O Começo de Tudo

Idade: 16 Anos



Nem tudo na vida precisa fazer sentido. Às vezes, as coisas acontecem quando menos esperamos, é tudo como uma caixa surpresa. Você não sabe o que está dentro, talvez te agrade ou não. E assim é a vida, uma enorme caixa surpresa. Não sei que tipo de futuro me aguarda, então, tento viver o agora. E o amanhã, eu espero sem saber que tipo de surpresa será.


Tenho dezesseis anos, nasci e vivo em um dos distritos mais humildes de Panem. Moro com meus pais e dois irmãos mais velhos. Nossa casa fica em cima de um comércio que está na família há anos — uma padaria, para ser mais exato. É dela que tiramos nosso sustento diário, o que não é nada fácil aqui no meu distrito.


Por isso, muita gente acha que levamos uma vida de fartura, como já ouvi alguns comentando por aí. Mas isso não passa de um doce engano. Lá em casa, passamos os dias nos alimentando com as sobras que não foram vendidas. E não estou reclamando — ao contrário, sou grato. Tem muita gente que nem isso tem para forrar o estômago.

A fome é a maior causa de morte por aqui. E infelizmente, isso não vai mudar enquanto estivermos à mercê da tirania do presidente Snow e da Capital.

Apesar de tudo, eu gosto do lugar onde nasci. É aqui que vive a pessoa mais importante da minha vida. O único problema? Ela não sabe disso. E talvez nunca saiba.

Há anos venho guardando esse sentimento platônico por uma garota da costura. Infelizmente, sou covarde demais para me aproximar, temo sua rejeição. O que não tenho dúvidas de que irá acontecer caso ela descubra. E assim, há onze anos venho sofrendo calado, sem coragem de dizer o quanto a amo.


Meu pai acordou mais calado do que o normal. Ele estava preocupado. Hoje era o dia da Colheita — e seu pior medo era ouvir meu nome ou o do meu irmão ser sorteado para a morte certa.

Diferente da minha mãe, meu pai se importa. Mesmo podendo respirar aliviado quando se trata do meu irmão mais velho, que completou dezenove anos há poucos dias, ele ainda tinha mais dois filhos para se preocupar.


Pra ser sincero, eu não me importaria se meu nome fosse escolhido e lido por Effie. Mas havia outro nome... um nome específico, no globo feminino que eu não queria ouvir sendo anunciado. Se fosse ele a ser sorteado, minha vida acabaria naquele instante. Eu não suportaria viver em um mundo onde ela não existisse mais.

Amo tanto essa garota que, às vezes, me pergunto se esse sentimento é saudável. Mas sabe de uma coisa? Nem quero saber. Eu só queria que, pelo menos uma vez, ela me notasse.

Ah, quase esqueci de me apresentar.

Meu nome é Peeta. Peeta Mellark. E moro aqui, no Distrito 12.



🥖


Onze anos atrás…


5 anos de idade



Era o primeiro dia de aula.


Ele acordou cedo, separou os cadernos com cuidado e, depois do banho, vestiu a roupa limpa. Os irmãos já tinham descido para ajudar o pai com a primeira fornada de pães. Estavam de mau humor — não queriam ir para a escola. Diziam que estudar era perda de tempo. Ele não compreendia bem o que isso queria dizer.

Sentou-se na beira da cama para calçar os sapatos. Não eram novos — como quase tudo que usava, já tinham pertencido aos irmãos mais velhos. Mas ele não se importava. Eram bonitos, confortáveis e ele gostava deles.

Depois de dar o último nó no cadarço, ajeitou a camisa e respirou fundo. Estava ansioso. Sempre quisera ir para a escola: aprender, fazer amigos, brincar... sem levar tapas.


Sim, tapas.


Sua mãe dizia que brincar era coisa de preguiçoso. Se a desobedecesse, sabia exatamente o que o aguardava. Às vezes, quando ela não estava por perto, o pai o deixava brincar escondido no depósito com alguns carrinhos velhos. Mas, se fosse pego, recebia um puxão de orelha que doía o dia inteiro.

Deu uma última olhada no espelho do irmão antes de descer. Se demorasse mais, a mãe subiria — e ele corria o risco de chegar ao primeiro dia de aula com um olho roxo.


Na escola, foram direto para a fila de entrada. O prédio fervilhava de crianças, e, por dentro, ele sentia uma felicidade tranquila por estar ali. Os irmãos logo encontraram os amigo e se afastaram, deixando o menino sozinho. Tentou escutar o que diziam, mas falavam muito baixo. Aproximou-se, curioso. Foi quando o irmão mais velho o empurrou com força:


— Sai daqui, pirralho! — rosnou.


Ele lançou um olhar feio, mas foi ignorado.

Voltou cabisbaixo para perto do pai. Este percebeu, bagunçou os cabelos loiros do filho e se abaixou para sussurrar-lhe ao ouvido:


— Tá vendo aquela garotinha ali?


Ele levantou os olhos. No fim da fila, uma menina que deveria ter sua idade, usava um vestido vermelho e duas tranças caídas sobre os ombros. Estava sozinha. Parecia triste ou talvez envergonhada. Ele não sabia dizer ao certo. Só sabia que ela era bonita.


— Sabe... — disse o pai, pensativo. — Eu queria me casar com a mãe dela. Mas ela preferiu um trabalhador das minas.


O menino franziu a testa, confuso.


— Um trabalhador das minas? Mas por que ela escolheu ele, se podia ter você?


O pai sorriu, com um brilho resignado no olhar.


— Porque, quando ele canta... até os pássaros param para ouvir.


Ele não entendeu, mas voltou a observar a menina. Havia algo nela que o prendia, algo que ele não conseguia explicar.

Depois que o pai foi embora, ele seguiu para a sala de aula e sentou-se em sua carteira. Tentou conversar com alguns meninos, mas, o tempo todo, seu olhar voltava para a menina das tranças. Ela havia escolhido um lugar distante para se sentar.

Não falava com ninguém. Estava quietinha e ele não conseguia parar de olhá-la.

A professora entrou e, finalmente, ele desviou os olhos. A professora era baixinha, loira e muito sorridente. E para a alegria do garoto, a primeira aula seria de música.

O garoto se empolgou, já que gostava de tudo que envolvia arte. Especialmente desenhar. O pai dizia que ele era talentoso — e ele acreditava. Amava o pai e queria ser como ele.

— Quem aqui conhece a Canção do Vale? — perguntou a professora.

Uma mão se ergueu.

Era ela.

A menina das tranças.

A professora a chamou. Ela se levantou de cabeça baixa, alisou o vestido e caminhou até o banquinho da frente. Sentou-se, respirou fundo e começou a cantar.

Naquele instante, a sala mergulhou em silêncio. Até os pássaros lá fora pareciam conter seus cantos para ouví-la.

O menino ficou hipnotizado. As palavras dançavam nos lábios da garota. Sua voz era linda, como uma voz de anjo, e parecia que ela vivia cada nota da canção.

O garoto sentiu arrepios nos braços, e passou as mãos esfregando. Um calor estranho crescia em seu peito, subia, se espalhava... e ele gostou daquela sensação. Mesmo sem entender.

Teve vontade de se levantar, sentar no chão ao lado dela, só para ouví-la de mais perto.

Mas não podia.

Seria estranho.

Todos ririam.

Talvez até ela também.

Quando ela terminou a canção e voltou para a carteira, o coração dele estava disparado.

Nunca havia sentido aquilo antes, mas entendeu que foi por causa dela, da garota de tranças.

A sala aplaudiu.

Ela se sentou, ainda de cabeça baixa e ele continuou olhando, sem conseguir piscar.

O garoto por ser muito novo, ainda não sabia. Só mais tarde, quando fosse um pouco mais velho, ele perceberia que assim como o seu pai se apaixonou pela mãe da menina, ele acabara de se apaixonar pela garota de duas tranças.