Havia um terreno baldio perto do terminal, que Sanji parava para fumar. Era um lugar em construção, com areia no solo, pedras de britas acumuladas e um carrinho de pedreiro jogado de qualquer jeito. Ninguém passava por lá, então ele aproveitava e fumava sem ter algum adulto lhe enchendo o saco. Mas, naquele final de tarde, ele não esperava alguém pegar no seu uniforme para arremessá-lo longe.

Comia areia até pender a cabeça e ver um par de coturnos muito familiar diante de seus olhos. Entrou em desespero e tencionou se levantar, mas Zoro desceu a sola pesada da bota na sua cabeça. E comeu mais areia...

Sanji disse algo que saiu abafado, Zoro não pôde ouvir por estar pressionando a cabeça do idiota contra o chão, isso até ficar mais leve para ouvi-lo e Sanji conseguir tirar sua perna da cabeça dele. O loiro se levantou e já ia dar no pé, mas Zoro agarrou na sua mochila.

— Tá se borrando que nem o Usopp. — Disse sobre o aluno mais covarde da escola, puxando o loiro já pelo braço.

— SOCOR-

O idiota teve a ideia de gritar, Zoro logo cobriu sua boca e o puxou para se esconder mais nos muros de tábuas da área em construção.

— Esse lugar fica um pouco distante do terminal, não vão te ouvir. Sem dizer que ninguém passa aqui. — Segurava Sanji em seus braços, quase o sufocando por ser muito forte. — Olha, vou te dar alguns segundos pra você se explicar e depois penso no seu castigo.

Zoro sacudiu Sanji esperando algum sinal de que havia entendido. O loiro soltou furioso um "uhum" que saiu abafado por conta do braço de Zoro.

Os braços do esverdeado se afrouxaram e Sanji nem pensou duas vezes ao se afastar. Foi cuspindo areia, que ele arrumou a franja loira e depois ajeitou o terno do uniforme.

— Marimo, eu não pensava que ia tão longe...

Zoro não conseguia entender por que Sanji o chamava de "marimo", quando não eram amigos e o esverdeado era um dos alunos mais perigosos da escola. Porém, já estava acostumado e também não podia dizer que não havia uma relação entre eles. Não eram amigos, mas Sanji estava quase sempre por perto, então era alguma coisa. E esse "alguma coisa" foi o suficiente para o loiro ter a liberdade de espalhar uma mentira em que Zoro estaria metido.

— Falto por uns dias e você espalha um boato de que eu vou peitar o King no seu lugar, porque somos melhores amigos?

Sanji apertou os olhos, cerrando os punhos. Ouvir o seu plano sair da boca de Zoro, soava duas vezes mais ridículo.

— Como eu disse... não sabia que ia tão longe... A parte de que você vai peitar ele no meu lugar foi invenção da escola. — Disse arrependido. — Me perdoe, marimo, não queria te meter numa treta.

Zoro coçou o rosto e cruzou os braços. — A treta não me incomoda, venço fácil do King. O que me incomoda é você achar que é meu amigo ou alguma coisa a ponto de ter essa liberdade. Não tem medo de apanhar de mim, além do King?

— Tá... me bate logo, preciso chegar no Baratie ainda essa noite!!

— Eu também preciso trabalhar no Mihawk, amanhã a gente resolve isso, então.

Quando Zoro deu as costas, Sanji se lembrou de perguntar algo.

— Marimo, por que estava faltando?

Zoro voltou a encarar Sanji. — Tava trabalhando.

O loiro enrugou o cenho e passou a andar ao lado de Zoro. Ele não sabia quase nada da vida do delinquente, só que tinha uma irmã, mas faltar aula pra trabalhar — sendo que já trabalhava no dojô — era sinônimo de falta de grana.

Já era noite, andavam entre a multidão do terminal para pegarem um ônibus juntos.

— Sei que não somos amigos, mas se você precisar de algo, tipo... desabafar, não tem? Você pode falar comigo.

Sanji sabia que Zoro não tinha amigos por ser muito intimidador e antissocial demais. Sempre corria atrás de um canto sem ninguém para dormir, que por sinal, era incomodado de vez em quando pelo loiro da sobrancelha enrolada.

Eles estavam no ônibus segurando as barras de ferro, Zoro arqueou a sobrancelha ao ouvir isso de Sanji.

O ponto que Sanji desceria, era um pouco antes do de Zoro. Ele deu um "tchau" para o marimo e desviou das pessoas até poder descer pela porta. Enquanto andava na calçada, pegou seus fones de ouvido da mochila e antes que pudesse colocá-los, alguém lhe deu um empurrão.

Sanji se apoiou no muro e olhou pra trás, tentando entender o que estava acontecendo: era o marimo com um sorriso gigantesco no rosto.

— Ma-marimo, você se esqueceu que desce dois pontos depois do meu? Está perdido de novo?

— Não. Eu quis descer junto com você, sobrancelhas. — Voltou a sorrir cinicamente, enquanto se aproximava do outro. — Acho que vou dar meu castigo aqui e agora.

— Hã?! Agora?!

Logo depois de Sanji exclamar, Zoro esticou o braço ao lado de sua cabeça, deixando a palma da mão no muro em que ainda se apoiava. O loiro pensou que Zeff, seu patrão, odiaria vê-lo surrado enquanto trabalhasse e provavelmente levaria uma surra dele também, fechou os olhos e engoliu em seco.

No entanto, só sentiu um toque úmido nos seus lábios. E foi tão rápido, que quando voltou a abrir os olhos, Zoro já estava andando para o dojô. Pegou no ombro dele a fim de virá-lo para si.

— Você me beijou?!

— Sim. — Voltou a dar as costas e Sanji puxou-lhe de volta.

— Vo-você pirou???

Zoro deu um sorriso e coçou a nuca, fingindo estar sem graça. — Sabe o que é, tem um boato na escola que você gosta muito disso.

— Mas é em mulheres, idiota!!!!

— O que posso fazer se os boatos nunca chegam direito. Quer mais um?

Sanji que já estava corado, corou ainda mais. — Claro que não!!

— Então, deixa eu ir para o meu trabalho, sobrancelhas.

— Vai! Eu não tô te segurando!!

Eles passaram a andar em sentidos opostos, mas Zoro parou e chamou Sanji.

— Obrigado por mais cedo no ônibus.

Sanji pensou um pouco para se lembrar. — Ah, tudo bem e... ainda tô disponível mesmo depois... depois...

— Do beijo?

— É. — Respondeu, chocado de como Zoro estava tão natural quanto a isso.

Zoro deu as costas e Sanji fez o mesmo depois de piscar os olhos, confuso. Se não sabiam que tipo de relação tinham antes, agora estava mais estranho ainda.

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