Delilah
3 Jogo de soma zero
Notas iniciais
Agradeço o apoio que vocês, leitoras (ou leitores, caso haja um garoto por aí), tem dado por meio das reviews.
Boa leitura.
Arthur nunca dava sorte com restaurantes. Ou mandavam a comida errada, ou cobravam a mais na conta, ou invariavelmente derramavam chá em seu terno. Ele sinceramente esperava que a romântica comemoração que havia planejado fosse menos miserável que as experiências anteriores, mas aparentemente estava equivocado. O garçom – provavelmente francês, porque somente garçons franceses conseguem ser estúpidos assim – havia preferido o lado da ignorância e insistiu em irritar Arthur ora se fazendo de desentendido e ora levando o prato errado só para trazê-lo novamente. E para variar – como se já não bastasse ainda estar mortificado pelo que fizera na noite em que estava completamente embriagado, havia um sujeito muito bonito, ou melhor, esquisito, que parecia ter encontrado em Arthur seu próprio Eldorado pessoal, porque ele simplesmente não conseguia parar de encarar a ponto de Arthur e todos no restaurante já haverem percebido. Tudo bem, talvez ‘todos’ fosse um exagero, mas algumas outras pessoas decerto já haviam percebido.
“O que é?” Perguntou Arthur em tom arisco logo que o gerente se escusara para tomar satisfações com o le garçom que o inglês encrencara que deveria ser francês, não menos do que parente de Francis.
Alfred olhou para ambos os lados, meio confuso, e apontou para si mesmo, como se perguntasse se era com ele que Arthur falava.
“Não, amigo, o fantasma do Nero aí do seu lado.” Alfred empalideceu e olhou de relance para o local onde a mão de Arthur indicara haver o aludido fantasma. Arthur bufou. “Não, git, é claro que é com você! Você está olhando pra cá faz uns quinze minutos. Tem algum problema comigo ou devo presumir que é com você mesmo?”
“Ahaha, então você percebeu...” Alfred sorriu meio nervoso, passando a mão na nuca, e se aproximou do inglês que ainda o encarava de modo desconfiado.
A bem da verdade, aquele estranho americano – que provavelmente deveria ser um stalker ou um serial killer à procura da sua próxima vítima, porque não havia explicação racional para ele estar flertando com Arthur – era um sujeito de tirar o fôlego. Arthur não era muito bom com medidas, mas o rapaz era alguns bons centímetros mais alto que ele e aparentava ser bem jovem – ou, pelo menos, mais jovem do que Arthur – com os cabelos em um tom de loiro que lembrava a cor da areia e os olhos azuis celestes mais envolventes que Arthur já tivera o prazer, ou melhor, a oportunidade de ver, o que mais tarde se provaria um artifício da já atraída mente de Arthur, dado que seu amigo, e ex-colega de cama, Francis, possuía olhos exatamente da mesma cor. De fato, Arthur descobriu que gostava bastante de pessoas com óculos.
“Então...” Alfred disse meio desajeitado. “Você vem sempre aqui?”
Arthur ficou sem palavras.
E começou a rir, apontando pra Alfred como se ele fosse a coisa mais engraçada que lhe acontecera.
“Eu estava pensando que você talvez fosse jovem, mas pelo visto é mais ingênuo do que imaginei. Pff, essa foi a pior cantada que recebi em toda minha vida.”
Alfred fechou a cara e fez bico, cutucando as espessas sobrancelhas de Arthur.
“É, tem razão, eu deveria ter falado algo como ‘oi, você e essas taturanas na sua testa vem sempre aqui?’ Bem mais criativo.”
Foi a vez de Arthur fechar a cara e ele rapidamente e com alguma violência, afastou as mãos de Alfred.
“Deixe as sobrancelhas fora disso, wanker. Você, por outro, lado, está no lugar errado. Gordo desse jeito, você deveria é fazer um intensivo na academia.”
Alfred tinha uma expressão que era puro ultraje.
“E você, que é velho?”
“Ah, por favor.” Grunhiu Arthur. “Ouça, pirralho, você não tem nada pra fazer?”
“Não sou pirralho! Tenho 25 anos!”
“Ainda sim é um pirralho.”
“Velho!”
“Idiota.”
“Sobrancelha de taturana!”
“Estúpido.”
“Baixinho.”
“Err, senhor Kirkland? Senhores?” Alfred e Arthur viraram simultaneamente o rosto para o gerente parado do outro lado do balcão, com uma expressão que mesclava desaprovação e confusão.
Arthur pigarreou, envergonhado, e olhou para os arredores esperando não haver chamado tanta atenção. Para sua sorte, apenas um casal sentado em uma mesa próxima e dois sujeitos no bar haviam percebido a infantil troca de insultos entre ele e o americano.
“Perdão.” Murmurou baixinho para o gerente e recebendo uma expressão indignada da parte de Alfred por haver sido excluído do pedido de desculpas. “E então?”
“O garçom já foi devidamente notificado e em nome desse restaurante eu gostaria que o senhor aceitasse nossas sinceras desculpas. O jantar de hoje fica por conta da casa, senhor. E... Senhor... Jones? Aqui está sua carteira.” Ele fez um gesto e entregou a carteira para Alfred.
“Muito obrigado, senhor.” Arthur sorriu triunfante e se preparou para virar e retornar à sua mesa quando sentiu uma mão em seu ombro e se virou somente para constatar que se tratava do americano irritante.
“O que você quer agora? Brincar de quem ‘xinga’ mais? O vencedor ganha petecas?” Zombou.
Alfred engoliu a resposta impertinente que lhe veio à boca e sua seguinte proposição mais pareceria um grunhido do que uma frase coerente. Arthur precisou pedir para que ele repetisse mais duas vezes até entender.
“Que tal tomarmos um drink?” E acrescentou rapidamente. “Eu pago.”
Arthur corou de leve. Então a experiência não o iludira: o cara estava mesmo flertando desde o início.
“Desculpe, mas estou acompanhado.”
“Por favor?”
“Estou acompanhado.”
“Por favor, por favor, por favor?”
Arthur encarou o americano como se ele fosse de outro mundo. E ele parecia ser, só pela expressão altamente adorável – para não dizer suplicante – que tinha. Ele olhou para a mesa onde o gerente parecia se desculpar com Emily e de volta para o americano. Ele franziu o cenho, cruzou os braços e olhou para o mais alto. Sua fala saiu quase como em um sussurro, como de um criminoso que teme ser pego no ato do delito.
“Se você quer tanto, então me encontre no Irish Pub da 45, amanhã às 21h. Você vai reconhecer o lugar, afinal, é um dos melhores da cidade.”
Um enorme sorriso se desenhou no rosto de Alfred, como aquele de uma criança que havia acabado de conseguir o presente que tanto quis.
USUK
Enquanto Arthur aproveitava o resto de sua insônia desenvolvendo uma espécie de bipolaridade em virtude do dilema de ir ou não ao encontro que ele próprio marcara, Alfred acordava radiante imaginando, inclusive, sua rotina matinal acompanhada por uma trilha sonora formidável e adequada ao seu humor. Nem o trânsito para o trabalho conseguiu estragar seu entusiasmo e, muito embora deixasse transparecer que algo muito bom acontecera, preferiu fazer mistério sobre a razão para os colegas de trabalho, que começaram a ponderar se seu estado de espírito estaria relacionado ao seu encontro da noite anterior com Natasha.
Alfred mal dava atenção ao que Feliks dizia sobre a mais recente propaganda da qual ficara encarregado, mas Kiku só se sentiu curioso a respeito do comportamento do amigo quando ele, sem querer e de maneira distraída, como se ainda estivesse assentindo e negando mecanicamente cada vez que Feliks perguntava ‘é’ ou ‘não é?’ ou ‘isso está certo?’, recusou a proposta do loiro para irem comprar Coca-Cola. Kiku aproveitou a primeira oportunidade de estar a sós com o amigo e o empurrou contra a parede.
“Muito bem, Alfred-san, ignorar o que Feliks diz é completamente normal da sua parte, mas recusar uma Coca-Cola só me faz crer que você esteja muito doente.”
Alfred riu meio nervoso.
“E-Eu só me distraí, Kiku!”
O aludido arqueou a sobrancelha expressando sua descrença.
“Continue.”
Alfred engoliu seco.
“Sabe aquele sujeito da transmissão de rádio? O Inglaterra?”
Kiku assentiu, incentivando-o a prosseguir.
“Eu acho... Eu acho que eu encontrei ele ontem à noite... E... Por acaso... Você não acharia um absurdo se eu dissesse que marquei um encontro com ele, acharia?” Alfred perguntou, como se temesse levar um tapa na cara.
Kiku parecia pensativo e olhou para o amigo com uma expressão enigmática.
“Acho essa perspectiva interessante. Mas como você sabe que era ele, afinal? Você nunca o viu.”
“Isso é verdade! Mas eu reconheceria aquela voz anasalada e aquele sotaque em qualquer lugar. Era o mesmo jeito de falar, só que sóbrio!”
“Mas e se não for ele? E se você só confundiu as vozes porque o sujeito provavelmente tinha um sotaque britânico?”
“É ele! Eu tenho certeza que é ele! A única vez que tive tanta certeza na minha vida foi quando decidi que queria ser um herói!”
“Alfred, você sempre tem certeza de tudo na sua vida. Mesmo quando está errado.” Kiku suspirou, sorrindo ante as repentinas memórias de seus anos com o amigo na universidade e de suas teimosias sem tamanho. Alfred nunca mudaria. “No entanto, se você insiste tanto que esse é o sujeito, não posso argumentar, até creio que é possível que seja.” Falava, mais para si mesmo do que para o amigo. “Onde você o encontrou? Você não deveria estar supostamente em um encontro com a irmã do presidente?”
O sorriso que Alfred tinha se desfez.
“Hm. Eu estava! Sério! Fomos a um restaurante aí. Depois andamos pelo parque. Depois fui deixá-la em casa. Aí percebi que havia esquecido a carteira e voltei ao restaurante e foi quando ouvi a voz dele, reclamando com o gerente sobre alguma coisa. É ele, Kiku, tenho certeza!”
“E como ele aceitou marcar um encontro com você? Um desconhecido completo?”
Alfred deu de ombros. “Não sei. Eu sugeri o encontro e ele sugeriu o lugar. Claro que no começo ele insistiu em não ir porque disse que estava acompanhado e...”
“Ele estava acompanhado?” Kiku perguntou incrédulo.
“Ele tem namorada, lembra? Ele é gay, mas tem namorada. Não consegue terminar com ela porque tem medo de machucar e blábláblá.”
“Alfred-san, você acha bonito isso? Dar em cima de um homem comprometido?”
Alfred se sentiu como uma criança sendo repreendida pelos pais.
“Mas na hora eu nem pensei nisso! Quero dizer, cara, ele estava lá, do meu lado! Como eu ia lembrar que ele tinha namorada? Era uma questão de vida ou morte!”
Kiku analisou o amigo por alguns minutos e o ambiente pareceu desconfortável para Alfred, que finalmente começava a ponderar sobre suas atitudes.
“Você está realmente obsessivo por esse cara, não está?” Ele sorriu. “Alfred-san, você não tem jeito. Quando coloca uma ideia na cabeça, não tem quem o faça mudar de opinião. Mas, então, qual o nome dele?”
“O nome... Dele?”
“Se, como você disse, vocês marcaram um encontro, ele sendo comprometido e tudo mais, supostamente vocês perguntaram o nome um do outro, não?”
Alfred tinha um olhar vazio, temendo responder.
“Alfred-san, por favor, não me diga que você sequer perguntou o nome do sujeito.”
“Não, espera! Acho que era Kirkland!” Ele disse com alguma esperança na voz. “O sobrenome, quero dizer.”
Kiku levou a mão ao queixo, pensativo.
“Kirkland é, de fato, um sobrenome britânico. Mas isso não muda o fato de ele não saber seu nome.”
“Hoje à noite eu digo! Isso é o de menos!”
“Você já considerou que ele pode se arrepender e não ir?”
“Ele vai, Kiku. Eu tenho certeza que ele vai.”
Mas ele, na verdade, não tinha.
USUK
“Arthur, aonde você vai?” Perguntou com genuína preocupação na voz a moça ao vê-lo vestir o sobretudo preto.
A aparência dela, loira, de cabelos curtos e ondulados e olhos azul-celestes vivazes, muito lembrava um tipo de versão feminina de Alfred, mas Arthur ainda não parara para perceber. Vestia uma camisola rosa bebê por baixo de um robe de mesma cor e tinha uma manta sobre os ombros.
“Oh, Em, acordei você?” Arthur tentou disfarçar a surpresa na voz. “Desculpe-me, eu não queria.”
“Não, não, eu não estava conseguindo dormir.” Ela justificou e depois lançou o mesmo olhar preocupado de antes para o loiro, indagando-o em silêncio.
Ele sorriu carinhosamente e acariciou-lhe a bochecha.
“Só vou tomar um drink com o frog, nada demais.”
Emily deu uma risadinha. “Até quando você vai chamá-lo de sapo? Arthur, você faz isso desde que nos vimos pela primeira vez!”
“Ele nunca vai deixar de ser um.” Arthur deu de ombros, mentalmente se crucificando pela mentira que demorara o dia inteiro para forjar e finalmente havia posto em prática.
Emily lhe deu um beijo carinhoso nos lábios. “Então tome cuidado. E não volte muito tarde. Qualquer coisa durma por lá. Você sabe que acho muito perigoso dirigir de madrugada, ainda mais embriagado do jeito que você fica quando bebe.”
Arthur suspirou e respondeu em tom brincalhão.
“Sim, senhora.”
Emily lhe deu um tapa leve nas costas e ele riu baixinho, abrindo a porta da frente e caminhando sem pressa até o carro.
“Tome cuidado.” Ela repetiu, apoiada na janela do passageiro.
“Você também. Não vá dormir tarde, ok?”
Ela se despediu com um pequeno sorriso, afastando-se do carro e envolvendo-se ainda mais na manta esverdeada que tinha sobre os ombros. Uma brisa fria e o sorriso amarelo, visivelmente desconfortável que Arthur lhe dera causaram um aperto indecifrável em seu coração.
O Irish Pub que Arthur escolhera ficava distante de sua casa, e não era por coincidência. Ele não queria arriscar ser reconhecido pelas redondezas, portanto, quanto mais longe, mais seguro.
O suor em suas mãos geladas umedeceu o volante e Arthur não parou de pigarrear durante todo o trajeto de casa até o pub, com uma série de dúvidas na cabeça. E se aquele sujeito fosse um psycho? Ou um sujeito homofóbico, esperando a primeira vítima ingênua o suficiente para aceitar o convite? E se o sujeito não aparecesse e Arthur passasse a noite inteira sentado, sozinho naquele bar, bebendo e provavelmente terminando desacordado no meio da rua? E se, no final, não fosse tudo aquilo? Curiosamente, naqueles longos minutos de ponderação, nunca se passou pela cabeça de Arthur a possibilidade de ele estar, efetivamente, traindo Emily.
E, Por Deus, ele nem sabia o nome do garoto!
Era quase como se Arthur estivesse acumulando idiotices, colecionando-as uma atrás da outra. Primeiro a estúpida ligação. A estúpida revelação nacional que por muita sorte não ganhara os tablóides. Por sorte ele a enchera com pequenas mentiras, mas até onde? A sua declaração foi completamente verídica e ele sabia que ninguém duvidaria disso. Aí, depois, ele aceitou um encontro com alguém que ele nem sabia o nome. Gênio.
Arthur chegou alguns minutos mais cedo do que o combinado e sentou-se no bar, bem ao canto, pedindo um copo de uísque para começar. Alfred chegou vinte minutos mais tarde, quando Arthur já começava a entrar em pânico com a convicção de que ele não chegaria. Tomou o assento livre ao lado do menor, cumprimentando-o com um grande sorriso no rosto e ordenando para si uma bebida da casa.
“Eu nem perguntei o seu nome.” Foi a primeira coisa que disse logo que a bebida chegou às suas mãos.
“Arthur. Arthur Kirkland.” Respondeu, bebendo um gole do uísque. “E o seu?”
“Alfred F. Jones, O Herói, ao seu dispor!” Ele fez uma saudação militar com a mão que fez com que Arthur desse uma risadinha.
“Tão infantil.” Ele comentou em um tom desprovido de ofensas. Em seguida, abriu um sorriso meio de lado. “Então, Jones, fale um pouco sobre você.”
Alfred levou a mão à nuca.
“Vejamos, hmm. Em primeiro lugar, não me chame de ‘Jones’. Isso é coisa de velho, chamar pelo sobrenome.” Arthur deu uma gargalhada sonora, obviamente se divertindo com o tom do garoto.
E Alfred falou de si com toda a naturalidade do mundo e sem escrúpulos, sem medo ou sem desconfiança. Disse que tinha quase vinte e cinco anos – o que Arthur recordava bem de sua primeira discussão na noite anterior – e que trabalhava em uma empresa de propaganda, mas que ainda sonhava em ser um bombeiro um dia. Que, enquanto não tornasse o sonho de infância realidade, nos finais de semana, costumava ir a um asilo para animar os idosos e que eles o adoravam. Que vivia em casa com o irmão mais novo e que seus pais haviam falecido quando ainda era jovem. Que tinha medo de fantasmas e idolatrava McDonalds, Coca-Cola e café, o que arrancou uma careta de desgosto de seu acompanhante. Falou de Kiku, de Feliks e da vida inteira, em um lapso de tempo que manteve a atenção completa de Arthur. E, de repente, uma hora se passou como se fosse um minuto.
“Então... Voluntário em um asilo, hm? Quem diria...” Arthur comentou um pouco surpreso e com um tom de genuína admiração.
“É incrível! Você não sabe as histórias que eles te contam! Hey, qualquer dia eu posso te levar lá, o que acha?”
“E-Eu não acho que eu tenha muito jeito com idosos...”
“Ah, vamos, Artie! Vai ser legal, você vai ver! Sábado eles vão fazer um bazar, vender coisas com tricô e tudo mais, no centro comunitário. Podemos ir, o que acha?”
Arthur coçou a cabeça, nervoso. “Eu não sei, Alfred, eu...”
“Vamos, vamos, vamos? Por favor?” E novamente a cara suplicante para a qual Arthur se descobriu incapaz de dizer um não. Ele deu um longo e resignado suspiro.
“Tudo bem.”
“LEGAL!” Comemorou o mais jovem.
E ficaram envoltos por um silêncio agradável entre eles, cortado pela música e pelo burburinho das outras pessoas do bar.
“Sabe... A primeira impressão que tive de você foi a de um moleque barulhento, grosseiro e teimoso. Talvez, no fundo, eu tenha me enganado.” Arthur finalmente quebrou o silêncio, o seu jeito de falar parecendo mais uma forma de reconhecer para si mesmo que havia julgado Alfred errado. Mas antes que Alfred pudesse dar uma resposta, ou mesmo pensar em uma, ele continuou. “Então, o que levou um rapaz jovem como você a chamar um velhote como eu para sair?” Arthur deu um sorriso meio debochado, meio triste, com o álcool já fazendo efeito em seu organismo.
Alfred riu meio nervoso, depois corou de leve, virou o rosto e fez um bico.
“Ora. Você até que é um velho fofo.” Falou, como se lhe custasse a admitir.
Ele olhou de relance para Arthur, que estava parado contemplando-o como se ele fosse de outro mundo, com uma expressão que mesclava surpresa e, lá no fundo, gratidão, completamente enrubescido. Ele abriu e fechou a boca duas vezes, mas nenhuma palavra saiu. Alfred engoliu seco e pensou em uma forma de sair daquela situação desconfortável.
“Ah... Não, Err... Hm... Claro, exceto por essas sobrancelhas ridículas!”
Péssima ideia.
A expressão de Arthur se desfez, ele voltou seu olhar ultrajado para o seu quarto copo de uísque e virou uma generosa quantidade do líquido, sentindo uma tontura repentina por beber tão depressa. Limpou o resto de bebida em sua boca, e se virou para Alfred, assumindo uma postura desafiante.
“Olha aqui, seu...”
Sua voz saiu reconhecível até demais para Alfred. Ele sentiu uma pista, uma humilde pista, daquela mesma voz embriagada, meio fanha e desafiante que ele ouvira na rádio. E aí ele não tinha mais dúvidas. Abriu um sorriso enorme e, ignorando o tom ameaçador, se levantou em um pulo e puxou Arthur com ele. Desorientado tanto pelo álcool quanto pelo gesto brusco, o inglês se deixou levar, não sem protestos ultrajados. Ele viu Alfred pagar as bebidas e se despedir do barman com pressa, mas sem ser mal educado, enquanto o puxava para fora do bar só para sentirem a fria brisa da noite acariciar seus rostos.
“Mas que infernos, git?”
Alfred respirou fundo e virou para Arthur ainda sem desfazer aquele sorriso do rosto.
“O que você quer fazer?” Ele perguntou em um tom empolgado.
“C-Como assim? O-ora! Eu estava muito bem lá dentro do bar!” Reclamou, abotoando o casaco por causa do frio da noite. “O que deu em você, git?”
“Ficar no bar é chato. Não tem nada mais legal pra gente fazer?”
“Isso você me diz. Você que insistiu para que eu viesse.”
Arthur viu que Alfred o olhava como quem tivesse acabado de ter a ideia mais genial do mundo.
“O quê?”
“Eu conheço um lugar que definitivamente podemos ir!”
“Eu sinceramente tenho medo desse lugar, por essa sua cara.” Suspirou. “Mas já que estamos aqui, não vejo porque não.” Ele se sentiu um pouco tonto por causa do álcool, mas agradeceu por ainda estar com sua consciência em boas condições. “Então, eu te sigo?”
“O quê?”
“No carro, digo.”
Alfred colocou a mão na nuca e deu um sorriso amarelo.
“Na verdade, eu ia te pedir uma carona.”
Arthur estreitou os olhos, meio desconfiado.
“Você não tem carro?”
“Tenho! Claro que tenho! Mas...” Como explicar que ele propositalmente deixara o carro em casa somente para ter uma desculpa para ficar mais próximo do outro? Alfred pensou na primeira desculpa que lhe veio à mente. “Meu irmão ia precisar dele hoje. Então ele me deixou aqui. Sem carro.”
A perspicácia de Arthur lhe dizia que havia algo de errado com aquela história, mesmo ele não possuindo nenhuma prova concreta que o fizesse ter certeza disso. Sustentou a pose desconfiada por mais alguns minutos, até finalmente ceder, puxando a chave e andando na direção de onde havia estacionado o carro.
“Já que não tem jeito.” Ele disse, para a alegria do acompanhante.
O carro de Arthur, um Honda Civic prateado, estava estacionado a um bloco do pub onde estavam. Ele não viu necessidade em abrir a porta para Alfred, que se fez muito à vontade dentro do veículo, olhando de um canto para outro do carro como se fosse a novidade do ano. Em uma questão de minutos, eles haviam pego a via principal rumo ao norte, segundo orientações do próprio Alfred. Arthur sintonizara o rádio em uma estação qualquer e uma voz conhecida dele e de Alfred foi ouvida.
“Espero que todos vocês estejam tendo uma boa noite, ouvintes. Aqui fala sua sempre amiga e conselheira Daisy, pronta a aconselhar e esclarecer os problemas da sua vida amorosa, aguardando sua ligação aflita...”
Antes que o sorriso de Alfred pudesse aumentar, Arthur imediatamente trocou de estação, corando e maldizendo baixinho aquela mulher, sua reação não passando despercebida por Alfred. Não demorou até que enfim Arthur sintonizasse uma boa estação de rádio e um jazz agradável tomasse conta do carro. Alfred deu uma risadinha, chamando a sua atenção.
“O quê?”
“Você não gosta desse programa?” Seu tom era divertido.
“A-Acho uma perda de tempo.”
“Sério? Uma pena. Eu costumava achar também, mas mudei de idéia.” Comentou com um tom enigmático, sem olhar para Arthur.
“E posso saber o porquê?” O outro perguntou com leve irritação na voz, graças às memórias daquela estúpida e impensada ligação feita por ele próprio. “Só pessoas estúpidas telefonam para esses lugares.”
“É, você tem razão.” Alfred riu. “Mas até as pessoas estúpidas podem ser interessantes.”
Arthur não soube explicar o que, nem por que, mas ele sentiu com alguma certeza que havia uma mensagem oculta na frase de Alfred direcionada exatamente para ele. Pensou também que talvez fosse paranóia, por haver sido uma dentre as milhares de pessoas estúpidas sobre as quais falavam.
Ele não olhou para Alfred, apesar do silêncio que se seguiu. Por isso, não viu o olhar curioso e divertido que o outro lhe lançara, nem a forma desejosa com a qual sorria.
Seguiram uns dois quilômetros até Alfred sinalizar que parariam à direita naquela rua e Arthur pôde ler os letreiros neons chamativos de vários estabelecimentos que iluminavam o interior escuro do carro.
“Deixe o sobretudo no carro. Você não vai precisar dele.” Alfred disse, fazendo o mesmo com a sua jaqueta de frio.
“Onde... Exatamente nós estamos? O que são esses lugares com esses nomes esquisitos?” Malícia, ele leu em um letreiro. Rave, em outro. Piratas, em outro.
“Como é, velhote? Vai me dizer que nunca foi a uma boate?”
“Ora! Você é impertinente! Já disse que não sou velhote!” Ultrajou-se mais uma vez naquela noite. “Eu devia era deixar você voltar pra casa a pé.” Grunhiu.
“Artie, não seja maaal!” Alfred fez bico.
“Meu nome é Arthur, não Artie! E-E de qualquer forma, não acho que ir a uma boate seja uma boa idéia.” Arthur já estava além do que havia planejado. Para ele, seria chegar ao pub, conversar algumas horas sem falar muito de sua vida pessoal e depois dispensar o sujeito. Tudo simples assim. Na sua mente, pelo menos. Mas Alfred pareceu adivinhar seus pensamentos e se antecipar a quaisquer possíveis objeções.
“Ué, mas você já está aqui mesmo, o que mais tem a perder?”
A boca de Arthur abriu e fechou e ele engoliu seco, sem saber o que fazer. Uma parte dele, a parte sóbria, dizia que ele teria muito a perder se não parasse por ali mesmo. Mas outra parte, a qual ele estava tentado a ouvir, dizia que se ele havia chego ali já não havia mais motivos para desistir.
As mãos de Alfred se fecharam sobre seu pulso e Arthur se deixou guiar pelo mais novo para dentro da uma das boates. Lá dentro a música alta não permitia com que Arthur sequer ouvisse seus pensamentos e ele continuava a deixar Alfred levá-lo. Não era como se ele não frequentasse boates durante sua juventude, era que ele havia perdido o hábito depois de tanto tempo de compromisso. Mas sua experiência rapidamente lhe ajudara a definir o tipo de lugar em que estava – não que ela fosse necessária, de qualquer forma. Era uma boate gay – que ele duvidava que Alfred conhecesse muito bem, pois ele parecia explorar o lugar com o olhar. Arthur sentiu um pânico repentino, apesar – e talvez por causa de – de se sentir bem alocado.
Alfred deu uma risadinha nervosa. E falou, sua voz lutando contra o som alto. “Acredita que nunca tinha vindo aqui?”
“Acredito.” Murmurou sabendo que Alfred não escutaria.
“Quer um drink?” Ele ouviu Alfred perguntar.
Arthur assentiu – de modo um pouco efusivo – e tentou reordenar seus pensamentos. “Vodca. Pura, por favor.”
Alfred fez uma cara surpresa, mas nada disse. Dirigiu-se ao balcão e ordenou a dose de vodca de Arthur e uma dose de Hi-fi para si próprio. Sua manobra até então foi arriscada. Antes, ele não tinha certeza de até que ponto Arthur continuaria a concordar em ficar com ele, mas se o mais velho pedira vodca pura, então ele interpretaria isso como um sinal de que no conflito interior dele, a voz que insistia por seguir com aquela loucura havia vencido. Ele observou Arthur virar a dose com certa preocupação. Ele próprio começara a se sentir inseguro quanto a ir adiante. Ele sabia que Arthur, desde o momento em que topara aquela empreitada, topara, da mesma forma, trair sua suposta namorada e isso começou a incomodar seu peito. Ele viu Arthur pedir outra dose e viu o rosto do menor começar a adquirir um tom rosa bebê. Quando Arthur pensou em pedir o terceiro, Alfred o puxou pelos pulsos.
“Acho que é hora de dançarmos.”
Então sua voz saiu idêntica à daquela vez na rádio.
“Eu não vou dançar, hic, git!”
“Vai sim, você não veio a uma boate para ficar enchendo a cara. Acho que essas duas vodcas fizeram mais efeito que os cinco copos de uísque do pub. Vamos expulsar esse álcool do seu corpo.”
Arthur fez um bico e encarou as íris azul-celestes de Alfred com um olhar enigmático e deu um sorriso enviesado.
“Então tá.” Ele se inclinou e deu um selinho nos lábios de Alfred, ambos os corações acelerando progressivamente. “Vamos dançar.”
Foi Arthur quem puxou Alfred para a pista de dança, sempre com aquele sorriso travesso no rosto. Eles começaram a dançar em ritmos distintos: Arthur completamente transformado, com passos moderados e diminuindo gradativamente a distância entre ele e Alfred. Alfred, por sua vez, estava atônito, mal conseguindo se mexer de surpresa. Ele viu com uma mistura de espanto e horror o olhar de Arthur mudar de um olhar desconfiado e inseguro para um completamente selvagem e lascivo, cuja finalidade não era outra senão seduzir. E aquele selinho parecera o primeiro gesto de provocação que anunciava o início dos jogos.
E se Arthur queria jogar então, bem, Alfred jogaria o mesmo jogo.
Alfred o segurou pelos quadris, parando toda aquela dança sedutora que Arthur fazia e ele o encarou surpreso, repentinamente se perguntando se havia feito algo errado. As íris de Alfred cintilavam com diversão e a mesma lascívia de Arthur quando seus corpos se uniram para uma dança que mais parecia um jogo de sedução. Seus corpos começaram a se mover no mesmo ritmo da música e, simultaneamente, forjavam a própria dança. A blusa branca de Alfred começava a parecer transparente e a blusa meio social de Arthur, cuja manga ele havia dobrado por causa do calor no interior da boate, começava a grudar em seu corpo por causa do suor. Sem parar de dançar, Alfred desabotoou os dois primeiros botões da camisa e encostou ambas as testas suadas.
O verde-esmeralda só via o azul-celeste e o azul-celeste só enxergava o verde-esmeralda, em uma mútua contemplação de admiração e desejo.
Eles podiam, apesar da música, sentir as batidas do coração um do outro.
Arthur engoliu um pouco de saliva e se inclinou para cima, finalmente selando a distância entre seus lábios. Automaticamente, um dos braços de Alfred envolveu suas costas enquanto a outra mão segurava sua cabeça. Os braços de Arthur se fecharam no pescoço do mais alto, aprofundando o beijo. Suas bocas dançavam uma contra a outra, lutando pela dominância. As mãos de Alfred migraram de onde estavam para os quadris de Arthur enquanto as de Arthur pararam nas bochechas de Alfred quando eles finalmente decidiram que faltava língua naquela dança. Suas línguas se entrelaçavam e desentrelaçavam, se tocavam, se exploravam, saboreando os diferentes níveis de álcool daquelas bocas. Seus quadris se tocaram e mandaram pequenos e constantes choques de prazer por seus corpos, depois se tocaram de novo e de novo.
Eles perderam a noção do tempo. Paravam o beijo por segundos apenas para respirar, depois voltavam a ele, sem perder tempo. Sua dança era um disfarce mal feito para a vontade de se atirarem em uma cama e fazerem sexo até o amanhecer.
“Oh, Deus, Alfred.” Arthur meio ofegou, meio gemeu. “Pelo amor de Deus, vamos sair daqui. Preciso de você em mim, agora.”
Alfred assentiu, ainda com os olhos fechados e com os lábios entreabertos, sentindo exatamente a mesma necessidade que o parceiro. Deu-lhe um último selinho e o guiou até a saída.
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