Notas iniciais
Gente, essa One-Shot conta os últimos momentos de Edward humano até o momento de sua transformação.
Espero que gostem! =)

Chicago, Illinois – 1918.

Perdi as contas de a quanto tempo estou nesse hospital. Num dia estava fazendo compras na feira para minha mãe, e no outro já estava aqui, em meio a tantos outros, sofrendo por gripe espanhola. Minha amada mãe, Elisabeth, está na cama ao lado da minha, e não parece nada bem. Seu rosto está suado, a febre deve estar muito alta; as crises de falta de ar estão cada vez mais constantes, e seu rosto adquiriu uma coloração arroxeada. Não tenho nem idéia de onde está meu pai. Espero sinceramente que esteja bem.

Me sinto péssimo. Meu corpo todo dói, devo estar com febre, pois sinto todo o meu corpo úmido de suor, minha cabeça está latejando, sinto calafrios, mesmo estando coberto por um lençol e estarmos em pleno verão.

Fecho os olhos por alguns segundos, e quando torno a abri-los, vejo um garotinho parado ao lado de minha mãe. Ele me parece familiar, mas não consigo reconhecê-lo, pois está de costas para mim.

“ Anda Edward Anthony Masen, pense! Lembre-se quem é esse garotinho, mesmo que seu cérebro esteja virando pudim!” – digo a mim mesmo. Ah, inútil tentar recordar, as lembranças parecem escorrer pelos meus dedos.

Espere, reconheço essa voz... o que ele está dizendo?

- Mamãe, não tenha medo. Estarei ao seu lado, e quando chegar a hora, levarei a senhora comigo.

Essa é a voz do Zachary! Mas como isso é possível? Não, isso não pode ser real, Zach está morto a nove anos! Tinha apenas cinco quando as complicações decorrentes da coqueluche lhe tiraram a vida... E para onde ele quer levar minha mãe? Ela não pode me deixar aqui sozinho.

- Mãe, não me deixe sozinho aqui. – imploro com a voz fraca. Será que ela conseguiu me ouvir?

- Não deixarei você sozinho, eu prometo. Agora, descanse Edward.

Nesse momento, um homem de jaleco branco aproximou-se de minha mãe. Tinha os cabelos loiros, olhos dourados, a face pálida e aparência jovem. Parece um anjo saído de uma das obras de Michelangelo.

Minha mãe o encarou com um olhar suplicante e fez um sinal pedindo que ele se aproximasse mais. Ele prontamente atendeu seu pedido e colocou-se ao nível dela, para ouvir o que ela queria lhe dizer. Em determinado momento, ele virou-se e olhou para mim. Sua expressão demonstrava compaixão. Voltou a olhar para minha mãe e assentiu afirmativamente.

Fechei os olhos. Deus, quando esse mal-estar vai passar? Não há lugar em meu corpo que não esteja doendo. Ao abrir os olhos, notei algo de diferente em minha mãe. Seu rosto estava tão sereno, como se toda a dor tivesse sumido. Vi o doutor puxar o lençol que cobria seu corpo até acima de sua cabeça. Mas o que está acontecendo aqui?

Foi então que notei a posição de sua mão. A um minuto atrás, a mão estava pousada sobre o peito, e agora... agora pendia sem vida para fora da cama. Ela estava morta! Minha amada mãe estava morta! Como ela pôde? Acabou de prometer que não me deixaria.... Ah mamãe, por quê?

- Doutor... para onde vai levá-la?

- Ao necrotério, Edward. Ela não resistiu à gripe espanhola, nem seu pai. Ele faleceu ontem à noite. Sinto muito.

- Meu.... pai?

- Sim Edward, ele deu entrada no hospital um dia depois de você e sua mãe. A doença o “atacou” com muita força, não tivemos como salvá-lo. – disse o médico, pesaroso.

- Então... estou sozinho... não tenho mais ninguém! Doutor...

- Cullen. Carlisle Cullen. –completa ele.

- Doutor Cullen, você sabe onde está meu irmão?

- Seu irmão? – pergunta ele confuso.

- Sim, ele esteve aqui agora há pouco, ao lado de minha mãe.

- Edward, não havia ninguém aqui. – diz ele, se aproximando e tocando minha testa com as mãos gélidas.Sinto um arrepio percorrer meu corpo. – A febre deve ter feito você delirar, meu filho.

- Mas eu o vi! Ele disse que levaria minha mãe assim que fosse a hora...

- É melhor você descansar, Edward. Vou mandar uma enfermeira trazer umas compressas de água fria para tentar baixar sua febre.

E assim ele partiu, levando consigo o corpo sem vida de minha mãe. Nem pude me despedir dela, muito menos de meu pai. Eu nem ao menos sabia que ele estava doente. Maldita doença! Tirou tudo de mais precioso que eu tinha: minha família.

Poucos minutos depois, uma senhora aparentando uns 50 anos aproximou-se de meu leito com uma pequena bacia em suas mãos. Depositou-a na mesinha ao lado, tirou de dentro um pano molhado, torceu e, delicadamente, o colocou sobre minha testa suada. A ouvi sussurrar um “pobre anjo” ao olhar em meu rosto, e depois se retirou. Fechei os olhos e me entreguei à inconsciência.

Pouco tempo depois, ouvi alguém chamando por mim. A voz era familiar, mas eu não a ouvia há muitos anos.

- Edward... Edward, acorde! – pedia a voz.

Abri meus olhos devagar. A voz ainda me chamava, então não pode ser um sonho. Olhei para o lado e vi alguém que eu sabia que não era real. ( Mas não me importei muito com esse detalhe! )

- Você acordou, Edward! Até que enfim. Lembra de mim, amigo?

“ Ora, é claro que me lembro de você!” , eu quis dizer. Mas tudo o que consegui falar ao ver aquele garotinho negro, congelado nos seus dez anos de idade, foi:

- Devon!

- Sim Edward, sou eu. Que bom que não esqueceu de mim.

- Jamais o esqueceria, amigo...

- Senti sua falta!

- Não tanto quanto eu senti a sua.

Num piscar de olhos, me vi de volta aos dez anos, brincando com meu melhor amigo, Devon. O conheci numa das vezes que fui à feira para minha mãe, e nos tornamos amigos quase instantaneamente.

Quando contei aos meus pais sobre ele, ambos ficaram temerosos, pois existiam muitos conflitos raciais na cidade. Eles temiam que as pessoas fizessem algo de mal conosco por sermos amigos. Mas nunca tentaram proibir nossa amizade, pelo contrário, apoiaram e se disseram orgulhosos por terem um filho livre de preconceitos. Apenas nos advertiram sobre a escolha dos locais aonde poderíamos brincar, afinal, algumas pessoas poderiam implicar se vissem Devon próximo às suas residências.

Sendo assim, brincávamos na minha casa, no parque, ou próximo à casa de onde Devon vivia com sua família. Brincávamos de pega-pega, de cowboy, de pião, de engenheiros (construímos vários fortalezas e castelos com pedaços de madeira!), e várias outras coisas. Mamãe só não deixava que brincássemos de soldado. Ela não queria nos ver influenciados pelo ódio das guerras.

Numa tarde de verão, mamãe me pediu que fosse buscar leite na mercearia, e Devon, que estava em minha casa, se ofereceu para me acompanhar. Mamãe ainda tentou nos alertar que talvez não fosse uma boa idéia, mas, quando se é criança, é mais difícil perceber o perigo. Enfim, fomos os dois rumo à mercearia. Na ida, passamos por um grupo de garotos, de mais ou menos quinze anos, todos bem vestidos e com cara de poucos amigos. Percebi que eles ficaram nos encarando e cochichando às nossas costas, mas não dei muita bola.

Na mercearia, o Sr. Donnovan olhou para Devon com uma cara feia, acho que não gostou de vê-lo ali. Peguei o leite, paguei o que devia por ele e saímos dali.

Na volta pra casa, os tais garotos não estavam mais no lugar onde os vimos antes, respirei mais aliviado ao perceber isso. Não sei explicar, mas quando passamos por eles antes, tive uma sensação ruim.

Para chegar à minha casa, precisávamos passar por um trecho com poucas residências, próximas a um bosque. Foi ali que tivemos uma péssima surpresa! Fomos barrados pelo grupo de rapazes, eles nos encaravam com expressões de nojo e ódio. Um deles, que parecia o líder da gangue, se dirigiu a mim:

- Você não tem vergonha de andar por aí com esse... esse negrinho, Masen?

- Claro que não, ele é meu amigo!

- Amigo? Ouviram isso rapazes? O fedelho Masen disse que eles são amigos.- diz o líder da gangue, rindo para seus comparsas feito um idiota.

- Será que poderiam nos deixar passar? – pergunta Devon.

- Como se atreve a me dirigir a palavra, moleque? – pergunta o rapaz, o rosto vermelho de raiva – Rapazes, vamos ensinar uma liçãozinha para esses dois.

Senti meu sangue gelar ao ouvir essa última frase. Olhei para Devon e ele parecia tão amedrontado quanto eu. Fiz um sinal para ele e tentamos fugir correndo, mas não tivemos êxito, eles era mais fortes e mais rápidos. Um deles me segurou pelos braços enquanto os outros partiram para cima do meu amigo com chutes e socos. Tentei gritar, mas o rapaz que me segurava tapou minha boca com um das mãos. No desespero, mordi sua mão e voltei a gritar, mas ele me jogou no chão e me deu um belo chute no estômago. Fiquei ali, me retorcendo de dor e vendo meu amigo apanhar. Minutos depois, largaram Devon caído e fugiram, mas não sem antes o líder do grupo vir até mim e perguntar:

- E aí fedelho, aprendeu a lição? – olhei para ele, e por impulso, cuspi em sua cara! De raiva, ele me deu um soco no rosto, e depois continuou – Não se deve andar na companhia desse tipo de gente. Espero que tenha ficado bem claro, Masen! – diz ele, chutando minhas costelas e fugindo dali.

Levei um minuto para me recuperar do último chute, a dor era terrível. Me ergui e fui até Devon. Seu rosto estava bastante inchado e sujo de sangue, o corpo devia estar pior...

Toquei de leve seu ombro e chamei seu nome, ele me respondeu com um gemido de dor. Juntei o que eu tinha de forças e o ergui, passei um de seus braços por sobre os meus ombros e o arrastei até minha casa.

Mamãe ficou apavorada quando nos viu chegar. Me mandou pedir ajuda ao nosso vizinho, o Sr. Smith, para levarmos Devon para casa. Nosso vizinho ainda não tinha uma automóvel, mas tinha uma boa carruagem e dois cavalos rápidos! A Sra. Smith saiu correndo para chamar por um médico. Passei-lhe o endereço de Devon, ela nos encontraria lá.

Quando voltei para casa, mamãe já havia lavado os ferimentos no rosto de meu amigo. Com cuidado, o transportamos até a carruagem e partimos para a casa de sua família. Ele permaneceu de olhos fechados e gemendo de dor por todo o caminho.

Chegamos à casa de Devon já havia anoitecido. Quando sua mãe o viu, caiu num choro sofrido. Levamos Devon para dentro, ele respirava com um pouco de dificuldade e murmurava coisas sem sentido.

Cerca de trinta minutos depois, a Sra. Smith apareceu acompanhada pelo Dr. Scott e por Lucy, a enfermeira. Ele pediu que nós nos retirássemos do quarto, para que pudesse examinar Devon com tranqüilidade, sem interferências e interrupções.

Enquanto eu aguardava do lado de fora de quarto, a culpa começou a me corroer. Vários “SEs” surgiram em minha cabeça. Se ele não tivesse me acompanhado, nada disso teria acontecido. Se não fôssemos amigos, ele não estaria machucado. Sem perceber, comecei a chorar em silêncio. Era minha culpa... tudo minha culpa. Olhei para a mãe de Devon, seu rosto banhado pelas lágrimas que não paravam de cair, e meu coração se partiu ainda mais. Fui até ela e a abracei, pedindo perdão pelo que eu havia causado. Ela olhou em meus olhos e disse que a culpa não era minha, e sim do preconceito das pessoas, disse que eu era um presente na vida de seu filho, e um bom amigo. Não, Devon é que foi um presente para mim, ele é que era um ótimo amigo.

Permaneci ao lado dela pelo que pareceu uma eternidade, esperando por notícias sobre o estado de Devon. Quando, enfim, o Dr. Scott apareceu na sala, trazia no rosto uma expressão cansada, mas para meu alívio, trazia também um sorriso de satisfação.

- Senhora Qwara, — disse o médico, dirigindo-se à mãe de Devon – seu filho vai ficar bem. Além das escoriações no rosto e nos braços, ele está com duas costelas quebradas. Já está medicado e agora está dormindo. Recomendo repouso por alguns dias e uma alimentação leve. Qualquer alteração, é só mandar me chamar.

- Muito obrigada doutor! – diz a Sra. Qwara, sorrindo agradecida.

- Por nada. Bom, agora nós vamos indo. Tenham todos uma boa noite! – diz ele – Sra. Masen, poderia me acompanhar por alguns instantes?

- Claro, doutor. Vamos.

(...)

- Edward? Edward?

Me vi de volta ao hospital! Fui dominado pelo cheiro de álcool, doença e desespero. Minhas lembranças não tinham esse cheiro...

- Edward, está me ouvindo?

- Diga, Devon. – respondi, olhando-o.

- Por que foi lembrar justo desse momento? Você ainda se sente culpado?

- Não sei dizer. – respondi com sinceridade.

- Não foi sua culpa, e sabe disso! – responde Devon – Minha sorte foi você estar por perto para me socorrer.

- Era o mínimo que eu poderia fazer, não é? – respondi, sorrindo torto – O que me dói é saber que foi por causa desse episódio que seu pai decidiu ir embora de Chicago.

- Nisso você tem razão. – responde ele, cabisbaixo – Ele ficou apavorado com a possibilidade de que essa covardia se repetisse. Mas Edward, nunca me arrependi por ter me tornado seu amigo.

- Nem eu Devon. Você foi o meu melhor amigo. Agradeço muito por ter tido a sorte de conhecê-lo.

- Fique bem, meu amigo. Espero que a vida seja generosa com você.

- Por que está dizendo isso, Devon? Devon? Onde você está? – pergunto ao notar que ele havia desaparecido.

- Edward?

- Devon, não tem graça! – falo assustado.

- Edward? Sou eu, Dr. Cullen! Olhe para mim Edward! – diz ele, sacudindo-me pelos ombros.

- Dr. Cullen? O que você fez com o Devon? Ele estava aqui, ao meu lado, e no segundo seguinte... sumiu!

- Edward, não tinha ninguém aqui, você está delirando! A febre está muito alta.

Ao ouvir isso, notei que não estava mais no quarto, e sim num lugar mais silencioso e sombrio. Um arrepio involuntário percorreu meu corpo.

- Onde estou?

- No necrotério. – responde o Dr. Cullen, calmamente.

- Mas eu não morri! – grito desesperado – Ou morri?

- Não, meu filho. Você não está morto, fui eu quem te trouxe até aqui.

- E por que? – pergunto assustado.

- Sua mãe pediu para que eu te salvasse, que fizesse tudo o que está ao meu alcance para que você fique bem. Não há mais nada que eu possa fazer por você, pelo menos, do ponto de vista clínico.

- O que o senhor quer dizer isso?

- Que existe outra alternativa. – responde ele.

- E qual seria?

- Escute, Edward. – diz Carlisle, olhando em meus olhos – Você confia em mim?

Mergulhei naqueles olhos dourados, e pude ver bondade, compaixão, amor... e tive absoluta certeza quando lhe respondi:

- Sim, Dr. Cullen, confio em você.

- Certo. – responde ele, agora parecendo angustiado – Escute filho, nunca fiz o que estou prestes a tentar fazer com você. Tem mesmo certeza?

- Tenho. – respondi, engolindo em seco.

- Ok. Mas preciso lhe advertir: isso vai ser doloroso.

- Muito? – pergunto angustiado. A possibilidade de sentir ainda mais dor não me agradava.

- Muito. – responde ele.

- Tudo bem. – foi só o que pude responder.

- Te vejo em três dias, Edward.

Ao dizer isso, o Dr. Cullen se aproximou rapidamente de mim e senti a dor de presas rasgando minha carne. Tentei gritar, mas não encontrei minha voz. Ainda pude ver Carlisle se afastando de mim, um filete de sangue escorrendo pela lateral de seus lábios... e então caí na inconsciência. A única coisa que consegui sentir ao me entregar à escuridão foi a dor da lava escaldante correndo por minhas veias.

Notas finais
PS: sou contra o preconceito. Ele aparece nessa One-Shot pois existia em Chicago nessa época. (Pelo menos, de acordo com a Wikipédia!o.O)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!