Delirium

1 Único


Não sabia mais o que estava fazendo, apenas continuava a correr. Atravessava as areias da praia como se estivesse fugindo. Talvez estivesse, pensava. Perdia o fôlego, mas não parava, estava longe de chegar ao fim. Morreria se precisasse, mas necessitava despejar toda aquela angústia, aquele peso que tinha no peito. Precisava sentir que estava livre, sofrendo para liberar a dor maior. Chegando lá ainda gritaria, alto para que a cidade inteira ouvisse. Berraria para os quatro cantos do mundo o que queria e o que não aguentava mais.

A areia fofa já não lhe preocupava mais, já que seus calcanhares já estavam completamente doloridos com tamanho esforço que faziam. O suor pingava desde sua testa até seus joelhos – estava ensopada. Era desconfortável, mas continuava a sentir o alívio crescendo cada vez mais, a cada passo ligeiro que dava. Era atordoante, mas era bom. Como nada que sentia há muito tempo.

O peso que carregava começou a sumir e mesmo assim não parou, pois queria ter certeza de que nunca mais voltaria. Estava chegando à outra ponta da praia, de qualquer maneira, poderia aguentar mais um pouco. O sorriso lhe preenchia a face como já havia muito tempo. O céu, que até uma hora atrás brilhava cegamente, já estava se pondo, deixando as nuvens em uma mescla de rosa e roxo que a mulher admirava. Já nem olhava mais para onde atravessava – não importava mais.

Resolveu então mudar a rota e começar a se movimentar na beira do mar. Gelado e refrescante conseguia aliviar um pouco o inchaço de seus tornozelos.

Era o paraíso. Algo que não ousava pensar que existia fazia quase eras.

Finalmente, chegou ao final da faixa de areia, uma montanha coberta de árvores e plantas rasteiras, com pedras que faziam um caminho do chão onde se encontrava, até o topo do monte. Escalou uma a uma até chegar ao topo. Nem se preocupava com seus pés molhados escorregando ora ou outra. Pulava da mais baixa a mais alta sem nem pensar. Queria o topo, queria chegar cada vez mais perto do mar de nuvens delicadamente coloridas.

Enfim, estava ali. Na última rocha, avistando de frente o mar de uma altura assustadora, mas que vendo só lhe dava mais alegria. Era o ali e o agora, não havia o estresse do depois, muito menos a dor do antes. Apenas ela, olhando o horizonte, arfando como se estivesse pronta para cuspir seus próprios pulmões. O coração tão acelerado que era difícil não tremer acompanhando seus batimentos.

Ah, a borda do penhasco. Tão tentadoramente perto. E o mar? Nunca esteve tão convidativo e belo. Queria se mesclar a água salgada que refletia os últimos brilhos do dia. Logo seria noite e não poderia mais contemplar direito o jeito que suas ondas grandes beijavam as pedras em baixo de seu corpo. Produzindo uma das músicas mais perfeitas que seus ouvidos já tiveram o prazer de captar.

- Espero que vocês estejam felizes, papai, mamãe. Eu finalmente consegui o que queriam. – Disse, intercalando respirações pesadas e desconexas. – Tornei-me a chefe do departamento.

E gritou. Tão alto que se pode ouvir quase um rasgo vindo de sua garganta. Entretanto, nem por isso parou. Tossia e gritava, tossia e gritava. Repetiu isso por muitos minutos até finalmente continuar sua conversa com o nada a sua volta.

- Finalmente consegui o que queriam. – Retornou a falar. – Ser cem por cento infeliz e desiludida. Bom, eu prometi e cumpri, agora estou livre, certo? Não tenho mais nenhuma ligação com o sonho de vocês que tive de realizar.

As palavras soavam tristes como se estivesse chorando, mas seus olhos estavam tão sérios que até brilho lhes faltava.

- Estou livre, em outras palavras.

As ondas continuavam a se chocar contra as rochas, mas agora mais pareciam tapas.

- Livre.

E de braços abertos se deixou cair.

Não era a morte que queria, mas o total alívio. Nenhuma responsabilidade, nenhum desconforto, nem mesmo sentir alguma coisa. Buscava apenas o que nunca teve: liberdade. Voar pela primeira vez, tanto literalmente quanto emocionalmente. Queria escapar da realidade, escapar de suas frustrações. Somente ela e a paisagem que nunca virá mais nostálgica.

Afinal, era a praia em que sua família fazia piqueniques quando tinha seis anos de idade.

E foi assim, lembrando-se da melhor época de sua vida, que caiu na inconsciência. Acordando apenas horas mais tarde, em uma sala branca sem portas e completamente estofada. Com os braços presos na camisa de força.

Era mais uma de suas ilusões, já havia suspeitado. Era bom demais para ser verdade.

Levantou-se para pegar sua comida que os enfermeiros fizeram questão de deixar ali intocada seja lá por quantas horas. Porém, surpreendeu-se caindo após sentir uma dor.

Uma dor estridente em seus tornozelos.

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