Dele

1 Aquele sorriso


Mais uma noite mal dormida para a coleção. Talvez por causa do episódio ter terminado tarde ou pelo fato de ser o primeiro dia de aula, ele não saberia distinguir. Virou os olhos para a janela, queria olhar o céu e ver o seu meteoro de extinção. O sol ainda não havia dado a cara, devia estar na mesma preguiça que ele estava agora, mesmo assim seria torturante ficar na cama esperando, seu corpo já clamava por mais de um tipo de alívio. Obrigou-se a levantar, quase como um bêbado de ressaca, trombou no par de sapato e bateu na parede. O mal humor piorou.

Desceria os dois lances de escada da casa vazia para engolir o cereal velho com leite quente. Havia ficado sozinho durante o final de semana, revoltado por ter sido esquecido, de novo. Não que não estivesse acostumado, porém ainda acreditava nas palavras que os pais mandavam por qualquer aplicativo que estivesse aberto, não tinham nem ao menos tempo para ligar. Colocou o uniforme e foi esperar que ela chegasse.

Ele estava sentado nos degraus da casa esperando a babá. O vento frio da manhã já diminuía, conforme a estrela se espreguiçava sobre as nuvens. Ela surgiu na esquina como sempre, a mesma cara de sono. O contorno se diferenciando em detalhes que ele já decorava. Os pares de olhos começavam a se aquecer em um sorriso de amor fraternal, apesar da não tão grande diferença de idade. Ela estava relativamente perto quando vultos atrás se agitaram. Uma menina estranhamente alegre para aquela hora da manhã. Não chegava a ser um dia frio, mas quase adequado para um bom chocolate quente e, mesmo assim, aquele sorriso só parecia aumentar. O bando de meninos que a seguia a ajudou a cercar babá. Hesitando, ele andou até eles.

Estavam ofegantes, tentando conversar, um a um, soltando não muito mais do que palavras que não montavam frases com sentido.

— Ei, deixem ela em paz – a voz saiu estranhamente corajosa. Ele se pôs ao lado da mais velha, como se tentasse soar protetor.

— Nós viemos entregar essa chave, ela deixou cair no ponto de ônibus – a menina mantinha o sorriso no rosto. – Ela não escutou a gente gritar.

— Ela é surda, não ouviria nunca – o menino fez alguns sinais para explicar a situação, causando um sorriso no rosto da babá, que respondeu. – Ela pediu para agradecer. Eu também agradeço o esforço de vocês.

— Quer agradecer? Então como faz para ir de volta para o ponto? Nunca viemos pra cá e não prestamos atenção no caminho porque alguém aleatoriamente começou a correr – um menino magro de olhos azuis pálidos olhou em volta, tentando se localizar, e focou os olhos na menina poucos passos dele.

— É só dobrar a esquina à esquerda e quatro ruas depois à direita, se eu não me engano. Eu vou para lá daqui uns minutos, acompanho vocês se quiserem.

— Fechado. A gente vai sentar ali na esquina e esperar – ela suspirou longamente depois de falar. O grupo moveu-se como um, sorrindo e zoando, como se ninguém tivesse notado a tristeza exalando do menino e da casa.

A troca de sinais foi rápida. Ambos entraram em casa juntos para que só o menino saísse depois com a mochila.

— Qual seu nome? – ela estava chutando o menino de touca a sua frente antes de virar as costas para ele.

— Jonathan, e você? – primeiro encontro de olhares entre eles.

— Sou a Lua, o de olho azul é o Tom, o de touca é o Thiago e o emburrado é o Theo. É melhor começar a andar, eu quero chegar rápido na escola.

— Essa é nova, querer ir para a escola. Gosta de estudar?

— Não é o estudo, ela quer ver o Giovanni – Lua fez cara de surpresa e empurrou Tom, jurou de morte com os olhos.

— Não vai ser eu quem vai atrasar o encontro dos dois.

Eles andaram até o ponto do ônibus em silêncio. Algumas meninas estavam sentadas esperando que eles voltassem. Jonathan se despediu e subiu no primeiro ônibus. Seguiu até a escola com os fones no máximo. Tentava não pensar no terrível resto do ano, mas não queria rever a menina e o grupo estranho. Não havia muito mais em sua vida para refletir. Preferiu relembrar algum bom momento e imaginar os infinitos fins que teria se ele tivesse feito algo diferente. Ele lembrou o gosto do café quente e desejou alguns goles. Poderia estar deitado esperando que o sol surgisse na janela do sótão. Mas ali estava, no banco duro de um ônibus cheio de pessoas que não se importariam com sua ausência.

Seria assim para o resto do ano, depois até se formar, depois seria assim na faculdade e no trabalho. Talvez fosse só mais um dia de muitos. Pelo menos, era o que ele esperava. A mesma porcaria de todos os anos, professores ranzinzas por terem voltado a trabalhar, meninas novas tentando ser popular e os meninos sendo os mesmos canalhas de sempre. A pergunta veio na mente pela segunda vez naquele dia: “como ela poderia estar sorrindo em um dia como esse?”

O tempo passou arrastado nas aulas. Ficou mais rápido quando seus rabiscos encheram os cadernos que deveriam ter anotações. Esperou ansioso pelo sossego dos fones na hora do recreio. Engoliu o lanche em segundos e procurou o lugar mais iluminado pelo sol, queria sentar e ler ou só observar. Sentiu-se quase obrigado a ir para a biblioteca e ficar lá. Haviam grupinhos de pessoas novas por todos os cantos e várias sozinhas também. Ele sabia que teriam aqueles que se esconderiam em meio aos livros como ele. Algumas meninas o olharam de cima e baixo no corredor e comentaram alguma coisa. Uma delas o alcançou antes que ele pudesse escapar delas. Sentia-se como o centro de uma piada ou de uma brincadeira de verdade e desafio.

— Ei, eu e minhas amigas estamos meio perdidas por aqui, é nosso primeiro dia, sabe – a menina olhou ele de novo, dos pés até a cabeça. – Você não quer sentar e conversar com a gente?

— Não.

— Nossa, grosso.

A menina saiu andando, mas parou antes de chegar perto das amigas que esperavam. Ficou dando em cima de um outro e ele não ficou para ver o resto. Encarou o livro que puxou aleatoriamente da estante e perguntou a si mesmo se estava sendo grosso ou se realmente não deveria dar atenção. Queria conhecer novas pessoas e realizar as mais loucas aventuras, como provavelmente o protagonista da história que segurava. Seria uma oportunidade jogada no lixo? O sinal bateu antes de terminar o primeiro capítulo. Passou o resto das aulas esperando chegar em casa. Queria a cama e o almoço da Amora. Terminaria o livro e dormiria o resto da tarde. Assim seria o ciclo. Livros, comida e atividades fúteis para passar o tédio e tentar preencher o vazio que sentia.

O ônibus de volta o deixou no mesmo ponto de onde ele deixara a Lua e os amigos. Ele nem ao menos lembrava do rosto deles, quem dirá os nomes. Queria ver o sorriso sem motivo no rosto dela. Ele mesmo riu lembrando da cena. Achou engraçado como ela surgira por de trás de Amora, correndo e sorrindo como se tivesse ganhado o bilhete premiado da fábrica de chocolate de cidade. Onde será que ela estava? Não importaria, o cheiro do almoço de Amora e o fato de ela estar esperando ele chegar era o que faria andar. Levaria o dobro do tempo, sabia disso, era o que ele fazia quando queria que os pais surgissem no caminho e o levassem para casa. Ele esperava algo no caminho.

— Ei, Jonh – ele virou e os olhos se encontraram de novo. – Vai fazer alguma coisa depois do almoço? Eu estava pensando em ir até o centro. Quer ir comigo? – a memória da menina sorridente foi reposta pela ideia de que ela não seria diferente do grupo que ele cruzou no caminho para a biblioteca.

— Não, valeu.

— Acho que eu preciso de um livro novo. Além disso, vai ter uma maratona de filmes de terror na casa do Tom, quer ir? Vocês vão se divertir bastante, mesmo depois que eu sair pro treino – o sorriso dele se abriu instantaneamente e fez ela sorrir. Ela era diferente.

— Onde eu te encontro?

— Aqui, eu moro nessa rua. Se eu não aparecer, aquela casa é minha – ela apontou para uma casa rosa de onde a copa das árvores saiam.

— Fechado.

Amora nunca vira ele chegar em casa com um sorriso tão grande. A essência dele gritava alegria. Ela não nunca fazia muitas perguntas, preferia que ele contasse e sabia que ele contaria no almoço, enquanto a comida no prato esfriava por desatenção. Ele pulou os degraus até o quarto e jogou a mala num canto e o corpo no colchão no chão. Aquele não era seu quarto, não o programado pelos pais. Era o sótão vazio que eles estufavam com coisas que Jonathan já tinha se livrado sem que os pais se lembrassem do que seriam. Ele gostava do lugar, calmo, frio e espaçoso. Todas as suas coisas continuavam no segundo andar da casa, mas ele não. Amora, que se chamava Isabella, odiava a bagunça que ele deixava pela casa, entanto poucas vezes reclamava de algo. Ajudava a colocar tudo em ordem quando os patrões apareciam e continuava a adorar o espaço que tinha no que deveria ser o quarto do adolescente que ela olhava desde que era menor.

Ele comeu tão rápido quanto pode, mas gesticulava muito. Sem fones dentro de casa, já que Amora não ouvia ele se sentia obrigado a ficar de “vigia”. Quando queria colocava música despreocupadamente, ninguém reclamaria. Pediu conselhos sobre as roupas que usaria e fez a mais velha rir algumas vezes com sua incerteza e animação. Não comprava roupas já havia um tempo, sem sair muito não percebia que crescia quase no mesmo nível que suas roupas se desgastavam.

Saiu para encontrar Lua. Parou. No meio da rua, a verdade veio acertar o seu calcanhar de Aquiles. Ele estava indo em um encontro. Nunca havia saído para um encontro, se isso era um encontro. Ele mal conhecia Lua e estava saindo com uma garota pela primeira vez. O que diabos iria acontecer? O que ele deveria fazer em um encontro? O que seu pai diria se estivesse ali? O que ele sabia de Lua para fazer ela gostar dele? Como ele sabia que ela gostava dele? Quer dizer, ela estava cercada de meninos, tinha aquele tal de Giovanni, o que ela queria com ele? Por que ele?

Ele pôs as mãos na cabeça. Estava na rua, podia voltar para casa. Deu dois passos para trás e rodou. Deveria ter dado chance para aquelas meninas na escola, pelo menos ele teria alguma experiência com aquilo. Começou a seguir para o caminho inverso, indo para os braços de Amora. Ela entenderia o que acontecera e ele nunca mais encontraria Lua mesmo. Ela morava perto esse tempo todo e nunca haviam se cruzado, quem garantiria que fossem se trombar agora?

Não queria voltar para casa e encarar a cara de consolo de Amora. Decidiu andar para esfriar a cabeça. Pensar em um plano, sumir por um tempo e inventar uma história para não ter que contar que ele era um covarde. Seus pés seguiram o caminho que conheciam até o ponto. Sentou para esperar o ônibus, observando a casa que o sorriso havia apontado mais cedo. Não custava ir até lá e ver se ela era diferente das outras. Ele tinha que adquirir experiências, mesmo que fossem ruins. Tocou o interfone, na esperança de que ninguém atendesse.

— Quem é? – a voz era obviamente de alguém mais velho.

— Sou Jonathan, amigo de Lua. Ela me disse para vir aqui – queria sair correndo. As pernas tremiam e as mãos escorriam suor. Alguma coisa travou sua garganta.

— Ela não avisou nada. Espera que eu vou acordar ela. Entra – o portão abriu e ele entrou.

E se ela fosse uma assassina? E se fosse parte do plano da família dela tranca-lo ali e mantê-lo como escravo? Iria ficar na garagem, onde poderia tentar pular o muro e fugir, entretanto uma menininha apareceu e o puxou pela mão. Ela o guiou até a sala e ele esperou. Não quis sentar com um desconforto crescente. Ela trouxe ursos de pelúcia e deu para ele segurar. Ele tentou gaguejar uma desculpa ou uma frase para explicar para a menina que ele não queria brincar. Um senhor, o que deveria ter atendido o interfone, apareceu e olhou com graça para ele.

– Não tem problema, ela convence todo mundo, certo Myca? – ele passou a mão pelo cabelo preso da criança, ao passo que a figura de Lua se fez presente ao seu lado.

— Eu acabei de acordar. Desculpa, eu peguei no sono. Vem cá, eu to terminando de arrumar meu quarto e já vamos – o cabelo bagunçado deu ainda mais graça para a fisionomia de Lua. Ela usava roupas largas e grandes demais para ela, como se ela tivesse roubado do armário de alguém. – Vem Myca.

Os três percorreram a sala, a sala de estar e um corredor até chegarem ao quarto. Myca pegou todos os brinquedos dos braços de John e colocou numa caixa. Lua sentou na cama e colocou livros numa mochila. O quarto parecia um bom lugar para se brincar por horas. O cobertor jogado na cama fazia ela parecer mais atrativa. Uma estante velha cheia de livros e pequenos bonecos estava num canto oposto à caixa de brinquedos e bichinhos. As cores azul, vermelho, amarelo e laranja, toques de roxo surgiam quando analisados por muito tempo, pareciam se misturar como um grande pôr do sol. O armário parecia gigantesco e desproporcional ao quarto, ao lado da escrivaninha cheia de papéis e mais livros. O computador estava desligado, mas dava para ver que era antigo.

— Esse é meu refúgio. Myca me ajuda a mantê-lo assim, aconchegante, como um pôr do sol de filme. Meus avós odeiam, assim como minha mãe. Eu amo esse lugar. Eu só vou pegar minha roupa de treino e a gente já sai.

— Eu adorei esse lugar. O único problema é que sua janela é pequena – Myca deixou um gato no colo dele. – Ela é muito linda, quantos anos tem? – Lua tirou o gato dos braços dele e o pôs no chão, ele saiu correndo.

— Tem quatro e meio. Ela não fala. Complicação no sistema nervoso. Estamos esperando que ela faça seis para começar as aulas de sinais. Não que isso a impeça de aprontar e de me enlouquecer às vezes. Sabe como crianças são. Eu estou pronta, acho que já joguei todas as coisas na mochila. Vamos?

— Claro – ela guiou pelos cômodos, procurando o avô.

— Não quero ser chato, mas está meio frio para sair de shorts, do pijama – o senhor ria da cara da neta. Lua regressou ao quarto para trocar. Voltou com a mochila nas costas, a blusa e um copo térmico.

— A vovó chega daqui a pouco. Não se matem e não deixem o gato sair. Querem que eu fique? – o avô permanecia com o ar sereno e amigável, com Myca em sua sombra. Ambos negaram com a cabeça.

John andou lado a lado com o motivo de sua ansiedade. Ela tinha um cheiro de café recém feito muito agradável.

— Porque você aceitou vir comigo? – entre os passos ela bebericava, ele imaginou que estivesse quente o que estivesse lá dentro, apesar de ter plena certeza de ser café.

— Eu não tinha nada para fazer em casa. Além disso, queria saber um pouco mais de você – terceiro encontro de olhares. – Sei lá, desculpa.

— Você não tem muitos amigos, tem?

— Não, o pessoal da escola me acha estranho e eu acho que são todos iguais.

— Você pede desculpas sem motivo, dá pra notar. Já tentou conversar com eles? – ele pôs a mão no pescoço e fez cara de culpa. – Nem sempre são como você acha que são. E as meninas? Alguma em especial?

— O que tem?

— Conte tudo. Vamos, eu quero saber de você.

— Não, elas são todas iguais.

— Iguais? Eu não sou igual a elas, sou? – ele deu de ombros, sem conseguir parar de olhar os pés – Se você for muito exigente pode acabar sem alguém, principalmente se nunca der uma chance para ninguém. – ela tomou um gole do copo. – Quer? É café.

— Aceito. Sei lá, nunca tive vontade de conhecer elas. Sabe, aquilo de ser sempre a mesma coisa.

— Você tem que tentar, não pode desanimar. Vai aos poucos, mudando a rotina. Por isso eu mudo meus dias. Tipo, eu acabei de chamar um menino que eu conheci de manhã para sair. Eu sei o nome dele e nada mais. Me pareceu uma boa coisa a se fazer. Já tentou fazer isso? – ela o olhou curiosa, com os olhos. Ele riu e a olhou de novo. Deu de ombros.

— Não. Meus pais nunca me disseram muita coisa sobre como viver. Amora me ensinou a maior parte das coisas – ele balançou os pés e chutou o ar, a bola em sua garganta dissolvida e esquecida. – É melhor você colocar a blusa. Mais perguntas?

— Você não tem amigos e nunca saiu com uma garota, essa é a primeira vez? Eu não queria fazer você ficar com vergonha. Não precisa responder. Não costumo pensar antes de falar.

— Tudo bem, eu respondo. Sim, eu não tenho a mínima ideia do porque eu ainda não fugi.

— Eu vou te arrumar alguém. Vou te dar uns conselhos também. Não que eu tenha uma larga experiência nisso, mas acho que sendo mais velha posso dizer meia dúzia de coisa útil. Eu acho que aquele ônibus ali atrás é o nosso.

— Onde a gente vai?

— Pensei em ir na biblioteca, depois vou passar na casa da minha amiga e vou para a casa dos meninos. Não vou ficar muito tempo em nenhum lugar, porque eu tenho que ir pro treino – eles subiram no ônibus e sentaram no banco do fundo.

— Serei seu acompanhante por hoje. Agora, eu acho, que é minha vez de saber mais de você.

— Acho justo, pode perguntar.

— Quem é Giovanni?