Delilah: meu primeiro amor
2 II: Fios sem ponta
Notas iniciais
Desde pequena, eu sempre fui fascinada com o Akai To: o fio vermelho japonês que liga dois amantes. Ele pode ser ligado não só com seu amor verdadeiro, mas com pessoas que você precisa conhecer: amigos, amores, parentes. A ligação dele nunca se rompe, e se você está conectado à alguém, você vai encontrá-lo, em algum momento da sua vida.
Eu sempre enxerguei a vida por esse fio – por ser muito sensível com as coisas do coração –, e a forma como conseguimos relacioná-lo com as coisas à nossa volta. À vida: um fio que pode se emaranhar, mas nunca se perde sua ligação. Às pessoas que conheci e me ensinaram algo diferente ao longo do tempo. Mas, acima de tudo, ao amor: por ele, vejo a ligação das pessoas que já amei, e me mostraram, cada uma de sua forma, a sentir e retribuir esse estranho sentimento que vive dentro de nós.
Mas sinto pena de quem, por obra do destino, tem a mim como a outra ponta do seu fio. Pena de quem conectou o seu coração a outro defeituoso.
Meu coração não funciona.
Eu nasci com uma doença cardíaca, que mesmo com um transplante, as chances de passar dos 30 são mínimas. Às vezes, penso se realmente há alguém do outro lado do meu fio; é melhor que não, afinal, eu não fui feita pra durar muito tempo. Ninguém sabe quando meu coração vai decidir parar de bater, e acabar com o sofrimento de não ter prazo algum.
E adivinha? Em menos de uma hora, farei 31 anos. Quem sabe meu coração só está esperando as 12 badaladas do relógio, para parar de funcionar? Para dizer: “Há, eu vivi mais do que vocês pensavam, mas não me importo. Não de verdade.” ?
Mas me lembro que a vida é como um fio. Que se emaranha, mas não se rompe, mesmo que termine. Que não importa o que você leva, mas sim o que deixa para trás.
E o que eu deixei para trás? Fios sem pontas e amores problemáticos que de nada valem se não há ninguém para recordá-los.
Hey, diz a minha consciência. Se acalme. Não deixe a frustração de ser uma granada amargurar seu coração. Não de novo.
Respiro fundo, e, pela segunda vez, tento escutar o ser mais louco que conheço: meu coração. Ele bate, sem compasso, mas calmo, como como se dissesse algo numa língua só dele.
Tum, tum. Tum tum tum. Tum.
Talvez, se eu procurar bem fundo, encontrarei algo além de supérfluos fios arrebentados. Um amor que me fez feliz, por algum certo momento da minha vida. Mesmo que já tenha superado a vida, ainda tem uma ponta, em algum lugar. Mesmo que ainda me sinta culpada.
É, a culpa foi sua.
Obrigada, mente, por me atormentar com esses pensamentos, mesmo à beira da morte.
De nada.
Eu tinha uma amiga que se chamava Anaho; a única, na verdade. Tinha acabado de me mudar de cidade, mas ela tinha conseguido meu número, não sei como, depois de ver a lista dos alunos de sua sala, alguns meses antes do ínicio das aulas. Talvez a direção da escola teria o dado a ela e pedido para conversar comigo, sabendo o tipo de pessoa que viria para escola.
A menina frágil. Coitada, sofre tanto. Cuidado com o que fala, ou ela pode cair em pedaços, caso ofenda-a.
Daquela vez (a primeira de tantas), eu queria mostrar que não era a coitada que eles tanto pensavam ser. Mas eu era. Sou.
De qualquer forma, Anaho me ligou.
— Alô?
— Oi! Seu nome é Yasmin, não é? Meu nome é Anaho, e vou entrar no ensino médio na mesma sala que você. Legal, né? Ontem eu vi a lista com seu nome e pensei “Yasmin, nome legal, tem uma crença hindu legal com o jasmim. Essa menina deve ser legal que nem a flor.” mas eu ‘tava ansiosa demais pra esperar até o início das aulas, então consegui seu telefone. Ou, você sabia que…
Ela falava tão, mas tão rápido que consegui escutar apenas até o Jasmin. Me perguntei de que crença hindu ela estaria falando, sem me importar em como ela estava falando comigo, ou por quê.
— Hey, eu ‘tô falando rápido demais?
— Han? Ahh, um pouco…
— Ah, desculpa — pelo seu tom, ela parecia decepcionada. — Mas enfim, eu estava realmente com medo de começar o Ensino Médio sem amigos, porque sempre dizem que as pessoas julgam muito… — continuou, mais devagar e num tom baixo — então, eu estava pensando se você sairia comigo pra ver um filme, sei lá. Assim a gente já começaria o ano amigas.
Por um momento, eu me esqueci que era uma pessoa totalmente desconhecida falando no telefone, possivelmente um sequestrador. Mas era uma pessoa. Tentando conversar comigo, sem medo de se machucar caso eu exploda.
Ah, vamos lá. Não se iluda. Ela nem deve saber que você tem problemas cardíacos.
Dane-se.
— Bem… Quando?
— Sério?? — gritou, do outro lado. — Ah, me desculpe. Bem, você tem algo pra fazer hoje? Tipo, agora?
— Não, mas não sei andar por essa cidade. Acabei de me mudar.
— Me passa seu endereço!! — gritou, de novo. — A cidade é pequena, e eu tenho uma bicicleta. Não dá pra ser muito longe de casa… Aliás, ela tem garupa, então não se preocupa caso você não tenha uma, você pode ir nela. Pedalando, se quiser! — a voz estridente machucava meus ouvidos.
Caso meus pais estivessem ouvindo, eu definitivamente levaria um puxão de orelha, ou uma chinelada na cara. Mesmo assim, passei meu endereço pra menina estridente.
— Ah, é realmente bem perto. — disse, depois de anotar. Devo chegar aí em uns cinco minutos. Até!
Fiquei alguns segundos paralisada, pensando no que tinha acabado de fazer. Dei meu endereço a um desconhecido, talvez assassino. Ou isso, ou tinha chamado uma menina para casa, o que era pior!
Mas logo comecei a me mexer, desesperada, pensando nos cinco minutos que não eram nem um pouco suficiente para me arrumar. As minhas roupas ainda estão amarrotadas nas malas, já que não costumo sair. Abro uma delas e começo a tirar as coisas rapidamente. Short? Não. Vestido? Não é como se eu tivesse um.
Está um pouco quente, mas não o suficiente para me impedir de usar calças jeans. Visto uma delas rápido, e calço o tênis com que tinha viajado, que estava jogado ao lado da cama. Não fazia ideia de onde os outros estavam.
De blusa, bastava qualquer uma que não seja escura, por causa do sol. Acabo escolhendo uma azul bebê, sem estampa.
Sobre meus cabelos, eu tinha uma vantagem. Estavam presos em duas tranças, que tinha feito minutos antes da ligação. Vou ao banheiro e lavo o rosto, e dou uma longa olhada na minha aparência. Cabelos loiros secos e olhos cinzentos sem expressão, escondidos atrás de óculos redondos. Rosto magro e fraco, resultado dos remédios e da doença.
Quando terminava de me vestir a campainha tocou. Tropecei até ela, ofegante. Meu coração batia rápido.
Merda, isso não é bom.
Ignoro o saltar em meu peito e destranco a porta. Vamos ver se é um sequestrador ou não.
— Yasmin, não é? — grita a voz estridente de quinze minutos atrás enquanto abria a porta.
Uma menina que parecia ter a minha idade estava em frente à porta. Alta, a pele negra parecia reluzir. Seus cabelos cacheados estavam presos em um rabo de cavalo, um pouco desleixado. Mesmo usando uma jardineira – algo que sempre me deixava parecendo uma tábua – suas curvas eram acentuadas. Ao lado dela eu pareceria uma criança de 10 anos. Reparei que tinha algumas marcas nos braços, um pouco camufladas pela pele escura. Não dei importância àquilo na época. Deveria ter dado.
— S-sim… — gaguejei.
— Ai que susto! — suspirou. — Por um segundo, te vendo olhar confusa pra mim, pensei que tinha batido na porta errada. Mas que bom que é você! Então, pra onde vamos?
— Ehh… — Eu não tinha pensado nisso. Na época, eu ainda podia sair desacompanhada: meu coração raramente incomodava, desde que eu tomasse meus remédios. Em dois anos, isso mudaria pra sempre.
— Ah, aliás, eu passei pelo cinema vindo para cá, e ele fecha aos domingos… — continuou, sem esperar por uma resposta. — Podemos ir ao parque! Lá é um amor, tem cestas pra piquenique entre as árvores e tal.
— Ahn… Tudo bem. Mas tenho que avisar os meus pais antes que vou sair. Entra aí. — Me virei para o lado, liberando o espaço pra porta.
Ela entrou sem hesitar, parando alguns passos de mim. Entrelaçou as mãos em frente de seu corpo, se equilibrando na ponta dos pés e depois nos calcanhares, infinitas vezes.
— Que casa bonita… E grande. Você tem piscina? — se virou para mim, sorrindo.
A forma como me encarava esperançosa, como se sua vida dependesse da existência de uma piscina no meu quintal, me fez rir, baixinho.
— Hey, que foi? — Parecia brava com a minha risada. — É porque está bem calor, sabe? É sempre bom ter um amigo com piscina… Eu tinha uma colega, chamada Amanda, que tinha uma. Mas os avós dela pegaram alguma doença esquisita e ela teve que mudar de cidade por causa deles, então ela…
Anaho voltara a falar incansavelmente, de uma forma que só ela devia entender. Quando perdia o rumo de suas conversas, me contentava em observar seus olhos…
*-*-*
A partir daquele dia nossas andanças começaram, em que, quase todo dia, Anaho vinha em sua bicicleta, para me arrastar para algum lugar. Meus pais não tentaram impedir; achavam saudável que eu saísse de casa. A cada dia, ela vinha com uma ideia maluca sobre o que poderíamos fazer.
— Hey, que tal a gente tentar ir correndo até a divisa da cidade e voltar? A gente nunca fez isso antes.
Eu poderia simplesmente ter dito que não gostava de correr, ou que não queria. Mas não aguentava mais mentir para ela quando me perguntava o porquê de ter me mudado, ou todas as coisas que rondam a minha doença. Ela tinha o direito de saber que, algum dia, eu iria morrer.
— Eu tenho uma doença cardíaca… — sussurrei. — Posso morrer se fizer muito esforço. Vou morrer com qualquer esforço. Me desculpa por não ter dito antes. Não precisa ficar andando comigo.
Ela me olhou por alguns segundos, digerindo o que tinha dito, e sorriu.
— Eu não ligo.
*-*-*
O ano letivo começou e ela já era minha melhor amiga, a primeira que tive. O ensino médio realmente te julga por qualquer coisa, então era bom pra nós duas termos um ponto seguro. Ambas éramos denominadas por estereótipos, e ninguém parecia se importar com o que ia além deles.
Continuávamos saindo por aí sempre que ela podia – já que meu tempo sempre estava livre.
— Hey, quer ir no cinema amanhã? Já faz um tempo que eu queria te apresentar meu namorado.
Namorado?
Meu coração apertou. Fiquei com medo de ser algo relacionado à doença, e só depois descobri que é normal o coração parecer apertar quando estamos muito tristes. Me desculpem, mas os médicos não me ensinaram os sintomas de viver.
— V-você tem namorado? — gaguejei, baixo.
Por que eu me importava tanto? Afinal, éramos apenas amigas. Mas era normal eu sentir ciúmes, não? Afinal, ela era minha única amiga.
— Sim, ué. — disse, sorrindo. Ah, aquele maldito sorriso. — Eu te falei dele no dia que a gente se conheceu, pelo telefone. Não lembra? E eu vivo falando dele.
Pera, o que ela disse depois do Jasmim?
Ou,você sabia que essa escola só libera 10 vagas por ano? Seu nome deve estar na lista de espera há muito tempo. Eu passei por um concurso, mas meu namorado não… Continua na nossa escola antiga. Heh, espero que as coisas não mudem entre a gente.
Merda. Merda. Merda. Ela sempre fala dele? Como eu nunca escutei?
Você escutou, Yasmin. Mas não quis ouvir. Não queria que ela tivesse ninguém além de você, porque tudo o que você tem é ela. Que egoísmo, tsc tsc. Pelo menos, quando você morrer, ela vai ter alguém pra se consolar.
— Ah, claro… — me seguro para não chorar. Você não é fraca, Yasmin. Não é…
— Hey, tá tudo bem? — perguntou, colocando a mão no meu coração, como sempre fazia, para sentir as batidas. Ironicamente, sempre que ela fazia isso, meu coração batia mais forte ainda. — Eita, seu coração tá muito forte.
— Eu ‘tô bem. — respondo rápido, tirando sua mão do meu peito. — Mas eu não vou poder ir amanhã, tenho uma consulta… Mas a gente se fala segunda feira e você me conta do encontro, tá?
— Oh, claro. — Parecia incomodada. — A gente se vê, Florzinha.
Ela me deu um beijo na testa e saiu andando, me deixando sozinha na entrada. Meu coração continuava apertado.
E meu coração continuou apertado pelo resto ensino médio. Fui descobrindo, aos poucos, que não eram só ciúmes. Ah, não.
Eu te amo, Anaho.
Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo…
— Mas então, Romeu e Julieta eram um pouco mais novos que nós, com 14 anos. — eu dizia, durante uma das aulas em dupla de literatura.
Se eu fosse um menino, eu poderia te dizer que te amo?
Não… Se eu fosse um menino, nós não poderíamos ser amigas…
É melhor que sejamos duas meninas. Pelo menos assim eu posso te ver.
— Nossa, Yasmin. — respondeu. — você é muito inteligente.
Sorri em resposta, sentindo minhas bochechas corarem. Ah, o quanto doía, a escutar me elogiando, e saber que ela só me via como amiga. Doía ao lhe dar um abraço, e ele ser apenas amigável. Nada romântico.
As coisas continuaram bem entre ela e o namorado até o fim do ensino médio. Alguém soltara alguns boatos sobre ela na escola, sobre alguma festa e uma dezena de meninos. Os boatos chegaram até o ouvido do namorado. Só então ela terminou com ele.
— Yas… mim — fungava, me abraçando. Suas lágrimas rolavam pela minha blusa. Sua pele sangrava, as marcas em seus braços eram profundas.
Se eu não estivesse cega por aquele amor platônico, eu teria percebido que tinha algo errado muito mais cedo. Poderia ter poupado aquela garota de muito sofrimento. Mas eu era egoísta. Sou. Eu não merecia ela, assim como nunca mereci.
— Anaho…
*-*-*
Eu era burra demais. Sempre quis acreditar que tudo volta. Anaho permaneceu mais alguns meses depois da formatura, e foi se recuperando aos poucos, fisicamente e psicologicamente. Ela era forte, ao contrário de mim. Mesmo sofrendo, ela enxergava a felicidade através da barreira negra que ameaçava engoli-la. Depois de um tempo, ela se mudou para a cidade da tia, para cursar jornalismo. Do jeito que ela era, ninguém conseguiria entender o que ela diria nos telejornais.
Ela ainda conversava comigo pelo telefone, como a primeira vez que nos conhecemos. A partir dos meus 19, meu coração começou a ficar complicado, e comecei a passar a maior parte do tempo internada. A última vez que a vi foi quando tive uma parada cardíaca, e ela veio me visitar.
Foi como a primeira vez. Eu, envergonhada, fraca e incapaz; ela alegre e falante. Eu mal tinha forças para falar, mas ela fazia isso por mim.
— Yasmim! Há quanto tempo, né? Parece que foi ontem que nos formamos no ensino médio. Já faz dois anos! Hehe, o tempo passa. Como tá a vida, menina? — não pude deixar de rir, mesmo que sem som, depois dessa frase. Achava que estava bem óbvio como minha vida andava. Mas a frase não me deixou triste. Foi como uma estranha te perguntar se você tinha piscina em casa. — Nossa, que saudade! Não tenho nenhuma amiga próxima onde eu moro, agora. É só a faculdade, o tempo inteiro… Parece até que eu tô morta! Às vezes dá vontade de ir correndo até a divisa da cidade, mas eu não sei onde é, acredita? Andar de bicicleta lá é perigoso, também. As ruas são movimentadas e não tem ciclovia. Quando terminar a faculdade, definitivamente vou voltar pra cá, de um jeito ou de outro. A gente vai poder sair de novo… — Ela colocou a mão no meu coração, sentindo os batimentos.
Não, Anaho. A gente não vai poder sair de novo.
Mas eu sorri, feliz com a expectativa de que, um dia, tudo voltaria a ser como a melhor fase da minha vida. Queria voltar aos passeios, mesmo sabendo que não poderia ir numa bicicleta pedalando.
Um tempo depois, ela descobriu ter câncer. Eu nunca pude visitá-la, nem ela a mim; cada uma de nós estava num hospital, em pontas diferentes de um fio emaranhado, sofrendo com o que não tem mais cura para nós.
Não me disseram se ela continuava alegre, mesmo durante o tratamento e seus últimos dias. Mas eu tenho certeza que sim. Afinal, era a Anaho: que via a felicidade além da escuridão. Que alegrava a outrem antes de si. Tão diferente de mim, imagino qual teriam sido suas últimas palavras. Talvez algo como:
Nossa, eu gostaria de ter corrido até a divisa. Heh, a gente não consegue tudo o que quer, não é?
É, Anaho. Heh.
Estou de volta ao terraço do prédio em que vivo, na véspera do meu aniversário de 31. Olho as horas em meu celular. 11:58.
Ah. Apenas mais dois minutos. Aguente um pouco, coração.
Tum.
Ao observar a vida pelo Akai To, eu via Anaho como a única relação que realmente fizera sentido. Me ensinou a colocar os pés para fora de casa. A amar, um pouquinho que seja. A juntar os cacos você mesma, depois de se quebrar.
Eu nunca consegui ser alegre como ela, ou um porto seguro. Eu sempre fui a náufraga, que migra de um relacionamento ao outro, procurando um pedaço de terra firme em que pudesse respirar.
Penso se ela está me esperando em algum lugar, mas não faz mal, caso não esteja. De qualquer forma, hoje eu me entrego às águas. A vida já parou de fazer sentido há muito tempo, desde um diagnóstico de leucemia, ou a mudança de uma amiga para uma cidade longínqua.
Ouço as badaladas do relógio indicarem o início de um novo dia. Meu coração as acompanha, até a número 12.
Quase sinto uma mão roçar em meu peito, para senti-lo.
— Hey, você demorou.
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