Uma flecha fincou no centro do alvo.

Catherine abaixou o arco e apreciou sua pontaria, orgulhosa.

– Boa, Catherine!- eu gritei de onde estava — Agora só tem que acertar mais 1000!

Eu dei uma risada e cruzei os braços. Ela me deu língua e voltou a atenção para o alvo.

– Não, espera! — gritei de novo. Ela virou o rosto pra mim. — São 999 agora.

Ela me lançou aquele olhar de "sério?" e voltou a atenção parao alvo. Não era nem como se precisasse disso... Afinal, era filha de Apolo. Que graça tinha?

– Não enche, Maureen.- disse Catherine, com o cabelo curto e recém-castanho refletindo a luz do sol. Estava radiante, mas diferente. Ainda não tinha processado a imagem dela de cabelo castanho na minha mente. Ela sempre fora loira e, do nada, BUM! mudança drástica.

Mas eu não podia me conter. Eu era obrigada a fazer isso.Éramos amigas desde que eu podia me lembrar... Viemos para o Acampamento Meio-Sangue quase na mesma época, com uma diferença de algumas semanas. Apegamo-nos rápido, mesmo não sendo uma de suas companheiras de Chalé. Eu era Filha de Poseidon.

Digamos que nossa amizade começou por causa de cavalos. Ou um, em particular. Um dia euestava nos estábuloscuidandoda minha égua, Medusa (é, eu sei, beeem criativo. Fazer o quê? Tinha 13 anos quando apelidei a coitada assim), quando ela apareceu e começou a me observar. Só que Medusa não gostou muito. Entendam: ela é temperamental e age como se fosse da realeza. Não gostou de ter uma estranha olhando para ela.

"Quem é essa, Maureen? Tire-a daqui!", Medusa pensou e eu ouvi em minha mente.

– Não começa, Medusa. — falei baixo para ela, mesmo sabendo que poderia falar mentalmente.

A menina me olhou de lado só porque estava falando com uma égua. Aí surgiu aquela situação em que tive que explicar o porquê de estar falando com o cavalo e que, graças ao papai, tinha esse dom. Enfim, depois disso, Medusa começou a relinchar e dar chiliques mentais, que não ouso transcrever aqui, e que acabou com uma Catherine e Maureen ensopadas com a água que deveria ser para um cavalo e não para semideusas. Desde então, ficamos amigas. Bem... nada como ficar encharcado para tornar as coisas mais interessantes, não é?

Depois de 5 anos, ainda estamos aqui, juntas. E isso é um pouco assustador de se pensar. O tempo passou muito rápido.

Ela acertou outro alvo.

Estava começando a ficar entediada, quando Beatrice chegou.

– Maureen. – ela me chamou, calma.

Virei o rosto para olhar pra ela.

À primeira vista, tudo estava normal: seus cabelos loiros moldavam seu rosto com perfeicão, enquanto seu delineador nos olhos davam seu toque pessoal.

E então notei sua expressão.

Seus olhos castanhos-claro estavam gélidos e urgentes. Arregalados.

Ajeitei a postura e meu sensor de alerta foi ativado.

— O que houve? – perguntei.

— Os novos campistas.

Virei o rosto para Catherine. Ela estava concentrada. Não podia atrapalhá-la.

Virei-me para Beatrice e assenti.

Enquanto descíamos a colina, vi um aglomerado de pessoas em frente Casa Grande.

Esses novos campistas estavam causando bastante alvoroço. Será mais um filho dos Três Grandes? Não podia descontar a possibilidade de ter mais um irmão no Chalé 3.

Entranhei-me pela multidão, tentando ver os recém-chegados. Assim que consegui caminho, consegui vê-los.

Era uma menina e um menino. Ela tinha olhos verdes escuros, cabelos loiro-arruivados ou ruivo-aloirados. Não sei muito bem. Seu cabelo caía em cachos e emoldurava seu rosto belamente. Já ele era magricelo e inspirava um ar brincalhão. Seu sorriso com dentes tortos davam um charminho, junto com algumas sardinhas no nariz. Seus olhos eram verdes e seu cabelo, encaracolado e castanho.

Não pareciam americanos. Pareciam… de lugar algum.

– De onde são? — perguntei baixo para Beatrice.

— É aí onde queria chegar… — ela respondeu, ainda com aquela rigidez, enquanto eu observava-os falar com seus sátiros e Quíron. – Eles vieram da Nova Zelândia.

Meus olhos se arregalaram e eu me virei pra ela, com uma constatação meio lenta demais se formando em minha mente.

— Então… isso quer dizer que… Ai, meus deuses, eles conseguiram!

Ela não estava tão animada. Eu não entendia.

– Sim. Mas… Algo me diz que há alguma coisa errada.

Eu estretei os olhos e olhei para os dois.

– Você se lembra — ela continuou — daquele dia que fomos ao sótão do Oráculo e encontramos um monte de desenhos empilhados?

Assenti, sem saber aonde ela queria chegar.

— Lembra de um que eu gostei, particularmente?

Eu me recordava brevemente. Mas os desenhos estavam embaralhados na minha mente.

Ela olhava desconcertada para eles. Pense.

Os desenhos… Eram lindos, apesar de um pouco apagados. Lembro da admiração que ela teve por um deles. Os traços pareciam saltar do papiro, chamando nossa atenção.

Tive um flashback.

Estávamos remexendo na pilha de desenhos empoeirados.

“Olha esse aqui, Maureen”, Beatrice me chamou para ver o que tinha acabado de pegar. “É lindo!”

Fui rapidamente ver qual era.

Retornei a realidade.

Ofeguei.

A imagem ainda estava fresca em minha mente: dois adolescentes, virados de costas um para o outro, com armas em punho e olhos ferozes. Olhos verdes. Os dois.

Cobri a boca com a mão.

Não podia ser coincidência. Coincidências não existem para os semideuses.
Olhei para ela e nossos olhares se cruzaram.

Agora eu entendia sua urgência.

Eram eles.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.