cabeça de meu ombro, que já estava até doendo. Ele coçou os olhos enquanto bocejava, o que só o fez parecer ainda mais uma criança.
– Quinta parada – falei apontando para a porta do trem.
Ele arregalou os olhos e pareceu acordar direito. Pegou sua mochila rapidamente e foi se dirigindo para fora do trem. Antes que saísse, ele disse acenando e sorrindo:
– Obrigado, Sensei! Até mais!
Revirei os olhos e olhei aliviado para aquele diabinho indo embora. E assim, pude voltar para a minha casa em paz.
______________________________________________________________________________________
/Yuu’s POV/
Eu caminhava em direção à escola. Não havia visto o Kioshi-sensei naquela manhã. Será que ele já tinha consertado o carro? Era uma pena, pois eu realmente tinha gostado de ter encontrado ele no trem no dia anterior.
Cheguei à sala e vi que Keiko lia um mangá. Quando me aproximei, pude ver melhor a capa e quase pulei para trás.
– Keiko-chan!!! Está lendo mangá shoujo? – me surpreendi – Romance hétero? Sério?
– Oi pra você também, Yuu. – ela ironizou, fechando o mangá para me dar atenção – E sim, é o único romance hétero que eu gosto. Mas tem dois irmãos aqui que são altamente shippáveis!
Olhei para a capa do mangá e vi o nome: “Kokoro Hoshi”. Eu já tinha ouvido falar daquele mangá, ele parecia bem famoso.
– Sério, eu amo os mangás do Tadashi Tsuki! – ela sorriu – Acho que ele vai lançar um Yaoi alguma hora, e com certeza eu vou ser a primeira a comprar!
Ela se levantou, dramatizando exageradamente:
– Oh, Tadashi-san! Por que não transfere essas lindas palavras para um casal Yaoi? Ficaria tão perfeito!
Eu ri de sua reação e me sentei, pedindo que ela se acalmasse. Então a aula se seguiu normal como sempre. Fiquei triste, pois hoje não tinha aula de matemática, mas sabia que amanhã poderia vê-lo.
Quando bateu o sinal, decidi voltar logo para a casa. Eu estava saindo da escola, quando vi um grupo de garotos se aproximando.
Eu os conhecia, eles eram da minha sala, mas nunca gostei muito deles. Aqueles quatro eram do tipo valentão, que adora fazer bullying com todo mundo, e tenho certeza que eles não gostam muito de mim.
Eu tinha esperança de eles apenas me ignorarem quando cruzássemos o caminho, mas não. O “líder” deles parou de andar e se virou para trás. Eu continuei andando, fingindo que nem tinha os vistos, enquanto sentia um frio na barriga.
– Ei, Yukira! – ele me chamou, me fazendo gelar internamente.
Parei de andar antes que ele me forçasse a isso arrancando minhas pernas, e me virei, timidamente.
– Eu vi que você trouxe bastante dinheiro hoje na hora do lanche! – ele disse se aproximando, seguido dos outros três – Que coisa feia não ter dividido com seus coleguinhas de classe.
Arregalei meus olhos, começando a estremecer um pouco, me encostando a parede para ficar o máximo possível afastado deles. Eles, além de estarem em maior número, eram bem maiores e mais fortes do que eu. Não queria dar meu dinheiro para eles, pois eu precisava para comprar um mangá que queria, mas se eu não desse, provavelmente eu ia apanhar.
– Ei, mano! – um dos “seguidores” disse para o “líder” tocando seu ombro – Vai mesmo pegar grana dele? A gente nunca tinha implicado com ele antes.
– Isso porque a amiguinha maldita dele está sempre com ele, – respondeu um dos outros três – e por mais que seja menina, ela é invocada pra caralho!
– E olhe só pra ele – foi a vez do último se pronunciar, me olhando maliciosamente – Ele é tão indefeso. É a chance perfeita!
Deslizei minhas costas pela parede, me agachando e pondo as mãos na cabeça. Senti que meus olhos estavam ficando marejados, então eu disse:
– Por favor... Me deixem em paz!
Eles apenas riram maliciosamente. O líder me levantou pela gola da camisa, até me fazendo sufocar um pouco, enquanto um dos outros arrancou a mochila de mim e começou a vasculhar, procurando dinheiro.
– Parem!!! – eu gritei, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Apertei os olhos, e de repente fui solto, caindo no chão novamente. Por um segundo achei que eles tinham desistido, mas então olhei para cima e pude ver que o Kioshi-sensei tinha agarrado dois dos caras pelos cabelos, um em cada mão.
– Bullying, agressão, e roubo! – ele disse para os dois com seu tom demoníaco, que se contorciam devido aos cabelos puxados – Eu poderia mandar vocês para a prisão, sabia?
– Ai, ai, ai, ai! – gritou o líder, tentando tirar as mãos do professor de seu cabelo – Foi mal, foi mal, foi mal, me solta, por favor!
– Os quatro vão direto para a diretoria! – ele disse, finalmente soltando os dois – Certificarei que peguem um castigo bem severo! Mais antes, peçam desculpas para o Yukira.
– Desculpa!!! – os quatro gritaram ao mesmo tempo. Eles pareciam estar realmente desesperados.
O Sensei mandou que todos fossem para a diretoria que logo os encontraria lá. Quando os valentões se afastaram, ele ficou lá, apenas olhando para mim com aquela forma inexpressiva.
– O-obrigado por ter me ajudado – eu disse, me levantando e enxugando meu rosto.
– Eu não fiz isso por você. – respondeu friamente – É proibido bullying na escola, só estava fazendo meu trabalho como professor.
Fiquei meio ofendido, mas não me importei. Ele tinha me salvado e era aquilo que importava. Mesmo assim, por algum motivo, não conseguia conter as lágrimas.
– Arg! Francamente! – ele reclamou, passando as mãos pelos cabelos brancos – Você só sabe chorar? Qualquer coisa que acontece com você, e você chora?
Ele se aproximou de mim, me olhando com aqueles frios olhos vermelhos. Contive as lágrimas no mesmo instante e limpei meu rosto com as mãos, mas não disse nada.
– Você tem que parar com isso. Chorar é fraqueza! Você quer ser fraco, Yukira? Seja homem e pare de derramar lágrimas por qualquer besteira!
Eu fiquei calado, não sabia o que responder. Fiquei apenas olhando para ele, surpreso com aquelas palavras. Ele suspirou entediado e depois disse:
– Bem, vou lá tratar daqueles idiotas.
E com isso, se retirou. Eu fiquei lá, parado em pé, sem me mexer, digerindo a informação. Aquelas palavras ecoavam em minha mente: Chorar é fraqueza, chorar é fraqueza, chorar é fraqueza!
Balancei a cabeça, peguei minha mochila no chão e fui andando para a estação de trem. Fiz uma cara decidida.
“Eu vou provar para ele que não sou fraco!”
Fale com o autor