Demônio do Norte
4 Winterfell - 300 DD
O grande dia para o seu reencontro com Arya finalmente chegara. Ramsay não podia conter sua ansiedade. Desde que soube que iria se casar com a sua prometida, nada lhe satisfazia, nem mesmo atormentar Fedor ou realizar suas infames caçadas humana. Quanto a sua felicidade, ela estava inabalada. Não sabia dizer qual era a extensão do poder que aquela criança de cabelos acobreados tinha sobre ele. Desde que a conhecera na infância não tinha um dia que não pensava nela. Podia colocar a culpa deste poder em sua ambição, mas se fosse honesto consigo mesmo sabia que havia algo a mais, talvez relacionado ao fato dela ser a única que não tivera medo dele e agira com honestidade a sua pessoa. Ela enxergou o que ninguém mais via, pensou. Ela despertou o seu melhor quando resolveu levá-la de volta para a família, claro que em troca de uma promessa. Palavras são como vento, ele sabia disso e estava preparado para buscá-la nas profundezas do inferno se ela não cumprisse o juramento. Ele era um demônio como todos diziam e não teria dificuldades em lidar com o seu superior no mundo inferior. Nada disso será necessário, constatou ao ouvir passos de cavalo entrando no pátio.
Ao lado do pai, Roose Bolton e de sua madrasta, uma mulher Frey que tinha o triplo do tamanho do pai e que rendera à sua Casa uma fortuna na quantia de seu peso, Ramsay acompanhou a comitiva que entrava. No meio daqueles soldados, ele procurou um relance rubro, mas não enxergou. Entre eles tinha apenas uma mulher, mas ela tinha os cabelos castanhos e os olhos da mesma cor. Minha prometida tem os olhos azuis, não tinha como esquecer este detalhe. Os olhos de Arya eram da cor do lenço que ela lhe dera. Ele estava sendo enganado e ninguém percebia isso. O rosto de seu pai parecia uma muralha impenetrável e sua madrasta sorria com animação. Fedor sabe, ele procurou o seu servo mais leal, mas o rapaz estava lá no fundo junto com os servos da fortaleza e não esboçava reação alguma. Eu jurei arrancar cada pedacinho ainda inteiro dele se olhasse para a minha prometida, estava se arrependendo de suas palavras.
— Lorde Bolton — A moça que se passava por Arya fez uma reverência cordial ao descer de sua montaria e aproximar-se daqueles que a esperavam.
Ramsay crispou os lábios antes de abrir um sorriso formidável. Se este é o jogo que querem jogar, que seja.
— Minha senhora — Se adiantou, tomando a mão enluvada dela na sua e depositando um pequeno beijo no dorso.
Ela podia não ser quem ele esperava, mas era bonita, jovem e tinha as proporções ideais. Ele podia se divertir com isto. Ele já se livrara de uma esposa, não havia nada demais em se livrar de uma segunda quando o momento propício chegasse.
— Suponho que seja Arya Stark — Roose comentou, cumprimentando sua futura enteada.
— Sim, senhor — Arya respondeu com um sorriso inseguro — Quando meu pai faleceu, Lorde Baelish me manteve segura com ele.
Baelish... Ramsay gargalhou internamente. Fora Mindinho quem lhe vendera algumas prostitutas que já não lhe davam mais lucro na Capital para que Ramsay fizesse o que desejasse com elas. Em uma dessas mulheres da vida ele fizera a primeira cirurgia de mudança de sexo, só que infelizmente ela morrera alguns dias depois de uma terrível infecção na parte operada. Aprendendo com os erros, ele tivera sucesso quando foi a vez de alterar Theon. No entanto, agora que conhecia o início da verdade, sabia que aquela mulher que se considerava Arya Stark não deveria passar de uma dessas criaturinhas de Petyr. Desmascarada por sua associação. Petyr Baelish pagaria por sua traição, isto era inquestionável. Ele estava forçando Ramsay Bolton a se casar com uma reles meretriz que pelo jeito tinha origem nortenha, pelo forte sotaque em sua dicção.
A moça nos dias que se seguiram apresentou uma etiqueta digna de uma donzela nascida e criada em berço de ouro. Quem a visse se portando daquela forma, não desconfiava do que ele sabia e Ramsay amaldiçoou ainda mais Baelish por tê-la preparado tão bem. Ao invés disto estimulá-lo a tratá-la bem e até mesmo acreditar naquela farsa em que estava submetido, ele só tinha vontade de destruí-la ainda mais e arrancar a força a máscara que ela vestia. A sua verdadeira Arya Stark não deveria ser submetida a uma cópia barata como a que lhe fora ofertado.
O mais incrível de tudo isto era que ninguém notara a diferença entre a velha Arya Stark e esta nova versão. Entre seu séquito de servidores haviam aqueles que durante anos conviveram com os Stark de Winterfell e optaram por se calarem, com exceção de Fedor que quando confrontado, deixou escapar que a verdadeira Arya Stark tinha cabelos castanhos e não acobreados, como Ramsay sugerira. Internamente, o rapaz do Forte do Pavor jurou se vingar de todos que eram complôs dessa farsa quando o momento chegasse e nenhum deles participariam de suas caçadas, que em sua visão era uma honraria que somente os servos mais dedicados e que perderam a utilidade mereciam.
— Sansa tinha cabelos ruivos — Fedor confessou em meio aos seus tiques habituais; um presente que Ramsay lhe dera quando o esfolara.
Fedor tinha tanto medo e respeito por seu mestre, que não havia como ele mentir a respeito deste detalhe.
— Mas os olhos de Arya eram azuis — Ramsay mencionou o fato que ele se recordava.
— Era Sansa — Fedor o corrigiu, sem saber se estava fazendo o certo — Sansa tinha olhos azuis e Arya tinha os olhos... — Hesitou antes de concluir — Castanhos, mestre.
Sim, a moça que lhe deram tinha olhos castanhos. Uma cor muito comum para ser esquecida.
— Sansa, você diz. Sansa era a filha mais velha, não? A que fora prometida para o Príncipe... O Rei Joffrey?
Fedor meneou a cabeça em sinal positivo e foi necessário um certo esforço de Ramsay para diferenciar a confirmação do tique do rapaz.
Ramsay andou de um lado para o outro de seu quarto. Tinha algo errado nisto. A menininha que ele conhecera na infância tinha a descrição física de Sansa e não da Arya, Mas ela disse que se chamava Arya... Alguém estava mentindo e era inacreditável pensar que aquele anjo imaculado o enganara com um pequeno detalhe de grande importância. Ele riu.
— Sansa por um acaso se perdeu na floresta?
Seu servo se permitiu ficar um momento em silêncio. Era difícil para Fedor recordar da vida de Theon Greyjoy e quando era obrigado a fazê-lo reagia como se estivesse com uma forte dor interna. Ramsay gostava disso. Não era preciso que ele sujasse as mãos para se divertir com o seu mais leal amigo. Ele nunca o trairia enquanto fosse a personalidade de Fedor que estivesse dominante.
— Uma vez. Quando era criança.
Ramsay gargalhou de forma histérica. Ele fora enganado. Aquele anjo maldito lhe enganara. Arya na verdade era Sansa. Sansa que fora para Porto Real se tornar noiva de Joffrey. Sansa que se casara com Tyrion Lannister. Sansa que estava envolvida com a morte do seu ex-noivo, sobrinho e o Rei que se sentava no trono de ferro. Ela quebrara a promessa que fizera com ele na primeira vez que a oportunidade que lhe apareceu. Ramsay sentia uma crescente onda de ódio dentro de si. Estava com nojo e com sensação de traição. Sua prometida havia contraído núpcias com um anão e era mais do que provável que se deitara com ele. Para piorar, durante todos estes anos ele nunca desconfiara que estivera enamorado da mulher errada. Sansa tinha mais direito ao Norte do que Arya e a sua prometida ainda estava viva, em algum lugar longe de seu alcance. Não era preciso mais derramar nenhum sangue Stark para garantir o seu poderio quando se desposasse com ela. Não era uma questão se ela queria casar com ele ou não, ele a teria independente de qualquer coisa, a única questão seria quando isto ocorreria. No momento ele estava noivo daquela Arya Stark e iria se casar com ela. Ele era um homem de palavra e afinal de contas o que era dele estava reservado.
Ninguém engana o demônio, riu ainda mais com este pensamento, no entanto no dia de seu casamento se manteve sóbrio.
Sua noiva estava elegante com o vestido que lhe arranjaram. Ela parecia uma lady, mas no fundo Ramsay sabia que não era nada além de uma puta dos bordeis do Mindinho. Por esta razão, na noite de núpcias forçou Fedor a prepará-la para ele. Quando foi sua vez de concluir a obrigação, a mulher não estava tão preparada quanto desejava, porém isto não foi um problema para ele. Ele a possuiu em todos os orifícios que estava ao seu alcance. Como imaginara, ela não era virgem. Uma falsa Arya e um brinquedo quebrado, isto só fez com que sua fúria fosse transferida para as suas penetrações. Sua noiva chorava e gritava, mesmo assim ele não parou o que tinha que fazer e despejou sua semente dentro dela.
Durante um ano e meio este ritual foi repetido, algumas vezes com o auxílio de Theon e outras por conta própria. Neste tempo, Arya não lhe dera um filho, como ele esperava que acontecesse. Ramsay tinha combinado consigo mesmo que assim que a primeira criança dos dois nascesse, ele se livraria da mãe de sua prole. Em contrapartida, até mesmo a sua madrasta engravidara, mas graças a intervenção dele, a gestação não durou mais do que três viradas de lua. Tendo sido criado nas matas ao lado de seu antigo Fedor, ele aprendera as propriedades das ervas e sabia como manejá-las sem deixar vestígio. Não foi necessário mais do que meia dúzia de chás para que seu irmão ou irmã não nascidos fossem abortados. Como vários outros casos em que ele estava envolvido, nenhuma desconfiança caiu sobre ele. Ninguém podia culpar Ramsay se a esposa de Roose Bolton estivesse muito acima do peso. Qualquer Meistre podia afirmar que era algo muito perigoso e praticamente improvável que uma futura gestação ocorresse.
— Minha esposa é seca, pai — Ramsay comentou um dia com Roose Bolton.
— Seca é a senhora minha esposa e eu fui capaz de germinar minha semente dentro dela, ainda que não tenha vingado — Roose informou o filho — Pensava que com a quantidade de prostitutas que você já teve soubesse como usar o seu instrumento.
Ramsay sentiu as bochechas corarem. Aquela sugestão de incapacidade feria gravemente o seu ego.
— Eu não sou o problema! É ela! Aquela criatura... — Ramsay se debateu, enfurecido pela acusação.
— Em todo o caso, ella continua sendo uma Stark. Com ou sem filho, o sangue dela ainda é valioso — Roose informou o filho, entendendo a vontade que Ramsay sentia de se desfazer da mulher.
— Há quem diga que ela nem mesmo é uma Stark — O rapaz evitava o contato visual com o seu progenitor, brincando com a comida que estava disposta em seu prato.
Os olhos de Roose podiam ser sentido pairando sobre ele na outra extremidade da larga mesa de carvalho que um dia pertencera aos senhores de Winterfell. O patriarca não disse nada durante alguns minutos, apenas avaliando o filho. Seu pai era a única pessoa de todos os Sete Reinos e além do mar de Essos que conseguia desconcertá-lo. Nem mesmo Sansa Stark, sim, Sansa Stark e não Arya Stark, terá este poder sobre mim quando eu reencontrá-la, decidiu. Detestava a sensação de ser subjugado e acima de tudo de ser menosprezados por aquele que mais queria impressionar.
— Ela nos foi vendida como uma Stark — Roose o recordou — Da próxima vez que alguém questionar a descendência de sua esposa, garanta de arrancar a língua desta criatura antes que o rumor se espalhe. Nesta etapa da sua vida, você deveria saber melhor do que qualquer pessoa que a única coisa que garante a união da Casa Bolton com as outras Casas do Norte é este matrimônio.
Sim, ele sabia muito bem disto. Mesmo antes do Jovem Lobo ter saído à guerra, a instabilidade das Casas localizadas no Norte de Westeros era conhecida por todos os grandes senhores dos Sete Reinos. Os nortenhos desde a época dos Primeiros Homens eram vassalos dos Stark e até Robb teve dificuldade em chamá-los para guerra, quem dera o senhor seu pai que era conhecido por cometer regicídio.
— Você pagou muito caro por uma farsa. Até minhas cadelas dariam uma Stark melhor do que está! — Exclamou, batendo o punho fechado sobre a mesa.
— O preço que eu paguei não é nada comparado com a estabilidade da minha Casa! — Roose retrucou.
— Sua Casa, não minha! — Acusou.
— Ramsay... — O pai o chamou de forma repreensiva.
— Pai — Pôs-se em pé.
Aquela conversa não levaria à lugar algum. O que ele queria era se ver livre daquele enlace matrimonial infrutífero, porém o senhor seu pai estava determinado a fazer com que Ramsay continuasse casado com aquela impostora. Em outros tempos Roose fora mais inteligente e estivera mais disposto a ver o lado do filho, mas desde que ganhara o título de Protetor do Norte o poder lhe subira a cabeça e ser enganado pelos leões e pelo Mindinho parecia a melhor alternativa do que lutar por sua honra. Os Stark lutaram por sua honra e suas cabeças foram arrancadas de seu corpo. Cerrou os punhos perante os pensamentos ao deixar a sala de jantar.
O patriarca dos Bolton podia não dar à ele o que Ramsay almejava, todavia os Deuses eram justos e um dia, sem que ele esperasse, Arya e o seu Fedor fugiram de Winterfell com o auxílio de algumas mulheres viajantes que acompanhavam um bardo que os visitara. Ao invés daquela fuga aliviá-lo, ele se pegou preso em seu dever como um Bolton. Dominado pelos sentimentos do pai, escreveu uma carta para o Senhor Comandante da Patrulha da Noite, Jon Snow, exigindo que sua esposa e o seu brinquedo fossem mandados de volta para ele. As mulheres que auxiliaram a fuga daqueles dois haviam sido mortas, mas o bardo depois de esfolado revelou que ele viera a mando de Lorde Snow, sendo ele próprio o Rei Prá-Lá-Da-Muralha. Ramsay gargalhava enquanto dependurava a cabeça decepada do Rei sobre as amuradas de Winterfell.
Ele daria um mês para aqueles que lhe pertencessem fossem devolvidos e se este prazo não fosse cumprido, ele próprio junto com os seus melhores soldados atacariam a Muralha e se tinha algo que aqueles corvos não tinham direito era se misturar em assuntos do Reino, principalmente naqueles que diziam respeito à ele.
E quando eu acabar com Jon Snow, eu irei ter com Petyr Baelish por ter me vendido uma mercadoria estragada.
Fale com o autor