Demônios do Sol Nascente
2 Capítulo 2 - Miguel sai dos Karas
Brasil, São Paulo, Colégio Elite, Um ano antes...
Miguel estava em frente ao forro do vestiário do Colégio Elite, onde ficava o esconderijo da “agência secreta” que ele mesmo liderava; Os Karas.
Ele e seus amigos eram “o contrário dos coroas, e o avesso dos caretas”. Em poucos anos de existência, esse grupo havia desmascarado gênios do crime, desbaratado a base da Máfia Siciliana no Brasil, evitado um golpe militar a nível mundial de um grupo neonazista, e exposto uma terrível farsa de uma corporação que estava brincando com a vida de milhões em todo o mundo...
E agora, há pouco mais de um mês, esse mesmo grupo havia evitado que um grupo fanático paramilitar, os “Heróis em defesa da “América para os Americanos””, dominassem o mundo, mudando através da força, a constituição norte-americana, mudança essa, que transformaria o governo dos EUA em uma terrível e perigosa tirania, que oprimiria os países mais pobres, destruindo grande parte do planeta.
E agora, a existência de tão valorosa organização estava em jogo. Estava esperando um amigo de longa data para lhe comunicar uma decisão muito importante. Precisava colocar-lhe a par de certas coisas que ele ainda não sabia...
De repente, um garoto de cabelos castanhos aparece...
– Oi, Miguel. Quais são as novas, Kara?
– Que bom que você chegou Chumbinho. Entre.
Mas, entrando no esconderijo, Chumbinho teve uma surpresa.
– Ei! Cadê o resto do pessoal?
– Hoje não tem resto do pessoal, Chumbinho. Eles não sabem que estamos aqui. Essa é uma conversa particular, entre nós dois. Preciso contar para você uma coisa muito importante...
– Mais essa agora. Que história é essa de conversa particular? Só falta você resolver dizer que resolveu assumir que é gay, e que está loucamente apaixonado por mim. Se for isso, não, obrigado. Não estou interes...
Chumbinho é interrompido com um forte e rápido soco no estômago...
– UUUFFF...
– Hoje não estou de bom humor para agüentar suas brincadeiras sem-graça! O que tenho para contar é de extrema importância.
– Des...cul...pa, Kara...
– Chumbinho, você ainda se lembra daquele dia em que você apareceu de repente no forro do vestiário, e disse querer ser um de nós?
– Sim, lembro. Você disse naquele dia que para eu ser um de vocês, eu precisava fazer um pacto de sangue com vocês, aí eu piquei meu dedo em um alfinete, e entrei no grupo.
– Esse é o ponto em que estou querendo chegar, Kara. Quando você chegou na organização, eu fiz de tudo para expulsar você dela, e esse ritual foi um dos recursos que usei.
Chumbinho fica perplexo.
– O QUE? REPETE!!!
– É isso mesmo que você ouviu, Chumbinho. Eu tinha tirado a conclusão precipitada de que você era uma ameaça à invisibilidade de nosso grupo. Tinha medo de que você contasse aos quatro ventos a existência da nossa organização. Eu monitorei você para tentar evitar isso. Meu plano inicial era manter você distraído até conseguir arranjar outro esconderijo, aonde você não pudesse nos seguir.
– E VOCÊ SÓ ME CONTA ISSO DEPOIS DE QUATRO ANOS??? QUER DIZER QUE VOCÊS ME ENGANARAM ESSE TEMPO TODO?
– Ainda não terminei, Kara. Um de meus recursos mais sórdidos foi inventar uma missão para você. Quando eu ordenei que você fosse investigar o Bino, eu não imaginava que ele pudesse ser o oferecedor. Eu apenas o imaginava como uma distração perfeita para que eu pudesse realizar o meu plano. Pensava que se eu o mantivesse em campo neutro, mataria dois bandidos com um só tiro. Você não atrapalharia nossas investigações, e eu teria tempo para encontrar um novo esconderijo.
– MUITO OBRIGADO, IDIOTA! VOCÊ ACABA DE PIORAR AS COISAS! ENTÃO VOCÊ ME MANDOU PARA O COVIL DO DR. Q.I. SÓ PARA SE LIVRAR DE MIM? ENTÃO ME ENFIEI NUMA BASE DA MÁFIA SICILIANA, CORRI RISCO DE VIDA NUMA BASE NEONAZISTA, ME DISFARCEI DE ANÃO CRIMINOSO, E FIZ PAPEL DE PALHAÇO DIANTE DA FILHA DO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS, TUDO ISSO POR PESSOAS QUE SÓ QUERIAM ME VER PELAS COSTAS?
– Chumbinho, você entendeu tudo errado...
– CALA A BOCA!
Chumbinho desfere um soco e um chute, que acertam a cabeça e o estômago de Miguel respectivamente. Mas parecem que os golpes não doeram em sua carne. Seu coração já estava dolorido demais.
– Desgraçado! É isso o que você merece.
– Você está certo, Chumbinho. Mereço até mais, mas você entendeu errado.
Tentando se acalmar, Chumbinho dispara:
– Ah, é? Me fala que parte desse filme de terror trash eu entendi errado...
– Chumbinho, essa farsa já era, acabou há muito tempo. Não é só a Peggy que realmente gosta de você. Magrí, Crânio, Calú, também fizeram de tudo para apoiar sua permanência aqui. Eles tentaram abrir os meus olhos para as atrocidades que eu estava fazendo com você, mas eu estava cego e não queria enxergar. Para mim, você não era um amigo, mas uma ameaça que tinha de ser eliminada. Eu tive de ser jogado no covil do Dr. Q.I. para perceber o quão valoroso você era. Foi ali que percebi que todas as minhas idéias sobre você estavam erradas. Você realmente é um Kara. Não quero que você culpe os outros Karas pelos meus erros, pois a culpa disso tudo é apenas minha. Eles realmente te amam como a um irmão, e eu queria seguir esse exemplo. Na verdade, eu queria que todos os segredos entre nós acabassem.
Miguel se ajoelha, colocando as mãos nos joelhos, e com a fronte curvada, faz um pedido.
– Chumbinho, me perdoa, por tudo que fiz de errado contra você. Quero ser seu amigo de verdade.
Chumbinho banca o durão.
– Você não acha que é tarde demais para me pedir isso?
– Nunca é tarde demais. Apenas quero seu perdão. Não quero mais o caminho da falsidade.
Chumbinho rosna para si mesmo. Seu instinto diz que Miguel não merece nada mais do que a dor e o sofrimento, mas existe um pequeno detalhe. A vingança nunca vingou em seu coração, nem mesmo quando um gênio do crime matou seu melhor amigo na sua frente. Chumbinho sempre fora coração mole. E não seria ali que Chumbinho criaria ódio de alguém. E decidiu:
– Está perdoado, mas não pense que vou esquecer isso tão rápido...
– Obrigado!
Os dois se abraçam como se fossem velhos amigos de infância. Miguel interrompe o abraço, e fala:
– Chumbinho, eu preciso de você para uma missão muito importante, e eu sei que você é a pessoa perfeita para ela.
– Tava demorando. Mal te perdoo, e você já me pede favores. O que quer de mim?
– Chumbinho, eu decidi deixar a organização.
– O QUE???!!!
– Isso mesmo, a partir de hoje, não sou mais o líder dos Karas.
– Você ficou maluco? Você não percebe o que fizemos em todos esses anos? Não faz um mês que salvamos o mundo de novo, e você quer acabar com tudo?
– Eu sabia que você teria esse espírito, por isso, tomei outra decisão: como diria o Capitão Nascimento: 05, você é o novo xerife!
– Não acredito, preciso de tempo para absorver as informações...
– Isso mesmo, Chumbinho. Você é o novo líder dos Karas.
– Mas por que eu? O Calú e o Crânio são beeemmm mais qualificados do que eu para liderar a organização.
– Porque você possui a chama necessária para manter os Karas vivos. Ou você esqueceu que eu mesmo, o Calú, e o Crânio, quase acabamos com o grupo por um motivo tolo?
– Mas, será que eu vou conseguir fazer isso?
– Consegue sim, Chumbinho. Você provou várias vezes o seu valor na organização, e confio que você liderará bem na minha ausência, que eu garanto que será temporária.
– Ufa, Miguel. Você acabou de tirar um peso de 16 toneladas das minhas costas. Mas o que você vai fazer enquanto está fora da organização?
– Eu vou visitar uma velha amiga, Chumbinho. Preciso rever os meus conceitos, meu modo de viver. Meu coração está quebrado em pedaços, e eu sei que ela vai me ajudar nesse processo. Pode ser temporário, mas pode ser que eu nunca mais volte a ser um Kara.
Chumbinho entendeu o que o amigo queria dizer.
– Entendi, você ainda não engoliu direito o fato da Magrí e o Crânio estarem namorando...
– Acertou em cheio, mas não é só isso. São os erros bobos que eu cometi como líder da organização que estão vindo constantemente à minha lembrança também. Meu coração está machucado, e enquanto essa ferida não se curar, não liderarei a organização como se deve. Preciso de um tempo só para mim, ok?
– Certo, eu sei que não vou conseguir te deter, então vou te dizer uma coisa. Vá sossegado. Vou tomar conta dos Karas como se fosse a minha própria vida.
– Obrigado, só vou te pedir mais um favor. Fique aqui por mais uma hora para organizar umas papeladas. Posso contar com você?
– Claro.
– Então, acho que isso vai ser um adeus.
– Claro que não. Você vai se recuperar rápido. Isso vai ser um até logo.
– Muito obrigado por tudo.
Chumbinho e Miguel se abraçam por trinta segundos, que naquele momento, pareceram uma eternidade. Miguel se solta do abraço, e começa a sair do esconderijo pelo que poderá ser a última vez.
– Se cuida, Miguel. Vou estar te esperando!
Miguel acena para seu amigo, e começa a se distanciar do vestiário. Miguel sai da escola. Sua última ação como líder da organização foi enviar uma mensagem de texto para seus outros companheiros, Calú, Crânio e Magrí:
OMBERMOMBERSGÔMBERLCAISINIS MINISXAISMINIS
OMBERLCENTERLPSENTER UFTERSGOMBERLPOMBER LINIS BINISROMBER OMBERM MOMBERAISINIS HENTERSINIS.
MAISGUFTEROMBERN
Os Karas ficaram surpresos com o chamado para uma reunião, mas aquela mensagem era moleza para se decifrar. Primeiro, usa-se o código vermelho:
A = AIS; E = ENTER; I = INIS; O = OMBER; U = UFTER
A mensagem ficaria assim:
OMOSGÔLCAI MIXAMI
OLCELPSE USGOLPO LI BIRO OM MOAI HESI.
MAGUON
Depois se usaria o código TENIS-POLAR:
T = P; E = O; N = L; I = A; S = R
A mensagem ficaria assim:
EMERGÊNCIA MÁXIMA
ENCONTRO URGENTE NA BASE EM MEIA HORA.
MIGUEL
Algum tempo depois, os Karas chegam ao forro do vestiário, e surpreendem Chumbinho limpando a papelada, e percebem que Miguel não está ali.
– Droga! Não acredito que esse sacana do Miguel me tirou da minha sessão de namoro virtual com a Peggy para me dar um bolo! – Diz Calú
– Chumbinho, quero duas explicações: Cadê o Miguel, e que milagre é esse de você limpar nossa base??? – Diz Crânio
– Crânio, eu sei de tudo.
– O que você está sabendo? – Diz Crânio
– Oh, Deus! Não pode ser o que eu estou pensando. O Miguel te contou a respeito do caso da Droga da Obediência? – Diz Magrí
– Sim, Magrí, o Miguel me contou tudo. Eu já sei de como vocês não gostavam de mim quando eu entrei na organização, e do que ele fez para se ver livre de mim.
– Chumbinho, não nos entenda mal. –Disse Magri. Nem sabíamos direito da sua existência antes de você invadir nossa base. Você era conhecido apenas como um dos amigos mais chegados do Bronca – que Deus o tenha – que era o maior arruaceiro do colégio. Além de você ter uma péssima reputação na época, você nos deixou com uma péssima impressão, e pior ainda no Miguel, fazendo o que fez na base. Foi por isso que ele quis te tirar da organização a todo custo. Não estou justificando os atos sórdidos do Miguel, apenas não quero que você fique com raiva da gente sem necessidade.
– Isso mesmo, Kara. E juntos, já provamos várias vezes que o Miguel estava errado. Você é um ótimo companheiro de equipe! – Disse Calú
– Entendo, hoje mesmo o Miguel me chamou aqui um pouco mais cedo para me pedir perdão por tudo o que ele tinha feito. Como o ódio no meu coração é igual semente nas pedras, não vinga, eu o perdoei. Não se preocupem com isso.
— Ótimo, Kara, bom saber disso. – Disse Crânio. Mas você não me respondeu. Cadê o Miguel, e que milagre é esse de limpar a base?
– É uma coisa difícil de explicar...O Miguel resolveu se retirar da organização. – Disse Chumbinho
– O QUE???!!! – A reação do Crânio não foi das melhores
“Esse Miguel é um sacana! Mal posso ver a Peggy na net, e agora, ele me chama aqui à toa...” pensou Calú.
– Mas como o Miguel nos chama para uma reunião de emergência máxima, se ele sabe que não vai estar aqui? – Disse Magrí
– Agora eu entendi porque o Miguel me pediu para limpar a papelada...para que eu conduzisse minha primeira reunião como líder dos Karas. – Disse Chumbinho
– ALGUÉM CHAMA O HOSPÍCIO! O MIGUEL FICOU LOUCO! Não acredito que ele te deixou para ser o líder. – Disse Calú
– Chumbinho, o Miguel te falou porque estava saindo da organização? – Perguntou Magrí
– Ele me disse que precisava de um tempo só para ele. Ele disse que iria me deixar como líder porque só eu teria a chama para manter os Karas vivos na ausência dele. – Disse Chumbinho
A notícia caiu como uma bomba para Magrí. Ela percebera que Miguel saíra da organização por não suportar seu namoro com Crânio. Estava nas entrelinhas das palavras do Chumbinho, o novo comandante.
– Chumbinho, fale a verdade. O Miguel saiu por minha causa, não foi? – Disse Magrí
Chumbinho se manteve calado, mas pensou:
“Mulher é fogo! Como ela descobriu, se eu fiz de tudo pra não dar bandeira?
– Não posso acreditar que o Miguel ainda seja capaz dessa infantilidade! – Disse Crânio. Ele está cometendo o mesmo erro que quase destruiu nosso grupo!
– Gente, fiquem calmos! Não há motivo para pânico. Eu conheço o Miguel. Ele disse que ia falar com uma velha amiga. Ele vai tirar isso de letra. Foi para manter o grupo vivo, apesar da sua infantilidade, que ele me deixou no comando. Ele vai voltar mais cedo do que a gente imagina. Vocês vão ver... – disse Chumbinho.
Os Karas ficam pensativos por alguns minutos, e por unanimidade, resolvem acatar a decisão final de Miguel.
– Bom, bem-vindo ao comando, Kara – disse Calú
– Bem, minha primeira ordem é fazer uma roda. Quero dizer que apesar da rejeição inicial, eu perdôo vocês. Sem vocês, minha vida seria um tédio. Antes de partir, o Miguel me disse muito obrigado. Agora é a minha vez de agradecer por vocês existirem na minha vida! Muito obrigado a todos!
Chumbinho dá um longo e forte abraço nos seus amigos. Ele está feliz por não ter criado raiva deles. E espera esquecer o mais rápido possível esse dia. Mas Magrí, no meio do abraço, fica apreensiva.
“É, Chumbinho. Tomara que você esteja certo. Tomara que o Miguel volte rápido mesmo.”
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