White Demon

Não importava quantas vezes tinha ido até lá nas férias, Clara estava atrasada para o seu primeiro dia de aula. O colégio já tinha acabado e agora era a hora de sua vida começava, ou pelo menos essa era a mentira que seus pais lhe fizeram acreditar apenas para não terem que dizer que ela precisava estudar mais do que havia feito no colégio.

A faculdade era um prédio de quase vinte andares entre as ruas estreitas do centro do rio de janeiro. Pessoas e carros passavam ao mesmo tempo pela frente do lugar, a buzina tocando para que os pedestres saíssem da frente do motorista estressado, a conversa alta das pessoas do lado de fora do lugar, o vendedor de balas terrivelmente pequeno e desdentado e o cheiro típico do centro. Apesar da agitação desesperadora no contorno a alegria de finalmente estar entrando em uma universidade para estudar o que queria a fazia sorrir sem conseguir evitar.

Ao passar pelas portas de vidro já sentia como se fizesse parte daquele ambiente, como se fosse ser aceita e compreendida de uma maneira como nunca fora em outro lugar. Uma mulher lhe entregou uma carteirinha para que pudesse passar pela roleta, nela havia seu rosto sorrido, seu nome e o curso que cursava, a secretária lhe desejou boa sorte e disse-lhe em que sala seria seu primeiro tempo.

“Calouros não podem subir de elevador” uma placa com letras vermelhas dizia sob os elevadores. Viu sua sala mais uma vez apenas para descobrir que subiria até o sexto andar apenas, estava feliz por já ter ouvido essa regra antes e ter malhado as férias inteiras.

Sexto andar, sua sala era a primeira a direita, haviam apenas duas pessoas lá dentro. Ela sorriu para os dois, sabia que se ela se sentia apavorada com a idéia de algo novo os outros também deveriam se sentir assim. Ela se apresentou aos dois, a garota bonita e de pele morena se chamava Kira e o loiro de aparelhos no dente era Pietro. Eram simpáticos e se sentou ao lado deles para tentar se inturmar, tudo seria menos estranho no momento em que fizesse amigos ali.

Aos poucos mais pessoas foram entrando até que a sala estava lotada, a ultima pessoa cheio minutos antes do professor e assim que esse entrou os murmúrios se acalmaram e um silêncio fúnebre invadiu a sala. As apresentações típicas foram feitas assim como a chamada e então a aula começou, não era porque era primeiro dia que ele não daria matéria nova, o professor disse e pareceu que ninguém se importou muito com isso.

As perguntas mal eram feitas e já eram respondidas por Clara, ela tentava impressionar o professor, pois sabia que era essencial considerando que eles eram a porta de entrada para o mundo profissional. Mas aos poucos ela começou a notar os olhares das outras garotas que riam toda vez que o braço dela levantava. No começo pensara que elas riam de algo que conversavam entre si, no final da aula sabia que estavam rindo dela.

Assim que o professor saiu de sala entravam vários veteranos gritando “segurem o teto” e todos os alunos subiram em cima das cadeiras e colocaram as mãos no teto. Os calouros eram tirados aos poucos para fazerem coisas engraçadas, Clara teve que representar a estátua da liberdade por um tempo até que fora chamada para segurar uma laranja contra a testa de outra garota.

-E aí, você vem sempre aqui? – Ela tentou descontrair, era uma piada típica dela, mas a garota apenas revirou os olhos e Clara sorriu constrangida.

Antes que o professor entrasse os veteranos explicaram para a turma o hino da faculdade a fizeram com que cantassem até que ficasse gravado em suas mentes.

Com o segundo professor as coisas não foram diferentes, Clara tirava suas perguntas e esse professor lhe premiou no primeiro dia com o cargo de presidente de turma e com isso Clara ouviu as garotas falando “que idiota” e a chamando de Velma, ela já havia sido chamada disso diversas vezes em seu outro colégio e normalmente achava fofo, mas aquelas garotas faziam com que aquilo soasse nojento e inaceitável e aos poucos a garota começou a ficar irritada com aquela recepção que estava tendo.

Entre os tempos os veteranos entraram mais uma vez, explicaram sobre uma gincana que tinha onde a turma vencedora ganharia um prêmio e isso empolgou Clara, ela sempre ganhava, pois estava sempre disposta a tudo para isso.

Quando um dos veteranos pediu que ela ficasse virada para a parede segurando um papel contra ela nos lábios Clara ouviu uma garota falando pelas suas costas “graças a deus a Velma vai calar a boca”. Ela nunca fora uma garota muito sentimental, estava acostumada a resolver coisas como essa de forma agressiva, mas era apenas seu primeiro dia de aula e não queria causar confusão logo de cara.

Assim que o professor seguinte entrou em sala Clara saiu de sala com risinhos as suas costas. Ela foi até o banheiro e lavou o rosto se obrigando a ficar calma para que não acontecesse a mesma coisa que aconteceu na antiga escola, lembrar disso lhe dava medo de perder o controle. Pegou um copo de água e foi se sentar na escada esperando para esfriar a cabeça.

-Já matando aula?

Disse uma voz vinda por detrás dela, era uma voz grossa demais para ser de menina, na verdade mais grossa que a de muitos meninos.

-Não é da sua conta. – Clara respondeu mal humorada para o estranho e esse se sentou ao seu lado sem pedir.

-Como você consegue ficar triste no seu primeiro dia de aula? -Clara quase teve vontade de enfiar a mão na cara do desconhecido, ela não devia satisfações a ele, mas por algum motivo ele parecia confiável.

-Vadias. – Clara apenas disse e ele pareceu entender.

-Se você quiser eu posso bater nelas. – O garoto disse e Clara riu. – Miguel.

-Clara.

Ela sorriu para ele e então voltou para a sala.

Continua...

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