Delírios
2 Segundo Delírio: Mexido, Com Sal e Pimenta
Notas iniciais
Era sereno ali dentro.
Mergulhava nesse líquido viscoso em uma paz acolhedora. Não conseguia enxergar, mas e daí? Poderia ficar ali para sempre.
Pena que foi abruptamente lançado para fora logo depois.
Caiu desajeitado em uma superfície quente, de metal. Tossia um líquido amarelo.
— Mexido, com sal e pimenta.
Olhou para o lado, um homem na casa dos vinte olhava para cima, despreocupado. Paulo fez o mesmo, um misto de surpresa e vertigem o abordou: Uma mulher de proporções titânicas aproximava uma espátula plástica igualmente enorme na direção dele e do jovem adulto.
— Não vomite no café da manhã, por favor. — Notou a náusea de Paulo, caminhava em sua direção, as solas do sapato grudavam no metal quente da frigideira dantesca. — Lugar engraçado o que escolheu. Você notou, né? Que está enlouquecendo?
Paulo assentiu com a cabeça.
— Ovos mexidos, quanto tempo faz? Lembro que comia quase todo dia quando menor.
Sorriu, detrás dele a espátula furou a gema, cobrindo toda a panela, batia na canela dos dois. Não que fizesse diferença para Paulo, já que estava coberto pela substância.
— Ela morria de medo de você passar mal de tanto comer pimenta.— Se entreolharam, o talher plástico girava lenta e pesadamente em volta da panela, evitando-os por pouco. — Eu pensei que odiasse essa época, que ser criança era algo que não combinava com você. É, acho que ficar à beira da morte muda as pessoas.
A espátula os lançou para dentro dos ovos mexidos. A gigante levantou um sachê vermelho, rasgou o papel e lançou todo o conteúdo em cima deles.
Pimenta do reino.
A vista escureceu, quando abriu os olhos, estava de pé em sua cozinha, não familiar como a da mãe.
Abriu a geladeira, pegou dois ovos e o frasco de pimenta e ligou o fogão.
Mexido, com sal e pimenta.
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