Dendê

2 Os bons modos


Notas iniciais
Olá! Escrevi esse capítulo quase como uma celebração pessoal do dia da visibilidade lésbica e espero que gostem :)

—Oi? – Luiza chamou, acenando rapidamente com as duas mãos — Tem alguém aí?

-Ah, oi Lu – Lis respondeu ainda parecendo fora daquela dimensão.

Fazia frio demais e aquilo lhe desagradava profundamente. Sua mãe dizia que, quando Lis era criança, fazia birra para não sair da cama em dias de frio e seu mal humor quando a temperatura estava abaixo de 20 graus era mais poderoso do que de qualquer adulto. Coisa que... bem, não havia mudado. Tinha mudado a forma como ela lidava com o mal humor, é verdade, mas também é verdade que seu nível de tolerância era diretamente proporcional às temperaturas do dia. Vestia um sobretudo preto pesado que terminava em suas panturrilhas e mirava o nada quando a amiga chegou. Tinham o costume de almoçar juntas às terças-feiras desde que saíram do colégio e cada uma foi para uma faculdade.

-Ih, que bicho te mordeu além do frio? – Brincou rindo e se sentando na cadeira em frente à Lisandra, apoiando a mochila na cadeira sobressalente – Você tá com aquela cara que faz toda vez que meu irmão abre a boca.

Aí Lis não pôde deixar de rir, Luiza não deixava passar uma que fosse. Ela vinha de uma família numerosa e muito abastada que parecia saída direto de uma pintura da era vitoriana. Era a mais nova de cinco irmãos e todos eles eram exatamente iguais: cabelos loiros muito lisos, olhos azuis que podiam ser confundidos com lentes de contato e tão altos que alguns deles eram maiores até mesmo que Lisandra. Descendentes diretos de uma família envolvida com agronegócio, a fortuna deles vinha de gerações muito anteriores à Luiza. O garçom se aproximou e anotou rapidamente os pedidos. Lisandra riu ainda mais quando o pedido complicado e cheio de restrições alimentares de Luiza deixou o homem de meia-idade que as atendia quase tonto. É que a garota era alérgica a meio mundo e mais um pouco.

-Se bobear daqui a pouco você é alérgica até a mim – Lisandra riu quando o garçom se afastou e Luiza lhe mostrou a língua.

-Haha – Riu ironicamente – Muito engraçado, só porque você tem um DNA privilegiado não precisa esfregar isso na minha cara.

E bem, aquela era parte que as duas caíam na risada sem ninguém entender. Lisandra não tinha o privilégio que Luiza tinha de saber ao certo quem eram seus antepassados. De onde vieram, o que faziam ou até mesmos seus nomes. Tudo que podia fazer essa basear em algumas suposições que, às vezes, causavam mais angústia e desânimo do que qualquer outro sentimento. Enquanto seus colegas de sala podiam orgulhosamente dizer que descendiam de italianos, franceses, portugueses, espanhóis e alemães, Lisandra respirava fundo e dizia que descendia do Brasil. A sua pele retinta, a boca e o nariz largos e o cabelo crespo não mentiam: Lisandra descendia de escravizados.

Seria mentira, porém, dizer que ela demorou para sentir orgulho de descender de escravizados; ela nascera com esse orgulho incutido no berço. A luta pelo orgulho foi de sua mãe, que descobriu o ativismo quando já estava entrando na faculdade. Lisandra considerava-se nascida ativista e nunca cogitou que pudesse ter qualquer outra escolha. Onde quer que estivesse, a sua mera presença já era ativismo constante.

-Mas então, Lis – Luiza chamou sua atenção quando já se distraía novamente – O que tá pegando? Além de fogo na Amazônia, no caso.

-Meus Deus, só você mesmo Luiza – Riu sentindo que não deveria rir daquilo. Àquela altura, os noticiários já haviam chancelado que o motivo para o céu de São Paulo se tingir de preto no dia anterior eram queimadas intensas na região amazônica – Olha, não aconteceu nada, mas...

-Esse “mas” vai vir acompanhado com nome de mulher que eu sei, quem foi dessa vez?

-Nossa garota, quem você acha que eu sou? – Fingiu-se ofendida apenas para rir em seguida – O nome dela é Naiara.

-Hum... – Luiza apoiou o queixo entre o indicador e o polegar estreitando os olhos – Dessa aí você nunca falou não, chequei aqui no meu caderninho aqui e não consta.

-É que eu a conheci ontem – Lis abriu um sorriso travesso.

-E já tá querendo traçar a mina, Lisandra?

-Eu não disse isso.

-Ah, mas pensou que eu sei – Luiza abriu um sorriso malicioso – Quero detalhes.

-Ainda não temos detalhes, eu só sei o nome dela por enquanto.

-Tá, mas cê conheceu como? Onde? Ela é bonita? Quem é essa mina? – Perguntou tão rápido que se Lisandra não estivesse acostumada com as loucuras da amiga levaria um tempo para processar. Não levou e prontamente respondeu:

-Conheci ontem no escritório, ela é professora de inglês de um pessoal do paralegal, é linda demais e não deve ter mais do que a nossa idade. É só isso que eu sei.

-Então cê tá me dizendo que cê não sabe porcaria nenhuma sobre a mina, mas tá com crush nela?

-É... mais ou menos isso mesmo – Lisandra respondeu rindo, depois de levar alguns segundos de consideração.

-Cara, eu queria muito ser como você – Luiza cruzou os braços e balançou a cabeça negativamente.

-Ah, mas você tava tão afim daquela menina do Centro Acadêmico, não tava? – Lisandra ponderou – Essa história não deu em nada ainda?

-Ah miga, não. Eu tô afim dela pra caralho, mas ela não me dá uma moral! – Bufou – Essa vida de sapatão é uma tristeza – E disse isso exatamente na hora que o garçom serviu os pratos e arregalou os olhos ao ouvir a conversa. – É impressionante como toda vez que a gente fala “sapatão” aparece alguém pra ouvir, não é? – Concluiu quando ele se afastou.

-É a nossa sina – Lisandra deu de ombros.

-Mas agora falando sério Lis – Disse já mastigando alguns ramos de rúcula. Para alguém tão bem-criada, Luiza tinha modos à mesa bem medianos – Eu não sei mais o que fazer, parece que eu preciso ficar provando pras pessoas que eu sou sapatão, sabe?

-Luiza, vamos combinar que você não corresponde em nada ao estereótipo – Lis riu.

-Você também não, e não passa pelas presepadas que eu passo.

-Amiga, perto de você eu sou praticamente butch – Riu mais ainda. Naquele dia, especificamente, Luiza estava quase fazendo cosplay de uma patricinha de Beverly Hills.

-Você acha que se eu começar a me vestir mais masculina e cortar o cabelo minha vida de sapatão fica mais fácil? – Perguntou de boca meio cheia.

-Pode ser que fique, Lu, mas por que você faria isso? Você gosta de se vestir assim, não gosta?

-Eu adoro – Luiza era estudante de moda e sua paixão por vestuário vinha da infância. Aos 5 anos, já era estilosa por conta própria – Isso é minha vida, você sabe.

-Então pronto. Você não vai mudar seu jeito pra ser aceita, isso não faz nem sentido. E daí se você não se encaixa no estereótipo? Isso é parte da sua individualidade.

-Nossa, você é uma fada sensata mesmo, hein Lis?

-Eu sei, você me ama e eu sou demais.

-Convencida – Falou num tom agudo que fez Lis encolher os ombros – Mas você é mesmo, tenho que admitir.

-Eu sei – Lis sorriu. Queria ter verdadeiramente metade da autoestima que aparentava ter.

-Mas vamos voltar à história da menina nova. Naiara, não é?

-Isso.

-Pegou o telefone?

-Não, eu conversei com ela por literalmente dois minutos.

-Amiga, você já foi mais ligeira – Zombou.

-Estou enferrujada – Fez uma carta.

-Quando vai vê-la de novo, você sabe?

-Semana que vem, eu acho.

-Lisandra, nós estamos no ano de agosto, uma semana é a mesma coisa que três meses, você precisa ser mais rápida que isso.

-Luiza, você é impossível – Riu e se engasgou com o macarrão que comia, quase manchando de molho sua camisa social impecavelmente branca – Mas o que você sugere que eu faça, então?

-Você conhece os alunos dela?

-Ah, não sou amiga deles, mas tenho contato sim.

-Então você vai lá e pede pra eles o telefone da menina.

-Quê?! E o que você espera que eu fale?

-Sei lá, que quer fazer aula de inglês?

-Ela sabe que eu falo inglês já. Além do mais, é antiético ficar com os próprios alunos, não acha?

-Não vi você dando uma ideia melhor – Luiza deu ombros, dando uma boa garfada em sua salada e completou de boca completamente cheia – Depois não fica reclamando.

-Meu Deus, Luiza, mastiga e depois fala, tá nojento.

Luiza deu de ombros e mudou de assunto, sabia que Lis daria um jeito de se envolver com a tal professora de inglês e que isso duraria pouquíssimo tempo, porque era assim que as coisas aconteciam com Lisandra Ferreira. Mesmo depois de tantos anos, o funcionamento do coração de Lisandra permanecia um completo mistério para a amiga. Compartilhavam de tudo, praticamente não havia segredos entre as duas, porém, ainda assim, Luiza sentia que Lis tinha camadas a serem descobertas.

Quando entrou no escritório naquele dia, Lisandra ponderou se deveria pedir o telefone de Naiara para os colegas, mas não conseguia pensar numa boa desculpa para isso. O que diria? Que tipo de mensagem enviaria? Não sabia nem se a menina beijava outras meninas, isso não seria invasivo demais? Afastou os pensamentos com dificuldade e seguiu o dia. Falava pouquíssimo com as pessoas por ali, muitas delas pareciam simplesmente ignorar sua existência, exceto Mariana.

Olhar para Mariana era quase como olhar no espelho e se enxergar trinta anos mais velha. A advogada era tão imponente que ninguém ousava abrir a boca quando ela estava falando – apesar de Lis já ter ouvido mais de uma vez os colaboradores a rechaçando pelas costas. Mariana Gama tinha uma casca tão grossa que parecia impenetrável, mas a estagiária sabia que ali no fundo residia uma mulher doce e acolhedora que lhe ensinara praticamente tudo que ela sabia até ali. “Eu não espero que você saiba tudo, Lis”, ela sempre dizia, “Espero que você tenha bom senso, somente”.

-Lis, quero que você me acompanhe no cliente hoje, pode ser? – Mariana disse assim que chegou – Essa é uma reunião importante, você vai aprender bastante.

-Sim senhora – Sorriu – Como está a fusão?

-Você vai saber daqui a pouco – Devolveu o sorriso – Vamos, não podemos nos atrasar.

E quando as portas do elevador abriram, Lis xingou o universo de todos os nomes que conseguiu pensar. Porque de dentro dele saiu Naiara que, após o espanto de vê-la passar, deu uma piscadela e um sorriso que moveu o coração de Lis alguns centímetros dentro do peito. Mariana a empurrou delicadamente para dentro do elevador e suas pernas responderam, mas seu pensamento ficou preso na visão do sorriso mais lindo que já havia visto na vida. Já descendo os andares, Mariana ainda comentou:

-Mas você, hein, Lis. Não pode ver um rabo de saia.

Notas finais
E aí? Me conta o que achou!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.