Dele
2 Café?
— É meio complicado. Quer dizer, ele é um amigo meu, a gente se conheceu no ano passado. Eu acho ele bonitinho e tals, mas nada demais. Eu adoraria ser amiga dele, não somos tão próximos assim, mas acho que nada entre nós duraria. Eu só meio que gosto dele, só não sei se ele gosta de mim desse jeito. Pelo que eu soube ele ta com uma amiga nossa, então não vou me meter no meio deles.
—Parte pro próximo. Azar dele, ta perdendo a chance. Faz a fila andar, tem um monte de gente que adoraria ter a oportunidade de conhecer alguém como você. Você é estranha e sei lá, quer dizer, eu não quis... Esquece – a confusão dele fez ela rir. Ele relaxou. Lua colocou a cabeça no ombro dele e ficou quieta por algum tempo. – Nós descemos no próximo.
— Valeu, sabe, por me alegrar – eles levantaram e esperaram o ônibus parar. – Se tudo der errado pelo menos eu tenho você. Vamos mudar de assunto. O que mais você quer saber de mim? – ele deu com os ombros e antes que pudesse lembrar de algo, ela o puxou pelo braço e saiu em disparada. Jonh a seguiu por todas as ruas e esquinas. – Eu aposto que ninguém corre do nada, para lugar nenhum nos livros que você já leu ou nos filmes, ou sei lá o que você faz no seu tempo livre.
— Se um dia, alguém contar essa parte da história, você se tornará um personagem clichê – eles gritavam.
Ela poderia correr metros à frente dele, poderia aumentar a velocidade sem que suas panturrilhas pedissem por descanso. Correram lado a lado, por ruas que não sabiam o nome. O sorriso, tão aparente agora quanto de manhã, refletia um no rosto do outro. Pararam na frente de uma cafeteria. Lua sentou-se na calçada, respirando como se apenas tivesse brincado de pique com a irmã por cinco minutos. John estava vendo pontos vermelhos passarem por seus olhos quando sentou. Ele devia parar de pular as aulas de educação física se quisesse continuar suas aventuras com Lua. Ela olhou o copo na mão e esperou até que a cor voltasse aos lábios do companheiro.
– Quer tomar mais café? Isso não vai ser bom para você – as bochechas de Jonathan continuavam queimando, mesmo com todo o suor que cobria o rosto.
— Vamos entrar, eles têm um muffin muito bom. Além disso, eu terminei o que tinha na garrafa, agora quero café gelado.
— Ainda tem meia garrafa de café – ela virou o copo, como se o que ele tivesse dito fosse um desafio, e segundos depois o abaixou. – Se você diz que eles são bons, quem sou eu pra discordar?
Eles entraram com os olhares encima deles, mas não conseguiam se distrair com olhos alheios. Estavam preocupados em memorizar as sardas e as linhas da íris, cada fio que escapava dos cabelos penteados pelo vento, cada linha quando sorriam. As memórias que queriam guardar sobre aquele que fazia o corpo esquentar com uma palavra fora do tom, um olhar um pouco mais longo ou um toque um tanto devasso que acontecia acidentalmente.
Apesar de tudo parecer novo e assustador, Jonathan parecia ter a habilidade de calcular os movimentos de Lua, que correspondia tentando surpreender o amigo a cada segundo. Ele perguntava já pressentindo a resposta. Descobriu que os pais dela eram artistas, o pai pintor e a mãe dançarina. Ela adorava os treinos de vôlei, livros antigos e colecionar coisas. Ele não quis contar sobre a vida parada. Ele era tão aberto quanto um livro dela, mas ela já havia visto as entrelinhas quando olhou a capa. Os pais nunca estavam em casa, a mãe junto da orquestra e o pai era o cachorrinho do chefe. Ele sabia que a vida iria ser parada até o fim.
A conversa tomou um rumo um tanto quanto pessimista, mas Lua conseguiu deixar tudo melhor com uma péssima piada. Decidiram sair para aproveitar o dia e a luz do sol, depois que Lua afirmou com todas as letras que Jonathan era um vampiro.
— Sabe o que vai querer fazer no futuro? Eu sei que as pessoas irritam e não se cansam de perguntar isso, então não se sinta obrigado a responder – eles já estavam no caixa, pagando. Ela entregou o dinheiro e esperou o troco.
— Sem a mínima noção – ele pagou parte da conta, mesmo não tendo consumido nada. – Só pra saber, vamos para a livraria ou para a casa dos seus amigos?
— A livraria primeiro, depois deixar um trabalho com uma amiga e dá para assistir meio filme até meu treino.
— Me guie.
Eles não andaram muitas quadras até a livraria. Lua não contou sua ideia em nenhum momento, nem depois de John correr atrás dela. A pequena loja parecia quase secreta. A livraria era um sebo, mais exatamente. O dono era um professor de Lua que conhecia os pais dela, então a menina frequentava o lugar desde quando se lembrava. Ela cumprimentou várias pessoas dentro do estabelecimento. Eles entraram em um espaço reservado. A permissão passava camuflada pelo sorriso dela. Lua abriu um armário e puxou de lá de dentro um livro grosso como um dicionário. Uma enciclopédia talvez se comparasse melhor a obra. A capa dura estava cheia de pó e ela espirrou assim que o pegou.
— Saúde. O que tem esse livro de tão especial? – John tentava ler o título na capa.
— É da coleção especial do dono. É um livro de poesia, aposto que você vai gostar.
— Eu não quero problemas, guarda esse treco de volta e escolhe outra coisa. Eu nem gosto de poesia mesmo.
— Deixa de frescura, eu tenho certeza de que você vai voltar para devolver e conversar com os meninos daqui. Eles vão adorar te conhecer e você pode voltar sempre que quiser. Leva com você. Não tem problema.
— Mas por que poesia?
— Eu acho que vai dar uma sacudida no seu mundinho parado. Seu jeito de ver o mundo, é curioso como você pensa sobre as coisas. Tenta. Se não gostar, devolve e pega outra coisa. Vai ser bom te tirar da zona de conforto.
— Tá. Você vai levar o que? – ela disse que não tinha noção e ele propôs que ela lesse um dos livros que ele tinha em casa. – Você vai ler e vai adorar.
— Parece aquela cena do filme A Culpa é Das Estrelas. Já assistiu? Sabia que não. Vou avisar que estamos levando esse e vamos andar.
A expressão do vendedor quando Lua anunciou que estava levando o livro foi de puro horror. Saíram andando, tão imersos em uma conversa sobre livros, filmes e tudo o que girava em torno disso que nem cogitaram a ideia de correr. Eles não demoraram para chegar a casa da amiga de Lua. Não chegaram a entrar, deixaram os papéis com o porteiro e foram. Precisaram ir de ônibus até a casa dos irmãos T, nem isso pareceu incomodar a conversa dos dois. Parecia haver uma ligação entre eles, como se eles se conhecessem de vidas passadas. Lua estava tão confortável que deixava seus segredos escaparem e isso dava confiança a John para fazer o mesmo.
— Não avisei que você via, então fique quieto, quero fazer surpresa – o porteiro abriu o portão sem perguntar que eram. Cumprimentou Lua e disse que os meninos estavam esperando. Subiram de elevador e pararam no andar errado algumas vezes antes de Lua se localizar.
— Quem é? – a voz soou logo depois da campainha. Passos dos dois lados da porta.
— O sol – a porta abriu e a surpresa no rosto de Theo foi grande. Lua havia colocado, empurrado, John para a frente da porta e se colocado de lado, de modo que quem abrisse a porta não conseguisse ver ela. – E a Lua – a menina pulou na direção do apartamento. — Lembram do Jonathan de hoje cedo? Eu o trouxe.
— Bom, entrem. Estão atrasados. Algum motivo especial para termos visita? – Tom fez barulhos de beijos do sofá e Theo pegou sua mala da cadeira. – Não acho que vamos ter tempo de assistir o filme. Querem ir lá em cima? Só preciso avisar Thiago que estamos indo.
— Vou descer, tenho um encontro. Nós nos vemos mais tarde. – Theo saiu rápido, deixando para trás o som beijos de despedida.
— Thiago respondeu, disse que não vem, tá com a namorada. O Theo saiu com aquele tal de Mark da nossa sala, sabe? Seremos nós três. Há menos que não me queiram – Tom imitou o som de um choro.
— Espera, Theo é gay? – John não conhecia nenhum gay.
— Sim, por quê? – Lua soltou a mochila em uma canto da sala e sentou no sofá junto a Tom.
— Não, nada. É tudo muito novo para mim, você sabe disso – a mente dele girou e voltou. Informações demais para um dia só.
— Não se preocupe, uma hora você se acostuma. O que vamos fazer? Vamos mostrar a ele nosso lugar secreto? – Tom apertou Lua num abraço e saiu pelo corredor, antes que ela pudesse alcançar os tapas nele. – Vou colocar meus sapatos e pegar uma blusa. Quer uma John?
— Não, to bem por enquanto – ele ainda estava remoendo a ideia de Theo ser gay.
— Lá encima é frio, tem certeza? – ele acenou com a cabeça. Ela pareceu preocupada. – Eu quero uma blusa, Tom.
— Você não quer nada. Vou levar uma caso qualquer coisa – uma blusa caiu ao lado de Lua, que a pôs rapidamente. A blusa dela estava dentro da mala desde a cafeteria. – É um espaço nosso, mas não é nosso. Não mostramos para muita gente. Considere-se especial.
— Só não podemos demorar, quer dizer, se você quiser ficar, John, eu vou sozinha. – Lua estava colocando a mala nas costas enquanto falava.
— Já disse que vou te acompanhar onde quer que você vá – eles já estavam esperando o elevador chegar.
— Oooooooh, que menino mais fofo. Agora, para dentro casal – Tom estava saltitante.
— Por que tanta felicidade nesse coração? – Lua e Tom ficaram abraçados enquanto o elevador subia.
— Você tinha razão, eu consegui. Eu consegui. Vamos sair sexta – ele a olhava com ternura e John observava os dois com ciúme. Os três saíram do elevador. – Estamos chegando. Nós costumamos vir aqui para relaxar, descontrair. Seja bem vindo a nossa sede – Tom abriu a porta de um dos apartamentos. – Ninguém nunca comprou ou alugou esse aqui, acho que por causa da má estrutura. Pedimos ao síndico para ficar e pagamos uma taxa por mês. Ele não incomoda a gente desde que obedecemos as regras malucas dele.
— Nem todas, só a maioria. Vem, vou te mostrar o lugar – já na entrada deu para perceber que eles tentaram decorar sem muito sucesso. Haviam almofadas e pufes remendados, um roteador de sinal e uma TV antiga. A planta da casa era igual à dos irmãos, o corredor levava a um banheiro que Lua disse para evitar, dois outros quartos e a cozinha no final. Os quartos que ficavam na lateral esquerda do corredor não tinham muita coisa também. – Nesse primeiro quarto é onde a gente estuda ou dorme, tem um colchão empilhado dentro do armário. No segundo, – ela acendeu a luz dele. – A gente usa só quando quer ficar com alguém.
— O quarto dos beijos – Tom gritou da sala, mesmo sem necessidade de gritar.
— Thiago traz a namorada às vezes, mas Tom usa também. Até hoje não sei com quem. A cozinha é a melhor parte. Não temos uma geladeira, só uma mesa e algumas cadeiras de plástico e o fogão velho. Não é muito, porque não sobra muito dinheiro, mas pelo menos a gente tem esse lugar. A gente tem tentado economizar mais ainda, mas acaba gastando em comida.
— As meninas, aquelas esperando a gente no ponto hoje cedo, contribuem às vezes, nunca é muito. Nosso plano é comprar uma escrivaninha pro quarto de estudos. Uma prateleira também seria bom, aí o armário passaria pro quarto dos beijos. Queremos esse lugar em perfeito estado. O único problema é que se alguém comprar ou alugar, nós perdemos. Temos que pensar duas vezes antes de tomar qualquer decisão, até mesmo porque vamos começar a ir embora depois do ensino médio.
— Só tem vocês quatro para ajudar? – John fazia as contas das despesas mentalmente.
— A namorada do Ti não é rica, mal sobrevive. Tem três amigos que normalmente ajudam com alguma coisa, mas tem ficado mais raro agora – Tom estava deitado em um dos pufes.
— Eu e os três temos nos visto mais frequentemente do que vemos o resto do grupo. As meninas raramente vem aqui e por isso não cobramos muito delas. Não seria justo – Lua checou o horário e pela expressão dela, John soube que ainda havia tempo.
— E o Giovanni? – John sorriu após o comentário, viu Lua sorrir e ela empurrou o ombro dele de leve. – Eu gostei daqui. Posso ajudar, mas com uma condição.
— Sério? O que você quer? – Tom viera correndo até a cozinha.
— Quero aumentar a janela na sala, para ver a lua – Lua olhou com firmeza para o novo integrante do grupo. Ele respondeu com extremo carinho, mais do que o modo como Tom a olhava.
— Bom, faremos uma reunião com o grupo completo amanhã. Resolveremos isso. Se bem que o síndico não vai deixar, o lugar não é nosso. Vemos isso amanhã. Eu... – Tom levantou a cabeça e viu que os dois ainda se encaravam. Entendeu que era só uma cantada. Um sorriso havia tomado conta dela e ele parecia sem jeito. – Eu vou descer. Me avisem quando forem embora, estarei em casa. Fui.
A porta bateu e o som do elevador se afastou. Lua soltou a mala do lado do monte de almofadas e olhou John parado na porta da cozinha. Não precisavam conversar, pensamentos iguais cruzavam a mente deles. Ele andou até ela e a pressionou na parede. Ele a segurava pela cintura, ela segurava os pulsos atrás do pescoço dele. Olhava um a alma do outro. Não moviam os corpos com medo de perderem um detalhe. A sensação de desejo realizado corria por todas as veias no cômodo. Ele olhou pelo pequeno buraco na parede e conseguiu ver uma parte do céu meio cinza chumbo.
— Quando você surgiu na esquina de casa, sorrindo, eu soube que não seria um dia normal. Espero que nenhuma parte da minha vida seja como antes – ele a segurou com mais força. – Uma pena você não ter surgido antes.
— Eu sabia que havia alguma coisa dentro de você diferente. Se não fosse eu, outra teria surgido e sua vida teria mudado. Ainda bem que você esperou por mim. Não vou te decepcionar – Enquanto ele pensava e se torturava, ela começou a rir. Ela sabia que ele não tinha coragem e nunca havia feito isso. Ela olhou pela janela, pequena demais. – É melhor a gente começar a andar, a lua já apareceu.
— Ei, Lua, posso ser seu sol? – ela mal havia virado o rosto em direção ao dele e ele a beijou. O espaço entre eles diminuiu, porém não reclamariam. O beijo continuou por um tempo que nenhum dos dois conseguiria definir. Era como se estivessem em outro lugar, onde só eles poderiam estar. John sentiu o celular dela vibrar no bolso da blusa e o dele no bolso da calça. Ela puxou o telefone e respondeu alguém. Ele olhou a mensagem de Amora, pensou em responder mais tarde e o guardou de volta do bolso.
— Preciso ir, não quero chegar atrasada – ela se soltou dos braços dele como se não tivesse sentido o que John sentira. Séria. Fria, apesar de ter o corpo tão quente quando o de John pelo beijo.
— Quer correr? – ela sorriu e, sem aviso, disparou pelo corredor e sumiu nas escadas de incêndio.
Fale com o autor