Demônios viscerais
1 Corra, Alice. Corra...
Alice corria noite a dentro pela rua deserta cercada por uma escuridão quase palpável.
Tropeçara meia dezena de vezes mas não podia parar, não depois de tudo que vira, de tudo que ele a obrigara a fazer, não, não, não podia parar, se parasse ele a alcançaria, se parasse estaria perdida...
Ela ofegava muito, as pernas pareciam prontas a derreter a qualquer instante e os pulmões estavam em chamas, mas não podia parar. Agora alguns postes erguiam-se de um lado da calçada iluminando a rua com luzes brancas e dando um aspecto fantasmagórico ao concreto.
As mãos de Alice estavam banhadas de sangue vermelho lívido e a camisa branca e o jeans estavam arruinados. Ainda podia ouvir os gritos ecoando na cabeça. Deus! como fôra capaz de fazer algo assim? Não, não tinha sido ela. Isso, Isso, ele a obrigou, ele a usou, era culpa dele, ela nunca faria algo assim, mas ninguém acreditaria...
Alice continuou a correr a pesar de mal conseguir manter-se em pé e o objeto metálico machucando-lhe as pernas não ajudava.
Ela não viu o carro que vinha no cruzamento, o motorista conseguiu frear a tempo porém o carro deslizou e parou a frente dela, quase esmagando-lhe o pé com as rodas. O motorista desceu , um homem alto de braços largos e terno.
- O quê você está pensando garota ? quer se matar ? — ele olhou-a direito, a garota estava repleta de sangue que lhe manchava até o cabelo loiro. Seu rosto estava cheio de terror, os olhos eram como buracos negros.
- Meu Deus! Eu o...o quê aconteceu? Está ferida ? — Ela não respondeu, apenas continuava a encarar-lhe. — De onde você esta vindo garota? Como isso aconteceu ? — Ainda sem resposta.
Ele chacoalhou-a pelos ombros, a garota continuou ali, imóvel.
Alice não compreendia oque ele dizia, soava tudo muito distante, mas ela não se importava. Por quê ele não a deixava ir? Ele não vê? Estava vindo, ela sentia, estava cada vez mais perto. Não. Ele já estava lá.
Sentiu o vento gelado na nuca. " Corra Alice " ele dizia. Ele a tinha alcançado, estava na cabeça dela. Ela estava perdida. " Corra o quanto quiser, corra até que não haja mais solo para correr. Não adianta, você sabe oque fazer, garota tola" cada palavra soava retumbante, a cabeça latejava. Mas ela sabia, sabia oque fazer.
Ele chacoalhou a garota, talvez forte demais, até que ela começou a mexer os lábios, baixo de mais para que ouvisse.
- Por Deus garota, fale mais alto. O quê aconteceu com você?
Ela falou, com uma voz fria.
- Ele está em todo lugar... — Mais rápido do que ele podia imaginar, a garota puxou algo do bolso e ele só teve tempo de ver o rastro da mão no ar antes de começar a engasgar-se com o próprio sangue.
Ela tirou a mão e deixou a faca enterrada até o cabo em sua garganta, não ouve dor, apenas a enlouquecedora agonia que o sangue causava ao sair pela boca, deixando um rastro azedo. A última coisa que vira foi o suave rosto da garota fitar-lhe serenamente inexpressivo com aqueles grandes olhos de buracos negros, então tudo ficou negro...
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