Demônio
1 A Boneca Sob a Boneca
Notas iniciais
Havia um demônio preso no interior de uma boneca russa. A presença maligna pairava entre as bordas de porcelana de tal maneira que até as plantas mais vistosas murchavam ao fotosintetizar no mesmo ambiente que a boneca. Entretanto, não havia prova de que, realmente, havia um demônio dentro da boneca. O que se sabia, apenas, era que a boneca era recheada de outras bonecas, que eram recheadas de outras bonecas, que chegavam à uma maciça e sem oco. Era nessa boneca, maciça e sem oco, que o demônio habitava.
Resolvera assombrar uma porta monótona, que fazia barulho algum. Porta que não travava, nem dava trancos. Uma porta tão sem-graça que sua cor era o branco. E o demônio assombrou a porta. Fez a tinta descascar, arranhou as maçanetas, enferrujou as dobradiças. E quando o casal que habitava o flat entrava, fazia bico e gemia uma sequência ligeiramente trêmula de 'uuuuuuuuuuu'. Ninguém, obviamente, dava atenção. E o demônio embicava e flutuava de volta à sua boneca russa dentro das muitas outras bonecas russas. Esticava suas pernas demoníacas e balançava em sua rede made in inferno, resmungando maldições impronunciáveis e imaginando uma forma de continuar — ou começar — a amedrontar o casal que morava no flat.
Certo dia, o homem chegou do trabalho transtornado. Sentou em sua poltrona afundada e ligou a TV. Nada apareceu. Xingando três gerações, agarrou o casaco e saiu porta afora. Logo depois, a mulher chegou, tão afobada e despenteada quanto o companheiro. Foi ao banheiro, se maquiou, rodopiou em um vestido limpo e correu porta afora. O demônio assistia tudo tomando suco infernal dentro de uma caixinha de gritos. Ocorria a ele muito mais do que um simples plano de dominação e possessão de um dos dois.
Era um demônio "artista", observe bem. Odiava a ideia de entrada a força e sentia ânsias ao ver seus primos, demônios de alto escalão, contar suas estórias de masturbação com crucifixos. Ele, o demônio, gostava de estrelas de Davi. E era muito mais divertido provocar uma transa enquanto possuído do que simplesmente se masturbar com um crucifixo. A lógica era ele, o demônio, aproveitar ao máximo a vida carnal, mas de forma sutil. Não queria ser expulso através de um exorcismo. "Meu Diabo, como é bom!" Exclamavam seus primos demônios. "Melhor que o orgasmo humano" Ele, o demônio, não se interessava, particularmente, por um orgasmo causado por um padre. Não fazia sentido algum, além do que ele, particularmente também, não tinha nada contra a santíssima trindade.
"Vergonha da família!" Vociferava a mãe-demônio. Ele tomava suco através do canudo e mandava todo mundo ir pro céu.
Então o homem voltou. Estava possesso — ironicamente não pelo demônio — e atirava papéis para todos os lados. Ligou a TV de novo, que dessa vez funcionou, mesmo com muito chuvisco e interferência. O demônio se sentou ao lado do homem e encarou os joelhos. Foi pro chão e amarrou os cordões dos sapatos. Flutuou até a cozinha e fez com que o leite azedasse. Desceu até a garagem e mudou a sintonia do rádio. Depois voltou satisfeito até sua boneca russa para esticar os dedos demoníacos em uma bela ducha de almas.
O homem abaixou e tirou os sapatos. Viu que estavam amarrados, mas não deu a mínima. De meias, foi até a cozinha e abriu a geladeira. O leite estava azedo, mas ele amava coalhada. Encheu o caneco de açúcar e se lembrou, inesperadamente, de tomar o remédio. Deixou a coalhada sobre a mesa e desceu, em um trote cuidadoso para não escorregar na cerâmica dos degraus, à garagem para pegá-lo dentro de seu carro. Abriu a porta e escutou a música. Tornou-se fã de tecnobrega. Os planos do demônio se concretizaram. O homem se sentia mais satisfeito do que nunca.
A mulher chegou um pouco depois. O homem lavava a louça. Ela se sentou, tirou os sapatos e olhou para a TV. Levantou-se de um pulo e começou a vociferar contra o companheiro, que escutava, mas não se movia. O demônio, que estava dormindo, levantou uma cabeça sonolenta sob um toucado de dormir azul com um pompom na ponta e observou a cena, trabalhando sob seus chifres. Havia mágoa e rancor na voz da mulher. Os olhos do homem brilhavam enquanto seus lábios tremiam. Ela o acusava de nunca fazer nada demais. Ela o cobrava em ação, em atenção. Ela o cobrava em tantas coisas, enquanto ele nada fazia — aos olhos dela — para agradá-la.
Era um homem simples, veja bem. De gosto fácil e dúvida pouca. O demônio gostava da mente do homem, mas algo precisava ser feito. Tratou de puxar a perna da mulher para que esta tropeçasse e caísse sobre o homem. Dito e feito. O homem agarrou-a antes que ela se machucasse, mas a mulher estava em prantos. Chorava compulsivamente e mirou um tapa na cara do homem.
"Longe demais, mocinha." Murmurou o demônio, mergulhando como de um trampolim no corpo do homem que estava prestes a ruir. Uma vez dentro, lascou um beijo na mulher, que tentou se desvencilhar momentaneamente, mas cedeu por fim. As mãos desceram, segredos foram tocados. Fizeram amor ali mesmo, sobre a pia ensaboada.
"Tec". A mulher acendeu um cigarro com o isqueiro, com um seio aparecendo sob uma dobra do vestido usado. Comentou um pouco sobre o sexo de antes e soltou uma baforada de fumaça. Pediu, então, desculpas. O demônio pairava logo acima, fumando a fumaça do cigarro da moça. Se autointitulava o que, para os humanos de algumas culturas, era altamente ofensivo, mas ostentava o título sob grande orgulho:
Era um demônio 'gay'. Talvez até mesmo um travesti de anjo.
Notas finais
March the Fifth: that's it.
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