Delicadamente Intocável
23 Um pouco da história de Scorpius Malfoy
Notas iniciais
POV Rose
Qualquer um diria que Scorpius Malfoy jamais me deixaria, mas eu diria o contrário. Ele me amava e eu podia sentir isso vindo dele, mas os seus problemas, a sua vida, talvez tivesse sido pior que a minha.
Eu fui uma garota mimada pelos tios, avós e pais. Tive constantes brigas com meu irmão, numerosas conversas com a minha prima Lylian, vários sorrisos com o Alvo, até os nove anos. Eu vivi todo esse tempo em um lugar cheio de paz, risadas, conversas e amor. Eu jamais me senti sozinha, mesmo quando me envolvi naquela solidão imensa depois do que aconteceu comigo.
Uma vez, um grande pensador disse que a dor da alma era pior do que a dor do corpo, a dor carnal. Só eu sei o que eu senti quando aqueles garotos resolveram cortar minha carne com aquela garrafa quebrada, só eu me lembro da agonia de ver aquela simples menina ser violentada por eles. Foi por isso que me escondi, porque pensei que ninguém conseguiria sentir ou compreender o que eu estava sentindo.
Scorpius Malfoy me salvou de todas as maneiras que conseguiu. Ele fez meu mundo brilhar de novo, fez minha auto-estima subir e me amou, mostrando que nem todas as pessoas seriam ruins. Mas e ele? Como foi sua infância? Seus medos? O peso sobre seu sobrenome? Eu nunca havia perguntado, mas agora podia ver a angustia de todos esses anos nublando seus olhos. Olhos que eu tanto amava.
Ele era um Malfoy, filho único, proveniente de um casamento arranjado. Era tratado como o herdeiro de todo o império da família. Tinha expectativas sobre ele. E ele teria os mesmos sonhos? Como ele foi tratado? Como era sua família? Como seu pai era? Eram milhares de perguntas que eu gostaria de fazer, mas nunca fiz. Coisas que eu deveria saber como namorada, como alguém que o amava acima de qualquer coisa. Mas nem ele sabia o quanto eu o amava.
- Você está bem? – perguntei assim que chegamos aos portões de Hogwarts
A escola deveria estar um caos, ou no melhor dos aspectos simplesmente seriamos chamados à sala da diretora.
- Por que está perguntando isso? – ele nem me olhou, simplesmente me puxou para atravessarmos os jardins até a enorme porta do castelo
Eu fiquei escolhendo as palavras, reformulando frases enquanto ele me puxava pelos corredores, mas só uma forma me veio à mente naqueles minutos. Poucos minutos. Eu queria conhecer tudo sobre ele, poder ajudá-lo, antes que toda essa confusão caísse sobre nós.
- Você não precisa mais cuidar de mim! – eu fui firme, decidida, larguei sua mão e parei no meio do corredor
Ele se voltou para mim, confuso, os olhos mostravam que ele parecia estar desolado. Eu suspirei, suavizei o rosto. Eu só queria que ele me compreendesse sem se magoar.
- O que você está tentando dizer? – ele perguntou meio sem jeito, sem força de vontade
- Você cuidou de mim todo esse tempo, mas eu estou bem! Não preciso mais que você fique me protegendo sempre, nem que pareça forte o tempo todo! Eu já fui assim antes Scorpius, eu já tive uma vida perfeita e sei como agir e pensar! O medo me dominou uma vez, mas agora é só uma lembrança!
- Falando desse jeito, parece que você quer... – ele pareceu angustiado ao falar isso, mas eu não permiti que terminasse a frase, não quando era totalmente ao contrário o que eu queria
- Não fale isso! – eu me adiantei e o abracei apertado pelo pescoço – Eu amo você loiro! Amo muito!
- Então por que isso agora? – ele me apertou contra ele, firme – Tenho medo do que você possa pensar, de perder você! O que quer me dizer?
- Eu quero que me conte como foi sua vida. – eu disse simplesmente me afastando
Ele ficou sério, olhando meus olhos, buscando uma explicação que não viria. Ele tinha medo de contar. Ou talvez não tivesse o que contar.
- Você acredita no seu pai não é? Tem fé nele! Eu posso ver em seus olhos que você o ama como a um herói! Mas apesar de tudo você ainda pensa que tudo isso não passa de uma mera formalidade de apresentação ao mundo social trouxa! – eu segurei seu rosto, fui decifrando seu olhar calmamente, lendo sua mente sem ao menos entrar nela
- Eu... – ele respirou fundo, tomando coragem, acho que nunca contou isso a ninguém antes
- Não confia em mim? – pedi baixinho, mordendo o lábio
Ele acenou afirmativamente e me puxou de volta pelo castelo, subindo cada vez mais, até chegar ao sétimo andar. Ele sabia da existência da Sala Precisa porque seu pai deveria ter contado, mas eu não sabia que ela havia sido reconstruída.
- Eu sempre fui sozinho, Rose! Não tenho muito o quê contar! – ele deu de ombros
- Me conta sobre seu pai. – eu disse simplesmente e me sentei no chão em frente a lareira que ele havia imaginado
- Ele é incrível. – os olhos dele brilharam por um segundo, como se estivesse em outro tempo, depois voltaram a ficar opacos e ele se sentou ao meu lado – Ele quase nunca ficava em casa, sempre estava cheio de trabalho, mas ele sempre arranjava tempo para brincar comigo. Ele costumava me erguer no alto e brincar que eu era um avião, depois jogávamos snap explosivo e xadrez e no final, à noite, ele me lia uma história e ficava comigo até eu dormir!
- Por que está me contando coisas boas como se fizessem parte do passado? Não é mais assim? – eu segurei sua mão e a trouxe para o meu colo, brincando com seus dedos entrelaçados aos meus
- Minha mãe e ele brigaram uma noite, um pouco antes de eu voltar a Hogwarts para meu terceiro ano. Minha mãe achava que ele estava traindo ela. – ele deu de ombros – Não sei se era verdade porque eu não fiquei para ouvir o resto, mas desde aquele dia as coisas ficaram estranhas lá em casa, é como se tudo fosse à base de tensão. Meu pai não sorri mais, nem brincava mais comigo. A maior parte do tempo ele e minha mãe ficam em silêncio, observando-me. Comecei a sentir que o casamento deles só estava de pé por minha causa.
- E por que não conversou com eles? Sabe, às vezes para se entender as situações precisamos conversar com as pessoas que fazem parte dela.
- Eu acho que fiquei com medo de falar com eles, como se acontecesse algo quando eu falasse, eu pensava que eles podiam se separar. – ele desabafou por fim – Eu acho que eles se amam, não sei sinceramente porque estão desse jeito! E eu me lembro do que você falou no trem, do modo como minha mãe se agarrou em meu pai!
- E se eles não se amarem mais? – eu perguntei, séria – Você prefere que eles fiquem juntos por sua causa? Eles podem não estar felizes.
- Você já pensou em seus pais se separando? – ele me encarou, eu neguei com a cabeça, não havia pensado realmente – Eu nunca tive ninguém além deles Rose! Não consigo pensar que as únicas pessoas que me deram amor, não se amam mais! Não sei se vou conseguir entender isso.
- Você sempre foi sozinho, só tinha o Luke não é? – eu sorri, companheira – Mas agora tem a mim também. Espero que entenda isso.
- Eu sei. E você não sabe o quanto eu confio em você, o quanto me faz bem! Pela primeira vez em anos eu sei o que quero da vida, que rumo tomar! Só não esperava que fosse acontecer tudo isso justo agora!
- Eu acredito no seu pai. – eu apertei sua mão e olhei o fogo na lareira – Eu acredito que ele só fez isso para te proteger! Eu acho que se você fosse um simples herdeiro Malfoy, ele não teria compreendido o fato de você amar uma Weasley!
- Por que está falando isso? – ele estranhou
- Porque seu pai quer ver você feliz, independente de quem eu sou, de quanto dinheiro tenho ou de como é meu sangue! Ele não está se importando com o que a sociedade vai dizer! – eu sorri para ele – E eu acho que naquela briga dos seus pais, seu pai só revelou que você estava correndo perigo e então os dois se voltaram para cuidar de você e talvez esqueceram da própria vida! Eu acredito que eles se amam!
Ele ficou quieto depois disso. Não me contara a vida inteira dele, muito menos todos os seus problemas, ele só me contara o que mais o atormentava no momento, mas eu acho que fui de grande ajuda ali. Pelo menos, assim eu esperava. De que adianta Scorpius Malfoy me salvar do mundo, se eu não posso fazer o mesmo por ele? O amor tem duas faces iguais, provenientes de cada um dos envolvidos, elas precisam estar equilibradas, ou jamais dão certo.
- Eu te amo sabia? – continuei, eu precisa tentar dizer que eu o amava demais, como se ele fosse minha própria vida – Muito, chega a doer quando não estou perto de você! É como se eu precisasse de você para respirar! Eu não esperava que esse sentimento chegasse a proporções tão grandes, mas chegou e...
- Eu te amo! – ele segurou meu rosto – Não importa o que você diga ou faça! Eu simplesmente amo você! Cada milímetro do seu corpo, cada olhar, cada gesto, cada palavra! Eu amo tudo em você! Obrigado minha rosa, você me faz ver coisas que estão na minha frente, mas que eu seria incapaz de enxergar sozinho! É por sua causa que eu tenho forças para seguir em frente! Obrigado!
- Você me deixou constrangida agora! – eu murmurei diante da declaração dele, corada
Ele abriu um sorriso lindo, o meu sorriso e me beijou. Cheguei a deitar no carpete com o impulso, ele deitou sobre mim beijando todo o meu rosto, meus cabelos, meu pescoço.
- Quando eu ver meu pai, vou dizer umas coisinhas a ele! – ele sussurrou contra meu pescoço
- Como o quê? – indaguei, curiosa
- Como dizer que eu o amo independente do que ele foi no passado! – ele me encarou sorrindo – Mas agora, quero demonstrar o quanto amo outra pessoa!
- Quem? – fingi estar desentendida e mordi o lábio
- Uma ruivinha linda que eu acho que quer ser beijada! – ele riu com gosto e aproximou seus lábios dos meus
No final tudo daria certo, porque eu jamais o deixaria e ele jamais me deixaria também.
Fale com o autor