Delilah
17 Extra 4: uma lição de amor incondicional
Notas iniciais
Agradeço a todas as pessoas que acompanharam as aventuras de nosso querido adúltero e seu amante tão hipócrita quanto. Por essa história, eu pretendi demonstrar que aqueles que são moralmente taxados como cruéis, egoístas, insensíveis ou vilões, cujas atitudes repercutem negativamente na vida de outras pessoas, podem ser os protagonistas mais amados. É uma questão de ponto de vista e de saber se colocar no lugar das outras pessoas, ou mesmo simpatizar com a sua causa. Antes de tudo, também, eu tentei, e não sei se consegui, repassar a mensagem de que todos os reveses da vida são temporários e as coisas sempre podem ficar melhores, basta dar um tempo ao tempo (tal como meus leitores, que aguardaram dois anos por este desfecho). E, o mais importante de tudo é: existe super bonder para todo coração partido e sempre existe um canto no seu coração para o perdão. Love is all you need.
As always, qualquer erro é culpa da minha beta, que tem muitos feelings para se preocupar com norma culta heh. As always: é brincadeira.
Sem mais blablablas.
Boa leitura.
Alfred pigarreou duas vezes em menos de um minuto, visivelmente ansioso. Suas pernas se movimentavam de maneira inquieta e suas mãos estavam úmidas com um suor frio de nervosismo. Não deveria se sentir daquela maneira, porque era uma forma estúpida e infantil demais para um homem de vinte e muitos anos se comportar. Mas não conseguia evitar, tampouco ordenar que seu psicológico se aquietasse. E tudo porque o juiz responsável pelo divórcio de Arthur e Emily finalmente decidiu como deveria se dar a guarda de Peter enquanto a sentença não fosse definitiva.
Ficou decidido que o garoto ficaria sob a guarda da mãe, mas visitaria o pai aos finais de semana, feriados e algumas semanas durante as férias, tendo Arthur a perfeita liberdade para telefonar para o filho e conversar com ele.
E eis que se chega à razão de toda a inquietude do americano: alguns meses depois de todos os acontecimentos, ele finalmente voltaria a ver Peter.
Não era de seu feitio ser uma pessoa insegura, mas seu subconsciente temia pela reação do garotinho quando o visse. Porque não tinha ideia do que ele poderia estar pensando de toda aquela situação ou mesmo do que sua mãe poderia ter colocado em sua cabeça. Sabia muito bem que o divórcio dos pais poderia ter efeitos adversos na cabecinha do garoto e, por isso, não sabia o que pensar.
Consultou o relógio, ansioso. Arthur estava demorando para trazer o filho. Saiu para buscá-lo havia mais de uma hora. Na medida em que o tempo escoava nos ponteiros do relógio, os pensamentos nefastos preenchiam a cabeça de Alfred. Daí que Peter o conhecia, o conhecia desde aquela vez em que se encontraram no shopping e desenvolveram um relacionamento saudável enquanto o garoto frequentava o asilo.
Alfred escorregou do sofá para o chão, contorcendo-se no carpete, em uma agonia salpicada com um pouco de exagero. Checou o celular para conferir se Arthur havia respondido sua mensagem, sem muito sucesso e se dedicou a contemplar o teto com o olhar vazio, até que finalmente sua atenção fosse desviada para passos vindos do lado de fora da casa e vozes abafadas que ele conhecia muito bem.
A porta se abriu antes mesmo que o americano pensasse que talvez fosse mais adequado receber Peter de pé. De fato, era bastante estranho ver Arthur daquele ângulo, ainda mais quando sua expressão era de descrença.
"Alfred? Por que você está estatelado no chão?"
O aludido, apercebendo-se disto, se aprumou e se levantou, limpando os remanescentes do carpete com a mão, um tanto consternado.
"Isso não importa!" Deu uma risadinha nervosa e seu olhar viajou até a figura parada atrás de Arthur, que o olhava com bastante interesse. Alfred olhou de Peter para Arthur e novamente para o garoto.
"Não vai falar com Alfred, Peter?" Questionou o inglês, incentivando o filho a socializar.
Com uma postura visivelmente cautelosa, o garoto deixou a segurança das pernas do pai e caminhou até Alfred. Sua expressão era indecifrável e o americano se preparou para receber o mais frio dos cumprimentos.
Mas foi surpreendido com uma postura adversa daquela que havia premeditado.
A princípio, Peter pareceu sem jeito diante da figura de Alfred. O garotinho fez um bico e desviou o olhar. Suas mãos seguravam os shorts com a firmeza que precisava para cumprimentar seu amigo de longa data.
"Olá, Alfred. Faz muito tempo que não te vejo". Disse mecanicamente, como se tivesse praticado a frase antes de soltá-la. "Senti a sua falta". Acrescentou quase em um sussurro.
O loiro corou de leve, sentindo um peso pular para fora de seu peito. Sua reação foi instantânea: abriu um sorriso genuinamente empolgado e os braços, para receber Peter calorosamente.
"Moleque, eu senti a sua falta também!" Respondeu com uma empolgação digna de uma criança de dez anos.
Parado à porta, Arthur se lembrou de soltar a respiração. Não comentou com Alfred, mas ele também estava ansioso para ver como o filho reagiria à figura de seu namorado (mesmo que Peter não desconfiasse da relação entre Alfred e seu pai). Lembraria de agradecer a Emily por isso.
"Então o que vamos fazer agora?" Perguntou Arthur.
"Jogar videogames!" Responderam Alfred e Peter em uníssono.
Arthur hesitou quanto à opção dos dois, mas não teve escolha senão participar. Caso contrário, provavelmente seria esquecido no sofá ou coisa do gênero. Desnecessário dizer que perdeu colossalmente todas as partidas de todos os jogos que seu namorado ou filho escolheram. Inclusive aquelas em que supostamente deveria jogar sozinho.
Depois de seis horas de derrota seguida, jogou o controle no chão, xingando veementemente o quinto jogo daquela tarde.
"Jogo idiota! Zumbis idiotas! Zumbis nem correm, pra começo de conversa! Que raios de jogo é esse?"
Depois de muita reclamação de Arthur e um discurso enjoativo e moralista sobre como a família é mais importante que os eletrônicos e como Alfred e Peter não estavam colaborando para uma socialização saudável, porque despenderam a tarde inteira na frente da TV, sem ao menos se engajarem em uma conversa produtiva, os dois finalmente desistiram de seu tempo com o console.
"Então, o que você sugere que façamos?" Inquiriu o americano, após um enorme e contagioso bocejo.
Arthur abriu um sorriso, como se esperasse aquela pergunta. Tirou do bolso um pedaço de papel que identificou como a lista de atividades saudáveis a serem feitas em família, na qual a primeira sugestão era a possibilidade de se reunirem na sala para lerem um livro.
"Chatooo". Alfred respondeu, recebendo o apoio de Peter, para a irritação de seu namorado.
Uma boa parte do tempo eles gastaram debatendo o que poderiam fazer e decidiram, por fim, ir ao cinema assistir um filme infantil que envolvia robôs gigantes e animação japonesa. Alfred se divertiu em família como há muito tempo não fazia. A dupla Alfred e Peter não perdia a oportunidade de irritar Arthur que, sempre muito maternal, respondia com um sermão cada escapulida dos dois. Após o filme, que empolgou bastante o americano e o filho do inglês, mas não surpreendeu muito o próprio Arthur, eles passearam, brincaram, jantaram e tomaram sorvete, como qualquer família normal faria. Em vários momentos, Alfred se perguntou o que Peter pensava daquela situação. Talvez fosse exigir muito pedir para que o garoto, que ainda vivenciava um contexto de divórcio de seus pais, e criado em um ambiente heterossexual, pudesse compreender que os três não eram seu pai, o amigo de seu pai e ele; mas sim: seu pai, seu pai afetivo e ele.
O fato era que estar sozinho com Arthur era ótimo e tudo o que Alfred queria desde que conhecera o inglês. Mas ter um membro a mais, que pudesse trazer alegria e movimentação para a sua rotina era algo que ele se viu desejando para si. Talvez, somente talvez, um dia Peter pudesse concordar em também fazer parte de sua família, aceitando Alfred como parte da dele.
Quando chegaram em casa, debaixo de uma chuva forte e inusitada, foi Arthur quem foi fazer o filho dormir, após Alfred dar banho no garoto. O americano terminou de organizar a sala bagunçada antes mesmo que a história que Arthur contava a Peter pudesse surtir seu efeito sonífero necessário. Então, aproveitou para tomar uma agradável ducha, enquanto o namorado se ocupava do filho.
Quando Arthur finalmente logrou êxito na tarefa hercúlea que era trazer o sono a uma criança de quase 10 anos de idade, Alfred já estava tranquilamente deitado na cama de casal de ambos, lendo um livro.
"Está tudo bem mesmo o Peter dormir no quarto do Matthew?"
Alfred repousou o livro sobre a mesa de cabeceira.
"Mas é claro. Ele não volta para casa hoje mesmo".
"Faz um tempo que ele não aparece aqui". Ponderou o inglês. "Talvez ele esteja com Francis?"
"Muito provavelmente". Se eu fosse você eu não me preocuparia com ele. Sorriu o americano. "Aqui". Acrescentou, batendo no colchão que tinha um espaço vazio ao seu lado. "Faz tempo que não... Temos nosso momento a sós".
"Tivemos ontem!"
"Ou seja? Faz tempo".
Arthur fez um bico, a princípio, mas em seguida cedeu e sorriu. Caminhou até a cama e se juntou a Alfred, subindo em cima do namorado sem rodeios. Deu-lhe um beijo cálido e foi prontamente retribuído, com as possessivas mãos do americano já se apoderando de sua nuca e cintura. Arthur não pode evitar sorrir contra a boca de seu namorado, adorava quando ele era assim cuidadoso e, ao mesmo tempo, sadiamente possessivo. Suas próprias mãos percorreram os lados do corpo do outro, sentindo o tecido do pijama atrapalhar consideravelmente qualquer que fosse sua intenção. Lá fora, a chuva torrencial que havia se iniciado ainda antes de chegarem em casa, já havia se transformado em uma forte tempestade, com direito a rajadas de vento, relâmpagos incessantes e trovoadas estrondosas.
O clima, contudo, não os incomodava de modo algum. Contrariamente, era um fator de garantia de segurança de que poderiam aproveitar aquela noite sem temer que Peter pudesse escutar algo de suas atividades. Antecipando-se a isso, a vivaz imaginação de Alfred se preencheu com cenas de Arthur gemendo e ofegando debaixo dele. Suas mãos também se envolveram em atividades pelo corpo de Arthur, preferindo apalpar suas nádegas, em vez de contentar-se apenas com as costas.
Estavam tão concentrados um no outro que não perceberam, de imediato, a maçaneta girar e uma figura assustada, agarrada ao seu cobertor, entrar no quarto. E quando o fizeram, Alfred tomou um susto tão grande que empurrou Arthur de cima de si, indo o inglês ao encontro do chão.
"Ack! Mas que infernos?!" Arthur perguntou, soando mais como uma exclamação de ultraje, enquanto massageava a cabeça. Preparava-se para dar a maior bronca do mundo em Alfred, quando percebeu a figura de Peter parada à porta.
"Filho? O que aconteceu?"
Peter indicou a tormenta do lado de fora da janela com a mão. Ele parecia visivelmente amedrontado, agarrado ao cobertor como se aquilo pudesse lhe trazer um pouco mais de segurança. Por outro lado, também parecia um pouco sem jeito por ter interrompido algo que parecia ser importante. Encolheu-se todinho quando um trovão rasgou o som ambiente.
"Estou com medo". Choramingou.
Arthur e Alfred trocaram olhares significativos. O primeiro se levantou do chão, indo ao encontro do garotinho. Ajoelhou-se bem à sua frente e pôs as mãos em seus ombros, para lhe dar mais segurança.
"Querido, você não acha que está crescido para ter medo de trovões?" Perguntou em um tom maternal. Peter o encarou com os olhos arregalados e cheios de medo e negou com a cabeça.
"Por que você não dorme conosco então?" Sugeriu Alfred, quase gritando da cama.
Ante a sugestão, o rostinho do garoto se iluminou de esperança. Arthur já estava pensando em rebater a ideia de Alfred, dizendo que não era assim que se educava uma criança, quando Peter correu em direção à cama e lá pulou, juntando-se a Alfred sob as cobertas. Foi quando Arthur se deu por vencido e também se juntou aos dois.
"É só hoje e é bom você não se acostumar, ou sua mãe vai reclamar que eu estou mimando você".
Peter deu uma risadinha, encolhido entre Arthur e Alfred.
"O engraçado é que eu tenho duas mães e um pai agora". Comentou, recebendo olhares curiosos da parte dos dois adultos. "A mamãe, você e Alfred." Explicou.
"Uh... Quem é o pai?" Perguntou Alfred.
"Você!"
Alfred gargalhou e Arthur corou até as orelhas.
"EI! Por que eu sou a mãe? Eu sou o teu pai, moleque!"
Peter deu um sorriso travesso. "A mamãe disse que você está mais para mãe do que para pai e que, logo, Alfred seria o pai e você a mãe".
Enquanto Alfred ainda ria do que Peter dissera, constrangido e revoltado, Arthur jurou por tudo que era mais sagrado que Emily pagaria por aquilo.
No fundo, sentiu uma felicidade inexplicável pela atitude de Emily e se lembraria de agradecê-la pelo gesto, qualquer dia desses.
Notas finais
http :// www.youtube.com/ watch?v=d36J4gLgY0M
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Aparentemente, o Nyah andou comendo umas aspas. Espero que já tenha corrigido o problema. Qualquer aspa fora de lugar, me avisem.
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Beijos e até a próxima fic!
Kuroyama Izumi
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