Delírios Solitários
1 Capítulo único
Notas iniciais
Espero que gostem!
A chaleira apitou. O ruído esganiçado invadiu toda a sala. Ele estava jogado no sofá, juntando forças para levantar e acabar com aquele barulho infernal que fazia seus tímpanos vibrarem freneticamente e invadia seus pensamentos, seus dolorosos pensamentos.
Em pensar que ontem tudo ocorria bem. A vida estava nos seus conformes. Olhou para a mão, era escura; ficava muito tempo exposto ao sol. Mas um local, precisamente no seu dedo anelar, era mais claro, bem mais claro. Sentiu falta do objeto que normalmente ficava ali; tinha mania de roçar o dedo polegar naquele objeto curvilíneo. Como aquilo poderia lhe fazer tanta falta? Talvez se o objeto estivesse em seu lugar habitual sentir-se-ia mais tranquilo.
A maldita chaleira apitava mais alto agora. Olhou para suas pernas. Elas pareciam indispostas a se mover. Concentrou-se, respirou fundo. Num movimento que lhe exigiu força, conseguiu manter a posição ereta.
Sentiu tontura. Talvez tivesse levantado de maneira rápida, também poderia ser a labirintite que o acompanhara desde muito moço. Teve dificuldade para dar os primeiros passos, mas logo se acostumou ao movimento usual de um pé após o outro.
Enxergou o objeto que tirava seu sossego. Todo esse alvoroço por causa de um mísero chá... Lembrou sua mãe, quando ainda era pequeno e não conseguia dormir, dizendo-lhe que um bom chá de cidreira daria a ele um sono digno dos anjos.
Enrolou a mão em um pano que deixara sobre a mesa e tirou o ruidoso objeto de cima do fogão. Colocou-o com todo cuidado em cima da mesa. Abriu o armário e procurou uma caixinha com aqueles chás pré-prontos. Não encontrou nenhum no primeiro compartimento. Abriu o próximo, nada. Nenhum resquício de cidreira... Será que apenas água quente faria o mesmo efeito?
Lembrou quando ela pedira: “Querido, não se esqueça de ir ao supermercado!”. Lembrou, mas tudo que acontecera naquela tarde não lhe deu chance de reabastecer a despensa. Olhou novamente para a mão sem anel, parecia que algo atraía seu olhar. Virou o rosto. Livra-me da tentação, meu pai! Lembrou a passagem da bíblia que relata a tentação de Jesus. Sempre tivera o hábito de ler o livro sagrado, talvez por conta de sua mãe ter sido católica exaltada ou pelo simples fato de se sentir bem lendo as palavras de Deus. Aquelas letrinhas faziam-lhe sentir que algo bom sempre viria, como dizem: “Depois da tempestade, sempre vem a bonança”. Mas agora nem mesmo aquilo lhe confortava. Não conseguia parar de lembrar. Queria tirar as lembranças de sua cabeça, mas seu cérebro fazia questão de repeti-la insistentemente. Queria dormir o sono dos injustos.
Tocou a chaleira. A água estava quase fria. Desvirou uma xícara de louça bem desgastada, provavelmente pelo tempo e pela mania de sua mãe de fazer chá toda tarde e tomar naquela mesma xícara. Encheu o recipiente até quase transbordar.
— Tin tin – disse ao vazio.
Tomou a água morna em um só gole. Ela desceu queimando sua garganta. Teve o impulso de lavar a boca ou tomar algo mais gelado, mas deixou que o líquido da vida fizesse estrago maior. “Grande ironia do destino” pensou: o líquido da vida aos poucos me tira a vida.
Engoliu em seco e sua saliva anestesiou a dor. Depositou a xícara na pia abarrotada de louça suja. Ela não estava mais lá para lavar e ele nunca apresentou interesse em aprender.
A passos lentos voltou ao sofá, antes, porém, olhou para a porta de seu quarto entreaberta. Viu a cama desarrumada e as lembranças voltaram.
Recordou a primeira vez que entrou ali com ela. O sorriso dela naquele momento ficara inscrito nele como tatuagem. Seus dentes límpidos e os olhos reluzindo em alegria. Suas maçãs saltaram do rosto e sua testa vincou, parecia que queria chorar, mas conteve-se. Seria difícil deixar tudo aquilo para trás...
Rememorou, agora, uma das primeiras brigas do casal — parecia que estava revivendo tudo; lembrava com uma incrível clareza de detalhes. Ela ainda de camisola, ele trajando uma samba-canção de bolinhas. O pomo da discórdia fora Elvis, como sempre. Ele gritava:
— Você dá mais atenção a ele do que a mim!
— Calma! Você não tem motivos para ficar assim... Dizer que dou mais atenção a ele do que a você é loucura.
Ela falava com uma doce sensatez. Mas no fundo ela tinha razão. Ele estava ficando louco. Louco por ela, louco sem ela.
Aquela, infelizmente, não fora a única discussão. Muitas outras vieram, ocasionadas por Elvis e tantos outros motivos. Ela chegou a chamá-lo de compulsivo e, a partir dali, tudo tomou um rumo diferente. Lembrou que após ouvir essa palavra perdeu a razão e, quando a recobrou, viu que ela sentara do lado da cama e chorava descontroladamente.
Ele queria ajudá-la. Não sabia como, nem por que ela chorava. Encostou a mão em seu ombro. Ela virou e ele pôde ver...
Sentiu o celular vibrar dentro do bolso da calça. Era seu patrão. Esperou ele desistir e desligou o aparelho. Voltou a sua lenta caminhada até o sofá.
Estava mais perto, mas sentia-se cansado. Parou novamente. Estava próximo à estante cheia de recordações.
Olhou o porta-retratos que estava à altura dos seus olhos. Era o aniversário dela. Todos tão felizes... Tudo tão perfeito... Viu seu reflexo no vidro do objeto. Tudo tão só... Sentiu falta de algo, parecia que havia um buraco dentro dele. Recolocou o porta-retratos em seu local de origem. Reuniu forças, respirou fundo e repetiu para si mentalmente: “Um pé após o outro”.
Quando seu pé tocou o piso, um raio gélido tomou seu corpo. Subiu da ponta do pé ao crânio, e fez seu maxilar vibrar incontrolavelmente. Saboreou o calafrio.
Outro passo, a mesma sensação. A sensação de frieza aumentara, mas sentia o suor escorrer pelo pijama.
Mais dois passos e ele alcançaria seu objetivo. Suas pernas enfraqueciam, suas forças pareciam abandoná-lo, da mesma forma que abutres abandonam os restos do cadáver após comê-lo. Viveu muitos anos com abutres, mas infelizmente, aqueles não voavam e muito menos migravam durante o inverno à procura de lugares calorosos. Abutres... Eles eram a causa de sua desgraça, o motivo da dor que sentia. Tornaram sua vida um complicado labirinto.
“Um passo após o outro” repetiu em voz alta. Sua voz saiu trêmula através da faringe, talvez por conta do maxilar histérico. Levantou dolorosamente a perna; suas articulações pareciam inflamadas. Apoiou o calcanhar no chão, depois os dedos. Parecia que seu corpo congelava internamente, mas sentia o pijama agora ensopado. Uma gota d’água escorreu da testa até a bochecha. Passou o braço para limpá-la.
Suas pernas falharam e ele quase caiu. Precisava chegar ao sofá; estava tão perto! Só mais um passo! Vamos lá, só mais um passo! Concentrou toda a força que ainda lhe restava nas pernas e a custa de grande sacrifício pôde movê-las.
Alcançou o móvel e jogou-se como uma roupa velha. Ficou estirado. Estava um trapo, era um trapo.
Virou-se e pôde ver a estante como um todo. A pequena foto que foi tirada no dia em que se conheceram. Nem parecia que já faziam vinte anos... Lembrava claramente a perfeição dela. Não sabia se se apaixonara pela beleza exuberante ou pela personalidade cativante. Dizem que o corpo nos atrai, mas que a personalidade nos mantém amando. Agora aquilo pouco importava. Queria vê-la de novo, mas não sabia como...
Viu algo mover-se atrás da estante, apertou os olhos para poder focar melhor à meia-luz. Uma barata apressada correu até a cozinha. Olhou novamente para a estante imponente que lhe fazia sentir menor ainda, ela era como um grande gigante. Percebeu mofo crescendo pela parede, fruto de uma infiltração que há muito prometera consertar. A casa estava tão decrépita quanto ele.
Fechou os olhos para dormir, mas não conseguiu; as imagens dela voltavam insistentemente, tal qual um disco de vinil arranhado. Pensou em tomar um calmante, mas não conseguiria chegar até o quarto naquele estado.
Sentiu o calor aumentar. Tirou a parte de cima do pijama e passou a mão pelo peito encharcado. Nada mudou. O calor aumentava e a frequência de batidas do seu maxilar também. Cerrou os olhos novamente e pôde ouvir a leve neblina que caía batendo em sua janela, as flores dançando um lindo balé à sinfonia do vento, alguém correndo para apanhar um táxi e um carro buzinando. Uma vez protegeu-a da chuva quando voltavam de uma festa. Ela disse que queria caminhar um pouco. No meio da caminhada, porém, pingos d’água começaram a despencar do céu. Em vez de se lamentar, ela começou a gargalhar – sempre procurou enxergar o lado bom da vida; mesmo quando passava por turbulências, dizia: “às vezes, caminhos tortos nos levam aos mais belos jardins”. Ele esticou seu casaco pelas costas dela e envolveu-a em seu ombro. Caminharam a passos largos para não se molharem tanto. Quando alcançaram a entrada do prédio, um beijo selou aquele momento que nenhum dos dois jamais esquecera, foi ali que ele percebeu que precisava se casar com ela.
A neblina transformara-se em chuva e, devido ao barulho que a intempérie produzia, o vizinho de cima precisou aumentar o volume do televisor. “Metade dos voos estão atrasados ou foram cancelados devido às más condições climáticas” dizia o âncora do jornal noturno. Olhou para o relógio. Eram 23hrs. Uma lágrima escorreu por sua face; seria a primeira noite após 18 anos que ele dormiria só. A álgida solidão da cama tomaria conta dele como uma amante que agarra o parceiro. Preferiu ficar no sofá.
Pôs a mão no pescoço, sua temperatura aumentara. Lembrou novamente da primeira briga: ele pôs a mão no ombro dela, calmamente ela virou e ele pôde ver seus olhos encharcados de lágrimas. Aquele olhar sereno fez com que ele jurasse a si que nunca a abandonaria. Ela não merecia aquilo! Merecia apenas ser amada e isso seria suficiente para que os dois vivessem felizes.
Aquela não foi a última briga do casal, mas foi a que lhe tocou de forma mais especial. As seguintes terminaram numa rápida reconciliação e num beijo apaixonado.
Ouviu um barulho na cozinha. Algo se mexia. Elvis entrou na sala, o velho bulldog de olhos pacatos sentou-se ao lado dele. Fez grande esforço para pôr a mão na cabeça do pequeno cachorro; suas articulações doíam muito.
— Ei garoto – disse com dificuldade – você também sente falta dela, não é?
O cachorro olhou-lhe talvez com pena. Até aquele animal tinha pena dele...
Elvis voltou para a cozinha, com certeza para se aconchegar na sua almofada de dormir que ela, assiduamente, lavava a cada três dias. O que seria do pobre cachorro sem ela? O que seria dele sem ela?
Tudo fazia com que ele se lembrasse dela naquela casa. Embora o cheiro da chuva caindo e o frescor do mofo tomasse conta do ambiente ainda conseguia distinguir o leve aroma do perfume dela. Alfazema parecia...
A febre aumentava cada vez mais e o sono vinha aos poucos, mas ele sabia que se dormisse, provavelmente nunca mais acordaria. Ficaria acordado! Não por ele, mas por ela. Precisava manter-se forte. Olhou mais uma vez para a estante de suas memórias. Sua cabeça doía, talvez não conseguisse aguentar o suficiente. Prometera a ela que ficaria bem e a última coisa que faria era descumprir tal promessa.
Sentiu o ar faltar e o aposento girar. Sua consciência estava lhe deixando, sentia a energia vital esvaindo-se. Respirou fundo, parecia, porém, que não existia ar suficiente ali. Precisava aguentar! Prometera ficar bem... Prometera... Prometera a vida toda com ela... Todo o amor ele lhe daria... Ele... Ele...
Seus pensamentos iam ficando cada vez mais desconexos. Até restar apenas um fio de consciência.
Ouviu algo na porta. Seu corpo, lentamente, rendia-se à gravidade. Talvez alguém girando o trinco, mas estava muito confuso para perceber qualquer coisa. O barulho ficava maior... Parecia que alguém entrara no apartamento, não tinha forças, porém, para abrir os olhos, muito menos para erguer a cabeça.
Ouvia passos? Talvez delírios... Tic, tac, tic... Passos! Sim, eram passos! Tinha quase certeza...
Sentiu uma imensa paz a partir daí, parecia ser carregado por braços delicados. Deve ser assim que sentimos quando estamos morrendo... Podia jurar que vira a luz. A paz invadia seu corpo e deixou de sentir qualquer sensação externa, exceto a teimosa audição, que temia ficar ligada. O barulho da água batendo no asfalto, o balé das folhas...
Sentia como se estivesse levantando. Deve ser o momento em que a alma deixa o corpo. Aquilo era tão real...
Nesse momento, ouviu alguém sussurrar em seu ouvido:
— Não se preocupe querido, meu voo atrasou, mas consegui trazer seu remédio.
Ela apoiava o corpo dele em seu braço enquanto, com a outra mão, despejava o conteúdo de um vidrinho na boca semiaberta dele.
Sentiu a paz invadir cada célula do seu corpo. Talvez pelo remédio, talvez pelo retorno dela. E sentiu a dor indo embora, assim como a solidão.
A maciez dos sonhos tomou-lhe por completo.
Notas finais
Comentem, please!!!
(:
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