Demon Heart
1 The end Or the Begining?
Demônios podem amar? Ultimamente, essa pergunta tem assaltado minha mente sempre que me distraio, mas não importa quantas vezes eu a afaste, essa questão sempre volta. Está sempre ali, pronta para saltar entre meus pensamentos fúteis e passageiros, cravando suas garras até abrir espaço para a loucura entrar e tomar minha mente. E o pior é que não consigo lutar quando me lembro o motivo que me levou à essa dúvida.
Eu sempre achei que amor, felicidade, carinho, essas coisas idiotas, eram para anjos. Ah, os anjos mereceram esses sentimentos, afinal, são as pessoas boas. São os justos, os virtuosos, os salvadores. Vocês, os vivos, sempre acham que todo o seu ente querido quando morrer virará um anjo. Vocês pensam que vocês serão anjos, porque seguem as regras da bíblia, da igreja. Cara, vocês são muito burros.
Quando você morrer, você irá para o Julgamento. Não haverá portão dourado do lado do portão negro para escolher. Não haverá guia para o céu ou inferno. Não haverá escolha, e você estará sozinho. Será você e os Juízes. Ninguém, nem mesmo os anjos, sabem quem são os Juízes, e tem medo de saber. Eles são forças com a qual não se deve mexer.
Eles é quem decidem o que você merece. Se você foi um ser humano comum, viveu, pecou, se redimiu, pecou mais e não ligou, você será mandado para os Campos. E ficará lá, em meio a uma grande plantação de trigo, pelo resto da eternidade. Muitos dos que vão para lá reclamam, lá é um limbo como dizem, e desejam ir para os Elíseos.
Os Elíseos são quase desabitados. Somente as almas dignas vão para lá, pessoas que lutaram pela vida de desconhecidos, pacifistas, puros, gentis, honestos e essas bobagens todas. Eles vivem em uma ilha, dizem, junto aos anjos. E isso é tudo o que sei, e o mais perto que vou saber de lá.
E o que falta? O caminho das pessoas más. Alguns chamam de inferno, outros de Tártaro, mas no fim, acho que todas as interpretações estão erradas. É um lugar frio, escuro e de dor. As cercas de arame que nos separam em quadrados de tortura não são paredes, não podem abafar os gritos e lamentos. Existem pessoas que merecem estar lá, torturadas pelas sombras pelo resto da eternidade, que mataram e roubaram por ganância, orgulho, luxúria. Mas eu não merecia estar ali. Meu nome é Danion Rhapsody, nascido em uma agradável tarde de primavera de 1992, morto em uma noite fria de tiroteio em 2008. Tinha 16 anos e trabalhava para a máfia. De onde eu vim, ou você fazia parte de alguma gangue, ou era morto. Não tínhamos escolha. Mesmo tendo matado outras pessoas, roubado e feito coisas ruins, não era uma pessoa má. Eu só queria sobreviver naquele mundo.
Mas se você, sentado confortavelmente na frente do computador, não entende isso, os Juízes entendiam muito menos. Eu nunca me redimi pelos meus pecados, não acreditava em Deus. Me recusava a acreditar que existia alguém lá no céu só observando a injustiça do mundo, com poder para mudar tudo, mas sem fazer nada.
Pensava que quando morresse, poderia rever minha família, meu pai, que eu nunca vira, no portão dourado e rumaríamos juntos para um novo e iluminado destino. Em vez disso me acorrentaram numa cela de arame farpado, com uma sombra torturadora. Eu merecia isso, só porque não acreditava em Deus? Ou por que fazia o possível para sobreviver?
Eu sempre soube que a vida era injusta, mas a morte é a maior sacanagem.
Mas eu não passei a eternidade lá. Os anjos permitiram que eu fugisse. E não é porque eles eram justos, ou porque queriam me salvar. Eles soltam a nós, demônios, no mundo dos vivos, porque querem nos caçar. Eles se entediam da vida no Paraíso, descem ao Inferno, escolhem alguns demônios, soltam eles no mundo e daí saem caçando eles para serem trazidos de volta. Eles não dão a mínima para nós, somos só seu hobby favorito, como as excursões de caça do seu pai.
Assim que chegamos, tratamos de achar os caras no comando por ali para não sermos arrastados de volta logo depois. Os chefes são os demônios mais fortes. São os primordiais. Azazel, Lilith, Samael, esses caras. E claro, o maior de todos, Lúcifer. O anjo que tentou mudar esse mundo desafiando Deus, e foi chutado para o Tártaro pelos irmãos.
Bem, acho que estou indo rápido demais com minha história. A contarei de modo mais claro e detalhado, através da minha visão de tudo. E a minha história começou quando eu voltei para o mundo dos vivos.
Estava chovendo e o vento frio era afiado como as lâminas do Torturador. Não conseguia enxergar nada, mas conseguia ouvir sons indistintos ao longe. Primeiro, achei que tinham arrancado meus olhos e me mandado para a parte mais fria do Inferno. Ouvi passos pesados, chegando cada vez mais perto. Era o Torturador, em seu passo calmo e agonizante?
Não... Por favor, não...
— Ele é um dos nossos. – ouvi uma voz grave e séria dizer logo acima. Não era o Torturador, porque Torturadores não falam. Apenas riem com suas vozes estridentes dos seus gritos.
— Tem certeza de que vale a pena recrutar ele? – uma voz feminina indagou. Era fria e parecia insatisfeita. – É um garoto, e olhe como é magro. Não deve deter nem um anjo de terceiro grau.
— E desde quando a aparência serve de julgamento? – retrucou o homem, ríspido. – É apenas um corpo, ele pode mudar se sobreviver ao treinamento.
— Você acha que ele tem potencial para isso? – farfalhares estranhos, macios e abafados. Eram as roupas se dobrando quando a mulher se curvou sobre mim. Mas eu ainda não sabia, pois estava com os olhos fechados.
Senti pontadas, unhas muito compridas, sobre os olhos, antes que a escuridão desse lugar a uma paisagem completamente estranha. Pisquei várias vezes, tentando fazer tudo entrar em foco. Fazia dois anos que eu não tinha olhos de verdade para piscar, e tudo ficava tão estranho quando os recuperava.
A primeira coisa que notei foi o rosto dela. Pele branca como leite, parecendo macia como seda e lisa como pedra. Sobrancelhas finas e arqueadas. Nariz arrebitado, lábios cheios pintados de vermelho. Cabelos quase tão escarlates quanto o batom caindo em uma cascata de cachos pelas costas. Olhos negros e fundos, sem nenhuma emoção além de puro tédio.
— Consegue me ouvir? – perguntou, abaixando mais o rosto. Acenei com a cabeça, fazendo o pescoço estralar. Muito tempo sem uso talvez.
Agora percebia que estava em uma rua escura, com nuvens pesadas escondendo qualquer luz no céu, mas era obviamente noite. Não era uma rua, era mais escura, com paredes fechadas. Um beco. Estava caído no chão de pedra, com duas pessoas olhando para mim, mas só a mulher era clara para minha visão.
— Qual é o seu nome? – o homem perguntou, sem se aproximar. Por um segundo, senti a sensação tão conhecida de desespero, porque eu não conseguia lembra meu nome. Fazia tanto tempo que eu estivera vivo, mas no fim consegui me lembrar, com uma onda de fraco reconhecimento de quem eu era. Danion, o menino da máfia que não acreditava em Deus.
— Danion. – eu disse. Minha voz era aguda, baixa e ligeiramente trêmula. Será que ela era assim quando eu era vivo? Não me lembrava mais desse tipo de coisa.
— Por que você foi para o Tártaro? – a mulher perguntou, se levantando.
— Porque não acreditava em Deus. – respondi, com calma. Ela deu uma risada baixa, com clara descrença, mas não disse nada.
— Ok, — o homem disse, hesitando. – levante-se. Virá conosco se não quiser que os anjos achem você e o levem de volta.
Eu não queria voltar para o lugar de onde viera, nunca mais. Forcei meu corpo dormente a se mover, meus ossos estalando enquanto dobrava os braços, ficava de joelhos, e por fim ficava de pé. Olhei para cima, antes de tudo, sentindo a chuva caindo como gotas de inferno gelado.
— Está frio. – eu disse para mim mesmo. Minha mente ainda estava se acostumando a tudo para que eu guardasse meus pensamentos para mim.
— Coloque isso. – ouvi o homem dizer, antes de olhar para ele.
Ele parecia ser bem mais velho do que a mulher, com a pele se enrugando e cabelos negros salteado de fios brancos. Usava um terno risca de giz comum, e tinha os mesmos olhos negros que a mulher, mas não tinha o rosto nem remotamente tão impressionante quanto o da companheira. Abaixei os olhos e percebi que estendia uma muda de roupas pretas.
Levantei a mão, que era branca como a de um albino, usando meus dedos longos para pegar. Tentei me vestir rápido, mas não era fácil. Meu corpo ainda estava entorpecido demais. As roupas haviam sido obviamente feitas para uma pessoa maior do que eu, mas pelo menos eram compridas e quentes. Eu não suportava o frio. Quando enfim levantei os olhos, eles imediatamente viraram de costas, como se tivessem ensaiado aquele movimento, e se afastaram em passos rápidos, me forçando a correr para segui-los.
— Para onde estamos indo? – perguntei, enquanto corria.
— Não podemos falar dele aqui fora, pode atrair a atenção dos anjos. – retorquiu o homem, sem se virar. – Mas você logo saberá.
— Quem são vocês? – não consegui me refrear. – Por que eu estou aqui? Eu estava morto, como eu voltei?
— Eu sou Azazel, e ela é Lilith. – ele ainda se recusa a me encarar. – Você está aqui porque os anjos se entediaram e resolveram caçar uns demônios. Você é um demônio.
Bem, isso explicava muita coisa. Mesmo para alguém que não acreditava nessas coisas, as provas eram indiscutíveis. Mas eles não diziam que os anjos eram os bons? Por que nos soltar para nos arrastar de volta para o Inferno? Quer dizer, isso era um pouco egoísta, nos usar apenas para passar o tempo. Não disse mais nada, enquanto os seguia pelas ruas.
Devia ser tarde da noite, porque éramos as únicas pessoas ali. Eu tinha que correr o mais rápido que podia para seguir Lilith e Azazel, mas ao mesmo tempo cuidar para não cair devido ao chão molhado da chuva. Duvidava que eles iriam se deter, ou até reparar, se eu caísse.
Não sei quanto tempo eu os segui, mas foi muito. E eu os segui sempre, porque não sabia o que mais podia fazer. Eu estava perdido e confuso, de volta ao mundo dos vivos, de alguma maneira. Eu era a presa de uma caçada dos anjos, e corria o risco de ser mandado de volta ao Tártaro. Aqueles dois pareciam saber o que faziam, e eu não podia ignorar isso.
Não se quisesse continuar livre.
Eles finalmente pararam, um movimento tão repentino que quase esbarrei em Lilith quando parei atrás deles. Isso não a teria agradado nem um pouco. Olhei para a frente. Entre duas lojas velhas e fechadas, havia uma casa, uma casa grande, de dois andares, com janelas fechadas e pintura azul marinho descascando. Eu não sabia o que esperar, mas mesmo assim o lugar me surpreendeu um pouco.
Ela abriu a porta, que rangeu, e sumiu nas sombras lá dentro. Azazel finalmente se virou, me lançando um olhar inquisidor. Respirei fundo e atravessei a porta. Lá dentro era escuro e grande, mas foi fácil notar um pequeno facho de luz saindo de uma fresta de uma porta. A entrada se fechou com outro rangido, e na quase total escuridão, segui até a luz.
Ouvia os passos pesados de Azazel às minhas costas, e presumi que estava indo para o lugar certo. Parei e abri a porta com cuidado, tentando não fazer muito barulho. Lá dentro havia uma sala, com móveis antigos empurrados para os lados, exceto uma grande cadeira de madeira, que mais parecia um trono. A sua frente, chamas altas dançavam em uma lareira, criando sombras bruxelantes.
Sem ruído algum, a cadeira se virou, o que era estranho, pois parecia pesada e não tinha rodinhas. O ocupante dela ergueu os olhos e os fixou em mim. Um calafrio subiu pela minha espinha ao encarar aquele rosto desprovido de emoção. Mal sabia que aquele cara seria o meu chefe.
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