Delilah

8 Abismo adentro


Notas iniciais
Vou pular a parte de limpar a poeira, ajoelhar no chão, pedir desculpas e inventar argumentos esfarrapados pro atraso. Espero que alguém ainda leia isso aqui. O plot vai ficar mais profundo agora e novos núcleos, menores e menos importantes, mas igualmente instigantes vão tomar lugar. E pensar que essa fic não ia passar de 3 capítulos. Em todo o caso, meus planos são para mais 5 ou 6, não gosto de me estender muito e já estou fazendo isso. A partir de agora, os personagens vão ficar mais ambiguos... Kind of XD
Muito obrigada pelas reviews e pelo incentivo, pessoal.
Boa leitura!

As mãos de Arthur agarraram o batente da cama e em seu rosto, gotículas de suor abriam caminho por sua testa e bochechas. Os olhos entreabertos contemplavam uma visão plena dos lábios contorcidos e cenho franzido de Alfred, os olhos de cor azul-celeste o enfeitiçando de corpo e alma. O inglês inclinou a cabeça para trás e abriu mais as pernas para receber o intruso que lentamente o invadia. As mãos de Alfred seguravam seus quadris de forma tão firme que suas unhas lhe marcavam a pele alva já maculada por marcas avermelhadas e arroxeadas ao longo do pescoço, peito, tórax e mesmo nas coxas.

“Nghn...” Arthur inclinou o quadril. “Você está... Hn. Muito devagar.”

“Isso é porque da última vez você reclamou que eu fui bruto demais!” Alfred acusou, fazendo bico.

“Pelo amor de Deus, Alfred” Arthur revirou os olhos. “Eu estou insinuando que você pode ser mais rápido nisso. Sem necessariamente ter a delicadeza de um búfalo.”

Alfred abriu a boca para contra argumentar, mas Arthur a cobriu com a mão.

“Que tal deixarmos a discussão para depois? Estamos no meio de...” Ele sinalizou a si próprio com a cabeça. “Você sabe.”

O companheiro sorriu enviesado e terminou de penetrar o amante, mais rápido e como lhe havia sido solicitado, sem o uso de sua força inata. Ele escondeu o rosto no pescoço de Arthur e suspirou.

“Peço desculpas pela interrupção.” Mais de uma vez, ele mordiscou levemente o pescoço do outro, arrancando-lhe leves gemidos e causando-lhe confortáveis arrepios por todo o corpo. “Mas com você me tentando assim, eu só posso ser muito gentil ou muito brusco.” Alfred deu uma estocada leve, seguida de uma forte. Arthur se contorceu e suas mãos suadas encontravam dificuldades para se agarrar ao batente da cama. “O que você me diz?”

“Por que você me provoca assim, git?” Arthur encarou Alfred com os olhos semicerrados. Sempre quando estavam juntos na cama, ele não conseguia esconder do mais jovem a sinceridade de seus sentimentos, mesmo que fosse pelo tom de sua voz.

Alfred sorriu e pegou uma das mãos de Arthur, levando-a até seu peito. Eles ficaram assim por algum tempo, apenas trocando olhares, enquanto o inglês sentia a intensidade das batidas cardíacas do americano, que formava uma estranha sinfonia com as suas próprias naquele silêncio estranho.

“Por que você me provocou primeiro.”

E como se sua sentença fosse um prenúncio do que estava por vir, Alfred iniciou o movimento de entra e sai no corpo de Arthur, forçando-o a agarrar-se aos emaranhados lençóis da cama. À medida que ganhava intensidade e ângulo, os gemidos e suspiros de Arthur aumentavam em intensidade e volume.

“Nghh... Aaahhh... Alfred... Isso...”.

Por mais que buscasse a coerência, Arthur não conseguia encontrá-la. Era assim toda vez que encontrava Alfred, desde que tacitamente decidiram que precisavam um do outro. Começou com um momento desconfortável e esquisito no pós-sexo há dois meses na casa de Francis, quando sentiram que o caminho já não teria volta, embora houvessem se privado de deixar essas sensações mais esclarecidas. Foi quando Arthur engoliu o orgulho e toda a sua consciência moral e telefonou para Alfred, quase implorando para que se encontrassem. E como um cachorrinho obediente à espera de seu prêmio, o americano fez o que o inglês quis. E tudo se repetiu na semana seguinte, e na outra e na subsequente. Eles mal perceberam os laços da dependência se atando, cada vez mais fortes e difíceis de desatar. E nem naquele momento íntimo que se repetia havia quase seis semanas eles estavam cientes disso.

“Mais forte.” Ele demandou, cravando as unhas curtas nos braços consideravelmente definidos do amante.

Alfred conteve o riso, pensando nas reclamações posteriores do inglês sobre sua ‘delicadeza’ e consideração com sua retaguarda, dentre outros blablablas que sua audição seletiva ignorava por uma questão de autopreservação. Mas no calor do momento, o americano pouco se importava com as consequências dolorosas para o outro. Se havia uma demanda de Arthur, ele precisava supri-la para deixá-lo satisfeito, não é assim?

Aumentou o ritmo do movimento, em obediência a Arthur. Agora eram as suas mãos que encontravam apoio na cama ao passo que as mãos de Arthur, por sua vez, não se decidiam entre afundar as unhas na pele do outro ou envolvê-lo completamente com os braços.

O som constante e pouco sincronizado da colisão das peles tomou conta do ambiente, conjuntamente com pequenos gemidos, grunhidos e palavras soltas. As pernas de Arthur envolveram o corpo de Alfred, trazendo-o para ainda mais perto e fazendo com que seus corpos suados se roçassem em um contato que, para o momento, era tudo de viciante.

O membro palpitante de Arthur, demandante de atenção, roçava entre ambos os ventres. E quando Alfred, já com certa experiência e conhecimento a respeito do corpo do outro, encontrou seu ponto mais sensível, Arthur sentiu que iria ao delírio.

“I-isso é t-tudo o que você consegue fazer?” Provocou. Ele sentia que quanto mais tinha, de mais precisava.

O olhar de Alfred indicou que ele aceitava o desafio. Com a expressão séria ele saiu de Arthur e antes que o inglês pudesse protestar, levantou-se e chamou o outro para a beira da cama. Arthur engatinhou até o local indicado e se assustou de leve quando Alfred puxou uma de suas pernas e a colocou sobre seu ombro.

“O-o que você vai fazer?”

“Colocar um pouco mais de emoção nisso tudo.” Ele sorriu de forma travessa.

Tornando a penetrar o inglês, Alfred não conteve a necessidade de fazê-lo gemer e implorar por mais. Esperou as estocadas ganharem ritmo até ter condições de novamente aumentar a velocidade do movimento, o que fez com que Arthur arfasse, sobressaltando-se. Novamente o som das peles se batendo tomou conta do ambiente, mas dessa vez com um ritmo intenso e frenético.

“A-A-A-fred o-o-o-o-que... A-a-aaahhh... V-v-ocê q-quer.... Nghhnn... f-f-faz-er c-c-om-igo-o... Mmm?”

Alfred deu uma risadinha, ocupado demais para explicar suas intenções para Arthur. Ele preferia demonstrá-las com atitudes, o que já estava fazendo.

O calor no aposento se intensificou e Arthur mal conseguia se apoiar na cama. A estranha posição em que estava também não ajudava muito nessa hora, mas permitia a Alfred amplo acesso à intimidade do companheiro.

“A-Ahh... Nghhn...”

À medida que o movimento tinha continuidade, sem perder velocidade, Arthur sentia que atingia o seu limite. Seu corpo acompanhava o movimento das estocadas de Alfred e os únicos sons que seu ouvido capitava era o da pele contra pele.

“A-Al... E-E-Eu n-não v-vou.... Ahhh..... D-durar m-muit-o m-mais... Nghnddn.”

Ao ouvir isso, Alfred intensificou ainda mais as estocadas até o máximo que seu corpo lhe permitia. Arthur estava à beira de rasgar os lençóis brancos, com os olhos fortemente cerrados e os cabelos tão úmidos que grudavam em sua testa e bochechas. Tudo isso era, na opinião de seu companheiro americano, uma visão altamente provocante que testava sua capacidade de resistência.

Como um golpe de misericórdia, Alfred puxou Arthur para um abraço apertado e se enterrou em seu corpo, atingindo seu ponto erógeno de maneira brusca e certeira, o que causou em Arthur um orgasmo tão forte que sua visão ficou imediatamente repleta de flashs brancos e a sensação que tinha era de que tudo de imaterial que lhe constituía – sua alma, suas energias, sua vontade – passara para um plano ideal de onde jamais deveria sair. Quase ao mesmo tempo, Alfred preencheu-o com o seu próprio sêmen e desabou, trazendo Arthur para um aconchego cansado na cama arruinada.

Estavam ambos literalmente encharcados de suor e ofegantes, sem forças para sequer falar. Alfred sorriu meio fraco e deu um beijo molhado e levemente salgado na testa do amante, que mantinha os olhos fechados, buscando se recuperar da intensa atividade de minutos atrás. Podia sentir o olhar de Alfred sobre si e sentia que ele se perguntava se Arthur estava feliz. Estava, queria responder, mas a fadiga não permitia. Estava feliz a despeito de ser um hipócrita, estava feliz, mesmo que o custo dessa felicidade fosse a tristeza ainda não revelada de outras pessoas. Estava feliz porque estava sendo egoísta e somente os egoístas sabem ser felizes.

Mas não queria pensar muito nisso. Havia decidido, inconscientemente, que faria o errado porque o errado lhe tentava e ele não conseguiu resistir. E sonhou com Emily, com ela lhe dizendo essas palavras com um olhar reprovador naqueles celestes olhos que tanto lhe cativavam durante todo o relacionamento. E Arthur chorava, implorava para não ouvir palavras tão duras sob o olhar impassível da mulher. E, de repente, em um piscar de olhos, Emily tomou a forma de Alfred e lhe abraçou tão forte que o ar quase lhe faltou.

Quando acordou, levemente sobressaltado e se questionando quando, exatamente, havia caído no sono, Arthur se viu sozinho no aposento bagunçado. Conscientizou-se de sua própria condição e sentiu nojo de si próprio. Detestava dormir sujo e uma de suas manias mais fortes era tomar banho depois de todo e qualquer ato sexual. Obviamente, como dessa vez Alfred havia exagerado na dose, não conseguiu sequer lembrar que tinha uma mania. A primeira coisa que fez foi pular fora daquela cama imunda e nojenta.

“Você está acordado?” A voz abafada de Alfred veio da direção do banheiro. “O round realmente te esgotou, né?” Ele riu sozinho.

“Hm. Git.” Arthur tossiu, envergonhado. “Fique sabendo que eu também não dormi bem nos últimos dias.”.

“Sei.” Desdenhou. “Imagino que o que você mais queira no mundo agora é um banho, ou estou errado?”

“Ora, vejo que a criança fez a lição de casa.” Zombou. “Merece uma estrelinha, Alfred.”

“Você fica tão mais agradável durante o sexo.” O aludido fez um bico, saindo do banheiro com uma toalha em volta do pescoço.

Arthur rolou os olhos e caminhou até o banheiro, corando de leve ao perceber que Alfred o saboreava com os olhos.

“Você não ficou satisfeito com o round anterior, seu monstro?”

“Difícil me considerar satisfeito com você andando assim pelo quarto.” Ele lambeu os lábios.

Mortificado e de alguma forma lisonjeado pelo comentário, Arthur se trancou no banheiro com um pequeno sorriso desenhado em seu rosto. Não sabia o que tinha feito para merecer alguém tão idiota e adorável como Alfred. Não sabia se podia chamar isso de destino ou de sorte.

Demorou longos minutos no banho, pensando em tudo e em nada. Era sempre assim quando terminavam, mas há muito tempo o remorso lhe abandonara. Algumas vezes, ficava olhando para seu eu nu no espelho, esperando que o reflexo lhe solucionasse todos os problemas pendentes, que lhe desse alguma lição de moral ou passasse a mão na sua cabeça. Mas Arthur estava sozinho nessa. Alfred sabia superficialmente que o inglês tinha outra relação, embora não tivesse noção da dimensão da mesma. Mas eles nunca conversavam a esse respeito, talvez porque Alfred temesse afugentar o mais velho com o tema. E Francis? Arthur parara de lhe informar sobre o seu caso extraconjugal, porque não suportava a retaliação. Não que o amigo tivesse alguma vez condenado o inglês pelo que fazia, mas, lá no fundo de seus olhos, Arthur podia ver a decepção de Francis, que presumia ser em razão de muitas coisas relacionadas aos seus sentimentos do passado e a Emily. Embora no começo ele parecesse se divertir com toda a situação, os anos de amizade entre ambos ensinou Arthur a ler os verdadeiros sentimentos de Francis melhor do que ninguém.

Quando saiu do banheiro, viu que Alfred já estava plenamente vestido para o trabalho.

“Que horas são?” Perguntou enquanto enxugava os cabelos.

“Quase oito horas da manhã.”

Arthur massageou as têmporas e sentiu o cansaço pesar.

“Não dormimos nada, maldição.” Suspirou pesadamente. “E hoje o dia vai ser cheio.”

“Você até que conseguiu tirar um cochilo. É só tomar um café que o sono vai embora.”

Arthur fez uma careta.

“Tudo, menos café. Na realidade, acho que pararei para tomar um chá depois daqui.” Ponderou, mais para si mesmo do que para Alfred. Deu uma olhada rápida para o mais jovem, que lhe sorria idiotamente.

“Hn. Git, suas olheiras estão horríveis.” Ele passou os dedos pelas marcas escuras sob os olhos do americano, sentindo-as quase como estivesse se envolvido em um pequeno transe. Seus olhos esmeralda se perdiam nos azuis-celestes de Alfred, que tinham um brilho de curiosidade e jovialidade que o atraía como se sobre sua consciência exercesse uma inexplicável força gravitacional.

“Huh... Artie? Está tudo bem?”

Arthur se inclinou um pouco e roçou seus lábios nos do mais alto, em um toque terno sem qualquer malícia ou segunda intenção. Depois, segurou Alfred pelo queixo e pareceu estudá-lo, ante seu olhar desconfiado.

“Ok. Estranho”.

Arthur deu uma risadinha.

“Eu só estava pensando em uma coisa.”

“Boa ou ruim?”

“Depende do referencial.”

Alfred hesitou.

“Tem a ver com a sua namorada?”

A surpresa nos olhos de Arthur o denunciou e ensejou em Alfred a urgência de se retratar, como uma medida de preservação do status quo ante.

“Desculpe! Esqueça o que eu falei. Eu não deveria ter mencionado o assunto.” Gesticulou bastante nervoso e sem encarar o inglês.

“Não, tudo bem.” Respondeu o outro levemente abatido. “Às vezes eu esqueço que você sabe sobre ela. Você disfarça tão bem com medo de me afastar que chega a ser engraçado.”

Encabulado por suas intenções serem assim tão evidentes, Alfred respondeu cruzando os braços e inflando as bochechas. Arthur deu uma risadinha ante a reação.

“Você tinha me dito que teria que estar no trabalho cedo hoje, não é? Já não está atrasado?”

Alfred maldisse baixinho, pegou sua pasta e guardou o celular. Abriu a porta do quarto, deparando-se com o corredor vazio do hotel e chamou o elevador.

“Já paguei a diária. Você pode ficar aqui até meio-dia se quiser.” Ele comentou, enquanto esperava.

“Obrigado, mas também devo sair daqui a pouco para o trabalho.” Arthur sorriu ternamente, fazendo com que o outro corasse. “E da próxima vez, eu pago.”

Aquele singelo comentário fizera o coração do americano acelerar. Sim, porque indicava que haveria uma próxima vez, que ele ainda não havia sido descartado. Não era saudável pensar assim, tampouco do feitio de Alfred o fazer. Mas era o que Arthur fazia com ele, mesmo sem saber.

Ficaram em silêncio até o sinal do elevador indicar que o mesmo já se encontrava parado naquele andar. Alfred se despediu com um rápido selinho, dando-se à liberdade porque não havia mais ninguém ali e deu um passo para dentro do elevador.

Antes que a porta pudesse se fechar completamente, Arthur deixou escapar, com um olhar visivelmente melancólico.

“Vocês tem os mesmos olhos.”

Alfred não se lembrava de Emily. Nem sequer tinha certeza de seu nome, porque ouvira Francis comentar com Matthew ou vice-versa alguma vez na semana passada. Ele a vira somente uma vez, de costas ainda por cima, e a única coisa que sabia era que a moça era loira, do mesmo tom loiro que o seu. Nunca pensara, para dizer a verdade, sobre como ela podia ser fisicamente. Claro, muitas vezes se pegara imaginando como seria a relação de Arthur com ela, se ele era teimoso e respondão ou se era um doce de pessoa, cavalheiro e todo esse jazz. Várias vezes Alfred sentira inveja de alguém que sequer se dava ao trabalho de imaginar o rosto. Era tão idiota, uma ideia incutida na cabeça de alguém paranoico pela imoralidade de seu comportamento.

E talvez por isso, por ele perceber que jamais se interessara em saber como o outro lado era, o comentário de Arthur tenha lhe surtido o efeito que surtiu. Porque Alfred pensou nele durante todo o percurso de quinze minutos até o trabalho, ao estacionar, no elevador e mesmo durante algumas esporádicas horas de devaneios durante a reunião daquela manhã. Ele passou a sentir curiosidade de saber como era a aparência de Emily, sem perceber que havia avançado mais um estágio no perigoso jogo que se envolvera.

“Você está, tipo, muito distraído hoje, Alfred.” Feliks roubou um biscoito do pote de cima da mesa do aludido. “Aconteceu alguma coisa com o inglesinho?”

“Você não deveria estar terminando um relatório?” O americano arqueou a sobrancelha, parcialmente surpreso por sequer perceber que o colega adentrara sua sala.

“É, depois eu termino.” Pegou mais um biscoito. “Eu super lembrei que tinha que perguntar por que você estava todo avoado na reunião e todas essas coisinhas assim.”

Alfred suspirou pesadamente.

“É só que... Eu nunca tinha parado pra pensar como a namorada dele deve ser, sabe? E agora isso me veio a mente.”

“Pfff. Depois de quase três meses de caso? Dá um tempo, fofo. Ou por cogitar isso, você pensou em desistir do bofe?”

“Desistir do Arthur? Nunca!” Respondeu, parecendo ultrajado.

“Então pronto, tá tudo resolvido.” Feliks estalou os dedos. “O que tinha que ser feito já foi feito, remorso de nada adianta nessas condições.”

“Não é bem remorso, na verdade... É só que fiquei curioso. Sobre como deve ser a aparência dela e tudo mais.”

“Agora você quer conhecer a concorrência.” Atestou. “Tipo, cada vez que nos falamos parece que você se envolve mais com a causa.”

“O que você quer dizer?”

“Nada.” Sorriu de forma travessa. “Então, você estava com ele hoje?”

Levemente corado, o americano assentiu.

“Ai que gracinha, você ficou todo envergonhado!”

Alfred pigarreou, irritado.

“Se você já tiver terminado, sinta-se livre para voltar às suas tarefas.”

“Não, eu não terminei, na verdade.”

“Então diga, logo, preciso terminar os meus relatórios também.”

O semblante de Feliks mudou radicalmente. Ele caminhou até a porta de Alfred, garantiu que não havia ninguém mais por perto e a fechou. Em seguida, se virou para o amigo com uma expressão que mesclava preocupação e raiva.

“Eu preciso da sua ajuda, Alfred. É sobre o Toris.”

“O que aconteceu com ele?” Perguntou, abandonando o tom defensivo de segundos atrás.

“Ele vem sofrendo várias ameaças. Ele não sabe que eu sei, mas eu sei. Descobri há algum tempo, quando ele esqueceu o celular na minha casa. Tinham mensagens de um número não identificado, fazendo chantagens de todo o tipo. Eu sei que ele tinha um stalker que tirava muito o sossego dele, mas não sabia até que ponto as coisas estavam. Suspeito que o sujeito das ameaças seja o tal do stalker, mas não tenho como confirmar a identidade dele, principalmente porque o Toris não fala nada a respeito, apesar de não saber esconder o nervosismo.”

Alfred então se lembrou de todos os favores que Feliks já lhe havia prestado. Não apenas os concernentes a Arthur, embora estes fossem os mais significantes. Mas a verdade era que o outro sempre estivera lá para lhe apoiar. Além do mais, não era somente uma questão de retornar favores. Era um dever seu, como herói, como defensor da justiça, resolver os problemas das pessoas, ainda mais se fossem seus amigos. Portanto, aquela era a vez de Alfred retribuir.

“O que eu posso fazer por vocês?”

Feliks suspirou pesadamente e se sentou na cadeira em frente à mesa de Alfred.

“Não faço ideia. Porque se for quem penso que é, vai ser muito difícil de contornarmos o problema... Preciso que você me ajude a confirmar a identidade do sujeito primeiro. Depois, então, arrumamos uma forma de provar que é ele quem faz as ameaças. Essa última parte vai ser a mais complicada.”

“E de quem você suspeita?”

O olhar significativo de Feliks já fez com que Alfred sentisse calafrios involuntários. O americano percebeu que o fardo seria pesado, que o peixe era dos grandes. Por isso, não foi maior surpresa do que já esperava, quando o outro anunciou o nome do presidente da empresa.

Ivan Braginski viera da Rússia cursar universidade nos Estados Unidos e lá conhecera Alfred. Desde o princípio, os dois não se deram bem. O primeiro era filho de um magnata russo e o segundo um americano comum de classe média, com todos os típicos ideais de liberdade, heroísmos e maniqueísmos parte do seu clichê. Ivan, por outro lado, fazia questão de expor publicamente seu desprezo pelos mesmos valores que Alfred tanto cultuava. E o que começou em uma implicância moral se desenvolveu como uma inimizade calorosa entre ambos, que só esfriaria ao final da graduação, com um nível mínimo de amadurecimento dos dois.

Mesmo assim, nunca tivera com ele uma relação amistosa. O russo assumiu a presidência do grupo quando Alfred não tinha mais do que três meses ali, porque obviamente sua família o comprou. Se o contato entre ambos fosse mais direto, o americano já teria pedido sua demissão havia muito tempo. Felizmente, no status de presidente, Ivan pouco tempo tinha para se ocupar dos pormenores de sua animosidade com o americano. Além disso, Alfred era essencial naquele nicho. Não era por menos: as suas ideias foram a causa do sucesso da empresa. E por isso, apesar de tudo, o americano estava tão seguro no seu cargo, que ele próprio desprezava.

“Eu sei que você o odeia. Não estou pedindo para que, tipo, vocês fiquem no maior amor, nem nada. Mas eu preciso ter toda a certeza de que é com ele que vou lidar. Se você me ajudasse com isso, só com isso, eu totalmente ia ser grato a você. E totalmente não pediria mais nada.”

“Não se preocupe, eu vou ajudar. Se for ele mesmo que estiver fazendo isso, vai ser mais que um prazer mostrar a verdadeira face desse bastardo.” Ele sorriu com um tom de perversidade. “Eu só estou pensando no que posso fazer para chegar até ele.”

“Ai, Alfred, falando assim você totalmente parece um vilão!”

O americano arqueou a sobrancelha e entrelaçou os dedos.

“Do que você está falando, Feliks? Eu sou um herói.”