Deixe-me
1 1- Olá, meu nome é Enzo
Deixe-me ir...
-Os gestos são tudo que eu tenho, ás vezes precisamser de natureza ampla.E, apesar de passarem dos limites em algumas ocasiões e aparecer melodramáticos, são o que tenho para me comunicar claramente, para me fazer entender sem que reste nenhuma duvida. Não posso contar com as palavras, pois, horror dos horrores, minha língua é cumprida, lisa e descoordenada, sendo, portanto, um instrumento absolutamente ineficiente para empurrar comida para dentro da minha boca enquanto mastigo, e ainda menos eficiente para produzir sons inteligentes e polissilábicos complexos que possam se unir para formar sentenças. E é por isso que estou aqui agora, esperando Denny chegar em casa.
Ele deverá chegar logo, deitado nos ladrilhos do piso frio da cozinha em uma poça da minha própria urina. Estou velho, e, embora esteja em condições de ficar ainda mais velho, não é assim que desejo ir embora. Á base de injeções com remédios para a dor e esteróides para diminuir inchaços das juntas. A visão nublada pela catarata.
Tenho certeza de que Denny me daria um daqueles carrinhos que eu já vi na rua, aqueles que apóiam os quadris de modo que o cachorro consiga arrastar o traseiro quando as coisas começam a ficar realmente preocupantes. É uma situação constrangedora e degradante. Não sei se é pior que vestir um cachorro com roupas de halloween, mas está perto. Ele faria isso por amor, é claro. Tenho certeza de que faria qualquer coisa para me manter vivo pelo Maximo de tempo possível, com meu corpo se deteriorando, se desintegrando, se dissolvendo até que não restasse mais nada além do meu cérebro flutuando em um vidro cheio de líqüido transparente, os globos oculares boiando na superfície e todos os tipos de cabos e tubos alimentando o que restasse. No entanto, eu não quero que me mantenha vivo.
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