Notas iniciais
As partes em itálico são lembranças.

Boa leitura ♥

Fitou o loiro preso na parede, por correntes grossas envolvendo seus punhos, pelo menos os pés deles tocavam o solo, sentiu o peito apertar, ao ver a expressão cansada que ele carregava, se virou para a mulher, cercada por alguns homens, claramente maiores que si, colocou as mãos nos bolsos da jeans escuras, ficando de frente a ela.

- O que pensa que está fazendo? — Perguntou sem ânimo algum na voz.

- Estou fazendo com que ele retome a consciência! — Ela respondeu fora de si. — Como ele pode me trocar por... Um homem! Por você! Seu... Veado.

Podia ver claramente a loucura nos olhos dela, olhou para o loiro novamente e estalou a língua, era por isso que não queria se envolver novamente, sabia como acabavam as coisas, principalmente se a pessoa namorasse uma mulher antes.

- Então você vai espancá-lo por uma coisa que eu fiz? — A viu vacilar e aproveitou aquela chance. — Ele e muito bonito não acha...? Eu fiz uma aposta... Para saber se eu conseguiria tira-lo de você... Eu consegui. — Sorriu cruel e deu um passo em direção a ela. — Sabe... Era o teu nome que ele chamava enquanto me fodia... — Mentiu, mas não se importava, o loiro não estava escutando, havia desmaiado a algum tempo. — Então acho que pegou o cara errado. — A viu empalidecer, e pouco depois veio a ordem.

- Peguem ele! Matem esse bastardo! — As lagrimas corriam pelos olhos dela, havia conseguido o que queria, o loiro burro estava a salvo, não pode deixar de sorrir aliviado quando sentiu o punho do primeiro homem contra seu estomago, se tivesse um pouco de sorte ele perderia a memoria de si.

Arqueou o corpo, sentindo a dor percorrer os nervos, cuspindo e caindo no chão a cada golpe, os longos cabelos foram puxados com violência, o forçando a se erguer e logo outro punho se chocou contra o seu rosto, enquanto alguém acertava suas costas com um chute, o fazendo rolar pelo chão e bater a cabeça na parede, céus, havia esquecido como doía, havia contado cinco caras, aquilo não iria acabar tão cedo pelo visto. Alguém chutou suas costelas, enquanto outro pisava em sua cabeça, fazendo seu nariz bater contra o chão com um ruído estranho, e logo a dor pungente ecoou em sua cabeça, lhe dando a certeza que havia quebrado, a tortura continuou por horas... Ou foram apenas minutos, as seguidas pancadas em sua cabeça não lhe davam muita certeza, a visão estava vermelha por conta do sangue que fluia de vários cortes, na língua só havia o gosto férreo do liquido rubro que parecia não querer parar de jorrar de sua boca, algum órgão rompido ou perfurado com certeza, não tinha nem forças para tentar se proteger mais, naquele momento não passava de nada além de uma pessoa prestes a morrer, fechou os olhos com força, lembrando-se de tudo...

~°~

Estava na biblioteca lendo um livro, sentado junto a janela, era o aluno novo de novo, os veteranos estavam amontoados no pátio, as meninas conversavam enquanto os meninos praticavam algum esporte, o uniforme temporariamente dava lugar a bermudas e shorts colados, apoiou o cotovelo na pequena murada e o queixo descansou sobre o punho enquanto olhava para baixo, mas especificamente para o loiro que parecia o capitão de toda a diversão, estalou a língua nos dentes, aquilo não poderia ser mais clichê, alto, forte e atlético, o corpo levemente bronzeado, os olhos azuis iguais ao mar e uma carisma que contagiava a todos, franziu o cenho quando a loira de olhos verdes se pendurou no braço dele, os peitos dela saltavam para fora do traje colante de líder de torcida, eram o típico casal de colegiais, era quando via coisas como essas que agradecia mentalmente por já estar no ultimo ano, viu o loiro olhar para cima como se soubesse que alguém estava observando, o encarando, o clichê ambulante deu um sorriso que simplesmente foi ignorado, fechou a janela e voltou a sua leitura.

Aquilo tinha se repetido nas semanas posteriores, até que um dia enquanto lia, um garoto sentou-se a sua frente, ergueu os olhos de leve apenas para saber quem era, mas sua vista não passou muito tempo fora das paginas ao constatar quem era. Os cabelos loiros que chegavam até um pouco abaixo dos ombros, os olhos de um azul tão intenso quanto o do oceano e aquele ridículo sorriso que parecia gravado no rosto dele, não lembrava seu nome e pouco se importava com isso, virou a página calmamente sem esboçar qualquer cumprimento.

- Oi eu sou...

- Não me importa. — O cortou antes que pudesse terminar a fala.

Viu o sorriso se apagar do rosto dele, então ele não estava entalhado naquela cara sonsa.

- Eu pensei... — começou com menos animo dessa vez, antes de ser interrompido de novo.

- Isso também não me importa. — Fechou o livro e se levantou, odiava quando atrapalhavam o que estava fazendo, viu ele se levantar também e dar um passo em sua direção. — Assim como não vejo motivo para que venha falar comigo, nunca fiz questão de me tornar amigo de ninguém então... — Foi interrompido.

- Você parecia sozinho... — Se surpreendeu quando ele falou.

- Não se aproxime de mim. — Completou o pensamento, pegando a pasta com seus cadernos e saindo da biblioteca.

Os dias se passavam e o loiro o podia ser comparado com um cão vadio, ou um chiclete, quanto mais lhe ignorava, mais ele se empenhava em fazê-lo falar, parecia mais um novo esporte no qual ele se interessou.

- Né Hades... — se sentou alegremente na sua frente como se o tivesse convidado. — Eu estive pensando... — Continuou calmamente como se o silencio dele o desse esse espaço para que falasse. — Você tem o nome de um deus grego e eu também! — O moreno olhou entediado, depois de dias com aquilo, aprendera que ignorá-lo era pior.

- E o que isso tem de especial? — Apoiou os cotovelos na mesa e colocou o queixo entre as mãos. — Só porque meus pais adotivos eram perturbados demais para colocarem o nome do deus grego do submundo em mim, não significa uma descoberta incrível.

- Sou seu irmão mitologicamente. — Reclamou o loiro contrariado.

- Não somos irmãos. — Voltou a pegar o livro. — E mesmo assim eu seria "mitologicamente" seu irmão mais velho, então me deveria respeito, como não importunar minhas leituras.

Acabara se adequando aquela rotina até perto das ferias, conversava com ele todos os dias, não por querer, mas ele sempre acabava aparecendo, e com ele a conversa era algo que vinha naturalmente, mesmo se tentasse ignora-lo, estava um pouco feliz desde muito tempo.

~°~

- Os cabelos dele são muito bonitos... Mas estão muito grandes, que tal se nós apararmos? — Escutou alguém falar em meio à névoa de dor, antes de ser erguido novamente pelo couro cabeludo.

- Ele parece uma menina com esse cabelo tão grande, acho que deve cuidar dele igual a uma. — Riu outro antes de ver entre os olhos inchados o brilho da lâmina e segundos depois, cair mais uma vez, os fios negros agora estavam espalhados pelo chão, o corte irregular, quase tinha levado sua pele junto.

~°~

- Porque não solta seu cabelos? — Cutucou os hashis que o virginiano usava para prender as longas mechas negras.

- Porque dão muito trabalho soltos. — Respondeu sem interesse enquanto tentava responder um exercício.

- Então porque não os corta? — Disse confuso.

- Porque eu gosto deles nesse tamanho... — O encarou. — Porque está me fazendo essas perguntas? Vá estudar. — Deu-lhe um cascudo e enfiou o rosto dele no livro.

- Não seja tão chato! — Choramingou.

Simplesmente deu de ombros e voltou ao problema.

~°~

- Você gosta de levar no rabo não é? — Alguém disse a sua frente, segurando sua mandíbula com força.

- Então porque não vemos se é tão bom assim foder um homem? — Opinou outra voz.

- Eu não vou entrar nessa... Não sou um veado. — Acrescentou alguém.

- Tá' com medo de gostar e virar um veadinho moleque? — Voltou a se fazer ouvir a primeira voz. — Parem com isso, é melhor fode-lo antes de matá-lo do que foder ele morto.

Sentiu mãos tocando seu corpo e logo o vento frio entrou em contato com a pele exposta e machucada, fazendo-o se encolher e gemer de dor.

~°~

O moreno abriu a porta do apartamento dando de cara com o ariano em frente a sua porta, ficou surpreso, como ele havia descoberto seu endereço?

- O que esta fazendo aqui? — Perguntou impassível.

- Vim te ver... — Ele não sorria, parecia um estranho com a expressão tão séria.

- Por quê? Hoje não é a festa da sua namorada? – Volveu novamente ainda apoiado na porta.

- Eu terminei com ela... — Os olhos azuis focaram nos verdes antes de empurra-lo para dentro e fechar a porta. — Você me disse a muito tempo que gosta de homens...

- Porque me empurrou!? — Estalou a língua, quase havia caído sobre o pequeno móvel da sala. — Droga... Cuidado por onde anda.

- Porque quando eu estava com ela só pensava em você... – O loiro o empurrou contra o pequeno móvel, sem chances para escapar, pressionando os lábios contra os dele, forçando um beijo que não aceitava recusas, as mãos fortes seguraram a cintura delgada com possessividade, antes que o virginiano se recuperasse do choque e o empurrasse.

- Esta ficando louco! — Passou o punho nos lábios, e se afastou dele. — Volte para a sua namorada, é com ela o seu futuro!

~°~

Alguém estapeou a sua bunda antes que pudesse escutar o som das sirenes ao longe, agradeceu aos deuses, não conseguia se mexer todo o seu corpo doía.

- Merda! — Praguejou alguém. — Como os tiras vieram parar aqui?

- O bastardo deve ter chamado antes de vir para cá. Vamos embora!

- Ajudem-me com ele idiotas! — Escutou a menina pedir, eles ainda estavam ali.

- Melhor deixar os dois ai, pelo menos vão levar ele ao hospital e isso não vai incriminar a gente, ele não viu nossos rostos.

- Mas esse veado também vai ao hospital!

- Não se ele estiver morto. — Ouviu o som de uma arma sendo engatilhada. — Saiam daqui! — O som de passos apresados foi para longe e as sirenes pararam, iria morrer num canto como aquele?

- Parado aí! — Uma voz mais grave soou. — Você esta preso!

- Merda! — O tiro ecoou pelo galpão e logo uma dor lancinante percorreu suas costas.

- Droga! Chamem uma ambulância, temos dois feridos! — Essa foi a última coisa que escutou antes de cair na inconsciência.

~Semanas depois~

Quando abriu os olhos tudo o que conseguiu enxergar foi o branco ofuscante do quarto do hospital, seus pais adotivos estavam lá ao lado de sua cama, fora avisado que tinha passado quase um mês em coma devido as pancadas fortes em sua cabeça, e uma cirurgia foi feita as pressas para retirar a bala, que por pouco não acertou sua coluna, o menino que estava consigo teve perca de memoria parcial e não lembrava do que havia acontecido nos últimos três meses, a única coisa que fez foi suspirar e fechar os olhos, era tudo o que podia fazer nas condições que ainda se encontrava, um tubo de ar estava auxiliando seus pulmões, seus órgãos internos haviam sofrido muitos danos, permaneceria ainda algum tempo no hospital, havia sido transferido para outra cidade porque alguém havia entrado no hospital e tentado matá-lo, na sua opinião era algum daqueles caras que queriam terminar o serviço quando souberam que havia sobrevivido, o prefeito que era o pai do loiro tinha abafado o acontecido e alguém tinha espalhado a historia que o 'aluno novo' havia sido transferido novamente, ninguém falou nada do que havia acontecido, mesmo que todos soubessem, seu pai havia pedido transferência novamente e logo que recebeu alta foram para outro estado, não voltaria mais para aquela cidade, não queria mais ver os olhos da cor do mar, não queria sentir mais o cheiro de maresia e calma que ele trazia, era melhor assim, para ele, para ambos, juntos não iriam ter um futuro, ele merecia mais do que uma vida de preconceitos, a ultima coisa que viu quando saiu daquela cidade, foi o sorriso de alguém que não precisava se lembrar de nada enquanto conversava com os amigos num ginásio escolar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!