Demon
1 Quase tão bom quanto sangue
Eu odeio as pessoas. Odeio todos. Odeio. Odeio. Odeio.
E foi com este tipo de pensamento que aos poucos fui me transformando num demônio.
Demon
Eu ouvia minhas asas baterem, ciente que só eu era capaz de fazê-lo, para aqueles tolos logo abaixo seria como ouvir a mais leve lufada de vento. Vez ou outra podiam senti-la. Uma brisa gélida tocando sua pele fazendo seus pelos se arrepiarem ao menor toque. Ah! Mas minhas asas batem, mesmo que ninguém veja, por que hoje eu quero me alimentar, sim. Senti minha boca salivar, e num silvo um sorriso se formar em meu rosto. Tudo o que preciso é de alguém... Podre. Minha cabeça se move rápido naquela direção. Esse cheiro eu conheço muito bem, uma deliciosa iguaria. O Cheiro de morte fresca, agudo e penetrante. Quase tão bom quanto sangue...
Com uma leve guinada minhas asas se dirigem até algo brilhante, logo numa ponte. Não, uma ponte rachada. Assim que pouso finco minhas garras num dos postes de luz que no mesmo instante se apaga. Não há sinal de humano algum, a ponte esta quebrando e a minha esquerda o fogo toma conta de um dos carros, um outro esta preso por um conjunto de cabos de ferro. Assisto enquanto um se parte, e outro. Oh. Agora só falta um. Ah! Lá vai ele ponte abaixo, com um forte baque o ouço afundar na água. Não gosto mesmo de comida molhada.
Ainda sobrou um. Em chamas. Hmm... Será que ainda servem para algo?
Ao meu redor aos poucos mais e mais demônios se aproximam, todos esperando. Claro, esse território é meu. Todos esses humanos são meus. Poderia aquilo ser algum deles vivo? Próximo ao carro em chamas um humano se mexe, geme, se retorce. Vejo a quantidade de demônios aumentando... Sinto uma leve vontade de nem me alimentar, só observar cada um deles de olho em minha presa, mas sem poder tocá-la. O Humano geme mais e eles salivam.
Olhando atentamente posso ver o rosto do garoto. Um jovem garoto com o braço esquerdo arrancado, tanto sangue vazando... Talvez esteja mesmo com fome.
Me levando no poste, me equilibrando sem esforço, conforme ando pronta para cair levemente no chão, sem um ruído.
Três, Cinco, Sete, Dez passos.
Já estou na frente dele. Agora seu corpo não se mexe mais, talvez já tenha morrido?
O pego pelos cabelos e lentamente o levanto, até olhar seu rosto. Um rosto bonito, quase angelical e é claro coberto de sangue. Gostei dessa cor.
Já sinto meus caninos crescerem, no ponto em que cortam meus lábios. Decidi, desse vou querer beber tudo.
Como se ouvisse o que eu pensava os olhos do garoto se abrem. Num verde vivido, brilhante, mesmo tendo a luz vermelha das chamas neles refletidas. Esse humano... Consegue me ver?
-Me desculpe, Demônio – diz ele, muito rápido, rápido demais para um humano – Mas vou te pegar emprestada.
Sua única mão toca meu rosto. Então não vejo nada, um clarão. Não consigo, não consigo me mover. Então depois sinto a dor, há quanto tempo não sentia dor? Eu...!
Lentamente. Como uma lente tomando foco começo a distinguir formas. Eu estou deitada no chão? Tento me levantar usando meus braços. Não. Não. Dói demais. Se mexam, agora. Vamos. Mas meus braços não se mexem, ou melhor, um deles se mexe, um braço que não se parece em nada com o meu. Ao meu redor uma poça de sangue cada vez maior. Como?
Quando foco meus olhos reconheço uma garota, de cabelos longos e negros, tão lisos que na menor lufada de vento se movem como serpentes, com a pele tão branca quanto mármore e os olhos que eu já olhei milhares de vezes. Olhos vermelhos como sangue, meus olhos.
-Obrigada – disse o meu corpo – Nós nos veremos em breve.
Meu corpo me segura pelo meu único braço e no instante passo pelos fios de ferro, pela ponte de encontro a água.
Notas finais
Espero que tenham se divertido tanto quanto eu o/
Fale com o autor