Delilah
12 A vida é uma pequena tragédia
Notas iniciais
Ps: Eu meio que demorei por causa do tamanho dessa criança... Nem eu percebi o monstro que criei, na boa.
E outra: eu amo vocês, leitores, seus lindos. Obrigada pelo apoio.
Boa leitura.
Emily dirigiu sem rumo por alguns minutos até finalmente estacionar para raciocinar um pouco. Ela encostou a cabeça no volante, pouco se importando com o infernal e constante barulho da buzina. Seus olhos azuis estavam bem abertos, porém secos. Ela tentava colocar os próprios pensamentos em ordem, mas quanto mais se esforçava, mais eles se embaralhavam, como um emaranhado de nós difíceis de desfazer. Não sabia se ela era uma vítima, ou apenas uma azarada. Queria alguém para desabafar, porque não era do tipo que sofria em silêncio. Cogitou Francis, mas seu celular estava fora de área. E pensando melhor, Francis e Arthur haviam dormido juntos na universidade. Provavelmente o desgraçado era um cúmplice também. Pensou em algumas amigas, mas seu orgulho era um tanto grande para chegar com elas e explicar que havia levado um chifre. Então ela pensou na pessoa mais improvável de todas.
Alfred tinha um sorriso triste no rosto. Havia acabado de se despedir de um grupo de senhores com quem costumava jogar damas quinzenalmente. O que foi até um pouco engraçado, porque dois deles não entenderam muito bem que Alfred não iria apenas viajar a negócios. Ele perambulava com um ar quase nostálgico pelos terrenos do asilo, de um lado pro outro acenando pros velhinhos que aproveitavam aquela bela e ensolarada tarde ao ar livre.
Estava decidido a partir.
Matthew insistia em questionar a razão, sabendo que o irmão amava demais a vida que tinha, apesar de desgostar do emprego. Ele próprio parecia um pouco magoado em saber que seria tão prontamente abandonado, sem vislumbrar qualquer resistência da parte de seu consanguíneo.
Mas Alfred pensava que aceitar a proposta, ignorando todas as chantagens que a acompanhavam, poderia ser bom. Porque o afastaria dos problemas e talvez o ajudasse a esquecer. Não que ele quisesse. Não era um desejo profundo de seu coração, mas ele tinha medo que ficasse preso naquele caso para sempre.
Partiria naquela semana. Já estava tudo acertado. Era repentino, desesperado e até um pouco covarde, mas havia tomado a sua decisão. E por isso que estava dizendo adeus a seus amigos. Teve até uma festinha cheia de emoções na empresa. Todos sentiriam a sua falta. E Kiku não perdeu a oportunidade para questionar se a sua decisão era mesmo a mais adequada. Alfred sinceramente não sabia. Não era como se não fosse voltar para vê-los nas férias. Só não pretendia fazê-lo de imediato.
Foi uma bela de uma surpresa quando ele foi abordado. De tão distraído que estava, sobressaltou-se visivelmente e a moça que o havia chamado se encolheu.
Ele ajeitou os óculos e seus olhos azuis celestes se arregalaram ao ver a mãe do pequeno Peter parada a sua frente.
Acomodaram-se em um banco de concreto no píer e Alfred ofereceu-lhe algo para beber. Ele percebeu a inquietação da moça, apesar de seus bons modos.
“Como está Peter?” Ele perguntou, tomando um gole de seu café.
“Oh. Bem.” Ela disfarçou o que quer que estivesse a atormentando tomando um gole do próprio café. “Está na casa de um coleguinha.”
Alfred assentiu, percebendo que talvez fosse sentir falta daquele garoto.
“Diga a ele que a Sra. Dotts perguntou quando eles terão a oportunidade de tocar piano novamente.”
Ela deu um sorriso esquisito e assentiu. Alfred ficou em silêncio, esperando até que a moça resolvesse falar o que ela pretendia. Porque certamente, ele percebera, não era a respeito de Peter.
Emily olhou para Alfred, abriu a boca e tornou a fechar. Franziu o cenho, como se discordasse de si mesma. Então, tornou a tentar falar algo, mas negou com a cabeça. Até gesticulou um pouco, como se conversasse consigo mesma. Alfred a achou adorável e suprimiu um risinho, que não passou despercebido. A moça fez um bico, e o encarou por alguns segundos. Seus olhos pareciam calcular o próximo movimento.
Agora, o que Emily efetivamente fez talvez estivesse além de sua capacidade racional. Era, muito provavelmente, um gesto desesperado de alguém que precisava de pelo menos um pouco de estímulo para a própria autoestima. Pegou Alfred de surpresa, e ele nem conseguiu reagir quando a viu se aproximar, um pouco hesitante, e puxar seu rosto para perto, selando ambos os lábios em um beijo trêmulo e um tanto desesperado. Quando caiu em si, ele a afastou um pouco bruscamente, seus lábios curvados para baixo em puro embaraço. Não conseguiu evitar olhar de esgueira para a aliança cintilante na mão dela e imaginou qual deveria ser o tamanho da sua sina com pessoas casadas.
“Err... Hum...” Foi o que conseguiu verbalizar a princípio. “Eu não acho... Que isso seja...”.
“Olha, não é como se eu gostasse de você, ok?” Ela disse, irritada com a reação de Alfred. Talvez porque, em certa medida, seu olhar lhe lembrasse de Arthur em algum aspecto. E ela ainda não estava plenamente consciente de qual.
“É só que eu preciso de um pouco de masculinidade aqui, sei lá. Um pouco de contato com outro homem.” Enfatizou.
“Algo errado?” Ele perguntou, se sentindo atingido pelo tom dela.
De algum modo, se passou por sua cabeça que talvez Emily soubesse do que havia acontecido entre Arthur e Alfred. A princípio, soava como um pensamento idiota e tolo de alguém paranoico. Talvez a moça estivesse apenas com alguns problemas conjugais. Porque Alfred podia imaginar o quão difícil era para uma mulher casada cuidar da família, da vida profissional e do próprio filho. Peter era um bom garoto – pelo menos até onde Alfred pudera conviver com ele – mas talvez o marido de Emily não fosse.
Peter. Emily. Esses nomes ficaram ecoando na cabeça de Alfred por alguns segundos, enquanto ele encarava a mulher a sua frente com uma expressão vazia.
Então a realidade lhe atingiu como um balde de água fria.
Essa Emily, essa jovem e atraente Emily à sua frente, mãe do seu coleguinha Peter, uma criança adorável com sobrancelhas peculiares e que adorava passar o tempo com Alfred, essa Emily provavelmente era a mesma Emily de Arthur.
Não podia ser coincidência. Por mais que Alfred desejasse que fosse, não podia.
“Você está bem?” Ela perguntou, arqueando a sobrancelha.
Alfred assentiu, com um sorriso desengonçado no rosto e sentiu as mãos começarem a suar.
Emily suspirou, ignorando o desconforto do rapaz.
“Eu vou me divorciar.” Disse com alguma hesitação. A assunção daquela decisão trouxe um gostinho amargo para a sua boca. E impulsionada pela raiva e pelo orgulho ferido, que pareciam retornar com toda a força, ela simplesmente desatou a falar, confessando tudo o que havia acontecido para um alguém que poderia ser considerado relativamente estranho em sua vida.
“O merda do meu marido mentiu para mim esse tempo todo. Você acredita? Mentiu por quase um ano! Um ano! E eu fui tão burra! Eu vi que tinha algo de diferente nele, mas, muito idiota, acreditei que fosse coisa do trabalho ou mesmo uma crise de idade. Mas não. Ele estava com outra. Não. Outro! Teve a cara de pau de me trair com outro! Eu não sou preconceituosa, Alfred, eu sabia desse lado do Arthur, eu só não imaginava que ele pudesse ser tão... Idiota. A ponto de fazer isso comigo. De fazer isso com o filho dele. E Deus sabe se o moleque com quem ele está se relacionando sabe disso. Não é como se eu me importasse com ele, mas não me surpreenderia. Eu tenho pensado no que fazer, mesmo antes de ele me contar tudo. Até cogitei perdoar, sabe, quando na minha cabeça se passou que ele poderia estar pulando a cerca. Não por ele, mas por nosso filho. Só que...” Ela suspirou com um ar chateado antes de continuar. “Enquanto ele falava, enquanto ele me contava o que ele fez... O olhar dele enquanto ele me falava tudo aquilo foi tão... Tão distante. Cada vez que ele falava do sujeito tinha um maldito brilho nos olhos dele.”
O discurso, que começara inflamado, tinha agora um sabor de derrota. De conformismo. Como se a cada palavra que houvesse sido proferida, Emily percebesse que o que aconteceu, aconteceu e fatos não podem ser desconstituídos. Ela também não era uma adolescente vivenciando a primeira decepção amorosa, e por isso dava graças. Por mais que doesse em seu peito, o peso do realismo que acompanhava sua vivência lhe atribuía um pouco mais de razão.
Alfred estava muito quieto. Enquanto ela falava, em momento algum realmente olhou para o rapaz para ver como ele reagia. Não desejava ver naqueles olhos azuis, tão semelhantes aos seus, nenhum sentimento de dó.
Quando olhou de esgueira, percebeu que ele estava pálido.
Quase tão branco quanto um fantasma. Seus olhos pareciam expressar puro terror. E ele mal conseguia disfarçar. Alfred ouviu cada palavra de Emily percebendo o quão desatento havia sido aquele tempo todo – e o quão descuidado também. A família de Arthur convivia com ele com frequência. E ele sequer sabia. Outro belo exemplo das consequências nefastas do jogo de segredos do inglês. Agora, muito provavelmente, seu filho tinha em Alfred um grande amigo. Sua esposa estava ali, ao seu lado, confessando suas dores por causa de um evento no qual Alfred, o próprio Alfred, era o ator principal, a razão de ser, a causa primeira.
Mas ele não estava arrependido, não. Apesar de tudo, ainda era hipócrita o suficiente para ser incapaz de arrepender-se de ir falar com Arthur naquele dia. Naquele mesmo dia em que Emily estava de fato no restaurante, mas ele estava interessado demais em seu marido para sequer se importar.
E a realização deste fato o deixou mortificado.
“Está tudo bem?” Ela perguntou, inclinando-se para frente para ver o rosto de Alfred. Ele a encarou como se ela tivesse acabado de sair de uma nave alienígena e assentiu, ligeiramente hesitante.
“Desculpe se o assunto não o deixa confortável. Eu desatinei a falar sem ao menos levar em consideração que você talvez não estivesse disposto a escutar. Que besteira da minha parte.” Ela deu uma risadinha nervosa.
Claramente, Emily não devia a Alfred nenhuma desculpa. Muito pelo contrário.
“Não. Eu é que peço desculpas.”
Ela abriu um sorriso cálido e deu uma tapinha amistosa no ombro do rapaz.
“Não vejo como. Você teve que aturar um movimento ousado da minha parte e ainda me ouvir reclamando sobre problemas conjugais. Você é um bom rapaz, Alfred.”
Ele negou com a cabeça, se sentindo cada vez pior. Sequer percebeu que a tensão o havia feito se levantar de seu lugar.
“Você não sabe o que sou. Não sabe de nada. Olha... Faça um favor a nós dois. E a seu filho.” Ele suspirou, sabendo que as palavras que diria em seguida seriam as mais duras que já havia dito a si mesmo. “Não se separe do seu marido. Ele talvez tenha cometido um erro, mas foi homem o bastante para assumi-lo. Provavelmente esse caso foi algo muito passageiro, algo que precisa ser apagado da vida de vocês. Não estraguem o casamento de vocês.” Não estrague a vida de Peter. Ele acrescentou, mentalmente.
Ela o encarou, visivelmente chocada.
“Eu não posso fazer isso, Alfred.” Sibilou, quase rispidamente. “Ele não só traiu a minha confiança. Está claro que ele não me ama mais. Não vai dar certo. Eu conheço Arthur bem demais para saber disso. Ele já tinha essas tendências desde a universidade.”
“Ele te ama.” Asseverou o rapaz, com uma certeza que não sabia que tinha. Olhou para a moça sentada a sua frente com algo que parecia um princípio de inveja em seus olhos.
Aquele comportamento, no entanto, causou revolta na mulher.
“Quem é você para me dizer que conhece meu marido melhor do que eu? Quem é você para ter tanta convicção que ele ainda me ama?” Ela praticamente cuspiu aquelas palavras.
Alfred olhou bem nos olhos de Emily ao responder.
“O amante dele.”
E saiu caminhando em passos apressados, quase correndo, e sem ao menos dar-lhe uma chance de reagir.
–--
“Mon cher, você separou o molho?”
“Sim. Está aqui.” Matthew passou o saco aberto para Francis, que estava a frente do fogão. Após deixar Alfred no aeroporto, sentiu uma solidão inexplicável. A casa já não era a mesma sem o seu irmão e talvez ele estivesse sofrendo os efeitos imediatos de sua não muito promissora nova vida. Então ele preferiu visitar Francis e passar um tempo com o namorado, porque assim talvez não se sentisse mais abandonado do que de costume.
Era uma boa distração. Francis sabia como fazê-lo pensar em outras coisas além de suas angustias. E era por isso que Matthew o adorava. Mal ele havia chegado e o namorado o convidou para cozinharem a ceia juntos. O máximo que perguntou a respeito de Alfred era se ele já havia viajado e, percebendo o desconforto de Matthew, calou-se e preferiu deixar a seu critério puxar ou não o assunto.
Passaram horas na cozinha, elaborando novos adereços para o jantar, contando piadas um para o outro ou falando de questões simplórias da vida. Beijaram-se algumas vezes, mas não podiam descuidar da comida no forno. O tempo ao lado de Francis ajudou a levantar o astral de Matthew.
A campainha tocou quando estavam quase terminando de preparar tudo. Matthew se voluntariou para abrir a porta e o namorado agradeceu. Após lavar as mãos sujas de manteiga, ele caminhou até a sala e atendeu ao terceiro chamado na campainha. À sua frente estava Arthur, com uma aparência acabada e algumas malas e sacolas em seu encalço.
“Alfred?” Ele perguntou, totalmente desorientado.
Matthew rolou os olhos, perguntando-se o que havia feito para merecer aquilo.
“Quem é, mon amour?” Francis perguntou diante da demora do outro.
O mais novo apareceu com Arthur abraçado fortemente a si e choramingando o nome de Alfred e uma penca de ofensas ao americano.
“Arthur?” Francis cobriu a boca com a costa da mão para conter um riso. “Isso é patético, mon ami.”
“Calado, sapo!! Hic. Alfred, me proteja desse idiota.”
“Eu não sou o Alfred...” Grunhiu Matthew e Francis riu ainda mais.
“Tiens, deixa que eu cuido desse rapaz, Matthieu. O jantar está pronto, sirva que já me junto a você.”
Matthew contorceu os lábios e foi até a cozinha, a contragosto. Sentiu uma raiva estourar e precisava extravasar de alguma forma. Cerrou os punhos e socou, chutou a parede. Não era justo Arthur aparecer para atrapalhar sua vida mais uma vez. Já não bastava haver tomado as atenções de Alfred, agora desejava as de seu namorado também? Matthew não era idiota, tampouco ignorava o fato de que Francis fora apaixonado pelo inglês durante anos. E era isso o que o irritava. O que ele tinha de tão especial para conquistar o coração das duas pessoas mais importantes da vida de Matthew naquele momento? Isso era tão frustrante!
Mas... Apesar de não gostar do inglês, Matthew precisava aceitar o fato de que ele foi uma pessoa que simplesmente fez a diferença na vida de seu irmão. Mesmo que depois tenha terminado em desastre. E agora, por causa de toda a confusão, ele havia perdido Alfred, não para Arthur, mas para a falta de perseverança. E logo Alfred, que era a pessoa mais persistente que conhecia.
Matthew sentiu a raiva abandoná-lo e se sentiu desamparado. Precisava tomar uma atitude. Precisava fazer algo para reverter aquilo tudo. Porque não estava certo. Não era como se Alfred estivesse buscando um sonho e, para isso, tenha abandonado tudo a sua volta. Seu irmão estava fugindo, amedrontado e acovardado, de suas próprias escolhas e caminhava rumo a um abismo alternativo ao seu destino.
Ele só conseguiu pensar em uma coisa. Caminhou até a sala e pegou seu celular, discando um número que considerava necessário em caso de emergências.
“Eu gostaria de falar com o Kiku Honda, por favor.”
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“Não era o Alfred lá fora.” Francis comentou, quieto, enquanto Arthur repousava em sua cama com uma mão sobre a testa. “Era o irmão dele.”
“Droga de irmãos parecidos.” Grunhiu o inglês. Eles mantiveram silêncio por uns minutos desconfortáveis.
“Estou me divorciando da Emily.”
Aquilo chocou Francis.
“É o quê?”
Arthur cobriu os olhos com o braço.
“Contei tudo a Emily. Tudo. Sobre Alfred.”
“Você é louco? Acabou com seu casamento!”
“Tch.” Suspirou. “Não é como se já não estivesse acabado antes disso”.
“E quanto ao Peter? Vocês já tiveram a conversa com ele?”
Arthur assentiu, sentindo que respirar estava um pouco mais difícil.
“Mais ou menos, sem detalhes. Apenas dissemos que viveríamos sob tetos diferentes. Mas ele é um garoto esperto. Vai entender uma hora ou outra.”
Francis assentiu, evitando concordar ou discordar da opinião do amigo naquele momento.
“Ele está com a Emily, por enquanto. Ela... Meio que me expulsou de casa.” Ele comentou com a voz um pouco rouca.
Francis suspirou, acariciando a cabeça do amigo. Não sabia o que dizer, mas algo já o havia feito prever que aquela história toda não acabaria bem. Arthur envolvera-se demais, arriscou-se demais. Isso permitiu que mais cedo ou mais tarde ele viesse a perceber que não era o casamento heterossexual a sua união ideal. Que ele amava Emily de uma forma diferente. Desde o começo Francis temia isso.
“Por que você não me disse antes? Há quanto tempo isso?”
“Contei pra ela há dois dias. Eu... Simplesmente não tinha forças.”
“Ela até que demorou para expulsá-lo de casa.” Observou o francês.
“É. Ela finalmente entrou com o pedido de separação.”
Um silêncio desconfortável novamente tomou conta do ambiente.
“Você pode ficar aqui se quiser. Até achar onde ficar. Só não sei como vou explicar isso pro Matthieu.”
“Por que você teria que explicar?” Ele perguntou, finalmente descobrindo o rosto.
“Ele é meu namorado.” Francis arqueou a sobrancelha. “E ele não tem bons termos com você, já que você enganou o irmão dele e essas coisas.”
“Mais essa agora.” O inglês grunhiu. “Será que esse americano idiota vai me perseguir o resto da minha vida?”
Francis desejou que não. O amigo ficava insuportável quando desatinava a falar sobre Alfred.
“Durma.” Ordenou. “Você não vai resolver nada agora nesse estado... Mon Dieu, você confundiu Matthew com Alfred, mas consegue falar perfeitamente sobre o seu divórcio. Qual o seu problema?”
Mas Francis não obteve resposta. Arthur havia rendido às tentações de Morfeu em questão de segundos, como todo bom bêbado. O francês suspirou e se levantou, sem se preocupar em não fazer barulho. Provavelmente o amigo dormiria feito uma pedra e acordaria no dia seguinte com uma ressaca insuportável. Tudo o que Francis queria naquele momento era aproveitar o jantar ao lado de seu namorado, em um dos poucos momentos de paz que teria enquanto Arthur vivesse sob o mesmo teto que ele.
–--
Paz não era exatamente o que Alfred conseguira em sua nova cidade.
Mal se passaram três dias e seu novo cargo já lhe dava muita dor de cabeça. Apenas de pensar em enumerar as razões pelas quais isso acontecia, ele já sentia a cabeça latejar. Suspirou, inclinando a cabeça para trás e buscando ar naquele ambiente seco e ainda hostil. O clima em São Francisco era diametralmente distinto do de Nova Iorque e a mudança não passou despercebida pelo americano. Puxou um lenço do bolso da calça e limpou o sangramento em seu nariz, ocorrência que passou a ser comum devido a secura na região.
“Então era aqui que você estava!” Uma voz feminina chamou sua atenção. Ele virou-se para encarar Elizaveta Héderváry, sua colega de trabalho e talvez a única amiga que conseguira até então. “Estive procurando por você desde o final do expediente. Tenho uns papeis para você assinar.”
Alfred suspirou profundamente, sentindo um desânimo só de pensar na pilha de papel acumulada sobre sua mesa.
“Você deixou na minha sala?”
Ela negou com a cabeça. “Estão lá em casa na verdade. São documentos importantes. Você saiu cedo ontem e trancou a sala, então eu realmente não tinha aonde deixar.”
O rapaz retorceu o lábio, fatigado pela falta de boas perspectivas naquele lugar e já cansado da vida que mal começara a levar. Ele tinha alguma consciência de que se tivesse se entrosado de melhor modo na empresa, tudo poderia estar diferente. Mas simplesmente não se sentia em casa, nem à vontade para ser ele próprio. Porque das primeiras vezes que tentara, recebera olhares tortos e reprovadores.
Parecia que Alfred também não estava se esforçando muito para se encaixar. Sabe-se lá o porquê de Elizaveta ter simpatizado com ele diante da aura de antipatia que emanava, um evento tão incomum à sua pessoa.
Sua mais nova amiga era descendente de húngaros – o que explicava o nome difícil de pronunciar. Era um pouco mais velha que ele próprio, mas não aparentava. Tinha longos cabelos castanhos claros, pele cor de marfim e olhos de cor esmeralda que lhe faziam recordar de Arthur, aquele idiota.
Mas o inglês não lhe assombrava em todo, apenas em relances. Alfred ainda não havia descoberto ninguém com aquele olhar como era o de seu ex-amante. Talvez fosse a cegueira trazia pela paixão, mas Alfred não conseguia parar de pensar naquele olhar que tudo tinha de sábio – quase como se Arthur, por meio dos olhos, dissesse o percurso de suas experiências – e isso podia soar exagerado, já que ele nem era tão velho assim (embora Alfred jamais fosse admitir fora de seus pensamentos).
“Vamos, minha casa fica a apenas quatro quarteirões da sua. Eu te dou uma carona.” Ela indicou com a cabeça.
“Você sabe que não precisa se preocupar com isso.” Ele suspirou.
“Eu sei. Mas você também não sabe nem o nome da rua onde mora. E você pode se perder a caminho de casa outra vez.” Ela enfatizou o outra vez.
Alfred fez um bico e depois sorriu.
“Ok então. Mas só dessa vez!”
Elizaveta deu uma piscadela em resposta e indicou as chaves do carro, que tirara da bolsa.
“Adiante, Sr. Jones!”
O americano respondeu com uma reverência e seguiu a mulher até o veículo. Entraram e pegaram a rodovia sem trocar muitas palavras, em um silêncio bastante esquisito, o que foi provavelmente percebido por sua colega, uma vez que ela tratou de ligar o rádio em uma estação já preestabelecida que tocava a parte instrumental uma música calma e agradável.
“Oh, eu amo essa música!” Ela comentou com um sorriso meio enviesado no rosto. “Sorte que está no começo ainda.”
Alfred tentou não parecer desinteressado.
“Ah. De quem é?”
Ela negou com a cabeça e suspirou.
“Sempre esqueço o nome da banda. Mas eu gosto da letra.”
O americano se encostou no assento, apoiou o queixo na mão e passou a observar o cenário em movimento fora do veículo.
Hey there Delilah, What's it like in New York City?
Ele suspirou enfadado e rolou os olhos. Então aquela música era alguma artimanha do cruel destino para fazê-lo lembrar a qualquer tempo da vida que deixara para trás? Já não bastava sua própria consciência materlando constantemente o que acreditava ser um grande erro?
I'm a thousand miles away, but girl tonight you look so pretty, yeah you do
Times Square can't shine as bright as you
I swear it is true
“Pelo amor de Deus, Liz, não podemos mudar de estação? Essa música é de cortar os pulsos.”
A jovem fez um bico e parecia tentar conter um risinho.
“Mas por que, se ela é tão bonita.”
“Por favor, por favor?”
Elizaveta suspirou e fez menção de mudar de estação, mas parou logo que seu telefone celular começou a tocar. Gesticulou para que Alfred esperasse um momento e o americano rolou os olhos, considerando-se educado demais para não tomar a iniciativa e mudar ele próprio.
“Elizaveta falando. Oh. Honda, como vai?”
Alfred remexeu-se no assento e encarou a moça com surpresa. Ele conhecia um Honda na vida, e essa pessoa era Kiku. Não era possível que o descendente de japonês fosse amigo em comum com sua nova colega de trabalho... Era?
Elizaveta lhe lançou um olhar furtivo, meio divertido, meio enigmático.
“Sim, sim. Ele está aqui do meu lado, na verdade.”
Kiku Honda?
Ele moveu os lábios, inquirindo-a. Elizaveta assentiu em retorno, com um sorriso ainda maior no rosto.
“Ah? É o quê?” Observando o comportamento da amiga, ele percebeu que ela mesma parecia surpresa com o que quer que Kiku estivesse falando. “Ok então. Acho que aqui é a cento e um, algo assim. Vou procurar... Sério?” Ela deu uma risada. “Vai ser divertido então. Ok, nos falamos depois. Beijos.”
“De onde você conhece o Kiku, você se importa se eu perguntar?” Alfred perguntou curioso.
“Nos conhecemos em um evento da empresa no Canadá.” Elizaveta começou a garimpar no rádio uma estação específica. “Desde lá temos mantido contato. Interesses em comum, sabe. Kiku é realmente um doce de pessoa.”
“Eu realmente não consigo vislumbrar nenhum cenário onde você e Kiku compartilham interesses em comum. E você pode prestar atenção na rua? Do jeito que você está dirigindo não vai sobrar nem nosso cadáver pra contar a história.”
“Acredite, nós temos.” Ela deu uma risadinha meio sinistra. “Acho que é aqui.”
“Aqui o quê?”
“Shh. Olhos na rodovia.” Zombou.
Seu humor até que havia melhorado graças à curiosidade em descobrir o nível de amizade entre Kiku e sua nova amiga. O que só durou o tempo de Elizaveta encontrar a rádio que tanto buscava.
“Acredito que temos tempo para um último ouvinte esta noite. Quem está na linha?”
Um breve silêncio se passou antes da resposta.
“Arthur Kirkland”
Alfred empalideceu.
“Boa noite, Arthur e bem vindo ao programa. Diga-me, qual o seu problema?”
O profundo suspiro do outro lado da linha foi concomitante à respiração que Alfred prendeu involuntariamente.
Aquele idiota estava bêbado de novo?
“O meu problema é um sujeito irritante.”
“Oh. Temos uma questão amorosa mal resolvida aqui?”
“MUITO mal resolvida, diga-se de passagem.” Alfred quase viu Arthur bufar. “Veja bem, eu cometi muitos erros na minha vida. Nos últimos meses, eu fui um covarde, mentiroso, hipócrita e agi muito, muito errado. Mas não fui o único. O que me satisfaz é que eu sei reconhecer meus erros, embora eles sejam muitos. Ao contrário de certo idiota, que foge das próprias angústias e prefere a ideia de ficar sentado no sofá de casa, lamentado e tomando um belo pote de sorvete a arriscar escolher seu próprio destino. Deus, Alfred, você é um grande hipócrita, sabia? É, falei seu nome em rádio nacional! Rá! Enterre-se de vergonha agora, desgraçado.” Nos segundos que Arthur tirou para respirar, Elizaveta olhou de relance para o americano que estava praticamente desejando fundir-se ao assento do carro naquele momento. “Olha, eu não sei qual é o seu problema. Mas já resolvi o meu, ok. Eu te amo, te amo tanto que meu peito parece apertar cada vez que lembro disso. Talvez tanto a ponto de ligar pra esse programa idiota mais uma vez só pra ver se você se toca disso. E me identifiquei! Olha só que vergonha. E sim, eu sei que você está ouvindo isso, porque eu vi quando Kiku ligou e mandou sei lá quem mudar a estação de rádio porque eu, muito bêbado, resolvi ligar pro programa...”
Fez-se um silêncio muito constrangedor no carro. Alfred parecia tão impactado, que ele sequer percebera que Elizaveta já havia parado em frente à sua casa.
“Você me disse uma vez que o tempo curava qualquer ferida. Mas que uma escolha errada iria me fazer me arrepender profundamente. Não pense que esqueci. Eu não me arrependo de nada do que fiz. Talvez só de ter deixado um idiota feito você partir.”
Alfred desligou o rádio abruptamente. Sequer esperou o momento das perguntas e considerações dos ouvintes.
Ouvira o que tinha de ouvir.
Estava respirando descompassadamente. Não ousava piscar, porque se o fizesse, algumas lágrimas que não deveriam estar ali iriam rolar por suas bochechas. Encarava as próprias pernas com um olhar desfocado, desorientado, desatento. Sentia o peso do olhar inquisidor de Elizaveta, mesmo que ela não estivesse encarando-o. Agora ela sabia. Ou se desconfiasse da hipótese de ser outro Alfred, a mera reação observada lhe sanava quaisquer dúvidas. E quanto a Alfred, o verdadeiro Alfred, com todo aquele aspecto derrotado ao seu lado? Ele não sabia o que fazer, sentia-se perdido. Sua mente estava uma desorganização tremenda, mais embolada que qualquer amontoado de fios atrás da mesa do computador.
Elizaveta pigarreou e ajeitou-se no banco. Alfred a ignorou e ela lhe lançou um olhar de pena e, ao mesmo tempo, de reprovação. Pena por estar sensibilizada demais com a situação patética do amigo. Reprovação por ele ser estúpido e dramático o suficiente para se enfiar naquela situação.
“Olha, Alfred.” Ela suspirou, irritada. “Eu conheço a sua história já faz um tempinho e me deixa dizer uma coisa que acho que você precisa ouvir: você é um idiota. Um perfeito, um grande, gigante idiota.”
Ela mal deu tempo para que ele a encarasse com ultraje.
“Você é sim, senhor. Eu acompanho esse programa, Alfred, por mais surpreendente que isso possa lhe parecer. E eu lembro, muito bem, daquele sujeito moralista dando suporte para um bêbado homossexual no rádio. Não vou dizer que não achei adorável e que não desejei que vocês se conhecessem e trepassem na vida real. A verdade é que eu fiquei surpresa quando o Kiku me contou que conhecia o idiota da rádio, muito embora eu tenha ficado chateada por ele se recusar a me dizer quem era. E ainda mais surpresa quando ele me disse que vocês estavam se relacionando. E só Deus sabe o quanto eu torci por vocês dois.”
Alfred piscou algumas vezes, o que fez com que as lágrimas que segurava descessem por suas bochechas. Apesar disto, o desespero que antes estava estampado em seu rosto cedeu lugar à surpresa.
“Kiku só me disse quem você era depois de nos conhecermos, quando eu comentei que meu novo colega de trabalho parecia bastante infeliz para o cargo alto e importante que tinha.”
“Então era ele mesmo no telefone.”
Ela assentiu.
“Aparentemente seu ex encheu a cara inventou de ligar para o programa mais uma vez.”
Alfred massageou as têmporas, pensando o quão estúpido Arthur conseguia ser.
“Ele te ama. Você o ama. Ele está se divorciando. E você solteiro, choramingando a falta de sorte no amor. O que impede vocês dois de ficarem juntos, seu perfeito imbecil?”
Alfred abriu a boca para replicar, mas foi interrompido.
“Pelo amor de Deus, Alfred, pare de encontrar empecilhos! Não tem nada que impeça o amor de vocês, a não ser a sua própria estupidez! Você provavelmente deve ficar se culpando por todas as desgraças do mundo, sei lá. Quer um conselho: não faça. A pior coisa do mundo é gente com pena de si mesmo.”
“Ouch.”
Elizaveta tinha razão. Toda a razão. E Alfred sabia disso, sabia disso muito antes de ela esfregar na sua cara. Tudo o que estava fazendo, desde que aceitara a promoção e a transferência, era tentar fugir da própria consciência. Porque lá dentro da sua cabeça, ele acreditava que longe, estaria fazendo um bem para Arthur, mas, acima de tudo, para si mesmo.
O que era uma grande mentira.
“Ouça aqui, Alfred Jones: você vai largar essa porcaria de vida que você inventou pra fugir do que você gosta e voltar correndo para quem realmente te ama. Ou eu vou tornar a sua vida um verdadeiro inferno de agora em diante.”
Ele engoliu seco e não conseguiu disfarçar o sorriso, que fazia o canto de seus lábios tremerem. Em um sussurrou rouco, graças ao nó em sua garganta, ele pediu um favor a amiga.
“Liz, eu acho que preciso ir até o aeroporto.”
–--
A luz do sol. Aquela maldita e irritante luz do sol parecia acentuar a dor de cabeça de Arthur. Na tentativa de se virar e fugir da claridade que lhe perturbava a paz, ele rolou do sofá para o chão e a queda foi bastante audível. Arthur grunhiu um palavrão, com a cara ainda estatelada ao assoalho.
Levantou-se com alguma dificuldade em se manter equilibrado. Como não era uma pessoa matinal, levava algum tempo para que definitivamente acordasse. E seu caso presente era especial, visto que a ressaca acentuava os efeitos da sonolência. Caminhou cambaleante até o banheiro, para lavar o rosto, sem ao menos tentar recobrar o que havia feito na noite anterior. Sabia que tinha saído para beber com Francis, Matthew e um japonês que não lhe era estranho.
O seu reflexo lhe dizia a verdade: estava um lixo. Arthur tinha olheiras que não passavam despercebidas, seu cabelo estava mais bagunçado do que de costume e seu rosto inchado em razão do sono. Teria jogado uma pedra naquele maldito espelho, se isso não desse azar.
Pela quietude do ambiente, podia concluir que Francis e Matthew ainda dormiam. Arthur corou, um tanto constrangido pela situação em que se metera. Prometera que ficaria por pouco tempo na casa do amigo, mas acabou sedimentando seu cantinho ali, sem qualquer vergonha na cara. Podia dizer sem pestanejar que Matthew não ficava feliz com o novo hóspede do namorado – e ele não fazia questão de esconder isso, tanto que passava cada vez mais tempo na casa de Francis. Mas Arthur não podia reclamar, provavelmente faria o mesmo em seu lugar. E não era como se Matthew o tratasse mal, muito pelo contrário. Mas ciúmes são ciúmes. Mas dessa vez faria o certo: começaria a procurar um lugar para viver, para não ser mais um fardo na vida dos outros.
Escovou os dentes e caminhou até a cozinha para fazer o café da manhã. Enquanto cozinhava, manteve a mente vazia, livre de quaisquer pensamentos a respeito do seu divórcio, da guarda de Peter ou de certa pessoa muito idiota. Sua nova terapia consistia em tentar não pensar em nada.
“Mon Dieu, Arthur, que cheiro horrível é esse? Você não está fazendo o café da manhã de novo, está?”
O aludido lançou um olhar profundamente ofendido quando viu Francis adentrar a cozinha.
“Morra, idiota.”
“Oh la la la, eu acho que vou abrir as janelas da casa antes que morramos sufocados por esse veneno que você está cozinhando.”
“Aproveita e se joga, maldito.” Grunhiu Arthur, recebendo um risinho em resposta.
Francis foi até a sala, cantarolando alto o suficiente para o amigo escutar. Arthur rolou os olhos, desligou o fogo e começou a arrumar a mesa para o desjejum. Longe de ser uma refeição farta como nas vezes em que Francis se inspirava para cozinhar, sua produção também não era de todo desagradável. Arthur simplesmente não compreendia a implicância das outras pessoas com a sua comida, ela parecia apetitosa para ele, que não se recordava de jamais ter ouvido Emily reclamar nos dias em que decidia cozinhar. Em contrapartida, Francis vez ou outra comentava que a ex-esposa do amigo nunca fora um parâmetro seguro quando o assunto era avaliar os dotes culinários alheios.
Ouviu a campainha tocar enquanto terminava de servir a comida. Particularmente achava muito cômodo o fato de os amigos de Francis sempre aparecerem em horas tão convenientes, a exemplo das horas de refeições. Ele só esperava que não fosse aquele maldito espanhol com o italiano mal humorado a tiracolo. Dos amigos de Francis, Antonio era o que menos se relacionava bem com Arthur, desde a época da faculdade. E para o inglês, sua dor de cabeça já estava lhe irritando o suficiente para que precisasse de outro chato no recinto.
O tom de voz e a ligeira expressão de surpresa de Francis chamou-lhe a atenção imediatamente após Arthur ouvir a porta se abrindo. Aparentemente, não se tratava de uma das visitas habituais.
“Mon ami, é uma surpresa você estar aqui a essa hora!” Exclamou, genuinamente surpreso. “No que posso ajudar?”
Arthur aprumou os ouvidos para escutar a voz do interlocutor do amigo, mas não ouviu a resposta. Franzindo o cenho, aproximou-se da porta da cozinha, feito uma criança curiosa.
“Onde está ele? Disseram que ele estava aqui.”
Ao escutar a voz de Alfred, Arthur precisou apoiar-se na porta para que suas pernas não fraquejassem e o levassem ao chão. Estava tão chocado que sua mente ficou em branco, incapaz de lhe sugerir uma reação.
“M-Mathieu?” Não. Francis sabia que não era do irmão que Alfred falava. “Ele está dormindo, mon cher”
Os passos pesados do americano ecoaram pela sala, mas cessaram abruptamente.
“Alfred, mon cher, quem quer que tenha lhe dado essa informação, provavelmente errou.” Francis tentou raciocinar, colocando-se à frente do outro. Não queria, não podia deixar que Alfred encontrasse Arthur, isso era simplesmente inconcebível. Porque estava trabalhando duro para fazê-lo se recuperar do maldito baque que fora a entrada daquele moleque em sua vida e não podia deixar todo o seu esforço ir por água abaixo porque mais uma vez o idiota havia mudado de ideia.
“Deixe-me vê-lo! Quero falar com ele.”
Alfred ordenou.
Francis negou com a cabeça.
“Eu não posso deixá-lo fazer isso. Arthur está muito bem sem você.”
Mentira.
“De fato, você é um estorvo na vida dele. Só atrapalhou tudo.”
“Isso não é assunto seu!”
“Você arruinou a vida perfeita que Arthur tinha.”
Tudo mentira. A vida de Arthur nunca foi perfeita.
“Agora, por favor, se você não tiver mais negócios aqui, eu peço para que você se retire.”
“Eu quero falar com ele!” A ordem soou como se fosse a de uma criança mimada recebendo um não na cara.
“Falar o quê, Alfred?” Francis sibilou. “Esfregar algo na cara dele, como você já fez, e que vai fazê-lo ficar pior do que está? Voltar correndo para ele porque você sente falta do sexo? Pra depois largá-lo e fugir feito uma mocinha, logo depois?”
Arthur sentia que suas unhas iriam perfurar a porta e seus lábios tremiam descontroladamente. Ele estava pronto para pular entre Alfred e Francis se fosse necessário.
Alfred bufou, fez menção de que tentaria passar por Francis, mas foi bloqueado mais uma vez. Ele murmurou alguma coisa inaudível para o homem que os escutava da cozinha, que agradeceu Francis quando este pediu para que repetisse, com um tom de voz desafiador.
“Não entendi o que você disse, mon ami. Poderia repetir?” O desafio estava lançado.
Alfred cerrou os punhos e respirou fundo, seus olhos azuis celestes se fixando firmemente nos do outro.
“Eu o amo, ok?” Mas falar em alto e bom tom não adiantava. Ele precisava berrar, porque só assim o mundo inteiro ouviria. “EU AMO ESSE IDIOTA.” Ele socou a parece com muita força. “Por favor, me deixa falar com ele.”
“É a sua última chance.”
Francis abriu caminho para o americano que, em sua pressa, sequer viu o sorrisinho de satisfação desenhado no rosto do anfitrião.
Notas finais
Ia ser o último, mas ficou ridiculamente Golias e como ainda tenho algumas coisas a acertar com meus personagens, assim eu procrastino o final para a próxima.
Isso é bom pra vocês?? Ruim???
A música que começou a tocar no carro é Hey There Delilah, do Plain White T's.
Continua...
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