D.e.l
2 Deletar
Depois de voltar da caminhada que fiz pelo bairro, fui direto para meu quarto.
Resolvi refletir sobre aquilo, será que foi realmente o site? Ou não passou de uma coincidência?
–Eu...Realmente matei o Roger...? Isso faz de mim um assassino... Talvez não tenha sido o site, mas seria coincidência demais, tenho que por minha cabeça no lugar e pensar. –Pensava comigo mesmo, deitado na cama.
O site apareceria para mim denovo ás três da manhã? Era exatamente o que passava pela minha cabeça nesse momento. E se aparecer... Escreverei outro nome nele?
Talvez isso provaria se o site realmente funciona ou não... Irei esperar.
Resolvi ligar a televisão e assistir o jornal das oito, as notícias do mundo hoje em dia são sempre as mesmas... Roubos, assassinatos, tráfico, estupros, pai matando filho,
filho matando pai... Se eu vou realmente testar o poder do site, que seja com uma pessoa que mereça.
–Rudolf Abraham, assassinou a própria esposa em casa, na frente de suas duas filhas, e depois disso as estuprou. O homem está sendo mantido preso sob vigilância da guarda nacional enquanto aguarda o seu julgamento. Suas filhas passam agora por tratamento psicológico.-
Resolvi anotar o seu nome, e de mais cinco homens que estavam sendo investigados por crimes ou sob vigilância.
–Certo... esse homem será a minha primeira cobaia caso o site apareça para mim hoje. –olhava para o relógio-
–Droga estou atrasado, tenho curso hoje. –me levantava rapidamente para me vestir-
Assim que saí de casa peguei o metrô para ir até o meu curso diário. Enquanto eu permanecia sentado, comecei a olhar as pessoas a minha volta, parecia que minha visão do mundo tinha tomado proporções maiores... Ouvi vários tipos de conversas, pessoas se queixando por tão pouco, por vaidade, egoísmo. Eu me pergunto... Pessoas desnecessárias como essas, não seria melhor se fossem deletadas? Eu não estaria fazendo um bem mundial? Talvez eu tenha sido mesmo escolhido por Deus para fazer isso...
Refleti bastante sobre tudo, mal prestei atenção no curso hoje, estava ancioso demais para chegar em casa, mas assim que toquei na maçaneta da porta, ouvi uma voz me chamando , olhei para trás e vi que era Olívia.
–Oi Ray ! Como você está? – dizia ela enquanto caminhava até minha direção.
–Olívia... que surpresa. Estou um pouco dolorido ainda por causa daquela última briga, mas estou bem. – dizia em tom de voz um tanto tímida.
–Bom... Eu vim aqui pra dizer que essa briga, foi realmente a última Ray... –dizia ela olhando para baixo, parecia estar meio sem graça de me dizer aquilo.
–Realmente a última, como assim? –olhava fixamente para ela.
Eu tive que fingir que não sabia de nada, mesmo que não exista nenhuma forma de eu ser suspeito de ter feito aquilo, se é que eu realmente fiz, eu achei melhor fingir que não tinha ligação alguma com o acontecido.
–O Roger... Ele se suicidou ontem, com a própria arma que seu pai guardava em segredo na casa dele, a família dele está bem abalada. –dizia ela.
–Se suicidou ? Que coisa absurda... Eu jamais esperaria isso vindo do Roger. Imagino mesmo o estado da família, não deve ser fácil lidar com isso. Mas e você... está triste pelo Roger? –dizia olhando para o rosto dela.
Fiz essa pergunta para saber a opinião dela, afinal, Roger era uma das pessoas que mereciam ser deletadas desse mundo... E Olívia também tem um senso de justiça enorme, pode-se dizer que se compara ao meu em alguns casos. Mas a questão aqui não era essa, era saber se ela apoiaria isso. Afinal, ela sempre esteve do meu lado todo o tempo.
–Não, Roger era uma pessoa desprezível, você sabe disso melhor do que ninguém. –dizia ela.
Ótimo! Ela está do meu lado... Bom, do lado da justiça.
–Entendi. Bom, sabe o que penso sobre isso Olívia? Talvez isso devesse acontecer mais... Algumas pessoas nesse mundo não merecem nem um por cento do que elas tem, Roger era uma dessas pessoas. –Dizia olhando fixo nos olhos dela.
–Ray... não é bem assim, nós não somos ninguém para julgar as pessoas. Mas eu entendo seu lado... Bom, eu tenho que ir esta ficando tarde, fica bem tá? –Assim que acabara de dizer, ia em direção de Ray e dava um beijo leve em seu rosto.
–Ah... Tá certo, Até mais.
Ela está do lado da justiça, isso é bom. Finalmente cheguei em casa, meu pai não estava, como de costume, apenas deixou minha janta pronta para quando eu chegasse. Subi e fui para o meu quarto, liguei o computador ancioso, esperando a hora chegar... Cochilei um pouco , quando acordei eram praticamente três da manhã. Olhei fixamente para a tela do computador, uma gota de suor escorria sobre meu rosto, não sabia se era nervosismo ou simplesmente, anciosidade. Faltavam dois minutos, resolvi ligar a TV e colocar no canal de jornalismo vinte e quatro horas, se o site funcionasse de verdade, com certeza a notícia de sua morte seria divulgada. De repente, o computador desligou, a tela se apagou e ligou novamente... E lá estava, aqueles grandes olhos vermelhos com a cruz... Fiquei eufórico naquele momento, realmente não foi um sonho , nem um delírio meu.
–É agora... Os seis nomes que anotei mais cedo, talvez escrevendo todos os nomes nessa mesma barra também funcione... –Dizia um pouco ofegante enquanto digitava os nomes.
Assim que havia acabado de escrever, encostei minhas costas na cadeira e respirei fundo, estava confiante que aquilo iria funcionar. A morte de Roger aconteceu ás quatro horas da manhã, talvez o site leve uma hora para pegar os nomes escritos e fazer efeito. O site continuava aberto, talvez esperando mais nomes para ser escrito... Posso dizer que era realmente atrativo, mas resolvi esperar e ver o que aconteceria. A hora finalmente passou, quando o ponteiro atingiu quatro horas e cinco minutos, a programação na TV foi cortada, e um plantão apareceu no seu lugar.
–Uma notícia urgente ! Rudolf Abraham, que estava sob vigilância da guarda nacional aguardando seu julgamento, foi encontrado morto no banheiro do local onde era mantido. A morte segundo informações aconteceu agora ás quatro horas da manhã em ponto. Não se sabe ainda a causa da morte ao certo, mas tudo indica que Rudolf usou a sua própria gravata para cometer suicídio.
Aquela notícia chegando até mim foi realmente... Prazerosa. Eu tinha mesmo o poder de fazer justiça com as próprias mãos...
–Funciona de verdade, esse site... é real ! –dizia em um tom baixo, com um leve sorriso de canto.
Olhava novamente para a tela do computador, a página estranhamente não havia sumido desta vez, ela permaneceu ali, porém parecia estar carregando novamente... Continuei observando e várias letras em um idioma estranho apareceram novamente, dava para ver claramente que eram vários tipos de tópicos numerados, mas era impossível entender o que estava escrito. De repente o primeiro tópico foi ficando embaçado e mudando de forma.
–Mas o que diabos é isso...? –dizia olhando fixamente para a tela.
O tópico aos poucos ia se tornando legível, tentei observar se os outros também mudariam mas, nada acontecia á eles, voltei novamente a observá-lo, e agora consegui ver o que estava escrito.
1. Em breve, o encontro será um fato. Kami, Karada.
–Kami... Karada... Isso é japonês, Kami significa ‘Deus’ e Karada significa ‘Corpo humano’. –dizia enquanto lia a mesma frase várias vezes.
Assim que reli a frase três vezes, meu computador se desligou sozinho. Mas sobre a frase... pelo que entendi, Deus virá ao meu encontro... Isso é fantasioso , mas se tratando de um site que realmente mata pessoas, acho que não posso duvidar de muita coisa. Olhei novamente para TV e o plantão continuava, dando informações de mais mortes.
–Mais informações chegaram nesse momento, parece que cinco presos que estavam também aguardando julgamento na prisão Maross, na cidade de Londres, foram encontrados mortos, a causa das mortes ainda não foram informadas, mas a suspeita é que seja suicídio.
–Realmente... Farei justiça. –dizia esboçando um largo sorriso.
Se passaram cinco dias , em todos o site apareceu novamente para mim, sempre no mesmo horário, e se desligava no mesmo horário. Nenhum outro tópico se tornou legível até ao momento. Mas não me importei muito com isso. Baixei da internet a lista com os nomes dos piores assassinos, estupradores e ladrões do mundo, a lista era realmente enorme... Mas eles mereciam ser deletados, então eu não poupei esforço algum...
–Contando com esse ultimo... já consegui matar cento e cinquenta... Nunca me senti tão bem em fazer algo, eu tenho que mudar esse mundo. –dizia enquanto acabava de escrever o ultimo nome.
Na TV as notícias não paravam, pelo mundo inteiro, assassinos cometiam suicídio. Vários se enforcando, se jogando de prédios, atirando em sua própria cabeça... Em outras palavras, estavam sendo deletados desse mundo. A criminalidade estava realmente diminuindo, inclusive em Londres. As seis da manhã ouvi um barulho na cozinha, saí do meu quarto e fui até la, devia ser meu pai, fazia um tempo que eu não o via direito.
–Ah... pai, finalmente chegou cedo hoje. –dizia enquanto olhava para ele.
–Ah filho, desculpa te acordar a essa hora, como você está? –dizia enquanto tomava uma chícara de café, sentado na mesa de jantar.
Meu pai era um investigador, Jean Brandon, ele tinha contatos com o FBI, então com certeza ele estava ciente do grande número de suicídios pelo mundo.
–Está tudo bem pai, eu já estava acordado. Tem trabalhado bastante não é? Sabe que posso ajudar. –dizia enquanto puxava uma cadeira, me sentava enfrente á ele.
–Sim Ray... Você deve ter visto o que está acontecendo, um grande numero de suicídios pelo mundo, as investigações estão focadas muito nisso, e o número de suicídios não para de aumentar...-dizia Jean.
–Entendo, mas são suicídios... Não tem muito o que investigar encima disso não é?
–Sim Ray, isso é verdade... Todas as investigações não nos levam a lugar algum, são apenas suicídios em série... Mas filho eu tenho que ir, tenho uma reunião importante agora com o FBI, eles resolveram entrar nesse caso. Tente dormir mais um pouco, hoje é sábado, descanse, e estude mais tarde, tudo bem? –dizia Jean enquanto colocava seu terno e pegava sua maleta.
–Sim pai, bom trabalho e boa sorte nas investigações.
Sorte, é o que eles iriam precisar, não há como explicar uma série de suicídios, são apenas... suicídios.
8 AM. Londres, Forças Unidas.
–Então é isso... Não vamos chegar a lugar algum procurando pistas encima de suicídios. –dizia o porta voz do FBI.
–Mas então , isso vai ficar assim mesmo? Não faremos nada? –dizia Jean.
–Jean Brandon, qual a sua sugestão? Se tiver uma idéia melhor , pode expor ela para nós.
–Bom eu... Não tenho. Infelizmente.
De repente a porta do local de reuniões se abre, e um jovem rapaz adentra o local. A aparência dele era um tanto estranha, aparentava ter no máximo 20 anos, cabelos loiros sobrepujados por uma touca preta com listras verdes, usava uma camisa com a mesma cor, e um sobretudo preto com mangas longas por cima dela, usava também um óculos, parecia não querer mostrar seu rosto. E carregava nas mãos um tipo de vídeo game portátil do qual não desgrudava os olhos. Mas não estava sozinho, vinha acompanhado de um homem de meia idade, com barba e cabelo comprido, usando um terno preto.
–Você... Você resolveu entrar nesse caso? Acho que não será necessário... Número um.–dizia o porta voz do FBI, enquanto se levantava da sua cadeira.
–Numero dois? –dizia Jean.
–Desculpe a surpresa, mas respondendo a pergunta do porta voz, eu não estarei nesse caso, vim até aqui para apresentar vocês a este jovem... Os senhores podem chamá-lo de Número dois. –dizia o homem de meia idade, chamado de Um.
–Um, Dois, mas o que é isso? –dizia Jean.
–Somos chamados de Organização dos Seis. Somos seis detetives escolhidos a dedo pela Cia, porém nossa organização trabalha secretamente, nunca revelamos nossos nomes, por isso cada um de nós recebe um numero como identificação. Quanto menor o número de identificação, mais experiente o detetive é. –dizia Um.
–Número um... Então ele deve ser o melhor detetive. E esse jovem, número dois... Parece apenas um rapaz normal viciado em vídeo game. –pensava Jean.
De repente Dois olha para cada um dos investigadores no local, dos pés a cabeça, vai em direção á cadeira que fica na beirada da mesa de reuniões e se senta para começar a falar.
–Pode dar á eles sua opinião sobre o caso , Dois. –dizia Um.
–Bem... Eu li todos os relatórios que foram enviados até mim, e pelo que eu ouvi do lado de fora da porta... Vocês não chegaram em uma conclusão muito útil. Primeiro... Vocês deixaram muitos detalhes escaparem. Foram cento e cinquenta suicídios certo? Todos , sem exceção eram sujeitos que estavam prestes a serem julgados pelos seus crimes, e todos eles tem seus nomes e rostos exibidos tanto na TV quanto na internet. Não houve nenhum caso de suicídio atualmente de um cidadão normal... Exceto por um, mas isso eu explico depois. –Dizia dois enquanto pegava novamente seu vídeo game portátil.
–Isso é verdade... Eram todos sujeitos conhecidos pela guarda nacional. –pensava Jean.
–Mas o mais incomum... é que em todos os casos, eles morreram ás quatro horas da manhã em ponto, o que me dizem disso? Suicídio apenas? Meu palpite é de quê, há algo sobrenatural nisso, não sei se vocês acreditam nisso mas... O sobrenatural é o motivo por eu estar dentro dessa investigação, é a minha especialidade.
–Sobrenatural...? Mas isso só pode ser brincadeira, nossas investigações são coisas sérias, não brincadeira de criança meu jovem. –dizia o porta voz.
–Coisas sérias...? Ok porta voz, qual a sua sugestão? Se tiver uma idéia melhor , pode expor ela para nós. Foi o que você disse agora á pouco ao investigador Brandon... não foi? Enfim... isso não importa, começarei as minhas investigações á partir dessas informações que tenho, afinal a Organização dos Seis não precisa da permissão do FBI para isso. –dizia Dois.
–Incrível... Esse garoto encontrou pistas que passaram despercebidas por nós. –pensava Jean.
–E só mais uma coisa... Investigador Brandon, vi seu interesse no caso, gostaria que juntasse sua equipe de Londres, e me ajudasse nisso, pode ter certeza que irá receber um bônus no seu salário. –dizia Dois enquanto se levantava, sem desgrudar os olhos do vídeo game.
–Ah... sim , claro, com prazer. –Dizia Jean.
–Ótimo, a partir de agora a investigação ficará séria. –dizia dois.
‘Meu objetivo? Pegar quem, ou o quê está causando isso...
O sobrenatural, é a minha especialidade.’

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